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A episteme da modernidade dependente

Do A Terra É Redonda, 10 de maio 2026
Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR*


Imagem: Raka Miftah

O presente se reorganiza em função de expectativas móveis sobre aquilo que ainda não aconteceu. O tempo, que antes sustentava o amadurecimento dos processos, passa a ser mobilizado como instrumento de valorização

1.
A episteme da modernidade dependente nasce da necessidade de compreender uma transformação histórica que já não pode ser explicada apenas pelas categorias clássicas da dependência econômica. Durante grande parte do século XX, a Teoria marxista da dependência ofereceu à América Latina uma das interpretações mais rigorosas de sua posição subordinada no capitalismo mundial.

Ao demonstrar que o subdesenvolvimento não era atraso, desvio ou etapa incompleta do desenvolvimento, mas forma específica de integração dependente à totalidade capitalista, essa tradição rompeu com a ideologia linear da modernização. Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotonio dos Santos mostraram que a periferia não estava fora do capitalismo; ela era produzida por ele, articulada ao centro por mecanismos de transferência de valor, superexploração do trabalho, subordinação tecnológica e especialização produtiva.

Essa conquista teórica permanece indispensável. Sem ela, a América Latina volta a ser interpretada como região atrasada, incapaz de completar uma trajetória que os países centrais teriam realizado antes. A Teoria marxista da dependência mostrou o contrário: centro e periferia não são momentos separados de uma história universal, mas polos de uma mesma totalidade desigual. O desenvolvimento do centro não ocorre apesar da dependência periférica, mas também por meio dela. A dependência não é acidente externo ao capitalismo; é uma de suas formas constitutivas.

Entretanto, o capitalismo mundial mudou. A dependência formulada nos anos 1960 respondia a uma configuração marcada pela industrialização dependente, pela transferência de valor, pela superexploração do trabalho e pela subordinação produtiva e tecnológica. Esses elementos não desapareceram.

Continuam decisivos. Mas foram incorporados a uma forma histórica mais ampla, determinada pela financeirização, pelo capital fictício, pela centralidade das expectativas futuras, pela avaliação permanente, pela inteligência artificial e pela reorganização das condições de produção do conhecimento. A dependência contemporânea continua econômica, mas já não se esgota na economia. Ela se torna também temporal, institucional, cognitiva, subjetiva e epistêmica.

É nesse ponto que a episteme da modernidade dependente atualiza a Teoria marxista da dependência da década de 1960. Ela não a nega, não a substitui por uma teoria exterior, nem a trata como etapa superada. Ao contrário: incorpora seu núcleo crítico e o desloca para o regime histórico do capitalismo financeirizado. Se a Teoria marxista da dependência revelou que a periferia transfere valor ao centro, a episteme da modernidade dependente mostra que, no presente, as sociedades dependentes também perdem duração.

Se a primeira explicou a subordinação produtiva, a segunda revela a subordinação temporal. Se a primeira interpretou a superexploração do trabalho, a segunda mostra que a vida social, a universidade, a ciência, a subjetividade e o conhecimento passam a ser reorganizados por uma temporalidade que exige resultados antes que os processos possam amadurecer.

2.
O centro dessa atualização é o tempo. Durante grande parte da modernidade industrial, o tempo histórico ainda podia ser imaginado como duração relativamente ampla. Mesmo sob conflitos e crises, as sociedades organizavam seus projetos em horizontes longos: industrialização, expansão educacional, construção de sistemas públicos, formação de universidades, consolidação científica, planejamento nacional, organização de políticas sociais.

O futuro aparecia como campo de disputa, mas também como horizonte de formação. Era possível imaginar que uma geração prepararia as condições da seguinte, que uma instituição amadureceria lentamente, que uma política pública produziria efeitos ao longo de décadas.

No capitalismo contemporâneo, essa experiência se altera profundamente. A expansão do capital fictício permite que expectativas futuras sejam antecipadas e convertidas em valor presente. O futuro deixa de ser apenas horizonte da ação coletiva e torna-se objeto direto de valorização econômica. O que ainda não ocorreu passa a ser calculado, projetado, precificado, financiado, avaliado e cobrado. O presente se reorganiza em função de expectativas móveis sobre aquilo que ainda não aconteceu. O tempo, que antes sustentava o amadurecimento dos processos, passa a ser mobilizado como instrumento de valorização.

Essa mudança não é simples aceleração. Trata-se de uma mutação ontológica do tempo. O tempo social muda de função histórica. Ele deixa de ser apenas a duração dentro da qual instituições, sujeitos e conhecimentos amadurecem e passa a funcionar como instância de exigência antecipada.

