Por Naile Manjarrés
A característica fundamental da Revolução Iraniana é sua natureza ideológica e islâmica, mas também sua herança cultural.
Em 23 de junho de 2025 — data correspondente ao dia 2 de Tir de 1404 no calendário persa — foi anunciado um cessar-fogo entre o Irã e Israel. Essa “noite do decreto” alterou o rumo da política internacional; embora o mundo possa parecer inalterado à primeira vista, ainda não compreendemos plenamente seu impacto.
Nem Israel nem os Estados Unidos conseguiram derrotar o Irã: a Operação “True Promise III” (Wa’deh Sadegh III) foi executada em 20 ondas ao longo de uma guerra de 12 dias imposta ao Irã.
Pelo menos 150 alvos vitais e estratégicos dentro do estado fictício de Israel foram reduzidos a escombros: a sede da Mossad, o Ministério da Guerra, o Centro de Pesquisa Nuclear e o Centro de Inteligência Militar Aman (o centro de planejamento de assassinatos da Mossad), o Instituto Weizmann, a Base Aérea de Nevatim, a usina de Ashdod, a refinaria de Haifa, as indústrias militares Rafael, o prédio da Bolsa de Valores do regime assassino de crianças e dezenas de outros alvos militares e econômicos sensíveis em Tel Aviv, Haifa, Bat Yam, Rishon LeZion, Be’er Sheva e outras cidades do regime sionista.
Como testemunhas dessa vitória, é nossa responsabilidade contar a história com precisão. Esse marco é mais do que apenas um slogan; não quero chamá-lo de “guerra de 12 dias”, é o cumprimento da Verdadeira Promessa do Irã.
O Irã esperou um tempo razoável antes de responder de forma ética a Israel em abril de 2024 (Verdadeira Promessa I) e voltou a esperar em outubro de 2024 (Verdadeira Promessa II). O Irã foi criticado por isso — por não ser reativo, por se recusar a participar de massacres ou agir como Israel, por ter seu próprio calendário, seu próprio ritmo e seus próprios códigos. Mas, desta vez, Israel havia ultrapassado os limites: Said Ohadi, chefe da Fundação para Assuntos de Mártires e Veteranos, declarou que, entre 13 e 24 de junho de 2025, Israel matou 1.100 pessoas e feriu mais de 5.600 no Irã.
Israel atacou a paz e a vida de crianças em suas casas — um ataque direto a uma nação que prioriza a dignidade e a proteção das crianças e da família. Qual é, então, a utilidade das Forças Armadas, senão defender seu povo e seu território?
A resposta iraniana derrubou os manuais de guerra — de Sun Tzu a Gene Sharp — aos quais estamos acostumados desde a infância. Ela provou que, mesmo nesse aspecto, as estratégias ocidentais são ultrapassadas, decadentes e obsoletas. Elas só sabem matar e depois esconder, enganar, blefar.
Já ouvi tantas vezes que não há regras na guerra, mas isso também é uma mentira, porque o Irã venceu eticamente. Eles jogaram o jogo dos outros e venceram usando as regras deles dentro da estrutura do direito internacional — o Artigo 51 da Carta das Nações Unidas estabelece que qualquer Estado-membro pode exercer seu direito à autodefesa, sozinho ou ao lado de aliados.
O Irã responde de acordo com esses termos, mas alinhado aos princípios fundadores da República Islâmica: não busca a guerra, mas demonstra tanto a determinação quanto a capacidade de responder à agressão sempre que necessário.
Hoje, a Wikipedia pode fazer o que quiser. Pode reescrever a história ou até mesmo mentir sobre quem começou a guerra. No entanto, os milhares de homens, mulheres e crianças com quem convivi durante aquelas “noites de guerra” permanecem. Sua calma, sua hospitalidade e seus gritos de “Allahu Akbar” (Deus é Grande) se opõem àqueles no Ocidente e aos sionistas que podem novamente errar ou subestimá-los.
Pouco depois de ser evacuada da universidade e de Teerã, no décimo dia da guerra, as pessoas em Caracas me perguntaram duas coisas: por que uma jovem como eu escolheu viver em um lugar tão diferente, onde se usa o hijab, e se eu havia compreendido o sistema de governo da República Islâmica.
À primeira pergunta, expliquei que a diferença cultural foi justamente a razão pela qual fui. Ouvi muitas vezes que o Irã “não era para mim”.
Quanto à segunda pergunta, respondi que havia pesquisado exaustivamente a governança do Irã muito antes de me candidatar à bolsa de estudos. Pense nisso: por que uma mãe de 35 anos, com uma filha de 14, se candidataria ao ensino superior em um país com menos direitos ou menos progresso do que o seu? Eu não faria isso. Eu buscava esclarecimento junto ao aliado estratégico do meu país, e a realidade que encontrei superou em muito minha pesquisa e minhas expectativas. O Irã desafia o paradigma e a propaganda ocidentais. Ouso dizer que é justamente porque sabem como o Irã realmente é que atacam o país tão duramente e nos bombardeiam no Ocidente com informações que estão em total contradição com a realidade da sociedade iraniana.
