De Outras palavras, 30 de abril 2026
Por Brid Brennan, Gonzalo Berrón, Juliana Rodrigues de Senna e Sol Trumbo Vila, no TNI | Tradução: Rôney Rodrigues
Por Brid Brennan, Gonzalo Berrón, Juliana Rodrigues de Senna e Sol Trumbo Vila, no TNI | Tradução: Rôney Rodrigues
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Arte: Faith Ringgold – 1987 – grafite |
Introdução
“O Sul não conhece o Sul: o que acontece em seus países, quais são as ideias de seus povos, qual é o seu potencial e como a cooperação Sul-Sul pode ampliar as opções de desenvolvimento para todos. Cada país é forçado a cometer seus próprios erros, sem poder aprender com a experiência de outros em situações similares nem se beneficiar da experiência de seus êxitos.”
– O desafio para o Sul, Relatório da Comissão do Sul
Vivemos em um mundo em transformação. À medida que o capitalismo entra em um novo ciclo de acumulação e o fascismo cresce, as elites globais pressionam para remodelar a ordem mundial para que continue servindo aos interesses do imperialismo. Ao mesmo tempo, essas mudanças oferecem uma oportunidade para que os povos e as nações encontrem e desenvolvam novos caminhos rumo à solidariedade internacionalista e ao poder popular.
Mas esses caminhos não se abrirão espontaneamente. A mudança intencional requer estratégia, ideias e um entendimento comum, em escala global, dentro da diversidade de atores sociais e políticos progressistas. Não partimos do zero: os movimentos socialistas e de libertação nacional foram as lutas políticas mais inspiradoras do século passado. Com base em suas experiências e aprendendo com suas estratégias, este documento utiliza o termo “forças progressistas” para se referir ao amplo espectro da esquerda política, que abrange as diferentes formas assumidas pela resistência em nossos distintos continentes. É urgente consolidar um espaço cooperativo de diálogo e ação; caso contrário, corremos o risco de ser esmagados durante mais um ciclo de exploração e opressão, aprisionados em meio a lutas geopolíticas determinadas pelos interesses das superpotências capitalistas.
Este documento evidencia a urgência de que todas as forças progressistas do Sul global se comprometam com um plano de ação coletivo ambicioso e emancipador para mudar a ordem mundial atual. O texto é o resultado de várias rodadas de consultas informais, na África, Ásia e América Latina, com movimentos sociais, sindicatos, acadêmicos ativistas e outras organizações da sociedade civil comprometidas com o multilateralismo. Apresentam-se aqui a análise e o raciocínio que fundamentam a criação de uma Frente do Sul Global (Parte I), seus desafios e oportunidades (Parte II), e sublinham-se alguns elementos para o desenvolvimento de uma estratégia mobilizadora global e comum (Parte III).
Parte I: A (des)ordem multilateral
O chão está se movendo sob nossos pés. Tanto no Norte quanto no Sul do mundo, o sistema internacional está desmoronando. Muitos dentro das forças progressistas viam seu fim mais como um horizonte do que como um problema. No entanto, a realidade é que esse sistema decadente está afundando conosco, não por nós nem por nossa causa. Em vez de cantar vitória, ouvimos os sinos da guerra.
Durante os últimos 80 anos, críticas e esperanças compartilharam e disputaram o espaço e o espírito de nossas instituições multilaterais. O compromisso com o multilateralismo, que nunca foi um fim em si mesmo, permitiu que movimentos sociais, mulheres, povos indígenas, camponeses e pescadores, sindicatos, organizações da sociedade civil e pessoas migrantes e refugiadas impulsionassem muitas agendas globais importantes, traduzindo suas lutas em Direito Internacional por meio de declarações das Nações Unidas, processos de tratados, entre outros [1]. No entanto, ao longo desse tempo, ficou claro que as normas de tal “sistema baseado em normas” têm sido sistematicamente violadas por Estados membros que agiram impunemente. Supõe-se que todos os Estados são iguais, mas alguns são definitivamente mais iguais do que, por exemplo, o Iraque em 2003, a Líbia em 2011 ou a Venezuela nos primeiros dias de 2026.
Esses desequilíbrios de poder também se refletiram em nossa arquitetura econômica e financeira global. Em vez de privilegiar negociações multilaterais, nas quais o Sul poderia exercer algum poder coletivo de equilíbrio, o comércio mundial tem sido regido por uma rede de acordos pluri e bilaterais que vinculam a maioria dos países do Sul global como sócios subordinados a um Norte global cada vez mais rico e financeirizado. Enquanto as demandas do Mecanismo de Solução de Controvérsias Investidor-Estado (ISDS) tornam os governos do Sul reféns de investimentos abutres dos quais seus povos raramente se beneficiam, as instituições financeiras internacionais continuam jogando o jogo do poder e do imperialismo, tornando impossível que países altamente endividados possam conceber ou seguir seus próprios caminhos rumo ao desenvolvimento.
A esmagadora influência do poder corporativo e a captura sistemática que ele faz dos processos de tomada de decisão no âmbito das instituições multilaterais agrava ainda mais esse desequilíbrio. Com a premissa de estender a participação de uma gama mais ampla de “partes interessadas” nos espaços de decisão multilaterais, a “governança de múltiplas partes interessadas” logo se transformou no chamado multistakeholderismo, um processo de captura corporativa do multilateralismo por meio de portas giratórias, lobby empresarial não regulamentado e filantropia estratégica. Projetado por pessoas como Bill Gates, com o respaldo do Fórum Econômico Mundial, a COVAX é um exemplo estarrecedor de como esses mecanismos permitem que empresas se sentem ao lado de Estados poderosos para decidir sobre a vida e a morte da maior parte da população do Sul global.
Tais assimetrias entre o potencial e a realidade do multilateralismo marcaram os debates entre os ativistas desde o início deste século. Uma década após o fim da Guerra Fria e a consolidação da globalização neoliberal, elas constituíam a crítica e a esperança compartilhadas nas tendas e nas mesas-redondas de muitos Fóruns Sociais Mundiais, emolduradas por um claro rechaço ao novo status quo. Desde então, a crise financeira de 2008, a pandemia, o aprofundamento de nossa emergência climática, o genocídio do povo palestino e a consolidação de uma onda macho-fascista coordenada de governos de extrema-direita em todo o mundo rasgaram ainda mais o desgastado tapete de nossa ordem mundial internacional.
