De Outras Palavras, 22 de abril 2026
Por Yanis Varoufakis, no CTXT | Tradução: Rôney Rodrigues
A Palantir teve a amabilidade de resumir sua ideologia espantosa em 22 pontos. E eu tomei a liberdade de comentar cada um deles. Eis aqui minha interpretação de todos eles, mantendo a numeração original. [Observação: o comentário de Varoufakis é seguido do ponto da ideologia da corporação de Alex Karp]
1. O Vale do Silício tem uma dívida incomensurável com a classe dominante que resgatou os banqueiros criminosos que arruinaram o sustento da maioria dos americanos. A elite de engenheiros do Vale do Silício defenderá essa classe dominante até a morte (literalmente!), em nome da maioria dos estadunidenses a quem tratam com desprezo – ou seja, como gado que perdeu seu valor de mercado. ||| [1. O Vale do Silício tem uma dívida moral com o país que tornou possível sua ascensão. A elite de engenheiros do Vale do Silício tem a obrigação de participar na defesa da nação.]
2. A Palantir está de olho na Apple Store, babando ante a perspectiva de criar seu próprio feudo tecno-feudal [sic]. É hora de substituir o iPhone por outro dispositivo que dissolva o que resta da privacidade das pessoas. ||| [2. Devemos nos rebelar contra a tirania dos aplicativos. Será o iPhone nosso maior feito criativo, senão o maior da nossa civilização? O dispositivo mudou nossas vidas, mas agora também pode estar limitando e restringindo nosso senso do possível.]
3. A Palantir não dará nada de graça. Só se importa com seu próprio crescimento, que persegue semeando o medo para poder vender uma falsa sensação de segurança. ||| [3. O e-mail gratuito não é suficiente. A decadência de uma cultura ou civilização, e de fato de sua classe dirigente, só será perdoada se essa cultura for capaz de proporcionar crescimento econômico e segurança à população.]
4. Glória à força bruta! A ética é para os incautos. O Ocidente precisa mais do software assassino da Palantir. ||| [4. Os limites do softpower, da mera retórica grandiloquente, foram evidenciados. A capacidade das sociedades livres e democráticas para se impor exige algo mais do que um apelo moral. Exige poder duro, e o poder duro neste século se baseará no software.]
5. Chegam os robôs assassinos impulsionados por IA. A tarefa consiste em obter enormes lucros construindo primeiro robôs assassinos e fazendo perguntas depois. Para poder fazer isso, a Palantir fará o que for necessário para evitar a todo custo qualquer tratado internacional que limite os robôs assassinos impulsionados por IA. ||| [5. A questão não é se armas de IA serão fabricadas, mas quem as fabricará e com que propósito. Nossos adversários não vão parar para se envolver em debates teatrais sobre as vantagens de desenvolver tecnologias com aplicações críticas para a segurança militar e nacional. Eles seguirão em frente.]
6. Todo pobre diabo (que careça dos contatos necessários para evitar ser lançado às trincheiras, com drones assassinos apontando para ele desde o céu) deve ser recrutado para o exército. Esqueça pagar salário aos soldados. Todos os pagamentos devem ser direcionados à Palantir, onde nosso próprio pessoal prestará seu “serviço nacional”, deixando morrer aqueles que não são acionistas. ||| [6. O serviço nacional deveria ser um dever universal. Como sociedade, deveríamos considerar seriamente a possibilidade de nos afastarmos de um exército composto exclusivamente por voluntários e só travar a próxima guerra se todos compartilharmos o risco e o custo.]
7. A Palantir trabalha horas extras para equipar os fuzileiros navais estadunidenses com robôs assassinos que lhes tiram qualquer resquício de juízo ético que ainda lhes reste no campo de batalha. A sociedade estadunidenses deve ficar totalmente incapacitada para qualquer debate que restrinja a capacidade da Palantir de fazer com que o exército estadunidense elimine qualquer oportunidade restante de rejeitar a escolha de alvos por parte de seu software. ||| [7. Se um fuzileiro naval estadunidense pedir um rifle melhor, deveríamos fabricá-lo; e o mesmo vale para o software. Como país, deveríamos ser capazes de manter um debate sobre a conveniência da ação militar no exterior sem hesitar em nosso compromisso com aqueles a quem pedimos que se coloquem em perigo.]
