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Que tipo de aluno estamos formando?

Do A Terra É Redonda, 9 de abril 2026
Por ARTHUR MENEZES DE CARVALHO CRESPO*



Imagem: Alexander Aguero
Entre a romantização do professor como agente transformador e a realidade de salários baixos, jornadas exaustivas e falta de estrutura, a pergunta que fica é: que tipo de aluno podemos formar quando quem ensina adoece e desiste?

1.
A educação não está somente nos espaços institucionais e legitimados. A pluralidade do que chamamos de educação está relacionada por uma perspectiva sobre como o ser humano é capaz de aprender e colocar em prática o que estudou.

Quando pensamos nos agentes de educação, temos em mente a imagem do docente, do professor em sala de aula com seus alunos. O trato esperado que o professor tem com os alunos é que haja uma relação e respeito mútuo, que suas aulas sejam inclusivas, interessantes e que as atividades possam avaliar o desempenho dos alunos para uma melhor adaptação do conteúdo e metodologia ao longo do processo educacional.

Todos os pontos expostos até aqui são importantes para a formação do aluno; se espera que o professor tenha tempo fora da sala de aula para produzir e pensar os instrumentos e metodologias que serão utilizados nas salas de aula. Se nem todo aluno é igual, os meios pelos quais compreende a matéria devem ser da forma pensada para o seu perfil. Logo, para pensar essa adaptação precisa de tempo.

Se espera que a educação consiga promover transformações. O agente transformador, que, no caso, é o professor, não possui condições estruturais, sejam de espaço físico com dignidade ou psicológicas, que aguentem longas jornadas de trabalho dentro da instituição de ensino e fora dela. Quais frutos são colhidos com a precarização do trabalho do professor? Além de que a profissão do docente está sendo constantemente atacada pelas políticas de “resultado”; o adoecimento do professor com cargas horárias enormes; e constantes atitudes desrespeitosas contra o profissional, que podem partir da coordenação, da comunidade escolar, que inclui pais e alunos.

As políticas de resultado às quais me refiro são aquelas que focam em produzir resultados positivos, mesmo que esses resultados não condizem com a realidade propriamente dita. O desempenho mostrado não se reflete com o cotidiano das salas de aula. As avaliações das redes de ensino propostas pelas prefeituras e pelos governos estaduais deveriam servir de referência para as políticas públicas educacionais.

No entanto, a humildade dos setores administrativos de reconhecer quando uma política não é bem-sucedida tenta inflar certos dados para ganhar moral com a sociedade. Como se pode afirmar que a educação está em rumo certo quando as escolas públicas estão sendo cada vez mais sucateadas, os profissionais da educação cada vez mais desvalorizados, seja em seus salários e em suas carreiras? Pode-se observar que as faculdades que formam esses docentes estão cada vez menos recebendo alunos. A carreira docente não é atrativa, se é que já foi um dia.

2.
O professor é importante para a formação de cidadãos, faz com que possuam reflexão crítica e construtiva sobre a sua vida; todavia, como o professor deve fazer seu bom trabalho se tudo está se voltando contra ele desde o início da sua formação à atuação profissional? Como pode o professor ser considerado uma das profissões mais importantes que há, para algo que chega a se tornar frustrante quando se escolhe ser docente?

O que se espera que o professor faça é, mesmo com todas as dificuldades impostas, fazer uma transformação na vida de cada aluno. E o professor que se vire para tornar realidade as expectativas. A romantização da profissão docente é um mal a ser combatido. As pessoas escolhem a carreira docente por diversas razões; uma delas é porque era a única oportunidade de ter uma profissão de nível superior ou por identificação. Não discordo que a educação transforma vidas, mas que tipo de educação está sendo proposta para as pessoas?

Diversas instituições de ensino possuem carga horária de suas disciplinas de formas variadas, dando foco em algumas e outras não. Como é feita a divisão de tempo e quais disciplinas terão mais horas durante a semana e outras menos? Por que é organizado dessa forma e que tipo de aluno estamos formando?

As escolas privadas e públicas são distintas, seja no perfil de aluno, coordenação, de estrutura física e de demandas. A comunidade escolar das escolas particulares vai variar conforme o perfil da escola. Escolas para a elite possuem uma dinâmica diferente das escolas particulares de bairro e das escolas públicas, onde a proposta do ensino vai se diferenciar entre as três categorias constatadas até então.