Se escutarmos com muita atenção…
Tais falhas não são eventos isolados, mas sintomas interconectados de um fracasso sistêmico. Cada uma delas contém elementos essenciais da ordem multilateral atual e aponta para o que deve mudar. Se a crise financeira de 2008 revelou as vulnerabilidades do capitalismo atual, a decisão da maioria dos governos de resgatar as empresas com fundos públicos, com pouca ou nenhuma condicionalidade, demonstra que os negócios prevaleceram sobre a regulação democrática. Quando os Estados recompensaram a imprudência dos banqueiros com impunidade, a população teve que pagar o preço com o aprofundamento do desmantelamento do bem-estar social e dos direitos trabalhistas. O aumento da vigilância e da militarização inclinou ainda mais a balança, redefinindo estruturalmente o equilíbrio entre o consentimento e a coerção, desta vez também no Norte global. Enquanto isso, a pandemia e a crise da mudança climática testemunham as limitações intransponíveis das instituições multilaterais atuais. Dado que vírus e gases de efeito estufa não precisam de visto, trata-se de problemas globais por definição. No entanto, em vez de ser orientada pela Organização Mundial da Saúde, a recuperação da pandemia foi liderada pelas mesmas empresas transnacionais que se beneficiaram dela, apoiadas pelos países do Norte global e com financiamento público significativo, ao mesmo tempo em que as soluções para nossa emergência climática foram confiadas às gigantes corporações poluentes que geraram e continuam se beneficiando amplamente da destruição do meio ambiente.
Mas foi o genocídio do povo palestino que deu o golpe definitivo naqueles que, na esquerda, ainda abrigavam um vislumbre de esperança. O papel que está sendo desempenhado pela Corte Internacional de Justiça, bem como o engajamento de países como África do Sul e Colômbia, são avanços inspiradores. Mas a realidade da fome deliberada, da tortura e da morte de mulheres e crianças em uma limpeza étnica sistemática, incessante e orquestrada, cometida por Israel com o apoio ativo dos Estados Unidos e da União Europeia, nos faz perguntar se algum dia haverá um sistema que governe acima da entidade sionista ou do império estadunidense. Já restam muito poucas normas internacionais que possam ser violadas.
Em todo caso, a votação no Conselho de Segurança da ONU sobre a Resolução 2803 de novembro de 2025 é apenas o último exemplo de como o multilateralismo tem sido utilizado para normalizar a ocupação e o genocídio. Somente os Estados Unidos vetaram pelo menos seis resoluções do Conselho de Segurança da ONU propostas para deter os bombardeios. Após dois anos bloqueando todos os esforços para defender a autodeterminação e os direitos humanos dos palestinos, Trump e outros facilitadores do genocídio – a UE e alguns governos árabes – renomearam a ocupação como uma guinada rumo à paz. Com a notável abstenção da China e da Rússia, a Resolução 2803 legitima a reocupação da Palestina, agora sob o controle direto dos Estados Unidos e governada por uma “Junta de Paz” que exclui qualquer representação palestina. Segundo a relatora especial da ONU, Francesca Albanese, esta resolução “trai o povo que pretende proteger”. Este acordo de “paz”, imposto por Trump, mas ratificado oficialmente pelo Conselho de Segurança, testemunha a relação transacional que o imperialismo sempre teve com as Nações Unidas: usá-la para obter validação, descartá-la se for inconveniente, mas ignorá-la na maior parte do tempo.
Para as forças progressistas globais, agarrar-se apenas aos pilares da ONU não é suficiente. Como sustenta Jeena Shah, “o objetivo principal do direito internacional foi o de facilitar e gerir o imperialismo”. Embora a descolonização tenha transformado radicalmente a dinâmica interna das Nações Unidas, nossa luta não pode se concentrar em recuperar o que nunca foi projetado para ser nosso. Ao mesmo tempo, o segundo governo Trump, epítome do macho-facho internacional, sem dúvida nos faz sentir que as forças regressivas estão vencendo por padrão. Embora seja evidente que o atual sistema internacional é incapaz de abordar as questões mais cruciais do nosso tempo, o trumpismo é a antítese do multilateralismo, a verdadeira encarnação da extrema direita autoritária do século XXI, impulsionada pela vigilância e pelos lucros do setor de alta tecnologia. Existe uma necessidade urgente de transformar o multilateralismo e, para que ele ofereça resultados diferentes, deve basear-se em pressupostos e compromissos diferentes.
Para que a esquerda e o campo progressista possam resistir ao domínio da força imposto de forma descarada pelo imperialismo estadunidense e pela globalização neoliberal, existem alternativas tanto ao multilateralismo que está desmoronando quanto ao multilateralismo que muitos se acostumaram a acreditar ser o máximo a que se poderia aspirar. Portanto, trata-se tanto de reconfigurar o multilateralismo quanto de imaginar e construir outros processos e novas instituições para a coordenação transnacional dos povos e dos Estados, uma nova ordem multilateral na qual o Sul global tenha voz decisiva e poder efetivo.
É hora de refletir, nos conectar e nos organizar para construir uma Frente do Sul Global que possa promover e colher coletivamente essas três tarefas, em escala mundial, para gerar um plano de ação comum e novos paradigmas políticos adequados a uma ordem mundial que afirme a vida, a paz e a igualdade. Porque “se escutarmos com atenção, outro mundo não só é possível, como está a caminho” [2].
Parte II – Construindo uma Frente do Sul Global
Estabelecer novas bases para uma ordem internacional equitativa e democrática significa que os povos do Sul global devem ser a força motriz e os principais beneficiários do multilateralismo. Podemos falar de dois Suis globais: um está desenhado nos mapas e compreende os Estados pós-coloniais que ainda carregam as cicatrizes do império, que lutam por um lugar em uma mesa que não construíram, mas que ainda pesa sobre seus ombros. O outro não conhece fronteiras: é o Sul que vive nas ruas de Jacarta, nos subúrbios de Paris, nas favelas do Rio, nos townships de Joanesburgo, nos centros de detenção do Texas. É a classe trabalhadora nascida com uma dívida que nunca contraiu, que herda uma vida de luta assim como os bilionários herdam sua riqueza. A Frente Global do Sul combina ambos. Não é um bloco de nações, mas a esquerda transnacional organizada, juntamente com as forças progressistas, tornando-se um sujeito político coletivo capaz de impulsionar os povos e os Estados em direção a um futuro emancipador. A Frente se forja precisamente onde os Suis dos povos e dos Estados se encontram, chocam e descobrem no que podem se tornar quando marcham juntos.