Antes, uma universidade precisava de tempo para formar pesquisadores; agora, precisa demonstrar produtividade antes que a formação tenha completado seu ciclo. Antes, uma política pública precisava de continuidade para produzir efeitos estruturais; agora, é pressionada por métricas, cortes, revisões e resultados imediatos. Antes, uma pesquisa podia construir lentamente sua pergunta; agora, muitas vezes, precisa justificar previamente seu impacto, sua relevância, sua inserção e sua mensurabilidade.

3.
A dependência contemporânea manifesta-se, então, como compressão do tempo histórico. Nas sociedades periféricas, essa compressão assume intensidade particular porque seus projetos coletivos dependem de condições externas instáveis: fluxos financeiros, dívida pública, mercados internacionais, organismos multilaterais, critérios exógenos de avaliação, dependência tecnológica, vulnerabilidade cambial e subordinação cognitiva.

A instabilidade do sistema mundial entra no interior das instituições nacionais e encurta seus horizontes de ação. O problema não é apenas falta de recursos. É a fragilidade da duração. A sociedade pode iniciar projetos, criar políticas, abrir universidades, formular planos e anunciar futuros. Mas cada começo nasce sob ameaça de interrupção.

Duração, nesse sentido, torna-se categoria central. Duração não significa lentidão, nostalgia, espera passiva ou recusa da mudança. Duração é o tempo social necessário para que experiência vire conhecimento, conhecimento vire forma e futuro vire história.

Sem duração, a experiência permanece dispersa; o conhecimento não sedimenta; a instituição não amadurece; a política pública não consolida efeitos; a universidade perde o ritmo próprio da formação; a linguagem crítica não encontra tempo para nomear o real. A duração é a condição histórica da mediação. Ela permite que o vivido se transforme em conceito, que a pergunta amadureça antes da resposta, que a sociedade compreenda sua própria experiência antes de ser novamente arrastada por outra urgência.

A expropriação da duração é uma das formas centrais da dependência contemporânea. O capital não expropria apenas trabalho, valor ou recursos naturais; expropria também o tempo necessário para que os processos sociais se formem. A modernidade dependente torna-se, assim, uma modernidade de começos fortes e continuidades frágeis.

Seu drama não é simplesmente não começar; é começar muitas vezes e não conseguir sustentar historicamente o que começa. A matrícula abre o futuro, mas a ausência de permanência pode interrompê-lo. A universidade cria conhecimento, mas a instabilidade do financiamento pode desorganizar sua continuidade. A política pública nasce como promessa, mas a austeridade pode impedir sua maturação.

4.
Essa formulação permite compreender de modo novo a América Latina. A região é marcada por projetos nacionais interrompidos, reformas educacionais descontínuas, universidades que lutam contra ciclos de escassez, políticas públicas que não amadurecem, sistemas científicos submetidos a instabilidades recorrentes, experiências democráticas frequentemente bloqueadas e horizontes coletivos comprimidos por crises internas e pressões externas.

A América Latina não vive fora da modernidade. Ela vive uma modernidade atravessada pela dependência, na qual o futuro aparece simultaneamente como promessa e adiamento. A região conhece a potência histórica dos começos: revoluções, movimentos sociais, universidades críticas, pensamento social original, literatura de enorme força, projetos populares, experiências de soberania. Mas conhece também o bloqueio da duração.

Nesse sentido, a América Latina é o território histórico em que a modernidade revela sua contradição dependente. O que aparece como progresso nos centros do capitalismo aparece, muitas vezes, como promessa instável nas periferias. O futuro chega como exigência antes de chegar como possibilidade. A periferia deve modernizar-se, internacionalizar-se, inovar, competir, produzir, avaliar, certificar, demonstrar impacto e adaptar-se aos ritmos globais. Mas deve fazê-lo sem controlar plenamente as condições materiais, financeiras, tecnológicas e temporais desse processo.

Depois de estabilizada essa forma latino-americana da dependência, o Brasil precisa ser destacado como sua condensação máxima. O Brasil não é exceção à América Latina; é uma de suas formas mais densas. Nele, a dependência não se apresenta apenas como relação econômica externa, mas como arquitetura histórica total.

O Brasil é o país em que a dependência se apresenta em sua forma mais acabada porque nele convergem, de maneira particularmente intensa, dependência econômica, dependência estatal, dependência educacional, dependência cognitiva, dependência financeira, dependência cultural, dependência subjetiva e dependência temporal. A dependência brasileira deixou de ser apenas condição de inserção subordinada no sistema mundial e tornou-se princípio interno de organização da sociedade.

