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Verdadeiro e falso

Do A Terra É Redonda, 24 de abril 2026
Por RENATO ORTIZ*



A dissolução das fronteiras entre o real e a representação na hipermodernidade instaura o império do simulacro, onde a narrativa digital prescinde de referentes concretos para validar sua própria veracidade

1.
Bem à vista, no alto da porta, a placa dizia: “antes de entrar no elevador verifique se você existe e se encontra parado neste andar”. A frase escrita no imperativo não deixava margem à dúvida, a inexistência de alguém tornaria inócuo seu deslocamento vertical.

René Descartes construiu seu sistema filosófico a partir de uma certeza – “Cogito, ergo sum” (Penso, logo existo). Seu axioma é reconfortante. Porém, os sofistas talvez desconfiassem desta constatação banal: a afirmação remeteria a algo concreto ou simplesmente recobriria o significado de uma suposta existência? Seria realmente possível dizer que existo ou a imagem do Eu idealizado trairia o fruto da ilusão?

Dizem que Luchino Visconti, quando no roteiro de um filme havia dois personagens falando de uma caixa de joias, mesmo que ela estivesse fechada, ele fazia questão que nela estivessem presentes joias autênticas. Acreditava que assim os atores atuariam com mais convicção em relação ao texto, como se a realidade, apenas em sua alusão, fosse um estímulo à imaginação.

Em tempos que correm, a solidez do real perdeu em convencimento, deixou de ser palpável. Houve uma época na qual ele possuía um certo encantamento, pelo menos como referência imaginada (e não falo do absoluto de Sócrates). Dizia-se que as ideologias eram falsas, mas eram capazes de parcialmente apreender a verdade; o que se denominava realidade estava ali, encoberto pela superfície do pensamento que a distorcia.

Verdadeiro e falso caminhavam juntos, embora em planos diferentes. Tudo se resumiria a uma diligência arqueológica, retirar o relevante das camadas geológicas que o encobriam. Entretanto, diante da presença latente da falsidade, as ideologias dela não se libertam, alguns pensadores propuseram uma solução ao dilema: o seu desaparecimento (Daniel Bell no livro O fim da ideologia dedicou-se a trabalhar esta ideia insensata). As crenças políticas, “imbuídas de paixão”, na sua distorção do real, seriam substituídas pelas “pessoas sensatas” por um discurso racional, ponderado, no qual os ajustes graduais tecnológicos do sistema existente predominariam. A solução almejada não vicejou, o “fim” era apenas outra ideologia.

2.
Entretanto, na hipermodernidade as coisas se transformaram, a paixão, longe de esmorecer, tornou-se complemento inseparável da expressão narcísica, particularmente nas redes sociais. De alguma maneira a virtude da sensatez tornou-se escassa. O negacionismo climático, a desconfiança na ciência, a crença nas teorias conspiratórias, as explicações de superioridade racial, são evidências que a era da pós-verdade privilegia as narrativas, e sabe-se, a autenticidade de um relato esgota-se em si mesma.

Eles podem ser extraordinários ou hiperbólicos, mas o enunciado é em si a demonstração de sua própria veracidade: a Terra não é redonda; o homem não chegou à lua; somos governados por reptilianos – organização esotérica que remonta a uma época na qual os humanos descendiam de lagartos extraterrestres.

Cada uma dessas afirmações se apresenta como fato, algo que não pode ser contradito pela razão ou o bom senso. Elas não constituem propriamente o que se denomina de fake news, são “histórias” (palavra recorrente no vocabulário digital) que se estruturam a partir de uma narrativa ordenada e ilógica. Neste sentido, o esforço de explicitação de sua falsidade é inócuo (como fazem os sites de verificação das notícias), a distância entre o falso e o verdadeiro encurtou, torna-se irrelevante.

Jean Baudrillard fazia uma distinção entre simulação e simulacro. Originalmente o termo simulação encerrava uma conotação exclusivamente negativa, era sinônimo de fingimento, dissimulação. Porém, ele se aplica também a um domínio de positividade, isto é, um exercício de imaginação a respeito de algo ainda inexistente; aquilo que falta é projetado como uma espécie de mimese da realidade.

É neste sentido que a “simulação computacional” (rebatizada como inteligência artificial) projetava no espaço de uma máquina, o computador, algumas das habilidades da mente humana. Entretanto, toda simulação possui um referente real que a antecede. Talvez por isso os linguistas digam que uma boa metáfora para se representar a inteligência artificial é a da maquete; ela é uma projeção daquilo que deverá ser, isto é, o registro de realidade que se supõe existir.

A natureza do simulacro é outra, trata-se de uma simulação levada ao paroxismo, neste caso a referência ao real se anula, inexiste. A verdade encontra-se em sua omnipresença revelada. Ou como diz a epígrafe do livro de Jean Baudrillard, uma citação do Eclesiastes: “o simulacro nunca oculta a verdade – é a verdade que oculta o que não existe. O simulacro é verdadeiro” (versículo apócrifo, inventado pelo próprio autor).

Imobilizado diante da placa estou envolto pelas dúvidas existenciais, o caminho a seguir é nebuloso. Que direção tomar? Os atos quotidianos necessitam de balizas seguras, não é propício se perder nas divagações filosóficas, elas nos enredam em sutilezas movediças.

Os antigos monges diziam ser preciso nos afastar das tentações do deserto, a vaidade intelectual era uma delas, pavimentava a senda da descrença em detrimento da verdade do mundo. Foi quando me lembrei da máxima que li na porta do elevador de um hotel em San Francisco.

Tinha me hospedado em um andar alto e desfrutava da vista da baía ao meu entorno. O aviso era simples, direto e alentador, sem hesitação ou subterfúgios advertia em letras garrafais: “em caso de incêndio use as escadas; em caso de terremoto aguarde instruções”.

*Renato Ortiz é professor titular do Departamento de Sociologia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de O universo do luxo (Alameda). [https://amzn.to/3XopStv]

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