Para forjar uma frente unificada, é necessária a construção de valores comuns baseados no respeito pela autodeterminação dos povos e pelos diferentes processos sociais dos países e regiões. A construção de nossa emancipação coletiva implica o diálogo entre uma ampla diversidade de experiências humanas e formas de ser e de viver. Por meio de um engajamento humilde e produtivo com outras culturas e processos políticos, deveria ser possível forjar a cultura de um novo internacionalismo no qual os valores, a literatura e as narrativas hegemônicas ocidentais não sejam a regra para medir a diversidade de todas as experiências humanas. Isso implica a necessidade de “desocidentalizar” e “desnortear” o vocabulário político, as ambições e as estratégias da esquerda.
Como processo, a Frente do Sul Global promove a coordenação estratégica das forças sociais progressistas de todas as partes do mundo, reunindo aqueles que lutam contra o imperialismo, a extração de valor e a opressão. Tornar-se uma Frente exige o desenho ecumênico de nossas trincheiras, mas nunca pode significar comprometer nossos princípios fundamentais. A dissidência, a contestação e a disputa são intrínsecas à política precisamente porque nascem das mais diversas experiências humanas vividas, de nossas relações com nossas comunidades, com a natureza, com o Estado, com o poder. Compor interesses dentro de uma diversidade de trajetórias e culturas políticas significa permitir que nossas próprias posições sejam questionadas, enriquecidas, fortalecidas e até mesmo mudadas. Essa dialética de fertilização cruzada implica uma abordagem não sectária e uma visão clara de quem está realmente do outro lado das barricadas. Isso significa trabalhar junto com movimentos sociais e partidos políticos, bem como com organizações da sociedade civil, intelectuais e indivíduos comprometidos com a mudança social radical.
Mas construir uma Frente do Sul Global também significa entender os Estados como espaços de disputa e como atores cruciais para atender às necessidades de seus povos. Embora em muitos casos os Estados tenham se tornado mecanismos de opressão e dominação, capturados pelas elites governantes, a construção de uma Frente do Sul Global não pode ignorar o poder que os Estados progressistas podem mobilizar. Trabalhar com e dentro do Estado, sempre que possível, é, portanto, outro pilar importante para construir uma Frente do Sul Global, especialmente considerando seu papel de destaque na ordem multilateral atual. Atualmente, o regime multilateral pode tanto limitar quanto ampliar as oportunidades que os movimentos sociais têm para enfrentar a desigualdade no acesso a direitos e na distribuição de recursos dentro de seus territórios. Se os Estados estão afogados em dívidas ou são aprisionados em processos produtivos destrutivos por acordos comerciais, restam muito menos recursos em geral para que possam satisfazer as necessidades de seus povos. Apesar das contradições inerentes ao trabalho com o Estado, uma aliança desse tipo pode aproveitar diferentes fontes de poder, escalas de ação e conhecimentos especializados para construir uma estratégia global capaz tanto de resistir ao imperialismo quanto de gerar alternativas a ele. No entanto, para tornar realidade esse potencial, a construção de uma Frente do Sul Global depende dos recursos, das capacidades e da influência que o próprio Sul global possa aportar. Se o Sul chegar a conhecer-se e a trabalhar com o Sul, a conjuntura atual oferece oportunidades tangíveis.
Oportunidades a mão
Impulsionados pela revolução digital e pela “transição energética”, as mudanças estruturais na economia mundial repercutem diretamente na distribuição da riqueza e do poder geopolítico. Por um lado, a incorporação de tecnologias de ponta em nossos modos de produção requer muito mais energia e capital para reproduzir o capitalismo do que antes. Pagar pela revolução digital – incluindo a tecnologia de inteligência artificial e a infraestrutura relacionada – significa que nossas economias avancem ainda mais na financeirização e na desregulamentação da produção e dos direitos trabalhistas, ampliando as fissuras no circuito do capital que levaram a crises econômicas estruturais. Por outro lado, está ocorrendo uma nova e agressiva corrida por minerais para fabricar baterias e turbinas eólicas para abastecer centros de dados e veículos elétricos. Isso se traduziu em guerras para garantir o fornecimento constante de matérias-primas às potências ocidentais e em uma nova onda de acordos de livre comércio e investimento para limitar as políticas e a regulação soberanas. Nesse contexto, deixar as coisas como estão significa que o Norte continue colhendo os benefícios, enquanto o Sul continua aumentando sua dívida e contando os mortos.
Por possuir a maior parte das reservas minerais e da mão de obra disponível, o Sul poderia aproveitar melhor seus ativos. Existe um desequilíbrio material entre o Norte e o Sul globais, e é hora de o Sul compreender e agir de acordo com o poder de sua riqueza. Em todo o Sul há recursos suficientes e complexidade produtiva para satisfazer suas necessidades reais: emprego, infraestruturas, alimentação, saúde, educação. De uma perspectiva econômica, um Sul integrado poderia alcançar a mesma complexidade tecnológica que o Norte, mas com mercados maiores e muito mais recursos disponíveis para realizar a transição que nosso planeta e nossos povos tão desesperadamente necessitam.
Se os povos da China, Índia, Brasil, África do Sul e Indonésia combinassem e coordenassem suas capacidades e conhecimentos especializados, por exemplo, o mundo poderia ser determinado pelo Sul global. Ao livrar-se de paradigmas e marcos que só beneficiam o Norte, como os regimes de propriedade intelectual e os mecanismos de solução de controvérsias investidor-Estado, o Sul poderia fomentar um salto tecnológico que enfrentasse não apenas a mudança climática, mas também os desafios em matéria de saúde, educação, distribuição de terras e alimentação, para citar alguns. Além disso, a provisão de meios de vida sustentáveis poderia reverter os programas de exportação de mão de obra para que os trabalhadores pudessem contribuir com suas próprias sociedades, ao mesmo tempo em que as políticas de repatriação de cérebros poderiam permitir que os Estados do Sul acessassem conhecimentos técnicos de ponta de indústrias produtivas e sociais-chave. A realização desse potencial depende, no entanto, do reconhecimento de que o poder do Sul global é coletivo e que apenas coletivamente o Sul pode libertar suas capacidades e seu futuro em seus próprios termos.
É necessário coordenar estratégias, integrar as cadeias de produção dentro e entre regiões, e construir uma aliança estratégica entre todos os países e povos que foram oprimidos e excluídos dos benefícios da hegemonia ocidental. Esses acordos de cooperação teriam que ser radicalmente diferentes do que as instituições das Nações Unidas e de Bretton Woods puderam oferecer. Baseada em um mapeamento claro de seus recursos coletivos e, mais importante, em um mapeamento claro das necessidades de seus povos e do nosso planeta, a integração econômica do Sul global é o único caminho disponível para conceber vias de desenvolvimento verdadeiramente sustentáveis: não predatórias e que dependam exclusivamente de seus próprios esforços e recursos.
