Por CHRISTOPHE GINISTY*
Frente ao bloqueio militar ostensivo, o cerco silencioso à produção de ácido sulfúrico revela a eficácia da guerra assimétrica na desestabilização da segurança alimentar e energética
1.
Enquanto Trump anunciava seu bloqueio, a China discretamente cortava o fornecimento de ácido sulfúrico. Ninguém comentava, mas essa era uma das decisões mais importantes desta crise.
Vamos começar pelo básico, pois este assunto é pouco conhecido, mas de vital importância.
O ácido sulfúrico é um dos produtos químicos industriais mais utilizados no mundo. Sem ele:
Sem fertilizantes fosfatados, portanto, menos alimentos.
Sem mineração de cobre, portanto, menos cabos elétricos, infraestrutura e uma transição energética mais lenta.
Sem baterias, portanto, menos veículos elétricos.
Sem refino de petróleo.
Sem têxteis.
É uma molécula invisível, essencial para quase tudo o que a civilização industrial produz.
Em 10 de abril de 2026, a China anunciou que suspenderia suas exportações de ácido sulfúrico a partir de maio, afetando as indústrias de metais e fertilizantes, já fragilizadas pelas interrupções causadas pela guerra no Irã.
Esse momento não é insignificante. Coincide com o anúncio do bloqueio do Estreito de Ormuz pelos EUA.
Para compreender a magnitude do choque, é preciso considerar o que está acontecendo simultaneamente em três frentes.
Primeira frente: O fechamento do Estreito de Ormuz bloqueia as exportações de enxofre do Oriente Médio, região responsável por um terço da produção mundial de enxofre, matéria-prima para o ácido sulfúrico.
Segunda frente: A China está interrompendo suas exportações de ácido sulfúrico refinado, privando o mercado global de suas duas principais fontes de abastecimento simultaneamente. Como resultado, os preços do enxofre já subiram 70% desde o início do conflito. Os preços do ácido sulfúrico no Chile aumentaram 44% em apenas um mês.
Terceira frente, as consequências em cascata: O Chile, maior produtor mundial de cobre, importa mais de um milhão de toneladas de ácido sulfúrico chinês anualmente. Aproximadamente 20% de sua produção de cobre depende de processos que requerem esse ácido. A República Democrática do Congo, a Zâmbia e a Indonésia (para níquel) também são diretamente afetadas.
2.
Menos cobre significa menos infraestrutura elétrica global. Menos fertilizantes significa pressão adicional sobre a segurança alimentar global em um contexto onde os mercados agrícolas já estão sobrecarregados.
Um analista da CRU resume: “A perda dos volumes chineses será difícil de compensar, dada a escassez paralela de matérias-primas de enxofre.”
Em última análise, é isso que essa sequência revela sobre a estratégia da China.
Pequim não precisa declarar guerra. Basta fechar uma torneira. Essa é precisamente a doutrina da guerra econômica assimétrica que a China vem praticando metodicamente há quinze anos: usar sua posição dominante nas cadeias de suprimentos globais como alavanca, sem confronto militar direto.
A cada vez, o método é o mesmo: identificar o ponto invisível de dependência, esperar o momento de máxima tensão e, então, fechar a torneira. Simples assim.
Trump, por sua vez, anuncia um bloqueio marítimo espetacular em letras maiúsculas nas redes sociais. A China responde com uma decisão burocrática discreta, transmitida internamente aos seus produtores.
Um está agindo. O outro está jogando xadrez.
Em Le Pantin de la Maison Blanche (“O Fantoche da Casa Branca”), analiso como este governo responde a crises com ferramentas do século XX contra adversários que construíram armas do século XXI. Um bloqueio naval é uma arma de 1962. O controle das cadeias de suprimentos globais é uma arma de 2026.
E enquanto Donald Trump tuíta “Blown to hell” (“explodidos para o inferno”), Pequim está silenciosamente cortando o fornecimento da molécula da qual depende a produção global de alimentos.
A guerra da qual ninguém fala é, muitas vezes, a mais eficaz.
*Christophe Ginisty é especialista em inteligência de mídias sociais e fundador da Agorep Research. Autor do livro Le Pantin de la Maison Blanche: Comment le pouvoir réel s’exerce pendant que Trump fait le spectacle.
Publicado originalmente no X (ex-Twitter) do autor [https://x.com/cginisty/status/2043658080768909446]
Este é o segundo artigo de uma série de textos selecionados por Ruben Bauer Naveira. Para ler o primeiro clique em https://aterraeredonda.com.br/a-crise-global-de-alimentos/
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Imagem: Planet Volumes |
Frente ao bloqueio militar ostensivo, o cerco silencioso à produção de ácido sulfúrico revela a eficácia da guerra assimétrica na desestabilização da segurança alimentar e energética
1.