A longa duração brasileira mostra essa especificidade. O Estado antecede a sociedade, organiza a vida coletiva desde cima, administra a desigualdade, disciplina a escola, tutela a universidade, regula o fundo público, concilia rupturas e transforma a modernização em técnica de conservação. A formação brasileira combina escravidão, patrimonialismo, modernização conservadora, cidadania incompleta, democracia interrompida, dependência cognitiva e financeirização do Estado.

O país moderniza sem democratizar plenamente; inclui sem romper a tutela; expande direitos enquanto preserva estruturas profundas de desigualdade; cria universidades de excelência ao lado de precariedades persistentes; produz ciência relevante sob ciclos instáveis de financiamento; anuncia futuro enquanto interrompe a duração necessária para realizá-lo.

5.
Por isso, o Brasil não é o atraso da dependência latino-americana; é sua forma mais madura. Nele, a dependência deixou de ser apenas uma relação com o exterior e tornou-se uma ontologia social interna. Ela organiza o modo como o Estado governa, como a escola disciplina, como a universidade se justifica, como a ciência busca reconhecimento, como a cultura concilia o inconciliável e como a sociedade aprende a viver o futuro como adiamento.

A dependência brasileira não é incompletude; é forma histórica plenamente constituída. O moderno e o arcaico não se excluem; alimentam-se mutuamente. A precariedade não é resíduo do passado; é condição funcional de uma modernização seletiva.

Essa totalidade se manifesta no fundo público. No capitalismo dependente contemporâneo, o fundo público torna-se campo de disputa entre a reprodução da vida e a reprodução do capital fictício. Em vez de funcionar como instrumento de universalização de direitos, planejamento social e sustentação de durações coletivas, ele é frequentemente capturado por juros, dívida, austeridade, metas fiscais, cortes, contingenciamentos e dispositivos financeiros que subordinam o futuro ao presente contábil. O Estado passa a sacrificar políticas de longa duração para garantir estabilidade imediata aos mercados. A imaginação política é substituída pela planilha. O futuro é convertido em ajuste.

Essa captura do fundo público atinge diretamente a universidade. A universidade pública é uma das instituições que mais dependem de duração. Ela precisa de financiamento estável, carreiras contínuas, laboratórios preservados, bibliotecas atualizadas, tempo para pesquisa, formação de estudantes, orientação paciente, liberdade crítica e autonomia intelectual.

Quando o fundo público é comprimido, a universidade não perde apenas orçamento; perde tempo histórico. Pesquisas são interrompidas, grupos se desorganizam, estudantes abandonam trajetórias, professores adoecem, programas são pressionados a produzir mais com menos, a avaliação substitui a formação e a sobrevivência cotidiana consome a energia da reflexão.

6.
A universidade torna-se o lugar privilegiado para observar a dependência temporal. Ela vive entre dois tempos: o tempo longo do conhecimento e o tempo curto da validação. O conhecimento exige maturação; a avaliação exige demonstração.

O pensamento exige silêncio, leitura, erro, elaboração, reescrita e debate; a instituição exige relatórios, indicadores, metas, produção, impacto, internacionalização, plataformas, editais e prova permanente de relevância. O professor universitário aparece como figura sensível dessa mutação: precisa produzir conhecimento crítico, mas vive sob o comando de instituições cada vez mais aceleradas.

Essa compressão produz sofrimento. O sofrimento acadêmico não deve ser tratado como fragilidade individual ou problema psicológico isolado. Ele expressa, no corpo e na subjetividade, a reorganização histórica do tempo. Ansiedade, exaustão, urgência permanente, fragmentação da atenção, dificuldade de leitura profunda, sensação de atraso constante, impossibilidade de concluir processos, medo da avaliação, cansaço diante da burocracia e perda do tempo interior da reflexão são sintomas de uma forma social. A modernidade dependente não rouba apenas recursos; rouba o intervalo necessário entre a experiência e sua elaboração.

Nesse ponto, linguagem e conhecimento tornam-se inseparáveis. Uma época em mutação exige linguagem capaz de nomear aquilo que ainda aparece disperso na experiência. A episteme da modernidade dependente não é apenas um conjunto de conceitos; é uma forma de tornar inteligível uma transformação histórica que primeiro aparece como sensação: o tempo encurtou, o futuro ficou escasso, as instituições perderam continuidade, o pensamento perdeu repouso, a universidade perdeu duração. A linguagem não ornamenta o conhecimento. Ela o realiza. É pela linguagem que a ontologia se torna sensível, que a epistemologia se torna inteligível e que o método se torna perceptível.

A inteligência artificial introduz nova camada nessa episteme. Ela reorganiza o tempo do trabalho intelectual. Operações que antes exigiam longos períodos de levantamento, comparação, síntese e formulação preliminar podem ser realizadas em intervalos muito curtos. Isso amplia possibilidades reais, mas também intensifica a pressão por respostas imediatas. O intervalo entre pergunta e resposta diminui.