Já existem iniciativas importantes, tanto de movimentos sociais quanto de Estados do Sul global, para desenhar coletivamente alternativas ao desmoronamento de nossa ordem econômica e geopolítica. Há esperança e há potência em iniciativas como o processo de Nyeleni; a Assembleia Internacional dos Povos; o novo marco comercial centrado na soberania alimentar e nos direitos dos camponeses e trabalhadores rurais liderado pela Via Campesina; a série de estudos e propostas do Instituto Tricontinental para redefinir o desenvolvimento desde uma perspectiva do Sul global; as propostas da Internacional Progressista para uma Nova Ordem Econômica Internacional do século XXI; e os marcos jurídicos nacionais e internacionais concebidos desde baixo no seio da Campanha Global para Recuperar a Soberania dos Povos, Desmantelar o Poder Corporativo e Deter a Impunidade. Os pensadores do Sul também têm sido muito ativos na compreensão do Sul no capitalismo contemporâneo, como na análise de Leda Paulani sobre o Capitalismo 4.0, ou na concepção de novos caminhos para um desenvolvimento integrado, tais como a proposta de Fadhel Kaboub para “O acordo do século”, a desglobalização de Walden Bello, as ideias de Jomo Kwame sobre o potencial da ASEAN+3 e a integração monetária africana de Ndongo Sylla.
No que se refere aos Estados do Sul global, é importante compreender que as transformações do capitalismo atual se refletem em uma distribuição do poder geopolítico significativamente diferente daquela que deu origem à Conferência de Bandung e ao Movimento dos Países Não Alinhados, primeiros experimentos de coordenação do Sul global que não chegaram a desenvolver todo seu potencial. Herdando esse legado, em nível regional, a coordenação dos processos revolucionários pan-africanistas no Sahel oferece um exemplo inspirador de determinação e resistência anticolonial neste século. Em nível internacional, o BRICS tem desempenhado um papel importante como espaço no qual se compartilham e coordenam propostas, focando na cooperação tecnológica e científica, bem como nas finanças e na coordenação política. Apesar de suas muitas contradições, ao coordenar estratégias dentro de nossas instituições em ruínas e desenvolver as suas próprias, o BRICS é, de fato, o bloco contra-hegemônico mais desenvolvido com condições para impor a maioria das mudanças necessárias para a construção de um multilateralismo verdadeiramente participativo e emancipador.
O potencial do BRICS para desafiar e transformar o multilateralismo é amplamente reconhecido, mas a aliança também expõe alguns dos grandes desafios que temos para construir um futuro emancipador. Em primeiro lugar, existem claros desequilíbrios materiais entre os Estados do Sul, especialmente, mas não apenas, em relação à China. Em segundo lugar, apesar da importante mudança de poder econômico e político que ocorreu nas últimas décadas, os Estados Unidos e seus aliados mantêm uma supremacia militar indiscutível sobre todos os membros do Sul global juntos. Em terceiro lugar, existem importantes divisões ideológicas que separam os governos do Sul, também, mas não apenas, dentro do BRICS. Por fim, se um multilateralismo emancipador deve basear-se nas necessidades dos povos e nos limites do nosso planeta, a integração das vozes inter-regionais ou subnacionais dentro das instituições internacionais não é uma tarefa simples nem, necessariamente, uma opção óbvia para os líderes do BRICS.
Desafios pela frente
As complexas capacidades financeiras e tecnológicas da Ásia, as importantes e diversas reservas minerais da África e a biodiversidade da América Latina são recursos cruciais. Tais ativos regionais, embora importantes e frequentemente complementares, não se traduzem necessariamente em um poder político equivalente para os Estados do Sul global. Mais importante ainda, cada uma dessas regiões apresenta desequilíbrios materiais significativos que, em muitas ocasiões, foram explorados pelos países mais poderosos da região em detrimento dos países menores ou com menos recursos. Como garantir que, em vez de mudar estruturalmente nossas relações econômicas, alguns países não se concentrem simplesmente em subir a escada do desenvolvimento sozinhos?
A integração regional é chave nesse sentido. Embora para muitos na esquerda tenha sido um sonho há muito acalentado, também constitui um caminho pragmático e inadiável para transformar as cadeias de produção mundiais e regionais, para que possam refletir e compensar as diferentes capacidades e disponibilidades de recursos entre os países. Nesse contexto, também é fundamental desenhar estruturas de cooperação regional que garantam que o desenvolvimento seja necessariamente emancipador e não subimperialismo extrativista. A participação popular nas coalizões regionais do Sul global evidencia as tensões e contradições entre o poder corporativo e os direitos dos povos, onde é necessário questionar as próprias lógicas do capitalismo. [3]
A China complexifica ainda mais essa equação. Compreender as ambições e os limites da política interna e externa chinesa, bem como a forma de influenciá-las, será determinante para a construção de um multilateralismo Sul-Sul transformador. De uma perspectiva progressista e emancipadora, não podemos negar que o caminho chinês, embora não seja perfeito nem necessariamente replicável, começou com uma revolução popular que conseguiu mudar substancialmente a vida de seu povo. Graças à cuidadosa coordenação de seus agentes econômicos, tanto dentro quanto fora do país, a China conseguiu mudar seu papel dentro de uma rígida divisão internacional do trabalho, tirando milhões de pessoas da pobreza. Há lições a aprender com seu planejamento, suas estratégias de desenvolvimento soberano e seu apoio popular sustentado – porque há apoio popular – e qualquer narrativa que sugira que 1,4 bilhão de pessoas vive sob um regime exclusivamente coercitivo é, na melhor das hipóteses, ingênua e, na pior, racista. Não é de admirar que muitas forças progressistas vejam a China como uma aliada natural na busca pelo desmantelamento do poder hegemônico ocidental e do capitalismo neoliberal.
Ao mesmo tempo, a China não assumiu explicitamente a liderança nesta reformulação coletiva das estruturas econômicas e políticas mundiais [4]. Como potência econômica global ascendente, enraizada em tradições políticas diferentes, existe o risco de que a China se mova de maneira pragmática em direção ao novo capitalismo digital de baixo carbono como apenas mais um ator de mercado, reproduzindo potencialmente práticas coloniais e imperiais. Ainda não está claro até que ponto o país estaria disposto a investir ativamente na construção de um internacionalismo popular, rumo a uma ordem mundial verdadeiramente democrática. Pode a China ser o motor dinâmico de tal esforço sem se tornar uma nova potência hegemônica guiada unicamente por seus próprios interesses? É fundamental, portanto, compreender quais são os interesses fundamentais da China e até que ponto ela está disposta a ceder nas negociações com outros Estados do Sul global para permitir seus desenvolvimentos de forma emancipadora e soberana. Por fim, é imperativo ter em conta as distintas relações que a China mantém com cada uma das regiões do Sul: enquanto para algumas tem sido motivo de esperança, para outros os desequilíbrios de poder são muito mais evidentes e potencialmente conflituosos, como ocorre no Mar da China Meridional, onde a crescente presença militar tanto dos Estados Unidos quanto da OTAN agrava ainda mais as tensões.