Posso falar agora com o benefício da retrospectiva, mas antes de poder verificar as coisas empiricamente, tive que fazer minha pesquisa.
Após o assassinato do general Qasem Soleimani em 2020, comecei a pesquisar a verdade por trás do sistema governamental e da sociedade do Irã.
Foi uma tarefa difícil. A maioria das informações que nos chega é distorcida, e os próprios canais oficiais do Irã frequentemente projetam um nível de conservadorismo e impenetrabilidade que não exatamente convida ao escrutínio estrangeiro. No entanto, meu interesse e curiosidade prevaleceram, e consegui fazer algum progresso.
Em 2023, enquanto produzia e apresentava meu programa de análise e investigação Entre Líneas, na La IguanaTV, dediquei um episódio à influência cultural do Irã como ator-chave no mundo multipolar.
A partir daí, comentei sobre o estilo de governo do Irã, um Estado teocrático que pratica o islamismo xiita duodecimano ja’fari. Enquanto o Poder Executivo, composto por um presidente e vários ministros, administra o país e o Poder Legislativo aprova leis, o Líder Supremo ocupa o topo dessa realidade republicana. Eleito por um Conselho de Especialistas sob o princípio de wilayat al-faqih, o Líder Supremo e os altos escalões do clero xiita são os detentores do poder político.
O Líder Supremo estabelece diretrizes políticas gerais com base em valores religiosos, detém autoridade significativa para supervisionar nomeações-chave e atua como Comandante-em-Chefe das Forças Armadas. Somente ele tem autoridade para declarar guerra.
Embora mais complexo do que o sistema bipartidário dos EUA ou a monarquia espanhola, este sistema é, ao mesmo tempo, mais transparente e coerente.
Se falamos de paradigmas, nos EUA sobrevive um “Estado profundo” impulsionado pelas corporações, conduzindo um sistema bipartidário que muda de cor a cada quatro anos, mas que não se corrige nem age no interesse do povo — e, ainda assim, é promovido como o único modelo de liberdade.
Na Espanha, o país é governado por uma monarquia e um governo representativo que simplesmente administra mecanismos que garantem a primazia da economia e que a população consuma e pague impostos por meio de dinâmicas exploradoras que corroem cada vez mais a unidade familiar. E isso é exportado como um modelo de sociedade.
No caso dos modelos demonizados pela mídia ocidental, especialmente o Irã, que é o nosso foco nesta história sobre histórias, por que rejeitar ou tentar abolir a existência de uma república teocrática se ela funciona em termos do que se espera de um governo (proteção, atendimento às necessidades e uma visão de futuro baseada no desenvolvimento humano integral)? Porque ela desafia o paradigma ocidental estabelecido, que é decadente e relutante em mudar ou evoluir.
Uma disputa eterna sobre o modelo cultural
A característica fundamental da Revolução Iraniana é sua natureza ideológica e islâmica, mas também sua herança cultural. Em fevereiro de 1979, após o colapso de uma monarquia que servia à dominação estrangeira, o Irã passou a ser governado sob a liderança do Imã Khomeini.
A nação abandonou o despotismo antinacionalista. Após um referendo, estabeleceu um sistema político e social islâmico centrado na nacionalização e na autogestão de seus recursos e capacidades — que são consideráveis. Naquela época, 98,2% dos eleitores eram favoráveis a esse sistema.
Durante as manifestações e os protestos massivos contra o Xá, iranianos de todos os setores e ideologias da sociedade não hesitaram em desafiar tanto Pahlavi quanto o governo dos EUA. Um sentimento comum nas ruas era: “Não queremos a versão de direitos humanos de Jimmy Carter; queremos direitos definidos por nós.”
Embora Jimmy Carter fosse visto como um defensor dos direitos humanos no Ocidente, ele não convenceu nem enganou os iranianos, que o viam apoiando cegamente um xá arrogante que esbanjava recursos públicos.
O sentimento antiamericano entre todas as faixas etárias no Irã tinha suas raízes no fato de que o regime monárquico opressivo e suas injustiças sobreviveram apenas graças ao apoio dos EUA — apoio que validava suas violações dos direitos humanos e teve início quando a CIA orquestrou um golpe contra o presidente Mohammad Mosaddegh para instalar o xá no poder.
Em 1979, após a Revolução e a promulgação de uma nova Constituição, o povo iraniano optou por uma lei clara e concisa — não excessivamente extensa e absolutamente alinhada com os versículos do Alcorão.
