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A defesa do pluralismo nas universidades

Do A Terra É Redonda, 9 de maio 2026
Por LUIS FELIPE MIGUEL*


Imagem: Liya Marginalova

A defesa do pluralismo exige a retomada da universalidade e do rigor científico contra a cultura do silenciamento e o solipsismo das chamadas epistemologias alternativas

1.
Um grupo de professores lançou recentemente um manifesto em defesa do pluralismo nas universidades brasileiras. O documento, assinado por muita gente cujo trabalho conheço, respeito e admiro, suscitou algumas reações exaltadas. A defesa do pluralismo, segundo essas reações, seria uma reação contra o avanço de grupos minoritários.

A situação é complexa, mas eu acredito que existem, sim, bons motivos para preocupação com o fechamento do espaço de discussão de determinados temas nas universidades do Brasil.

Já falei aqui de uma forma de macarthismo adotada por gente que, dentro dos campi, acredita que tem o monopólio, se não da verdade (quem se importa com ela, não é mesmo?), pelo menos das boas intenções. Campanhas de cancelamento, vetos à participação em eventos ou à publicação, boicote à citação de trabalhos ainda que eles sejam relevantes, processos judiciais, pressão para demissão… Ocorre de tudo.

Eu já fui alvo: na lista negra de uma revista ou outra, o convite para publicação de um livro por editora importante desfeito sem qualquer motivo, um curso em uma plataforma “cult” cancelado sem sequer me avisarem, campanha intermitente de difamação por youtubers famosos ou semifamosos. Isso por gente que se diz de esquerda. Pela direita, censura, processos, incitação à violência contra mim, pedidos de demissão.

Cheguei a uma etapa da minha carreira em que posso me dar ao luxo de não ligar. Para muitos colegas, porém, é mais difícil.

Múltiplas pesquisas têm mostrado que, entre estudantes, há receio de se pronunciar em público, por medo de dissentir das opiniões hegemônicas – é a perfeita ilustração da espiral do silêncio, de que falava Elisabeth Noelle-Neuman. Com certa frequência, sou procurado por alunos que manifestam essa preocupação. Uma graduanda em ciência política me perguntou se ela deveria expor, em seu trabalho de conclusão de curso, sua concordância com algumas teses alinhadas àquilo que, nos debates das redes sociais, é estigmatizado como “radfem”.

Eu tive que dizer a ela que, para o bem de seu futuro profissional, no mercado de trabalho ou na academia, ela devia evitar o tema. Uma exposição prematura poderia prejudicar suas chances de entrar numa pós-graduação ou de ser contratada por uma ONG feminista ou alguma organização internacional (caminhos para continuar trabalhando com a pauta de gênero). Seria irresponsável da minha parte fingir que essa não é a realidade.

2.
As principais reações contra o manifesto vieram exatamente daqueles que se esforçam para calar determinadas vozes dentro das universidades. Um professor da Universidade Federal da Bahia publicou nas suas redes sociais uma diatribe em regra contra os autores, a quem acusou de serem racistas, misóginos, homofóbicos, transfóbicos e mesmo necrófilos. Para ele, já existe pluralidade suficiente na universidade.

Esse mesmo professor, porém, é um dos mais eloquentes propagadores da caça às bruxas nos campi. Publicou, faz poucos meses, um texto em que defende simplesmente que devem ser levados às ouvidorias das universidades, para sofrerem processos disciplinares, todos aqueles que criticam as fragilidades das teorias identitárias. Essa crítica, diz ele, consistiria em “assédio epistemológico”, um tipo penal que ele mesmo inventou.

Não acredito que seja má fé. É dissonância cognitiva mesmo. Nas seitas cristãs do início da Idade Moderna, era comum que os adeptos dessem a si mesmos o nome de “os perfeitos”. Sendo perfeitos, podiam fazer qualquer coisa, sem medo de errar. Os herdeiros destas seitas são hoje os arautos dos identitarismos. Eles creem sinceramente que são as vítimas do sistema (ou seria cistema?), o que justifica que exerçam de forma despreocupada seu poder intimidatório.

Está muito errado um ambiente universitário em que as pessoas tenham medo de se expressar. Aqueles que se sentem satisfeitos com isso encampam a violação de um princípio essencial da universidade, sem o qual ela perde sua razão de ser. Mas há dois pontos complementares à discussão, aliás estreitamente ligados entre si, que creio que devem ser acrescentados.

O primeiro é que a exigência de pluralismo não significa que qualquer discurso deve estar dentro da universidade. A defesa abstrata da pluralidade pode dar essa impressão, sobretudo nos tempos de “pós-verdade” que sofremos. Mas não é isso.