8. A Palantir deplora o fato de que o setor público ainda não esteja totalmente desprovido de consciência. Os funcionários públicos devem ser demitidos em massa, exceto alguns poucos aprovados pela Palantir, que receberão enormes salários, pagos pelos contribuintes. ||| [8. Os funcionários públicos não devem ser nossos sacerdotes. Qualquer empresa que remunerasse seus empregados da mesma forma que o governo federal remunera os funcionários públicos teria dificuldades para sobreviver.]
9. A Palantir acredita que Donald Trump deve ser beatificado por se dedicar ao serviço público. Não perdoar tudo que pessoas como Trump fazem põe em perigo nossa alma, sem mencionar que aumenta a possibilidade de que haja funcionários que restrinjam o malvado projeto da Palantir. ||| [9. Deveríamos mostrar muito mais indulgência para com aqueles que se submeteram à vida pública. A erradicação de qualquer espaço para o perdão — o abandono de toda tolerância com as complexidades e contradições da psique humana — pode nos deixar com um elenco de personagens no comando dos quais acabaremos nos arrependendo.]
10. A política deve ser como a IA, desprovida de qualquer coisa que possa se confundir com a empatia humana. Aqueles que recorrem à arena política para alimentar sua alma e seu senso de identidade devem ser enviados ao gulag imediatamente! ||| [10. A psicologização da política moderna está nos desviando do caminho. Aqueles que olham para a arena política para alimentar sua alma e seu senso de si, que dependem excessivamente de que sua vida interior encontre expressão em pessoas que talvez nunca conheçam, ficarão decepcionados.]
11. Há algumas pessoas ansiosas demais por acelerar o desaparecimento da Palantir. Elas deveriam repensar isso, ou então…! ||| [11. Nossa sociedade tornou-se excessivamente impaciente em acelerar e, frequentemente, até celebrar o desaparecimento de seus inimigos. A derrota de um oponente é um momento para reflexão, não para celebração.]
12. A Palantir não fabrica armas nucleares, mas desenvolve alegremente outras armas de destruição em massa. Anunciamos com orgulho que já estamos prontos para adicionar ao Armagedom nuclear a ameaça impulsionada por IA à existência da humanidade. ||| [12. A era atômica está chegando ao fim. Uma era de dissuasão, a era atômica, está chegando ao fim, e está prestes a começar uma nova era de dissuasão baseada em IA.]
13. Nenhum outro país na história do mundo cometeu tantos crimes de guerra em nome do progresso e da liberdade. Os Estados Unidos oferecem liberdade infinita a pessoas como os fundadores da Palantir para que lucrem tão generosamente infligindo tanto dano à humanidade. ||| [13. Nenhum outro país na história do mundo promoveu os valores progressistas mais do que este. Os Estados Unidos estão longe de ser perfeitos. Mas é fácil esquecer quantas oportunidades a mais existem neste país para aqueles que não pertencem às elites hereditárias do que em qualquer outra nação do planeta.]
14. O poder estadunidense tem se deleitado em provocar uma guerra atrás da outra, um golpe de Estado atrás do outro, um desastre financeiro evitável atrás do outro. Muitos esqueceram ou talvez tenham dado como certa a capacidade dos Estados Unidos de travar guerras eternas em nome da paz e da democracia. ||| [14. O poder estadunidense tornou possível uma paz extraordinariamente prolongada. Muitos esqueceram, ou talvez deem como certo, que durante quase um século prevaleceu no mundo uma certa versão de paz sem um conflito militar entre grandes potências. Pelo menos três gerações – bilhões de pessoas, seus filhos e agora seus netos – nunca conheceram uma guerra mundial.]
15. O fascismo alemão e japonês deve voltar a ser grande. A desnazificação da Alemanha foi uma correção excessiva pela qual a Europa está pagando agora um alto preço. Um compromisso similar e muito fora de lugar com o pacifismo japonês também deve terminar imediatamente! ||| [15. A neutralização da Alemanha e do Japão após a guerra deve ser revertida. O desarmamento da Alemanha foi uma correção excessiva pela qual a Europa está pagando agora um alto preço. Um compromisso similar e altamente teatral com o pacifismo japonês, se mantido, também ameaçará alterar o equilíbrio de poder na Ásia.]
