Por ANDREW KORYBKO*
A reedição da hegemonia unipolar estadunidense fundamenta-se no cerco energético à China e no desmonte sistemático das alianças periféricas que sustentam a projeção de poder russa
1.
A grande estratégia de Donald Trump para seu segundo mandato ficou muito mais clara no final do ano passado, quando os EUA bombardearam o Estado Islâmico na Nigéria no Natal, executaram sua surpreendentemente bem-sucedida “operação militar especial” na Venezuela e agora estão realizando ataques contra o Irã sob o pretexto de apoiar manifestantes anti-governo. O que esses três países têm em comum são seus papéis importantes na indústria global de energia, sejam eles atuais ou potenciais (devido às limitações relacionadas às sanções), e na Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) da China.
Assim, coagir esses países a se subordinarem aos EUA (seja por meio de tarifas, força, subversão, etc.) resultaria em um Trump 2.0 ganhando influência sobre suas exportações de energia e relações comerciais, o que poderia ser usado como arma para pressionar a China. O que os EUA querem da China é que ela concorde com um acordo comercial desequilibrado que seria então replicado com a União Europeia e outros parceiros dos EUA para, como afirma a nova Estratégia de Segurança Nacional, “reequilibrar a economia da China em direção ao consumo das famílias”.
O objetivo implícito é coagir a China a corrigir sua superprodução, responsável por suas exportações globais sem precedentes, que ultrapassaram a liderança do Ocidente no comércio mundial e lhe conferiram enorme influência sobre o Sul Global, restaurando assim a participação e a influência do Ocidente no mercado global. Uma mudança política tão radical teria grandes repercussões econômicas e, portanto, políticas, que poderiam desestabilizar o país e pôr fim à sua ascensão como superpotência; portanto, não seria feita voluntariamente.
A influência dos EUA sobre as exportações de energia da Venezuela, e possivelmente em breve sobre as do Irã e da Nigéria, bem como sobre as relações comerciais com a China, poderia ser alavancada por meio de ameaças de cortes ou suspensões, em paralelo com a pressão sobre seus aliados do Golfo para que façam o mesmo na busca desse objetivo. No entanto, isso pode não ser suficiente para garantir a rendição da China. É por isso que o segundo governo de Donald Trump também busca uma parceria estratégica com a Rússia focada em recursos naturais, o que poderia privar a China do acesso às suas reservas, nas quais os EUA investiriam pesadamente nesse cenário.
2.
A contrapartida para injetar bilhões de dólares na economia russa, incluindo a possível devolução de parte dos seus estimados US$ 300 bilhões em ativos congelados para esse fim, é que a Rússia deve ceder em alguns de seus objetivos de segurança na Ucrânia. Isso é inaceitável para Vladimir Putin, razão pela qual ele rejeitou até agora a proposta de Donald Trump. No entanto, mesmo sem o papel real (ainda que inconsciente) da Rússia em sua grande estratégia, os EUA ainda podem exercer mais pressão sobre a China por meios militares tradicionais.
Como observa Michael McNair em seu artigo “A Ponte no Coração do Pentágono”, a reafirmação da influência dos EUA sobre o Hemisfério Ocidental “é um pré-requisito para sustentar a projeção de poder no Indo-Pacífico” para o propósito mencionado, o que se alinha com a estrutura de Elbridge Colby. Elbridge Colby é o Subsecretário de Guerra para Políticas e está implementando ativamente as ideias que compartilhou em seu livro de 2021 intitulado A estratégia da negação: a defesa americana em uma era de conflito entre grandes potências.
Michael McNair argumenta de forma convincente que a nova Estratégia de Segurança Nacional carrega a marca de Elbridge Colby em toda a sua extensão, o que faz sentido dada a sua posição, e explica como a grande estratégia 2.0 de Donald Trump é moldada por sua obra. Como ele escreveu: “A principal alegação de Elbridge Colby é que a estratégia dos EUA no século XXI deve visar impedir que a China alcance a hegemonia sobre a Ásia. O restante de sua estrutura deriva desse ponto.” Isso é precisamente o que a “Doutrina Trump”, que recentemente se tornou muito mais clara, busca alcançar.
A reafirmação da influência dos EUA sobre o Hemisfério Ocidental, uma política que pode ser descrita como “Fortaleza América”, proporcionaria os recursos e mercados necessários para aumentar o orçamento de defesa em mais de 50%, de quase US$ 1 trilhão para US$ 1,5 trilhão, como Donald Trump acaba de declarar que pretende fazer. A produção militar-industrial drasticamente expandida dos EUA seria então direcionada para coagir militarmente a China a submeter-se aos EUA por meio das estratégias comerciais já mencionadas.
A “Doutrina Trump” visa, portanto, manter a superioridade militar dos EUA sobre a China, bem como posicionar os EUA de forma a negar à China o acesso à energia e aos mercados necessários para sustentar seu crescimento e, consequentemente, sua trajetória como superpotência. O primeiro objetivo será impulsionado por tarifas e pelos lucros da “Fortaleza América”, enquanto os demais serão alcançados por meio da subordinação da União Europeia, da pressão sobre os países do Golfo e da coerção dos parceiros estratégicos da Iniciativa Cinturão e Rota (Venezuela, Irã, Nigéria, etc.) à sua submissão.