Do mesmo jeito que as escolas particulares possuem diferenças de perfil de aluno e comunidade escolar, as escolas públicas também vão variar entre si. As escolas públicas possuem origens administrativas que vão definir as normas e perfil da escola; são elas de origem municipal, estadual e federal. As escolas do município atendem a demanda dos primeiros anos iniciais e fundamental I e II público; as escolas do governo estadual gerenciam o ensino médio todo; e as escolas que possuem origem administrativa federal podem cuidar do Ensino fundamental e Ensino médio com algumas variações de ensino profissionalizante. A escola que o aluno irá frequentar em cada etapa define muita coisa sobre a sua trajetória escolar, principalmente durante a última etapa do período escolar.

O ensino médio é uma etapa crucial como todas as outras, que, com suas especificidades, deve ser observada e analisada por seu contexto. O aluno está no período da adolescência, e muitos desses estudantes acabam tendo que conciliar o estudo e o trabalho. Isso acontece principalmente nos estudantes de ensino público que não possuem apoio financeiro para se manter durante essa última etapa da escolarização nas redes de ensino escolar. Qual é o trato da escola sobre esse tema? Algumas escolas públicas possuem turno integral ou em tempo integral; liberam os alunos antes do fim do turno para que eles possam ir trabalhar.

3.
Os professores sentem que muitos dos alunos que trabalham acabam por ter resultados menores que aqueles que apenas se dedicam ao estudo. A relação do aluno que trabalha com a escola é diferente em relação àquele aluno que somente estuda. A escola pode ser vista como oportunidade de conseguir um trabalho melhor e, talvez, menos precarizado e, por outro lado, pode ser vista como um empecilho do trabalho, algo que atrapalhe a ganhar dinheiro. A figura do professor sofre mudanças. O docente pode ser a imagem daquele que inspira os estudos e a permanência na escola, e a outra perspectiva é ser o professor que transmite o conteúdo, apenas isso.

Os alunos que trabalham geralmente estudam no turno noturno, que é o tempo que mais sofre com falta de professor. O estudo noturno é importantíssimo para a formação das pessoas, seja isso no ensino médio ou nas instituições de ensino superior (IES), que popularizam, de certa maneira, o ensino para a população trabalhadora que busca, apesar de todas as adversidades de trabalho e cansaço, estudar e, através do estudo, melhorar sua condição de vida.

O professor que entende que sua turma é composta por maioria de trabalhadores, seria o ideal sempre ajudar esses alunos com o estudo e com adaptações de horário, por razões óbvias de que os discentes terão que trabalhar no dia seguinte. Temos turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), que o perfil da turma e suas motivações são semelhantes e diferentes dos alunos adolescentes que trabalham e estudam de noite.

Muitos estudantes do EJA são trabalhadores que não concluíram o fundamental e, depois de um longo tempo, buscaram a escola para concluir seus estudos. O professor que trabalha na Educação de jovens e adultos deve se atentar no universo em que seus alunos estão inseridos e, assim feito a análise, a ponte deve ser feita entre os alunos, o professor e o conteúdo com o plano de fundo do contexto dos estudantes.

O que o professor significa é a ponte dos alunos para a chegada ao conhecimento; no entanto, como essa travessia é feita vai depender de como o professor consegue chegar na turma. Não faz sentido um determinado professor de filosofia falar sobre Sócrates e Platão e como eles fundamentam o sentido de questionar, sendo que esse conteúdo não faz ligação alguma com a realidade dos estudantes.

O que adianta saber sobre o Iluminismo, se o mesmo não possui ligação, de forma clara, com a realidade e contexto do aluno? Como a Revolução Francesa impacta no nosso modo de nos organizar politicamente se o aluno não enxerga as políticas públicas chegando nele? O docente deve tentar realizar adaptações e usar de referência o cotidiano. Não é uma tarefa tão simples de fazer de currículo para diferentes contextos, mas é necessário para um bom aproveitamento da turma sobre o conteúdo e, quem sabe, não fazer com que os alunos desistam ou que façam se sentir menos distantes do conteúdo.

No final, é entender que o professor é um tradutor de conteúdos de currículos educacionais; também é agente transformador e funcionário. As expectativas que podem ter sobre ele devem ser dosadas para que não se frustre quando os docentes pedem melhores condições de trabalho, valorização profissional e salarial. Acreditar que os professores produzem alguns resultados positivos com pouca estrutura; imagine com as políticas públicas a favor do docente e da população que utiliza as escolas públicas das diversas esferas.

Tudo isso deve se passar por um debate amplo com a sociedade, para que tenhamos força política para promover a transformação social que precisamos para ultrapassar estes obstáculos. Pensar currículos com a população e para ela, uma educação de fato popular e inclusiva, que nos permite entender a história e produzir mudanças significativas e materiais. A educação só transforma se houver comunidade e coletividade em torno dela.

*Arthur Menezes de Carvalho Crespo é graduando em Ciências Sociais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

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