Os desequilíbrios militares entre o Norte e o Sul
A perigosa escalada militar mundial liderada pelos Estados Unidos e pela OTAN é o segundo desafio que uma Frente do Sul Global terá que enfrentar. O recente compromisso da aliança de aumentar o gasto militar de seus países para 5% do PIB é a face visível de uma corrida armamentista que cresce de maneira exponencial e transforma tecnologicamente o avassalador arsenal militar da OTAN. Depois dos Estados Unidos, a China é o segundo país que mais gasta em defesa, mas seus gastos representam apenas cerca de 1,6% do seu PIB, o que contrasta claramente com o Ocidente. No entanto, muito mais relevante é observar que, enquanto os Estados Unidos têm cerca de 750 bases militares em aproximadamente 80 países ao redor do mundo, a China tem oficialmente apenas uma, em Djibuti. É neste contexto que devemos entender a invasão estadunidense da Venezuela e os exercícios militares conjuntos cada vez mais provocativos dos Estados Unidos com seus aliados no Mar da China Meridional. O surpreendente contraste entre a capacidade militar do Sul e do Norte globais é provavelmente o desafio mais importante para qualquer transformação substantiva rumo à democratização da nossa ordem mundial.
Quando a realpolitik entra em jogo, qual seria a capacidade de resistência dos povos e países do Sul global para manter suas estratégias emancipadoras coletivas diante de exércitos contrarrevolucionários apoiados pelas potências ocidentais? Até que ponto as forças progressistas podem manter sua posição quando as grandes empresas tecnológicas interferem nos processos democráticos, quando há golpes políticos contra governos do Sul ou o assassinato de seus líderes? Igualmente importante é compreender quanta transformação as potências imperiais estão dispostas a aceitar antes de entrar em uma guerra mundial em grande escala. Para abordar esses desequilíbrios, mais do que contar as armas nucleares que o Sul possa ter, é imperativo construir estratégias coletivas, envolvendo organicamente todas as forças progressistas dispostas a transformar substancialmente nossa realidade [5]. Se os processos políticos forem desenvolvidos e aplicados de cima para baixo, pode ser que uma tendência no TikTok seja suficiente para acabar com nossas democracias, sem que um único tiro seja disparado.
O inimigo interno
É importante, também, reconhecer o outro bloco contra-hegemônico que disputa o nosso futuro, a saber, a Internacional Reacionária. Coordenando os líderes macho-fascistas do Sul como Nayib Bukele, Javier Milei e Jair Bolsonaro com seus homólogos do Norte global como Donald Trump, Viktor Orbán, Giorgia Meloni e Benjamin Netanyahu, este bloco é muito bem financiado, coordenado internacionalmente e especialista em manipular a mídia. [6] Assim como o discurso progressista, muitos também denunciam a globalização neoliberal, mas com propostas políticas radicalmente diferentes, baseadas na exclusão, no militarismo e na xenofobia, inclusive dentro do BRICS.
Para abordar estas questões, Walden Bello propõe cláusulas democráticas e de direitos humanos Sul-Sul baseadas em reforços positivos e negativos. É muito importante traçar uma linha nessas questões, mas também é difícil estabelecer uma base de referência substantiva e mecanismos para aplicá-la, dados os importantes desequilíbrios de poder não apenas dentro do BRICS, mas em todo o Sul global. Considerando o uso político e unilateral das cláusulas sobre direitos humanos e democracia nas relações Norte-Sul, bem como a cumplicidade do Norte nas violações dos direitos humanos, como esses reforços propostos podem ser decididos e aplicados coletivamente?
Uma forma de enfrentar este problema é incluir processos e espaços que garantam, dentro de um multilateralismo liderado pelo Sul, a participação significativa, com claro poder de decisão, dos movimentos sociais, sindicatos, camponeses e camponesas, povos indígenas e outros grupos e comunidades relevantes afetados pelas decisões tomadas em nível multilateral. Enquanto a geopolítica ortodoxa westfaliana assume que os Estados refletirão em suas políticas externas o resultado dos debates e das disputas de poder subnacionais, um multilateralismo centrado nos povos deve incorporar explicitamente essas vozes, já que qualquer decisão será melhor e muito mais legítima se baseada nas experiências vividas por aqueles que serão mais afetados por ela. É fundamental respeitar a autodeterminação, mas chegou o momento de que a autodeterminação não seja apenas um direito dos Estados, mas também um direito exigível dos povos [7]. Igualmente importante é que esses espaços também conectem estruturalmente as lutas sociais, fertilizando de forma cruzada a compreensão que os povos têm de suas próprias realidades compartilhadas, melhorando suas estratégias e potencializando seu poder transformador.
No entanto, a Internacional Reacionária (link externo) nada mais é do que a face visível de um problema mais profundo e estrutural. Em todo o Sul global, as elites nacionais há muito tempo trocam soberania por privilégios, atuando com demasiada frequência como correias de transmissão da dependência neocolonial, alinhando-se não com seus próprios povos, mas com a reprodução de uma divisão internacional do trabalho violenta, racista, extrativista e desigual. As elites nacionais do Sul global às vezes desempenharam um papel positivo no caminho para a libertação de seus Estados, mas são também elas que garantem que a extração continue e a resistência seja reprimida. Cada vez vemos menos as elites nacionais defendendo projetos soberanos; em vez disso, sustentam o modelo extrativo e vendem os ativos nacionais ao capital transnacional, funcionando confortavelmente como agentes de interesses estrangeiros. Ao se beneficiarem desse papel nas cadeias de produção internacionais, tornam-se imensamente ricas. Portanto, qualquer projeto sério para a soberania do Sul deve levar em conta o inimigo interno: a luta de classes que sempre foi um instrumento para a manutenção dos vínculos de dependência, e as burguesias locais cujo poder se baseia precisamente na perpetuação dos privilégios e das desigualdades.
A construção de uma Frente do Sul Global baseia-se no entendimento de que há mais razões para unir do que para dividir os povos e Estados do Sul. Há desafios sem precedentes a enfrentar, e sem dúvida a lista é muito mais ampla do que a esboçada nesta seção. No entanto, estes são pontos de partida que as forças progressistas devem ter em conta no desenvolvimento deste futuro coletivamente concebido, o que exigirá ambição, líderes políticos corajosos e movimentos sociais fortes. Estes desafios não devem ser motivo para inação. Ao contrário, na maioria das vezes suas soluções estão integradas na própria resistência cotidiana.