O risco é que a velocidade da resposta substitua o tempo de formação da pergunta. Uma sociedade dependente, já marcada por fragilidade institucional e dependência cognitiva, passa a produzir conhecimento em ambientes técnicos cujas infraestruturas, modelos e plataformas foram definidos nos centros do capitalismo mundial.

Surge, assim, a dependência cognitiva em nova escala. Não se trata apenas de importar teorias, métodos ou agendas. Trata-se de pensar dentro de arquiteturas técnicas controladas externamente, em plataformas que organizam o tempo, a linguagem, a busca, a escrita, a visibilidade e a circulação do conhecimento. A questão decisiva não é usar ou não usar tecnologia; é saber se ela amplia a duração crítica do pensamento ou se apenas intensifica sua compressão.

7.
A episteme da modernidade dependente desloca, portanto, a pergunta clássica da dependência. Já não basta perguntar como a periferia transfere valor para o centro. É preciso perguntar como perde duração. Já não basta perguntar como se organiza a superexploração do trabalho. É preciso perguntar como se organiza a superexploração do tempo social. Já não basta perguntar por que a industrialização é subordinada.

É preciso perguntar por que a universidade, a ciência, a linguagem e a subjetividade passam a responder a temporalidades externas. Já não basta perguntar por que o desenvolvimento é bloqueado. É preciso perguntar por que o futuro é antecipado antes que possa ser construído.

A episteme da modernidade dependente é uma teoria da totalidade contemporânea da dependência. Ela articula economia, Estado, fundo público, universidade, ciência, linguagem, subjetividade, inteligência artificial e tempo histórico. Sua força está em mostrar que esses elementos não são temas separados.

Todos expressam uma mesma transformação: a dependência passa a operar como controle da duração. O capital controla recursos, mas também ritmos; controla tecnologias, mas também critérios; controla crédito, mas também expectativas; controla plataformas, mas também formas de atenção; controla avaliação, mas também linguagem; controla o futuro ao impor ao presente a obrigação permanente de justificar-se.

Essa episteme permite compreender por que a universidade pública permanece central. Mesmo comprimida, avaliada, precarizada e atravessada por contradições, ela ainda é um dos últimos lugares institucionais em que a sociedade pode produzir reflexão crítica sobre si mesma. A universidade não está fora da dependência; ela é atravessada por ela. Mas justamente por isso se torna estratégica. Nela aparece a contradição entre o tempo do capital e o tempo do conhecimento. O capital exige velocidade, mensuração e validação; o conhecimento exige duração, linguagem e mediação.

A conclusão necessária é que a luta crítica contemporânea não pode limitar-se à denúncia da desigualdade econômica, embora essa denúncia continue indispensável. É preciso lutar também pela duração. Lutar pela duração significa defender o tempo da escola pública, da universidade pública, da pesquisa científica, da formação estudantil, da permanência, da leitura, da linguagem, da escrita, da reflexão e da imaginação política. Significa recusar a ideia de que todo processo deve provar imediatamente sua utilidade. Significa afirmar que uma sociedade não se forma sob o comando exclusivo da urgência.

A episteme da modernidade dependente é, nesse sentido, uma teoria do futuro escasso e uma crítica da expropriação da duração. Ela mostra que o capitalismo financeirizado não apenas apropria riqueza; apropria o tempo social em que a riqueza, o conhecimento e a vida poderiam ganhar outro sentido. Ela mostra que a dependência contemporânea não apenas limita o desenvolvimento; limita a capacidade de imaginar, sustentar e formar futuro. Ela mostra que a América Latina vive a contradição entre começos potentes e durações interrompidas. E mostra que o Brasil é a forma mais acabada dessa contradição, porque transformou a dependência em princípio interno de organização da vida nacional.

No fim, a episteme da modernidade dependente recoloca a pergunta essencial: em que condições históricas uma sociedade dependente pode recuperar duração suficiente para transformar experiência em conhecimento, conhecimento em instituição e instituição em futuro?

Essa pergunta não é apenas teórica. Ela é política, universitária, cultural, pedagógica e existencial. Ela define o ponto em que a crítica da dependência se encontra com a defesa da universidade pública, com a produção do conhecimento, com a linguagem e com a vida.

O futuro só volta a ser futuro quando deixa de ser cobrança antecipada e reencontra duração para criar raiz.

*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP].

Referência

João dos Reis Silva Júnior. Episteme da modernidade dependente. São Paulo, Editora Navegando, 2026, 142 págs.

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