Quando o professor da UFBA inventa essa história de “assédio epistemológico”, o que ele está querendo é se blindar contra as críticas que são feitas às derivas identitárias – uma série de perspectivas que acabaram sendo acolhidas na universidade, que oscilam entre ingenuidade, misticismo e charlatanismo, e que não são sustentáveis diante dos parâmetros adequados de discussão acadêmica.

Contra estes parâmetros, fazem a crítica da universalidade. Seriam parâmetros eurocêntricos, masculinistas, heteronormativos. Como se indígenas ou negros, mulheres, gays ou lésbicas, fossem endogenamente incapazes de sustentar o discurso científico. Como se a ciência, produzida aliás também por muitos integrantes de todos esses grupos, não tivesse sido, ao longo da história, aliada de suas reivindicações emancipatórias.

E como se, pelo fato de que as pretensões à universalidade são muitas vezes desvirtuadas pelos grupos dominantes, nós tivéssemos que abandoná-la – em vez de lutar por uma universalidade genuína.

3.
Tudo aquilo que a ciência construiu deve, sim, ser visto como parte do patrimônio comum de toda a humanidade. Fazer de Isaac Newton, de Charles Darwin ou de Karl Marx um totem tribal ajuda em que na tarefa de construir um mundo mais igualitário e mais solidário?

O que a denúncia desse patrimônio ajuda é outra coisa – é garantir o espaço do pesquisador incompetente, preguiçoso ou picareta, que embrulha seu material no papel reciclado da “epistemologia alternativa” e foge do debate sério apontando o dedo para os críticos, com gritos de “eurocêntrico” ou “heteronormativo”.

Por paradoxal que possa parecer à primeira vista, as campanhas de intimidação e silenciamento que ocorrem nas universidades, que reduzem a pluralidade interna e impedem o debate livre, estão ligadas à redução dos critérios de validade científica que nelas deveriam imperar.

Em suma: o pluralismo no ambiente universitário não significa que um departamento de astronomia deva receber quem acredita no terraplanismo ou que um departamento de biologia deva dar espaço para defensores do criacionismo. Embora a gente saiba que nenhum debate científico está encerrado de uma vez por todas, ainda assim a ciência garante seu progresso por meio de consensos bem fundados.

É – em teoria – possível que alguém reabra o debate sobre a terra plana (improvável, mas vamos lá, pelo bem da discussão). Só que para isso não basta requentar tudo aquilo que a ciência já descartou; seria necessário encontrar novas evidências e/ou produzir uma nova síntese teórica, de forma suficientemente robusta para recolocar a discussão.

As ciências sociais são mais complexas, mas ainda assim existem procedimentos que são aceitos como válidos na construção de argumentos – posso discordar do que está sendo dito, mas reconhecendo que tem lugar no debate. Outros argumentos, porém, são desprovidos de qualquer sentido. Mas criou-se um discurso pretensamente radical que afirma que qualquer critério de validade científica deve ser rejeitado, porque seria uma demonstração de eurocentrismo ou algum outro tipo de preconceito.

Daí o mergulho na subjetividade, o apelo à “ancestralidade”, o solipsismo, o império da experiência incomunicável, a recusa das evidências, a negação dos encadeamentos lógicos, o triunfo da crença sobre a observação, tudo está liberado. É o negacionismo científico dos progressistas, tão nocivo quanto a cloroquina dos bolsonaristas. Ou mais.

E daí cada um inventa uma “epistemologia” para chamar de sua e, com base nela, vale tudo. Já falei disso muitas vezes. É uma completa desmoralização dos critérios do debate acadêmico, com base em pretensas visões que deveriam ser aceitas com condescendência porque são contrárias às opressões. No final do processo, chegamos a absurdos como a inclusão das “práticas integrativas complementares” no SUS, com o dinheiro público da saúde pagando por rezas e placebos, quando não um charlatanismo de inspiração nazista como a “constelação familiar”, tudo já descartado pela ciência, tudo saudado como vitória “contracolonial”.

E isso me leva à segunda questão, que, como disse, está intimamente ligada a esta primeira. A universidade que deve aceitar apenas discursos que sejam compatíveis com as regras elementares do fazer científico não é uma universidade despreocupada com a transformação social.

Eu creio firmemente que a universidade, como instituição, precisa ter um compromisso com a produção de um mundo melhor – o que não significa alinhamento partidário. Mas esse compromisso só se realiza caso ela seja capaz de produzir conhecimento sólido sobre este mundo…

*Luis Felipe Miguel é professor titular de ciência política na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica) [https://amzn.to/45NRwS2].

Publicado originalmente no substack “Amanhã não existe ainda” [lfmiguel@substack.com]

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