Parte III – Estratégias para desenvolver uma agenda comum
A construção de uma Frente do Sul Global começa por ver as coisas de maneira diferente. O poder que a América Invertida exerce sobre cada adolescente latino-americano de esquerda é um claro exemplo disso. O desenho de tipo infantil de Torres García, que mostra um mapa invertido da América do Sul, transmite com uma imagem simples o quão fácil e desafiador é mudar nossa forma de ver o mundo. Para agir juntos, devemos aprender a pensar juntos, desde o Sul e para o Sul. Porque o vocabulário e a imaginação política estão frequentemente enquadrados por teorias formuladas muito longe das experiências e dos territórios do Sul global. Para que o mundo atenda às necessidades e aspirações dos povos do Sul, os processos e instituições que regem nossas relações internacionais devem refletir suas múltiplas facetas. É urgente que o Sul pense e fale por si mesmo, priorizando suas narrativas e dando visibilidade às suas diferentes realidades materiais.
Foto: Fourate Chahal El RekabyO que acontece é que a definição de “Sul global” não é nem estática nem precisa. Embora exista um claro reconhecimento de uma realidade compartilhada de opressão, derivada de sua inclusão subordinada na divisão internacional do trabalho, “Sul global” é o nome de uma luta. O Sul, que abrange algumas das maiores economias do mundo, fala mais da exclusão desses países dos espaços de tomada de decisão multilaterais do que de uma identidade macroeconômica concreta. Em suma, o Sul global não pode determinar as estruturas internacionais que afetam o bem-estar de seus povos, sujeitos tanto à extração de valor quanto a constantes perturbações externas. Ao combinar muitos dos países do “segundo” e “terceiro” mundos, bem como a maioria dos chamados “países periféricos” ou “em desenvolvimento”, o Sul global também fala da alteridade, daqueles excluídos das definições hegemônicas capitalistas do que é bom, belo e sábio.
O Sul também compartilha um passado de grandes civilizações, uma história de resistência, de lutas anticoloniais de libertação, bem como profundas feridas causadas pelos ajustes estruturais impostos mais recentemente pelo neoliberalismo. Apesar da falta de uma definição clara, o “Sul” é uma identidade geopolítica e geoeconômica poderosa, que em todos os aspectos deve ocupar um lugar central na construção de um futuro sem correntes. Mas qualquer estratégia bem-sucedida para e pelo Sul global deve compreender sua relação com o Norte global e também sua presença no Norte global.
O Sul global no Norte
Qual seria o papel do Norte global na construção deste novo internacionalismo? É claro que compreender profundamente seu papel é uma tarefa que cabe aos próprios movimentos e ativistas do Norte global. No entanto, cabe mencionar que, embora as desigualdades e o empobrecimento global nesta era tenham uma forte presença geográfica no Sul, também existe uma desigualdade significativa e crescente no Norte global. Se mundialmente os 0,001% mais ricos controlam três vezes mais riqueza do que os 50% de toda a humanidade juntos, nos Estados Unidos, um país desenvolvido em termos macroeconômicos, 35,9 milhões de pessoas viviam na pobreza em 2024. Durante esse mesmo ano, a União Europeia contabilizou 93,3 milhões de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social [8], o que representa surpreendentes 21% de sua população. Embora seja necessário revisar radicalmente as relações racistas e neocoloniais entre o Norte e o Sul, também é preciso reinterpretar profundamente as desigualdades extremas e a composição de classe das sociedades do Norte global.
As pessoas migrantes e refugiadas que vivem e trabalham no Norte são a face mais visível do que chamamos de Sul global no Norte. Como parte intrínseca da reprodução do capitalismo atual e da reestruturação global do trabalho, essas pessoas estão incorporadas nas sociedades do Norte global realizando as tarefas pesadas que a globalização neoliberal não conseguiu externalizar diretamente para os países do Sul. Geralmente, trabalham nas áreas da construção, agricultura, saúde e cuidados, plataformas de petróleo, transporte e setores de serviços, sendo tratadas como um apêndice, um anexo de sociedades que, de outra forma, seriam consideradas prósperas. Acontece que, embora sejam sistematicamente invisibilizadas e criminalizadas, a mão de obra migrante e refugiada contribui de maneira substancial tanto para as economias dos países de acolhida quanto para o PIB de seus próprios países de origem: em 2024, por exemplo, as remessas estrangeiras representaram 8,7% do PIB das Filipinas, 11,4% do do Senegal, 19,1% da Guatemala e 3,6% do México.
Com efeito, os principais instrumentos multilaterais que protegem os direitos humanos das “pessoas em movimento” (Convenção sobre os Refugiados, de 1951; Convenção contra o Racismo, 1965; e Convenção sobre os Migrantes, 1990) foram desmantelados por marcos como os Pactos Globais da ONU de 2018, o Pacto da UE sobre Migração e Asilo (link externo) de 2024 e a “Lei da Bela e Enorme Medida Legislativa” dos Estados Unidos de 2025. Os migrantes e refugiados são cada vez mais considerados terroristas, delinquentes, indivíduos cuja humanidade pode ser legalmente apagada por meio de regimes de categorização cada vez mais rigorosos. As pessoas de ascendência árabe e africana são afetadas de maneira desproporcional e frequentemente tratadas como ameaças à segurança. As políticas migratórias racistas estão se estendendo cada vez mais para além do controle de fronteiras, afetando a vida cotidiana de homens, mulheres e crianças migrantes cujos nomes são considerados suspeitos ou cuja cor de pele é a “errada”, o que testemunha a continuidade entre o colonialismo e os controles de imigração.
No entanto, há respostas inspiradoras. A resistência do povo palestino e a Sumud diante da contínua ocupação sionista e do genocídio expuseram a cumplicidade e o imperialismo dos EUA e da UE, catalisando um internacionalismo renovado centrado na mudança sistêmica. Os movimentos e redes de migrantes e refugiados, bem como as organizações antirracistas e anti-islamofóbicas, estão desempenhando um papel importante no Norte global ao impulsionar uma solidariedade rumo à ação radical, afastando-se do filantropismo performático, a tal ponto que os movimentos sociais globais estão assumindo cada vez mais as lutas dos migrantes como agenda central em suas lutas, como é o caso, por exemplo, dos movimentos pela soberania alimentar, saúde coletiva e antimilitarização. A organização política dos migrantes e refugiados pode ser considerada uma grande protesto global contra a insustentabilidade do capitalismo, bem como um alerta severo sobre o quão profundamente inconcluso está o processo de descolonização.
