Por PEDRO PAULO ZAHLUTH BASTOS*
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| Imagem: Warren |
A superação da austeridade fiscal surge como pilar indispensável para financiar infraestruturas digitais públicas e proteger o emprego jovem contra os riscos de automação da inteligência artificial
O caso das cooperativas de plataforma
Se a inteligência artificial oferece as oportunidades de desenvolvimento descritas acima, ela também representa riscos concretos e já mensuráveis para o emprego, particularmente entre trabalhadores jovens e em início de carreira. Um estudo recente de Brynjolfsson, Chandar e Chen (2025), utilizando dados administrativos de alta frequência da ADP – a maior processadora de folha de pagamento dos Estados Unidos, com registros mensais de milhões de trabalhadores inteligência artificial –, documentou seis fatos sobre os efeitos da inteligência artificial generativa no mercado de trabalho estadunidense.
O achado central é que trabalhadores em início de carreira (22 a 25 anos) em ocupações mais expostas à inteligência artificial – como desenvolvedores de software e representantes de atendimento ao cliente – experimentaram uma queda relativa de 16% no emprego, controlando por choques no nível da firma, enquanto o emprego de trabalhadores experientes nas mesmas ocupações permaneceu estável ou cresceu. Crucialmente, os autores mostram que as reduções de emprego se concentram em usos da inteligência artificial que automatizam o trabalho, e não naqueles que o aumentam: quando a inteligência artificial complementa tarefas humanas, o emprego cresce inclusive entre jovens.
A distinção entre automação e ampliação é politicamente decisiva. Se a inteligência artificial for implantada exclusivamente segundo a lógica de redução de custos do capital privado, a tendência é de substituição massiva de trabalho em ocupações de entrada – justamente aquelas que funcionam como porta de acesso ao mercado formal para jovens. Em breve, mesmo empregos nos níveis médios das empresas podem ser substituídos pelo uso de “agentes de inteligência artificial” coordenados por equipes menores de executivos, gerentes e, quem sabe, programadores.
O executivo-chefe da Anthropic, Dario Amodei, afirmou em janeiro de 2026 que estaríamos “a 6-12 meses de modelos capazes de fazer tudo o que engenheiros de software fazem de ponta a ponta”, mencionando que engenheiros dentro da própria Anthropic já não escrevem código (AMODEI, 2026).
Não devemos esperar que o mercado crie os empregos substitutivos para os desempregados produzidos massivamente por tamanha transformação estrutural do capitalismo e sua estrutura de ocupação. Precisamos de projetos públicos, seja estatais seja de economia solidária e cooperativa. Se a inteligência artificial A for desenvolvida e implantada com governança democrática e orientação para a aumentar a autonomia e a capacidade dos trabalhadores cooperados e servidores públicos, pode gerar ganhos de produtividade compatíveis com manutenção ou expansão do emprego. A opção entre essas trajetórias não é só tecnológica: é política e institucional.
Uma proposta concreta para empoderar trabalhadores é a criação de uma rede nacional de cooperativas municipais de motoristas e entregadores, dotada de plataforma digital própria com inteligência artificial desenvolvida e mantida como infraestrutura pública. A proposta, que sintetizo aqui, parte de um diagnóstico simples: as plataformas digitais de transporte e entrega – Uber, 99, iFood, Rappi – cobram comissões de 25% a 40% do valor de cada corrida ou entrega, mas o custo marginal da tecnologia em si – servidores, algoritmos, manutenção de aplicativos – representa fração modesta do valor capturado.
O restante financia amortização de investimentos em expansão agressiva, remuneração de acionistas e estruturas corporativas transnacionais. A própria Uber cobrava inicialmente apenas 10% dos motoristas, indicando que esse patamar era suficiente para cobrir custos de plataforma.
A proposta articula três camadas: uma infraestrutura tecnológica nacional (plataforma digital como software livre, com inteligência artificial para pareamento, otimização de rotas, previsão de demanda e detecção de anomalias), cooperativas municipais regidas pela legislação cooperativista brasileira, e uma instância de coordenação nacional com governança federativa. O papel do governo federal é decisivo na primeira e na terceira camadas: o desenvolvimento e a manutenção da plataforma digital podem ser atribuídos a uma empresa pública de tecnologia (nos moldes da Serpro ou do Dataprev), a um consórcio de universidades públicas, ou a uma fundação híbrida público-cooperativa com governança tripartite (governo, cooperativas e universidades).
O financiamento inicial pode vir da Finep, do BNDES e do FNDCT, e eventualmente de bancos públicos internacionais como o Banco dos Brics. As universidades públicas contribuem por meio da Rede de Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs), presente em cerca de 60 universidades, que pode liderar a formação, a assessoria técnica e a constituição das cooperativas municipais – mobilizando competências simultâneas em engenharia de software, ciência de dados, economia solidária e extensão universitária.
Com comissões reduzidas a 5%-12%, estima-se aumento de 20% a 35% na renda líquida dos cooperados. A viabilidade está demonstrada por experiências existentes: a Coomappa de Araraquara repassa 93% a 95% do valor da corrida ao motorista; a Green Taxi Cooperative de Denver conquistou 37% do mercado local; a Drivers Cooperative de Nova York reúne mais de 5.000 membros.
As vantagens vão além do plano econômico. A plataforma cooperativa democratiza a governança do algoritmo: preços, distribuição de corridas e critérios de avaliação são decididos em assembleia, não por uma corporação opaca. Os dados de mobilidade urbana tornam-se patrimônio coletivo, úteis para planejamento público. A formalização como cooperados garante direitos previdenciários e proteção social. E a plataforma, desenvolvida como software livre, constitui ativo tecnológico reutilizável para cooperativas em outros setores – cuidadores, eletricistas, pequenos produtores rurais, artesãos.