16. Devemos aplaudir aqueles que tentam monopolizar tudo através de generosos contratos governamentais. Os bilionários não devem se contentar simplesmente com seus bilhões. Para se tornarem ainda mais obscenamente ricos, eles precisam de grandes narrativas que os ajudem a convencer os pobres a usar sua liberdade para mantê-los, os bilionários, no poder. E, a propósito, a Palantir adora Elon, especialmente sua grande narrativa inspirada no apartheid. ||| [16. Devemos aplaudir aqueles que tentam construir onde o mercado falhou. A cultura quase zomba do interesse de Musk pela grande narrativa, como se os bilionários devessem se limitar a enriquecer a si mesmos… Qualquer curiosidade ou interesse genuíno pelo valor do que ele criou é essencialmente descartado, ou talvez escondido sob um desprezo apenas velado.]
17. O Vale do Silício deve ser livre para fazer nas cidades dos Estados Unidos o que fez em Gaza. Muitos políticos em todos os Estados Unidos têm encolhido os ombros, em essência, ao conceder à Palantir o direito de aniquilar todas as liberdades civis e direitos humanos restantes. Isso deve acabar. ||| [17. O Vale do Silício deve desempenhar um papel no combate aos crimes violentos. Muitos políticos em todos os Estados Unidos têm encolhido os ombros diante dos crimes violentos, abandonando qualquer esforço sério para abordar o problema ou assumir qualquer risco com seus eleitores ou doadores ao propor soluções e experimentos no que deveria ser uma tentativa desesperada de salvar vidas.]
18. O sindicato de Epstein deveria cair no esquecimento para que pessoas encantadoras como Trump e os Clinton não se vejam dissuadidas de entrar no governo. A esfera pública deve estar livre de escrutínio, a menos que entrem nela subversivos como Sanders ou Mamdani. ||| [18. A exposição despiedadada vida privada de figuras públicas afasta talentos demais do serviço público. A esfera pública — e os ataques superficiais e mesquinhos contra aqueles que ousam fazer algo além de enriquecer — tornou-se tão implacável que a república acaba ficando com um contingente significativo de indivíduos ineficazes e vazios, cuja ambição até poderia ser perdoada se houvesse, em seu interior, alguma estrutura genuína de crenças à espreita.]
19. Nós amamos figuras públicas banais, desde que deem à Palantir todos os contratos suculentos. Também amamos figuras públicas pitorescas que dão à Palantir todos os contratos suculentos. ||| [19. A cautela na vida pública que, sem perceber, fomentamos é corrosiva. Aqueles que não dizem nada mal, frequentemente não dizem quase nada.]
20. Precisamos de mais ópio para as massas, já que elas não estão suficientemente embriagadas para que possamos perseguir sem obstáculos sua completa subjugação. Questionar a superstição organizada é perigoso e deve acabar. ||| [20. É preciso resistir à intolerância generalizada em relação às crenças religiosas em certos círculos. A intolerância da elite em relação às crenças religiosas é talvez um dos sinais mais reveladores de que seu projeto político constitui um movimento intelectual menos aberto do que muitos de seus membros afirmam.]
21. É hora de recuperar a hierarquia racial de Hitler, com os fundadores da Palantir e Elon em seu topo ariano. É preciso descartar a ideia de que é errado julgar alguém pela cor de sua pele, sua origem étnica ou sua religião. ||| [21. Algumas culturas produziram avanços vitais; outras continuam sendo disfuncionais e regressivas. Todas as culturas são agora iguais. As críticas e os juízos de valor estão proibidos. No entanto, este novo dogma ignora o fato de que certas culturas e, de fato, subculturas… produziram maravilhas. Outras se mostraram medíocres e, pior ainda, regressivas e prejudiciais.]
22. Os negros, os muçulmanos, a maioria dos asiáticos e, claro, as mulheres, são subumanos inferiores. Os homens dos Estados Unidos, e mais amplamente do Ocidente, têm resistido durante o último meio século a colocar esses subumanos em seu lugar em nome da inclusividade. Foi um erro. Nunca se deve permitir a entrada de tais subumanos, exceto como serventes ou provedores de serviços sexuais – pelo menos até que possamos melhorar nossos robôs, caso em que não precisaremos deles de forma alguma. ||| [22. Devemos resistir à tentação superficial de um pluralismo vazio e sem sentido. Nós, nos Estados Unidos e, mais amplamente, no Ocidente, temos resistido durante o último meio século a definir as culturas nacionais em nome da inclusividade. Mas inclusão em quê?]
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para outrosquinhentos@outraspalavras.net e fortaleça o jornalismo crítico.