Essas dinâmicas também repercutem nos processos eleitorais e parlamentares. Diante do empobrecimento e da exclusão, é a extrema direita que está ganhando adeptos. Tanto os Estados Unidos quanto a Europa concederam um segundo mandato a Trump e a Von der Leyen, e muitos países europeus deixaram de lado os partidos sociais-democratas em favor de partidos fascistas e de extrema direita, evidenciando a culminação lógica de décadas de globalização neoliberal. Portanto, colocam-se importantes questões estratégicas para as forças progressistas do Norte. Fundamentalmente, este cenário exige uma análise exaustiva não apenas dos impactos do neoliberalismo, mas também das bases sobre as quais reconstruir suas infraestruturas sociais, afastando-se do extrativismo neocolonial no Sul global.
Para a esquerda do Norte, é imperativo desenvolver uma compreensão mais radical do internacionalismo. Embora as alianças com as lutas do Sul global continuem sendo cruciais, como no caso da luta pela autodeterminação da Palestina, mudar substancialmente a forma como os países do Norte são governados terá um impacto muito maior e mais duradouro no Sul do que os programas discricionários de ajuda ao desenvolvimento. Trata-se de desmantelar o capitalismo e o imperialismo desde dentro, rompendo com um modelo que sacrifica os direitos sociais e a responsabilidade democrática para proteger os lucros e o poder por meio da militarização, da exclusão, da extração e da guerra. Basicamente, para o Norte global, a tarefa começa por aprender a viver sem império.
O Sul global no Norte pode ser determinante para a mudança sistêmica. Inclui as pessoas migrantes e refugiadas, os negros, os povos indígenas, as comunidades marginalizadas e as minorias sociais, bem como a classe trabalhadora branca empobrecida e despossuída, cujas vidas tanto nos Estados Unidos quanto na União Europeia foram devastadas pela reestruturação neoliberal. Sua tarefa consiste em construir economias de solidariedade e democracia no Norte que possam prefigurar as relações pós-capitalistas, desmantelando ativamente as estruturas racistas e coloniais sem negligenciar as devidas reparações. Trata-se de que o Norte se comprometa com um novo internacionalismo que coloque a mudança sistêmica no centro da transformação global, desde as entranhas da besta.
Elementos de uma estratégia comum
A construção de uma Frente do Sul Global exige mecanismos concretos de coordenação, canais de comunicação claros e um alinhamento estratégico entre contextos muito diversos. De Jacarta a Joanesburgo, de São Paulo a Manila, as forças progressistas enfrentam batalhas imediatas diferentes, mas compartilham os mesmos adversários estruturais: o imperialismo, o poder corporativo, a militarização e a internacional macho-fascista. O desafio consiste em conectar essas lutas sem achatar sua especificidade, coordenar sem impor uniformidade, construir poder a partir da realidade das múltiplas lutas. Trata-se de construir um horizonte coletivo, uma voz comum capaz de articular interesses compartilhados e dar forma às agendas políticas em nível nacional, regional e global.
Esta seção descreve alguns elementos dessa estratégia, não como um plano detalhado, mas como um convite, um marco que deve ser testado, adaptado e aperfeiçoado coletivamente por meio da prática. Identifica três espaços interconectados nos quais deve desenvolver-se o trabalho de construir o poder dos povos: entre os movimentos sociais e as organizações da sociedade civil; dentro e junto aos Estados e aos partidos políticos; e por meio de redes de pensadores, comunicadores e educadores populares. Cada um deles é apenas uma peça de um mosaico que, em conjunto, pode forjar uma visão e estratégia comum como exige o desenvolvimento de uma Frente do Sul Global.
O primeiro espaço tem a tarefa de construir vínculos sólidos entre os povos e os movimentos do Sul global, conectando as lutas locais com as dinâmicas internacionais e identificando os pontos de convergência que permitem a ação coletiva. Isso requer criatividade, abertura e vontade política, um processo enraizado em lutas concretas que são vividas de maneira diferente em cada país. Quais são as lutas mais significativas para cada sociedade? Como se desenvolve a interseção entre as diferentes frentes de luta em cada um dos continentes? No Brasil, por exemplo, a justiça racial, a igualdade de gênero, os direitos dos povos indígenas, o emprego e a proteção trabalhista, a distribuição da riqueza e da terra, e a violência (estatal) conformam uma configuração muito específica de lutas. Quais são as forças sociais que determinam as frentes de luta, por exemplo, na Indonésia ou África do Sul? Da diversidade de realidades similares em todo o Sul pode surgir a essência de uma voz política compartilhada.
O segundo espaço implica uma aproximação estratégica com os Estados do Sul global, com a mobilização se complementando com um trabalho sustentado de incidência e campanhas públicas. Esta parte da estratégia inclui o trabalho com as capitais e as coalizões Sul-Sul, como o BRICS, o G77 e o Movimento dos Países Não Alinhados em nível mundial; ou a União Africana, a ASEAN e a CELAC em nível regional. O trabalho da Campanha Global dentro do processo do Tratado Vinculante da ONU, que fomenta a coordenação dos países do Sul global em torno de disposições legais elaboradas a partir da realidade das violações de direitos humanos cometidas por empresas transnacionais, pode ensinar lições importantes sobre os limites e, especialmente, sobre o potencial da aproximação dos movimentos sociais com os Estados. Apesar de suas numerosas contradições, esses âmbitos políticos podem oferecer oportunidades estratégicas para promover demandas comuns e reforçar a coordenação política.
Outra dimensão desse espaço é o trabalho com os partidos políticos e os parlamentares, essencial para traduzir as demandas sociais em poder institucional. Na América Latina, por exemplo, o Fórum de São Paulo, o Grupo de Puebla, o Congresso Pan-Americano e a Rede Futuro proporcionam importantes plataformas para a coordenação regional dos programas dos partidos progressistas. É fundamental intercambiar tais lições entre as regiões, criando alianças globais de representantes progressistas do Sul, como as iniciativas organizadas recentemente pela Internacional Progressista com o Grupo de Haia (link externo) e Nossa América (link externo).