Tudo o que o segundo governo de Donald Trump fez até agora está alinhado com esses imperativos e com o modus operandi de Narendra Modi, incluindo políticas que não tiveram sucesso, como a tentativa dos EUA de subordinar a Índia e os esforços para consolidar uma parceria estratégica com a Rússia focada em recursos naturais, em detrimento de seus objetivos de segurança na Ucrânia. Até mesmo o ódio de Donald Trump aos BRICS faz sentido quando visto sob essa perspectiva, já que ele e sua equipe os enxergam como uma fachada dominada pela China para internacionalizar o yuan e enfraquecer o dólar.
Em resumo, a grande estratégia dos EUA, sintetizada pela “Doutrina Trump” influenciada por Elbridge Colby, é coagir a China à subordinação, o que pretendem alcançar por meio de um fortalecimento militar ao estilo Reagan com seus aliados AUKUS+, bem como pela adoção de medidas que lhe neguem acesso à energia e aos mercados. O objetivo final é restaurar a hegemonia unipolar dos EUA, primeiro sobre as Américas e depois sobre o Ocidente Global (UE, aliados do Golfo Pérsico e do Indo-Pacífico), o Sul Global e, finalmente, a China, relegando a Rússia a um papel secundário. A Terceira Guerra do Golfo contribui para esse objetivo.
Aplicada à Rússia, no entanto, a Doutrina Trump se assemelha mais à Doutrina Reagan. A “Estratégia de negação” é muito menos relevante para a Rússia do que para a China, devido à riqueza de recursos naturais da Rússia, que lhe permite desenvolver-se autonomamente (mas ao custo de ficar para trás na corrida tecnológica). Dito isso, a captura de Nicolás Maduro e a Terceira Guerra do Golfo afetaram tanto a China quanto a Rússia, embora de maneiras diferentes; a China teve seus recursos negados, enquanto um parceiro russo foi deposto e outro enfraquecido.
Essa observação dos dois desfechos nos leva à essência da aplicação da Doutrina Trump, similar à de Ronald Reagan, em relação à Rússia. Ela envolve “reverter” a influência russa no mundo com o objetivo de pressionar Putin a aceitar um acordo unilateral na Ucrânia que institucionalizaria o status da Rússia como potência minoritária. Donald Trump defendeu o congelamento do conflito na primavera passada, o que Vladimir Putin rejeitou, pois esse cenário não aborda questões fundamentais de segurança, razão pela qual o conflito persiste até hoje sem um acordo à vista.
4.
A Rússia e os EUA ainda acenam com a promessa de uma parceria estratégica mutuamente benéfica e focada em recursos como recompensa por cederem em posições que o outro considera inaceitáveis. Essas posições dizem respeito à recusa da Rússia em congelar o conflito sem abordar questões fundamentais de segurança, e à recusa dos EUA em abordá-las, bem como à sua recusa em coagir a Ucrânia e a OTAN a fazerem o mesmo. Nenhum dos lados concordou em ceder, apesar dessa promessa.
O dilema resultante levou à transformação da Doutrina Trump. Vladimir Putin colocou Donald Trump em um zugzwang,[i] no qual ele podia manter o ritmo do conflito, arriscando outra “guerra sem fim”, ou “escalar para desescalar”, arriscando uma Terceira Guerra Mundial. Donald Trump escapou criativamente dessa armadilha replicando a política de “retração” de Reagan em condições modernas. Quando “reduziu” a influência da Rússia na Venezuela e no Irã, ele já havia feito movimentos significativos na Armênia-Azerbaijão, no Cazaquistão e até mesmo em Belarus.
O primeiro país fez as pazes em Washington e concordou com um corredor comercial controlado pelos EUA que funcionará como uma rota logística militar dupla para injetar influência ocidental, incluindo a OTAN, em toda a periferia sul da Rússia. Isso encorajou o segundo país a concordar com um acordo sobre minerais críticos e a anunciar sua planejada produção de projéteis com padrão da OTAN. Quanto ao terceiro país, suas negociações com os EUA visam incentivar sua deserção da Rússia, o que complicaria muito a hipotética continuação indefinida da operação especial.
Esses seis países – Venezuela, Irã, Armênia, Azerbaijão, Cazaquistão e Bielorrússia – não são os únicos onde os EUA estão “reduzindo” a influência russa, já que Sérvia, Cuba, Síria, Líbia e a Aliança Saheliana (Mali, Burkina Faso e Níger) também estão sendo alvos. Mianmar e Nicarágua podem ser os próximos.
Na ausência de um acordo com Donald Trump, que Vladimir Putin poderia ser ainda mais induzido a aceitar se Donald Trump prometer reduzir a pressão dos EUA sobre alguns – mas não todos – desses países, a Rússia poderia perder todos esses parceiros com o tempo.
*Andrew Korybko é mestre em Relações Internacionais pelo Instituto Estadual de Relações Internacionais de Moscou. Autor do livro Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos golpes (Expressão Popular). [https://amzn.to/46lAD1d]
Tradução: Artur Scavone.
Nota do tradutor
[i] Zugzwang é um termo alemão usado no xadrez que significa “obrigação de jogar”. Ocorre quando um jogador prefere não mover nenhuma peça, pois qualquer movimento disponível pioraria sua posição ou levaria à derrota. Essa situação é comum em finais de jogo, onde passar a vez seria vantajoso.

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