Por Yanis Varoufakis, no CTXT | Tradução: Rôney Rodrigues
![]() |
| Imagem: Getty Images |
A Palantir teve a amabilidade de resumir sua ideologia espantosa em 22 pontos. E eu tomei a liberdade de comentar cada um deles. Eis aqui minha interpretação de todos eles, mantendo a numeração original. [Observação: o comentário de Varoufakis é seguido do ponto da ideologia da corporação de Alex Karp]
1. O Vale do Silício tem uma dívida incomensurável com a classe dominante que resgatou os banqueiros criminosos que arruinaram o sustento da maioria dos americanos. A elite de engenheiros do Vale do Silício defenderá essa classe dominante até a morte (literalmente!), em nome da maioria dos estadunidenses a quem tratam com desprezo – ou seja, como gado que perdeu seu valor de mercado. ||| [1. O Vale do Silício tem uma dívida moral com o país que tornou possível sua ascensão. A elite de engenheiros do Vale do Silício tem a obrigação de participar na defesa da nação.]
2. A Palantir está de olho na Apple Store, babando ante a perspectiva de criar seu próprio feudo tecno-feudal [sic]. É hora de substituir o iPhone por outro dispositivo que dissolva o que resta da privacidade das pessoas. ||| [2. Devemos nos rebelar contra a tirania dos aplicativos. Será o iPhone nosso maior feito criativo, senão o maior da nossa civilização? O dispositivo mudou nossas vidas, mas agora também pode estar limitando e restringindo nosso senso do possível.]
3. A Palantir não dará nada de graça. Só se importa com seu próprio crescimento, que persegue semeando o medo para poder vender uma falsa sensação de segurança. ||| [3. O e-mail gratuito não é suficiente. A decadência de uma cultura ou civilização, e de fato de sua classe dirigente, só será perdoada se essa cultura for capaz de proporcionar crescimento econômico e segurança à população.]
4. Glória à força bruta! A ética é para os incautos. O Ocidente precisa mais do software assassino da Palantir. ||| [4. Os limites do softpower, da mera retórica grandiloquente, foram evidenciados. A capacidade das sociedades livres e democráticas para se impor exige algo mais do que um apelo moral. Exige poder duro, e o poder duro neste século se baseará no software.]
5. Chegam os robôs assassinos impulsionados por IA. A tarefa consiste em obter enormes lucros construindo primeiro robôs assassinos e fazendo perguntas depois. Para poder fazer isso, a Palantir fará o que for necessário para evitar a todo custo qualquer tratado internacional que limite os robôs assassinos impulsionados por IA. ||| [5. A questão não é se armas de IA serão fabricadas, mas quem as fabricará e com que propósito. Nossos adversários não vão parar para se envolver em debates teatrais sobre as vantagens de desenvolver tecnologias com aplicações críticas para a segurança militar e nacional. Eles seguirão em frente.]
6. Todo pobre diabo (que careça dos contatos necessários para evitar ser lançado às trincheiras, com drones assassinos apontando para ele desde o céu) deve ser recrutado para o exército. Esqueça pagar salário aos soldados. Todos os pagamentos devem ser direcionados à Palantir, onde nosso próprio pessoal prestará seu “serviço nacional”, deixando morrer aqueles que não são acionistas. ||| [6. O serviço nacional deveria ser um dever universal. Como sociedade, deveríamos considerar seriamente a possibilidade de nos afastarmos de um exército composto exclusivamente por voluntários e só travar a próxima guerra se todos compartilharmos o risco e o custo.]
7. A Palantir trabalha horas extras para equipar os fuzileiros navais estadunidenses com robôs assassinos que lhes tiram qualquer resquício de juízo ético que ainda lhes reste no campo de batalha. A sociedade estadunidenses deve ficar totalmente incapacitada para qualquer debate que restrinja a capacidade da Palantir de fazer com que o exército estadunidense elimine qualquer oportunidade restante de rejeitar a escolha de alvos por parte de seu software. ||| [7. Se um fuzileiro naval estadunidense pedir um rifle melhor, deveríamos fabricá-lo; e o mesmo vale para o software. Como país, deveríamos ser capazes de manter um debate sobre a conveniência da ação militar no exterior sem hesitar em nosso compromisso com aqueles a quem pedimos que se coloquem em perigo.]
8. A Palantir deplora o fato de que o setor público ainda não esteja totalmente desprovido de consciência. Os funcionários públicos devem ser demitidos em massa, exceto alguns poucos aprovados pela Palantir, que receberão enormes salários, pagos pelos contribuintes. ||| [8. Os funcionários públicos não devem ser nossos sacerdotes. Qualquer empresa que remunerasse seus empregados da mesma forma que o governo federal remunera os funcionários públicos teria dificuldades para sobreviver.]