Enquanto Trump anunciava seu bloqueio, a China discretamente cortava o fornecimento de ácido sulfúrico. Ninguém comentava, mas essa era uma das decisões mais importantes desta crise.
Vamos começar pelo básico, pois este assunto é pouco conhecido, mas de vital importância.
O ácido sulfúrico é um dos produtos químicos industriais mais utilizados no mundo. Sem ele:
Sem fertilizantes fosfatados, portanto, menos alimentos.
Sem mineração de cobre, portanto, menos cabos elétricos, infraestrutura e uma transição energética mais lenta.
Sem baterias, portanto, menos veículos elétricos.
Sem refino de petróleo.
Sem têxteis.
É uma molécula invisível, essencial para quase tudo o que a civilização industrial produz.
Em 10 de abril de 2026, a China anunciou que suspenderia suas exportações de ácido sulfúrico a partir de maio, afetando as indústrias de metais e fertilizantes, já fragilizadas pelas interrupções causadas pela guerra no Irã.
Esse momento não é insignificante. Coincide com o anúncio do bloqueio do Estreito de Ormuz pelos EUA.
Para compreender a magnitude do choque, é preciso considerar o que está acontecendo simultaneamente em três frentes.
Primeira frente: O fechamento do Estreito de Ormuz bloqueia as exportações de enxofre do Oriente Médio, região responsável por um terço da produção mundial de enxofre, matéria-prima para o ácido sulfúrico.
Segunda frente: A China está interrompendo suas exportações de ácido sulfúrico refinado, privando o mercado global de suas duas principais fontes de abastecimento simultaneamente. Como resultado, os preços do enxofre já subiram 70% desde o início do conflito. Os preços do ácido sulfúrico no Chile aumentaram 44% em apenas um mês.
Terceira frente, as consequências em cascata: O Chile, maior produtor mundial de cobre, importa mais de um milhão de toneladas de ácido sulfúrico chinês anualmente. Aproximadamente 20% de sua produção de cobre depende de processos que requerem esse ácido. A República Democrática do Congo, a Zâmbia e a Indonésia (para níquel) também são diretamente afetadas.
2.
Menos cobre significa menos infraestrutura elétrica global. Menos fertilizantes significa pressão adicional sobre a segurança alimentar global em um contexto onde os mercados agrícolas já estão sobrecarregados.
Um analista da CRU resume: “A perda dos volumes chineses será difícil de compensar, dada a escassez paralela de matérias-primas de enxofre.”
Em última análise, é isso que essa sequência revela sobre a estratégia da China.
Pequim não precisa declarar guerra. Basta fechar uma torneira. Essa é precisamente a doutrina da guerra econômica assimétrica que a China vem praticando metodicamente há quinze anos: usar sua posição dominante nas cadeias de suprimentos globais como alavanca, sem confronto militar direto.
A cada vez, o método é o mesmo: identificar o ponto invisível de dependência, esperar o momento de máxima tensão e, então, fechar a torneira. Simples assim.
Trump, por sua vez, anuncia um bloqueio marítimo espetacular em letras maiúsculas nas redes sociais. A China responde com uma decisão burocrática discreta, transmitida internamente aos seus produtores.
Um está agindo. O outro está jogando xadrez.
Em Le Pantin de la Maison Blanche (“O Fantoche da Casa Branca”), analiso como este governo responde a crises com ferramentas do século XX contra adversários que construíram armas do século XXI. Um bloqueio naval é uma arma de 1962. O controle das cadeias de suprimentos globais é uma arma de 2026.
E enquanto Donald Trump tuíta “Blown to hell” (“explodidos para o inferno”), Pequim está silenciosamente cortando o fornecimento da molécula da qual depende a produção global de alimentos.
A guerra da qual ninguém fala é, muitas vezes, a mais eficaz.
*Christophe Ginisty é especialista em inteligência de mídias sociais e fundador da Agorep Research. Autor do livro Le Pantin de la Maison Blanche: Comment le pouvoir réel s’exerce pendant que Trump fait le spectacle.
Publicado originalmente no X (ex-Twitter) do autor [https://x.com/cginisty/status/2043658080768909446]
Este é o segundo artigo de uma série de textos selecionados por Ruben Bauer Naveira. Para ler o primeiro clique em https://aterraeredonda.com.br/a-crise-global-de-alimentos/

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