O terceiro espaço exige a coordenação entre pensadores, intelectuais e meios de comunicação. Isso inclui a criação de redes de intelectuais e especialistas do Sul em disciplinas-chave, bem como o fortalecimento dos think tanks enraizados nas realidades do Sul. Tais iniciativas devem ser complementadas com esforços de formação política coletiva intencional, para compreender o passado, o presente e o futuro desde uma perspectiva progressista, recuperando o pensamento e a cultura do Sul, como o trabalho que desenvolvem o Instituto Tricontinental e a Focus on the Global South. Recentemente inaugurada, a Transnational Academy é uma contribuição concreta a este esforço, na qual, juntamente com nossos aliados, o TNI promove processos de formação política coletiva. Para a segunda metade de 2027, está sendo desenhado um curso para impulsionar a análise, a estratégia e a mobilização desde uma perspectiva do Sul, com a finalidade de que o Sul conheça melhor o Sul. Em conjunto, estas iniciativas podem aprofundar nosso conhecimento coletivo, influenciar o debate público e reforçar os alicerces intelectuais de um projeto comum do Sul.
Os três espaços de luta confluem na frente anti-imperialista e antifascista, tarefa urgente para a nossa geração. Por meio da mobilização constante, da coordenação política e da produção intelectual orgânica, esta estratégia nos permitirá construir um futuro diferente enquanto resistimos.
Olhando para o futuro
Ao longo de 2025, o TNI promoveu consultas em todas as regiões do Sul global com muitos aliados próximos para compreender sua leitura da conjuntura atual e as estratégias que contemplam para uma nova ordem multilateral. Na maioria das conversas, o diagnóstico foi similar: apesar das incertezas, ou precisamente por causa delas, nossa conjuntura atual apresenta muitas oportunidades que as forças progressistas devem explorar de maneira séria e coletiva. Os desafios variaram em certa medida quanto à sua importância entre as distintas regiões, mas ficou claro em todos os casos que precisamos desenvolver uma voz – um “coro” de vozes plurais – e uma estratégia comum para forjar o futuro. Para nos guiar nesse sentido, foram mencionadas recorrentemente algumas questões como temas centrais [9] que devem ser explorados mais a fundo com o fim de desenhar estes múltiplos tapeçarias em uma união de lutas desde os Sules do mundo.
Como podemos cumprir as altas aspirações de nossos povos e movimentos? Ao longo de 2026, juntamente com movimentos sociais, sindicatos e outras organizações da sociedade civil, o TNI participará de um processo coletivo de formação política, encontros de mobilização e ação, com o fim de contribuir para a consolidação de uma identidade política coletiva e desenvolver uma estratégia e um plano de ação comuns. Partindo dos aprendizados de uma agenda viva da Frente do Sul Global, trabalharemos para conectar a diversidade de vozes políticas, lutas e tradições rumo a um Bandung dos Povos, em 2027.
Há setenta anos, a Conferência de Bandung marcou o nascimento da cooperação Sul-Sul, reunindo 29 Estados asiáticos e africanos recém-independentes para abordar a descolonização, o desenvolvimento e o imperialismo. Acreditamos que a energia simbólica e política que Bandung projetou 70 anos para o futuro é mais do que uma inspiração, é um chamado à emancipação nesta nova era. No entanto, um Bandung dos Povos deve abranger não apenas os Estados, como fez em 1955; tampouco apenas a África e a Ásia, mas também a América Latina, o Caribe e a imensa diversidade de movimentos sociais, forças políticas e lutas populares dos muitos Sules do mundo. É Bandung porque encarna a promessa transformadora de uma estratégia comum Sul-Sul. Está em espanhol [o texto original] para enfatizar a inclusão da América Latina. Mas, acima de tudo, é “dos Povos” porque o poder popular deve impulsionar este novo multilateralismo, a ser fundado na solidariedade internacionalista e na democracia genuína.
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Estatísticas e Fontes de Dados
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Eurostat. (2025, April 30). People at risk of poverty or social exclusion in 2024. European Commission. https://ec.europa.eu/eurostat/web/products-eurostat-news/w/ddn-20250430-2 (enlace externo)
World Bank. (n.d.). Personal remittances, received (% of GDP) — Mexico. World Development Indicators. https://data.worldbank.org/indicator/BX.TRF.PWKR.DT.GD.ZS?locations=MX (enlace externo)
Notas:
[1] Veja, por exemplo, a Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento (1986), a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas (2007) e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Camponeses e de Outras Pessoas que Trabalham nas Zonas Rurais (2018).
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[2] Do discurso de Arundhati Roy em 2010, Come September: «Outro mundo não é apenas possível, está a caminho. Talvez muitos de nós não estejamos aqui para lhe dar as boas-vindas, mas, em um dia tranquilo, se eu escutar com muita atenção, posso ouvir sua respiração».
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[3] Veja o material de leitura do 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra: Caderno de Subsídios do MST, 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Salvador, Bahia, de 19 a 23 de janeiro de 2026.
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[4] Na última cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, realizada em setembro de 2025, o presidente Xi Jinping apresentou a Iniciativa de Governança Global da China, a quarta de uma série de políticas globais que descrevem a visão da China sobre a ordem internacional, juntamente com a Iniciativa de Desenvolvimento Global (2021), a Iniciativa de Segurança Global (2022) e a Iniciativa de Civilização Global (2023). Essas iniciativas devem ser consideradas complementares e cumulativas, e expressam a interpretação chinesa da conjuntura mundial atual e do papel que o país deve desempenhar nela.
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[5] As armas nucleares são, sem dúvida, motivo de profunda preocupação na conjuntura atual. A expiração do Novo Tratado START, entre Estados Unidos e Rússia, em 5 de fevereiro de 2026, significa que, pela primeira vez em quase meio século, não haverá normas vinculantes que limitem seus arsenais nucleares estratégicos, como destacou o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres. Diante desse perigoso vazio, o secretário-geral ressaltou a importância de um tratado sucessor que aborde o futuro da não proliferação nuclear e do desarmamento.
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[6] O décimo quarto relatório sobre o Estado do Poder do TNI sobre o fascismo, de 2026, aprofunda as razões subjacentes de sua ascensão, os interesses econômicos que o sustentam e as formas como o fascismo utiliza as crises sociais e ecológicas como arma, ao mesmo tempo em que discute maneiras de combatê-lo.
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[7] O direito ao consentimento livre, prévio e informado e o Direito de Dizer Não são mecanismos que tratam diretamente da autodeterminação dos povos.
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[8] Segundo o Eurostat, a “taxa de risco de pobreza” descreve “a porcentagem da população que vive em domicílios cuja renda disponível equivalente é inferior ao limiar de risco de pobreza no ano em curso e em pelo menos dois dos três anos anteriores”.
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[9] As temáticas recorrentes em todas as consultas podem ser agrupadas em seis lutas inter-relacionadas e diversas: 1) Soberania sobre a vida e os recursos; 2) Paz, libertação e dignidade humana; 3) Conhecimento e soberania digital; 4) Economias e políticas de desenvolvimento que valorizam a vida; 5) Governança e implementação coletiva; 6) Organização e mobilização política radical.
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