Essa proposta tem ainda uma dimensão política que merece atenção. Motoristas de aplicativo são, tipicamente, proprietários de seus veículos e percebem-se como empreendedores autônomos, não como trabalhadores assalariados. Essa auto-identificação os afastou historicamente dos partidos de esquerda no Brasil, que operam com categorias sindicais e trabalhistas que nem sempre dialogam com a experiência de quem investe capital próprio e assume risco.
O cooperativismo de plataforma oferece exatamente o enquadramento institucional que respeita essa autonomia: o cooperado é sócio, não empregado; participa das decisões, não recebe ordens; e melhora sua renda não por regulamentação estatal do preço, mas pela eliminação do intermediário que captura parcela desproporcional do valor gerado.
Trata-se de uma proposta que pode abrir canal de diálogo com uma categoria profissional numerosa, urbana e organizada que dificilmente seria atingida por formas tradicionais de mobilização da esquerda. O modelo é generalizável: se funcionar para motoristas e entregadores, pode ser estendido a qualquer categoria de trabalhadores mediados por plataformas digitais.
Síntese – reforma fiscal como pré-condição geopolítica
Retorno ao argumento central: as parcerias estratégicas e as alternativas democráticas de uso da inteligência artificial descritas acima não são viáveis sem a reforma fiscal que proponho. Joint ventures substantivas exigem que o parceiro brasileiro entre com capital e capacitação científica, não apenas com território e mão-de-obra barata.
Transferência tecnológica genuína só ocorre quando o receptor demonstra capacidade de absorção e inovação própria, o que exige investimentos massivos em educação, pesquisa e desenvolvimento institucional. Por exemplo, as plataformas cooperativas com inteligência artificial de qualidade exigem investimento público em tecnologia e formação para competir com plataformas transnacionais. Autonomia tecnológica não se conquista com passividade fiscal.
Nesse contexto, é analiticamente significativo – e politicamente preocupante – que integrantes da própria equipe econômica do governo Lula venham sinalizando, para o mandato pós-2026, reformas fiscais que aprofundariam a austeridade em vez de revertê-la. Declarações públicas do secretário do Tesouro Rogério Ceron e da ex-ministra do Planejamento Simone Tebet apontam na direção de novas reformas previdenciárias e de contenção de despesas obrigatórias em saúde e educação – ou seja, exatamente a agenda de consolidação fiscal pelo lado da despesa social que o mercado financeiro demanda.
O fato de essa agenda ser naturalizada e vocalizada pela equipe econômica de um governo de centro-esquerda indica a profundidade com que a lógica da austeridade penetrou o aparato estatal, a ponto de os próprios gestores que deveriam promover a expansão do investimento público tornarem-se portadores do discurso que a inviabiliza.
A reforma fiscal que defendo vai na direção inversa. Não se trata de comprimir despesas obrigatórias para gerar superávits primários que acalmem credores – estratégia que, além de socialmente perversa, é economicamente contraproducente, pois deprime a demanda agregada e reduz a própria base tributária. Trata-se de excluir gastos correntes e investimentos estratégicos do teto de gastos para que o Estado recupere sua capacidade de induzir o desenvolvimento, financiando essa expansão com crescimento econômico (que amplia receitas) e com recomposição da tributação progressiva sobre renda e patrimônio.
O momento é agora. A janela geopolítica aberta pela rivalidade sino-americana não permanecerá aberta indefinidamente. Se o Brasil não aproveitar a atual conjuntura para negociar parcerias substantivas, voltaremos à condição de receptores passivos de investimentos em setores de baixo valor agregado.
Em 2026, o Brasil estará cada vez mais dividido em torno de duas candidaturas presidenciais que, inevitavelmente, inviabilizam candidaturas alternativas em cada campo ao nuclear os polos sociais e as campanhas políticas nos estados. Por um lado, não há espaço político sério na eleição presidencial fora da polarização entre Lula e Bolsonaro no Brasil.
Por outro lado, não há como ganhar uma eleição polarizada oferecendo “menos do mesmo” com o arcabouço fiscal. Neste contexto, as críticas feitas ao arcabouço fiscal são construtivas, no sentido de buscarem alertar para o risco eleitoral da opção pela inércia neoliberal. Como alternativa ao “menos do mesmo”, precisamos ganhar corações e mentes para um horizonte utópico de reformas viáveis.
As eleições de 2026 devem ser disputadas em torno dessa escolha civilizatória: continuar prisioneiros de uma austeridade que nos condena ao subdesenvolvimento permanente e nos ameaça com a vitória eleitoral do neofascismo, ou realizar as reformas institucionais – começando pela fiscal – que viabilizam uma estratégia soberana de inserção na economia mundial do século XXI que é compatível com desenvolvimento justo e ambientalmente sustentável.
A pergunta que coloco para debate não é se podemos fazer isso, mas se teremos a coragem política de fazê-lo.
*Pedro Paulo Zahluth Bastos é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de A era Vargas: desenvolvimentismo, economia e sociedade (Editora da Unicamp) [https://amzn.to/3RxhzIe].
Para ler a primeira parte dessa série clique em https://aterraeredonda.com.br/tecnologia-geopolitica-e-desenvolvimento/
Para ler a segunda parte dessa série clique em https://aterraeredonda.com.br/tecnologia-geopolitica-e-desenvolvimento-parte-2/

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