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A greve dos estudantes da USP

Do A Terra É Redonda, 11 de maio 2026
Por ANTONIO DAVID & LINCOLN SECCO*


O movimento estudantil é o único cuja revolta particular exprime o interesse geral da universidade. Ao contrário das demais categorias, o movimento estudantil não aufere vantagens como gratificações, salários e carreira

Na madrugada do dia 9 para o dia 10 de maio de 2026, vimos se repetir uma cena que, de tempos em tempos, ocorre na Universidade de São Paulo (USP): a Polícia Militar do Estado de São Paulo invadiu a Reitoria para, sob pancadas de cacetetes e com direito a corredor polonês, expulsar os estudantes que desde o dia 7 a ocupavam. Por que isso aconteceu?

Para responder a essa pergunta, é necessário um breve reconhecimento do quadro de conflitos que têm lugar hoje na USP.

Breve histórico da greve

Os estudantes estão em greve desde o dia 15 de abril. O estopim foi a concessão, pela Reitoria, de uma gratificação de R$ 4.500 por mês, por dois anos, aos docentes. Por ter como fonte as receitas de aplicações financeiras da Universidade, e não o orçamento, a medida não viola o teto de gastos com pessoal. O não oferecimento de benefício semelhante aos servidores não docentes originou uma greve convocada pelo Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP), e foi no decorrer dela que o corpo discente também parou.

No dia 24 de abril, os servidores abandonaram a greve sob a promessa de que terão alguma gratificação, mas os estudantes continuaram. O movimento estudantil exige aumento do número de bolsas e reposição do seu valor, investimento em infraestrutura, transporte, moradia estudantil e melhorias nos restaurantes universitários (bandejões). Quando houve a ocupação da Reitoria, a paralisação já abrangia cerca de cem cursos.

Não é, então, difícil de se ver que os conflitos em curso giram em torno da aplicação dos recursos financeiros da Universidade. Como, com quem e sob que critérios os distribuir?

O atual reitor, Aluísio Segurado, eleito em 2025, decidiu lançar a gratificação para compensar os docentes que não possuem o direito à paridade e à integralidade da aposentadoria.

Três objeções podem ser feitas a essa política: em primeiro lugar, na prática a gratificação contorna uma situação que, a rigor, deveria ser resolvida no Poder Judiciário e com mobilização; em segundo lugar, a medida quebra a isonomia salarial entre docentes e servidores não docentes, bem como entre as três universidades estaduais paulistas; em terceiro lugar, os critérios de distribuição deste recurso são escandalosamente aleatórios: para ter o direito à gratificação, docentes devem apresentar projetos ou de pesquisa, ou de ensino, ou de extensão ou de gestão.

Nestes termos, e reiterando um argumento que apresentamos em um artigo anterior, é surpreendente que aqueles que sempre vociferam contra o “populismo” das entidades sindicais não tenham aberto o berreiro contra o escrachado “populismo” dessa medida. Nota-se, mais uma vez, como a verve anti-“populista” dos anti-“populistas” é seletiva.

Em que pese a justa reparação financeira aos docentes, será que de fato não há outras prioridades? Com a significativa expansão de vagas que teve lugar nos últimos anos na USP, inclusive na pós-graduação, e as políticas de inclusão, muitos alunos enfrentam situações difíceis para se manter.

A situação se agravou quando o reitor decidiu por encerrar as negociações unilateralmente. Em face dessa decisão, os estudantes decidiram ocupar a Reitoria. Como de praxe, a Reitoria rotulou a ocupação (um ato legítimo de protesto e pressão) de “invasão” (crime previsto no Código Penal).

Em entrevista à Folha de S. Paulo no dia 8 de maio, após a ocupação da Reitoria, o reitor acusou a “agenda política” dos estudantes, como se sua própria agenda não fosse política, nem fosse política sua decisão de encerrar unilateralmente as negociações com os estudantes – que, todavia, não são ingênuos como o reitor e seu entorno parecem pensar. Com seu indisfarçado “populismo”, a Reitoria nada mais fez do que demonstrar o quão falacioso é o argumento neoliberal da gestão racional e apolítica de recursos. Como ocorre com governos mundo afora, também na USP a distribuição dos recursos obedece a critérios políticos.


Poder e violência

O quadro de conflitos na atual greve da USP, no qual se inclui a violência policial na desocupação da Reitoria, reforça o que escrevemos no artigo “Uma história das greves estudantis da USP”: na USP, toda greve de estudantes é contra a estrutura de poder, é contra um poder exercido arbitrariamente. Mas há que se fazer uma ressalva: a forma que esse poder assume muda de tempos em tempos, ao sabor das conjunturas, de perfis individuais e das condições institucionais de sua constituição e exercício. O pano de fundo desse arbítrio é, evidentemente, o modelo de universidade que interessa à classe dominante.