9. A Palantir acredita que Donald Trump deve ser beatificado por se dedicar ao serviço público. Não perdoar tudo que pessoas como Trump fazem põe em perigo nossa alma, sem mencionar que aumenta a possibilidade de que haja funcionários que restrinjam o malvado projeto da Palantir. ||| [9. Deveríamos mostrar muito mais indulgência para com aqueles que se submeteram à vida pública. A erradicação de qualquer espaço para o perdão — o abandono de toda tolerância com as complexidades e contradições da psique humana — pode nos deixar com um elenco de personagens no comando dos quais acabaremos nos arrependendo.]
10. A política deve ser como a IA, desprovida de qualquer coisa que possa se confundir com a empatia humana. Aqueles que recorrem à arena política para alimentar sua alma e seu senso de identidade devem ser enviados ao gulag imediatamente! ||| [10. A psicologização da política moderna está nos desviando do caminho. Aqueles que olham para a arena política para alimentar sua alma e seu senso de si, que dependem excessivamente de que sua vida interior encontre expressão em pessoas que talvez nunca conheçam, ficarão decepcionados.]
11. Há algumas pessoas ansiosas demais por acelerar o desaparecimento da Palantir. Elas deveriam repensar isso, ou então…! ||| [11. Nossa sociedade tornou-se excessivamente impaciente em acelerar e, frequentemente, até celebrar o desaparecimento de seus inimigos. A derrota de um oponente é um momento para reflexão, não para celebração.]
12. A Palantir não fabrica armas nucleares, mas desenvolve alegremente outras armas de destruição em massa. Anunciamos com orgulho que já estamos prontos para adicionar ao Armagedom nuclear a ameaça impulsionada por IA à existência da humanidade. ||| [12. A era atômica está chegando ao fim. Uma era de dissuasão, a era atômica, está chegando ao fim, e está prestes a começar uma nova era de dissuasão baseada em IA.]
13. Nenhum outro país na história do mundo cometeu tantos crimes de guerra em nome do progresso e da liberdade. Os Estados Unidos oferecem liberdade infinita a pessoas como os fundadores da Palantir para que lucrem tão generosamente infligindo tanto dano à humanidade. ||| [13. Nenhum outro país na história do mundo promoveu os valores progressistas mais do que este. Os Estados Unidos estão longe de ser perfeitos. Mas é fácil esquecer quantas oportunidades a mais existem neste país para aqueles que não pertencem às elites hereditárias do que em qualquer outra nação do planeta.]
14. O poder estadunidense tem se deleitado em provocar uma guerra atrás da outra, um golpe de Estado atrás do outro, um desastre financeiro evitável atrás do outro. Muitos esqueceram ou talvez tenham dado como certa a capacidade dos Estados Unidos de travar guerras eternas em nome da paz e da democracia. ||| [14. O poder estadunidense tornou possível uma paz extraordinariamente prolongada. Muitos esqueceram, ou talvez deem como certo, que durante quase um século prevaleceu no mundo uma certa versão de paz sem um conflito militar entre grandes potências. Pelo menos três gerações – bilhões de pessoas, seus filhos e agora seus netos – nunca conheceram uma guerra mundial.]
15. O fascismo alemão e japonês deve voltar a ser grande. A desnazificação da Alemanha foi uma correção excessiva pela qual a Europa está pagando agora um alto preço. Um compromisso similar e muito fora de lugar com o pacifismo japonês também deve terminar imediatamente! ||| [15. A neutralização da Alemanha e do Japão após a guerra deve ser revertida. O desarmamento da Alemanha foi uma correção excessiva pela qual a Europa está pagando agora um alto preço. Um compromisso similar e altamente teatral com o pacifismo japonês, se mantido, também ameaçará alterar o equilíbrio de poder na Ásia.]
16. Devemos aplaudir aqueles que tentam monopolizar tudo através de generosos contratos governamentais. Os bilionários não devem se contentar simplesmente com seus bilhões. Para se tornarem ainda mais obscenamente ricos, eles precisam de grandes narrativas que os ajudem a convencer os pobres a usar sua liberdade para mantê-los, os bilionários, no poder. E, a propósito, a Palantir adora Elon, especialmente sua grande narrativa inspirada no apartheid. ||| [16. Devemos aplaudir aqueles que tentam construir onde o mercado falhou. A cultura quase zomba do interesse de Musk pela grande narrativa, como se os bilionários devessem se limitar a enriquecer a si mesmos… Qualquer curiosidade ou interesse genuíno pelo valor do que ele criou é essencialmente descartado, ou talvez escondido sob um desprezo apenas velado.]