Quarenta e seis anos depois, percorrer o Irã me permitiu ver como uma Constituição — um compêndio de princípios que fala de um “governo exemplar” e de uma “sociedade ideal”, de acordo com seus próprios padrões —, mesmo com suas falhas e em meio a dificuldades internas e impostas, não está longe da realidade.
O terceiro princípio da Constituição iraniana estabelece que o Governo é responsável por utilizar todos os meios à sua disposição para promover o ambiente adequado ao desenvolvimento de valores morais baseados na fé e na virtude, combatendo todas as manifestações de perversão e corrupção; elevando o nível geral de conhecimento em todos os campos, proporcionando educação gratuita e treinamento físico para todos. Ele também enfatiza a expansão do ensino superior.
De acordo com esse princípio, o Estado também se compromete a fortalecer o espírito de busca da verdade, da pesquisa e da criatividade em todos os campos científicos, técnicos, culturais e islâmicos por meio da criação de centros dedicados à busca da verdade e da concessão de incentivos aos pesquisadores; a exercer uma rejeição total ao colonialismo e impedir a interferência estrangeira; abolir todas as formas de despotismo, ditadura e monopolismo; garantir as liberdades políticas e sociais dentro dos limites estabelecidos pela lei; promover a participação do povo na determinação de seu futuro político, econômico, social e cultural; eliminar a discriminação injusta e criar oportunidades iguais para todos nos aspectos materiais e espirituais; fortalecer ao máximo a estrutura de defesa nacional por meio do treinamento militar geral, a fim de salvaguardar a independência e a unidade territorial da pátria e do sistema islâmico; garantir o direito à saúde e à moradia; estabelecer uma economia sólida e equitativa e eliminar todas as formas de privação nas áreas de alimentação, moradia, trabalho e saúde, e universalizar a previdência social; assegurar a autossuficiência em ciência, tecnologia, indústria, agricultura e assuntos militares, bem como em outros campos; garantir todos os direitos individuais, tanto para mulheres quanto para homens, e estabelecer salvaguardas legais justas para todos, e igualdade de direitos perante a lei; e, finalmente, organizar a política externa do Estado com base nos valores islâmicos, no compromisso fraterno com todos os muçulmanos e no apoio total aos despossuídos do mundo.
Respiro fundo, anoto minhas observações e deixo a teoria para o final, pois testemunhei esses princípios em ação todos os dias durante quatro meses, de forma natural e orgânica. Meses repletos de múltiplas formas de paz, guerra e um amor que nada mais é do que aquele tipo de respeito almejado por uma mulher em qualquer sociedade.
Que isso sirva como uma forma de contar uma breve história que tem sido eterna. Todos os dias algo surpreendente acontece no Irã para aqueles de nós que se recusam a abrir mão de nossa capacidade de nos maravilhar.
Como estudante e residente estrangeira, conheci cinco cidades: Teerã, Qom, Mashhad, Shiraz e Bushehr, perto de Bandar Abbas, e cada uma delas mostrou um lado diferente do Irã.
Vivi ao lado de pessoas de diferentes nacionalidades, classes sociais e até mesmo crenças e ideologias em total harmonia. Nenhum título ou cargo profissional me separava do iraniano comum, e me coloquei no lugar da mulher que não sabe como usar o hijab, que não quer usá-lo, daquela que usa uma boina na boêmia Shiraz e também daquela que usa um chador na cidade sagrada de Mashhad; não me limitei a olhar para onde queria, mas observei com atenção, abrindo minha mente e meu coração, e tudo o que não conseguia acreditar ou não compreendia eu consultava em um pequeno livro verde que comprei na Feira do Livro de Caracas um ano antes, quando percebi que, para entender os conflitos na Ásia Ocidental e todas as mentiras que nos contam sobre essa região, eu precisava abrir meus olhos para o Islã e suas diversas correntes.
Além de qualquer especulação, as certezas vêm por três canais: o mais confiável e infalível é o espiritual; o mais acessível nestes tempos, a informação e o conhecimento; e o mais subutilizado: a experiência. Se alguém quiser verificar o que estou vivenciando, viaje para lá em tempos de paz ou de guerra — não importa; a sociedade iraniana se comportará da mesma maneira. Apenas certifique-se de viajar leve, tanto na bagagem quanto na mente, porque você voltará carregado e não saberá o que fazer com tantos presentes.
E se você não quiser ou não puder viajar, mas quiser saber e entender como o Irã realmente funciona, toma decisões e opera, então descubra como o outro lado pensa enquanto luta contra o maior inimigo da humanidade. Faça sua pesquisa. Leia algumas traduções de Hafez, Rumi ou Sa’di — entre os grandes poetas persas considerados heróis nacionais no Irã — e examine o Alcorão.
(*) Tradução de Raul Chiliani
Naile Manjarrés é uma escritora e jornalista investigativa venezuelana.

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