Aluísio Segurado é o quarto reitor eleito após a reforma do modelo de eleição para reitor e vice-reitor na USP, pela qual a escolha cabe às congregações das unidades e aos membros dos conselhos centrais. Antes, a eleição ocorria em dois turnos, e no segundo turno apenas os membros dos conselhos centrais votavam. Com a mudança, o peso dos professores titulares diminuiu em comparação ao peso dos professores doutores e livre-docentes na definição de quem assumirá a Reitoria e a vice-Reitoria pelos quatro anos seguintes.

Em outras palavras, a reforma implicou um privilégio ampliado. Para vencer a eleição, os candidatos a reitor(a) e vice-reitor(a) precisam se haver, em suas promessas de campanha, com as demandas apresentadas por esses eleitores. A desocupação da Reitoria pela PM na calada da noite só pode ser compreendida sob esse pano de fundo.

Tão logo houve a ocupação, inúmeras diretorias de unidades, sem dúvida ecoando o sentimento de parte dos membros de suas congregações, lançaram prontamente manifestações de repúdio aos estudantes, com o agravante de que em várias delas denunciava-se textualmente a “violência” e o “vandalismo” da ocupação[i]. Adicionalmente, em quase todas essas manifestações declarou-se apoio à Reitoria – bem entendido, à condução da greve e ao encerramento unilateral das negociações.

É inegável que essas manifestações encorajaram a Reitoria a optar pela via policial na solução do conflito, razão pela qual as diretorias e seus apoiadores nas congregações são tão responsáveis pela violência policial quanto a Reitoria.

Após a desocupação, algumas diretorias de unidades lançaram notas repudiando “todas as formas de violência”, como se a truculência e as agressões da PM contra os estudantes fossem equiparáveis à derrubada de grades e portas. Semelhante comparação é um insulto. Outras condenaram a ação da PM com as devidas ressalvas sobre a “estratégia” do movimento estudantil. O que se pretende com essa banalização da palavra “violência” é dissimular quem efetivamente incentivou e encorajou a violência e dela fez uso.

Tais manifestações nada mais são do que um ato falho, um atestado de culpa, assim como a nota da Reitoria, que na prática tenta atribuir aos estudantes a culpa pela ação policial, e aos policiais pelas “eventuais denúncias de excesso”, ao mesmo tempo em que busca eximir-se de toda a responsabilidade sob a esdrúxula alegação de não ter sido comunicada da ação. Já quanto à acusação de haver “pessoas externas à comunidade acadêmica” no âmbito do protesto estudantil, talvez a Reitoria devesse voltar sua atenção para as pessoas externas à comunidade acadêmica em torno das quais o poder universitário orbita, hoje e sempre.


Novas formas de conflito

Em aula pública realizada na atual greve, Lincoln Secco e Rosa Gomes discutiram como a renovação geracional das três categorias produziu outras formas de conflito. Novos servidores, por vezes formados na própria USP, tendem a questionar a rotina burocrática que reduz a natureza de seus cargos a simplesmente assessorar docentes segundo o pequeno arbítrio de cada um.

O docente, por seu turno, é forjado numa carreira plataformizada em que a competição deve ser introjetada desde o primeiro ano de graduação. Sem experimentar a vida universitária em sua plenitude, incluindo a participação política, compete por bolsas e busca evitar reprovações, inserir-se em grupos de pesquisa, investir em internacionalização e fazer doutorado, vários pós-doutorados e trabalhar como substituto. Estabelecido na carreira, precisa acelerar a produção, competir por recursos escassos e operar todos os dias várias plataformas. Ele é um empresário de si mesmo e não é à toa que o par mais frequente no discurso institucional da USP é “inovação e empreendedorismo”.

Por fim, estudantes mudaram de cara. Perante docentes em geral formados em escolas particulares de elite e que puderam receber investimento familiar na carreira, surgem estudantes que ingressaram por cotas raciais. A reserva de 50% de vagas para a escola pública também teve um efeito direto no estranhamento (para usar um eufemismo) que docentes sentem diante de seus alunos e alunas. Não é à toa que durante a greve muitos docentes preferiram ameaçar alunos com reprovação.

O movimento estudantil é o único cuja revolta particular exprime o interesse geral da universidade. Ao contrário das demais categorias, o movimento estudantil não aufere vantagens como gratificações, salários e carreira. Docentes e servidores são merecedores de salário digno e, no caso dos servidores não docentes, do devido respeito profissional nem sempre reconhecido por professores. Ambos são meios essenciais para que a Universidade cumpra suas finalidades. Se negociação deve ser consenso entre as partes, não imposição, o impositivo reitor e sua base de privilégio ampliado deveriam levar em conta que a razão de ser da universidade são os estudantes.

*Antônio David é professor do Departamento de História da Unicamp e pós-doutorando no Departamento de Antropologia da USP.

*Lincoln Secco é professor do Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de A revolução dos cravos: economias, espaços e tomadas de consciência (1961-1974) (Ateliê Editorial) [https://amzn.to/3S476E6]

Nota

[i]Não realizamos um levantamento completo, mas basta que o(a) leitor(a) percorra os perfis das unidades nas redes sociais para atestar o que dizemos.

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