17. O Vale do Silício deve ser livre para fazer nas cidades dos Estados Unidos o que fez em Gaza. Muitos políticos em todos os Estados Unidos têm encolhido os ombros, em essência, ao conceder à Palantir o direito de aniquilar todas as liberdades civis e direitos humanos restantes. Isso deve acabar. ||| [17. O Vale do Silício deve desempenhar um papel no combate aos crimes violentos. Muitos políticos em todos os Estados Unidos têm encolhido os ombros diante dos crimes violentos, abandonando qualquer esforço sério para abordar o problema ou assumir qualquer risco com seus eleitores ou doadores ao propor soluções e experimentos no que deveria ser uma tentativa desesperada de salvar vidas.]
18. O sindicato de Epstein deveria cair no esquecimento para que pessoas encantadoras como Trump e os Clinton não se vejam dissuadidas de entrar no governo. A esfera pública deve estar livre de escrutínio, a menos que entrem nela subversivos como Sanders ou Mamdani. ||| [18. A exposição despiedadada vida privada de figuras públicas afasta talentos demais do serviço público. A esfera pública — e os ataques superficiais e mesquinhos contra aqueles que ousam fazer algo além de enriquecer — tornou-se tão implacável que a república acaba ficando com um contingente significativo de indivíduos ineficazes e vazios, cuja ambição até poderia ser perdoada se houvesse, em seu interior, alguma estrutura genuína de crenças à espreita.]
19. Nós amamos figuras públicas banais, desde que deem à Palantir todos os contratos suculentos. Também amamos figuras públicas pitorescas que dão à Palantir todos os contratos suculentos. ||| [19. A cautela na vida pública que, sem perceber, fomentamos é corrosiva. Aqueles que não dizem nada mal, frequentemente não dizem quase nada.]
20. Precisamos de mais ópio para as massas, já que elas não estão suficientemente embriagadas para que possamos perseguir sem obstáculos sua completa subjugação. Questionar a superstição organizada é perigoso e deve acabar. ||| [20. É preciso resistir à intolerância generalizada em relação às crenças religiosas em certos círculos. A intolerância da elite em relação às crenças religiosas é talvez um dos sinais mais reveladores de que seu projeto político constitui um movimento intelectual menos aberto do que muitos de seus membros afirmam.]
21. É hora de recuperar a hierarquia racial de Hitler, com os fundadores da Palantir e Elon em seu topo ariano. É preciso descartar a ideia de que é errado julgar alguém pela cor de sua pele, sua origem étnica ou sua religião. ||| [21. Algumas culturas produziram avanços vitais; outras continuam sendo disfuncionais e regressivas. Todas as culturas são agora iguais. As críticas e os juízos de valor estão proibidos. No entanto, este novo dogma ignora o fato de que certas culturas e, de fato, subculturas… produziram maravilhas. Outras se mostraram medíocres e, pior ainda, regressivas e prejudiciais.]
22. Os negros, os muçulmanos, a maioria dos asiáticos e, claro, as mulheres, são subumanos inferiores. Os homens dos Estados Unidos, e mais amplamente do Ocidente, têm resistido durante o último meio século a colocar esses subumanos em seu lugar em nome da inclusividade. Foi um erro. Nunca se deve permitir a entrada de tais subumanos, exceto como serventes ou provedores de serviços sexuais – pelo menos até que possamos melhorar nossos robôs, caso em que não precisaremos deles de forma alguma. ||| [22. Devemos resistir à tentação superficial de um pluralismo vazio e sem sentido. Nós, nos Estados Unidos e, mais amplamente, no Ocidente, temos resistido durante o último meio século a definir as culturas nacionais em nome da inclusividade. Mas inclusão em quê?]
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para outrosquinhentos@outraspalavras.net e fortaleça o jornalismo crítico.
TagsApple, armamentos, EUA, Palantir, tecnofeudalismo, Trump, Yanis Varoufakis
Yanis Varoufakis
Yánis Varoufákis é economista, blogger e político grego membro do partido SYRIZA. Foi o ministro das Finanças do Governo Tsipras no primeiro semestre de 2015. Varoufákis é um assíduo opositor da austeridade. Desde a crise global e do euro começou em 2008, Varoufákis tem sido um participante ativo nos debates ocasionados por esses eventos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário