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Universidade e cidade

Do A Terra É Redonda,25 de abril 2026
Por ADALBERTO DA SILVA RETTO JR.*


Imagem: Pavel Danilyuk

O campus deixa de ser concebido como unidade autônoma para se afirmar como parte de um ecossistema urbano-territorial, no qual fluxos, redes e processos importam mais do que limites físicos

O campus como problema urbano e político

A separação entre universidade e cidade não é um acidente do urbanismo moderno — é uma construção histórica e política. Ao longo do século XX, a consolidação dos campi universitários como estruturas autônomas instituiu territórios relativamente isolados, marcados por baixa permeabilidade e frágil interação com o entorno. Mais do que uma escolha técnica, esse modelo expressa uma racionalidade que dissocia a produção de conhecimento da vida urbana, inscrevendo a universidade em uma lógica de apartação espacial.

No Brasil, essa dissociação assume contornos ainda mais nítidos. A implantação de campi em áreas periféricas — frequentemente apresentada como solução funcional ou fundiária — foi também parte de uma estratégia de ordenamento político do território, particularmente durante a ditadura militar (1964–1985). Ao deslocar estudantes e docentes para áreas afastadas dos centros urbanos, reduziu-se sua exposição a dinâmicas de mobilização e contestação. O campus, nesse contexto, operou como dispositivo espacial de controle.

Essa lógica não se esgota no período autoritário. Em muitos casos, a expansão universitária articulou-se também a dinâmicas de “curral eleitoral”, nas quais grandes investimentos públicos funcionaram como instrumentos de consolidação de poder local e regional. A universidade, longe de ser apenas espaço de formação e pesquisa, foi mobilizada como vetor simbólico e material de estratégias políticas, reforçando práticas clientelistas e relações de dependência.

O resultado é um modelo persistente: o campus como enclave. Espaço tecnicamente qualificado, economicamente dinâmico, mas funcionalmente dissociado da cidade. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que esses campi impulsionaram economias locais — estimulando comércio, serviços e infraestrutura —, consolidaram barreiras físicas e sociais que fragmentam o tecido urbano.

Esse legado permanece ativo. Décadas após a redemocratização, a universidade brasileira continua marcada por estruturas espaciais e institucionais que reproduzem essa separação. O desafio contemporâneo não é apenas ampliar o acesso ao ensino superior, mas redefinir o papel territorial da universidade pública.

O campus deixa, então, de ser apenas suporte das atividades acadêmicas para se afirmar como problema urbano e político: um território que concentra recursos, infraestruturas e conhecimento, mas cuja relação com a cidade permanece incompleta, desigual e, muitas vezes, excludente.

É nesse quadro que se insere a experiência do campus da UNESP em Bauru. Mais do que um caso específico, ele evidencia uma condição recorrente nas cidades médias brasileiras: grandes equipamentos públicos implantados em áreas periféricas, próximos a remanescentes ambientais, mas pouco integrados às dinâmicas urbanas.

A proposta de reinserção do campus emerge, assim, não como um exercício técnico, mas como uma tomada de posição. Não se trata de “abrir” o campus, mas de reconfigurar suas relações com o território, questionando os próprios fundamentos do modelo que o produziu.

Essa reconfiguração implica reconhecer o território como campo de disputa e de interdependência, no qual dimensões ambientais, sociais, econômicas e institucionais se entrelaçam. Significa também recolocar o planejamento urbano em sua dimensão política, interrogando quem produz o espaço, com quais instrumentos e em benefício de quem.

Nesse sentido, a noção de “dimensão pública” deixa de ser um dado e passa a ser um problema. A erosão contemporânea do público — visível na privatização de espaços, na fragmentação urbana e na crescente securitização — exige revisitar criticamente as condições de produção do comum. A universidade, como instituição pública, não está fora desse processo: ela o expressa e, potencialmente, pode transformá-lo.

A reinserção do campus, portanto, não se limita à reconexão física, mas configura-se como estratégia de regeneração urbana capaz de qualificar periferias e rearticular relações territoriais. Em vez de reforçar a separação, propõe-se operar sobre suas fissuras.

Reinserção do campus e a cidade como ecossistema

O campus da Unesp em Bauru explicita uma tensão cada vez mais presente nos territórios contemporâneos. De um lado, a intensificação de dispositivos de controle e segurança, que tendem a fechar o campus sobre si mesmo. De outro, a necessidade de integrá-lo a um território mais amplo, marcado por fragilidades urbanas e ambientais.

Essa tensão não é apenas funcional — é política. O fechamento progressivo dos campi responde a demandas legítimas por segurança, mas também reforça dinâmicas de segregação e exclusão. Ao limitar a permeabilidade e o acesso, restringe-se não apenas a circulação, mas a própria possibilidade de imaginar o campus como espaço público.

Reverter esse quadro exige mais do que intervenções pontuais. Implica deslocar o foco do objeto arquitetônico para as relações territoriais que o constituem. A reinserção passa a ser entendida como processo de regeneração urbana, no qual o campus atua como catalisador de transformações mais amplas.

No caso de Bauru, essa perspectiva adquire particular relevância. O campus situa-se em uma área periférica, próxima a remanescentes significativos de cerrado e floresta estacional semidecidual, configurando um território ao mesmo tempo estratégico e sensível. Ao lado disso, apresenta um déficit expressivo de habitação estudantil, que evidencia a dissociação entre infraestrutura acadêmica e condições de permanência.

A proposta de reinserção articula essas questões a partir de três frentes principais — espaço público, infraestrutura ecológica e habitação — entendidas não como elementos isolados, mas como dimensões interdependentes de um mesmo processo territorial.

A criação de uma esplanada pública, por exemplo, não se reduz a um gesto formal: busca instituir um espaço de mediação entre universidade e cidade, capaz de acolher usos diversos e reativar a centralidade do campus. O parque, por sua vez, opera como infraestrutura ecológica, conectando o campus a sistemas ambientais mais amplos e afirmando a dimensão ambiental como elemento estruturante do projeto. Já a habitação estudantil introduz uma dimensão decisiva: a presença cotidiana, a permanência e a mistura de usos, fundamentais para romper a lógica de enclave.

Mais do que soluções projetuais, essas estratégias indicam uma mudança de paradigma. O campus deixa de ser concebido como unidade autônoma para se afirmar como parte de um ecossistema urbano-territorial, no qual fluxos, redes e processos importam mais do que limites físicos.

Essa abordagem aproxima-se de debates contemporâneos sobre urbanismo ecológico e regenerativo, mas adquire, no contexto brasileiro, uma dimensão adicional: a de enfrentar desigualdades estruturais inscritas no território. Qualificar periferias não significa apenas levar infraestrutura, mas reconhecer e potencializar suas dinâmicas próprias.

A dimensão pública, nesse contexto, não pode ser reduzida à acessibilidade física. Ela envolve formas de apropriação, modos de gestão e disputas de significado. Perguntar quem pode usar o campus, em que condições e com quais finalidades torna-se parte central do projeto.

Ao articular ensino, pesquisa e intervenção, a experiência da UNESP Bauru revela o potencial da universidade como agente territorial. Mas esse potencial não é automático: depende de escolhas políticas, institucionais e projetuais que redefinam sua inserção na cidade.

Considerações finais

A reinserção do campus da Unesp-Bauru evidencia um deslocamento necessário no modo de pensar o planejamento urbano. O plano deixa de operar como instrumento normativo fechado para assumir a forma de dispositivo estratégico: um campo de articulação entre atores, escalas e temporalidades, capaz de orientar transformações sem determiná-las integralmente.

Essa abertura não implica fragilidade, mas condição de adaptação. Em contextos marcados por incerteza, conflito e mudança, a capacidade de ajustar-se torna-se central. O plano funciona, assim, como infraestrutura de decisões, sustentada por diretrizes estruturantes e aberta a múltiplos desdobramentos.

Ao mesmo tempo, sua origem em uma experiência didática revela uma dimensão frequentemente negligenciada: a do projeto como processo de aprendizagem coletiva. A universidade, nesse caso, não apenas intervém no território, mas aprende com ele, produzindo conhecimento situado e ampliando sua função pública.

Mais do que um caso específico, a experiência de Bauru aponta para um problema mais amplo: o papel das universidades nas cidades contemporâneas. Em um contexto de crise urbana, desigualdade e emergência climática, manter o modelo de campus como enclave torna-se cada vez mais insustentável.

Reinseri-lo no território não é apenas uma questão de desenho urbano, mas de projeto político. Significa redefinir as relações entre conhecimento, espaço e sociedade, reconhecendo a universidade como parte ativa na produção da cidade.

Entre enclave e regeneração, o campus torna-se, assim, um campo de disputa — e, ao mesmo tempo, uma possibilidade.

*Adalberto da Silva Retto Jr. é professor de Arquitetura na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

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