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Pasárgada

Do A Terra É Redonda, 10 de abril 2026
Por JANDERSON LACERDA TEIXEIRA*



Enquanto a poesia de Manuel Bandeira encontrava em Pasárgada a liberdade de ser amigo do rei, certo radicalismo ocidental persiste em reduzir o Irã a estereótipos, ignorando milênios de história e uma tradição de tolerância que remonta a Ciro, o Grande

1.
Discutir a sociedade e cultura iraniana pode ser muito complexo se não abandonarmos as certezas ocidentais impostas a nós como dogma religioso. Há, nesse tipo de postura, uma tendência recorrente de simplificação da realidade, como se o mundo pudesse ser dividido entre civilização e barbárie a partir de parâmetros exclusivamente europeus ou estadunidenses.

Esse olhar limitado não apenas empobrece o debate, mas também impede uma compreensão mais profunda das dinâmicas históricas e culturais de regiões como o Oriente Médio, cuja riqueza simbólica, política e filosófica atravessa milênios e permanece viva nas práticas sociais contemporâneas.

O radicalismo ocidental praticado por alguns setores é totalitário e generalista e, por isso, despreza outras culturas e formas de organização de vida não ancoradas no pensamento eurocêntrico e estadunidense. Ao desprezar o diálogo, esse radicalismo também se recusa a aprender, perpetuando estereótipos que servem mais à dominação do que ao entendimento.

Trata-se de uma postura que transforma diferenças em ameaças e reduz complexidades a caricaturas, o que dificulta qualquer possibilidade real de aproximação entre povos distintos.

Esse tipo de pensamento ignora, por exemplo, que o Irã contemporâneo carrega consigo camadas históricas profundas, que remontam a civilizações antigas, responsáveis por contribuições significativas à humanidade, seja na política, na administração, na arquitetura ou mesmo na noção de direitos.

Felizmente Manuel Bandeira em sua libertinagem modernista distanciou-se desses pensamentos e preferiu escrever sobre Pasárgada, capital do Império Aquemênida, atual Irã. Ao fazer isso, o poeta brasileiro não apenas rompeu com uma visão limitada de mundo, mas também criou um espaço imaginário de liberdade que dialoga com uma tradição histórica muitas vezes ignorada pela visão ocidental. Manuel Bandeira contrariando as verdades ocidentais escreveu: “Vou-me embora pra Pasárgada. Lá sou amigo do rei”.

Talvez ao mencionar o rei do império persa estivesse referindo-se a Ciro, o grande, nascido entre 590 e 580 a.C. Ciro é o fundador do império persa, hoje Irã, e foi o libertador dos escravos da Babilônia. Governou entre 559 e 530 a.C. O fundador do império persa permitiu que as comunidades ligadas ao seu império adorassem os seus próprios deuses, e de acordo com a Bíblia deu permissão aos exilados judeus para que regressassem a casa e começassem a reconstrução do templo, em Jerusalém.

Esse gesto, frequentemente lembrado como um dos primeiros registros de tolerância religiosa institucionalizada da humanidade, contrasta fortemente com a imagem estereotipada que muitas vezes se constrói sobre o Oriente.

2.

Ciro, o Grande, deve ter chorado pelos escravos e, certamente, se compadeceu com o povo judeu. Sua figura histórica revela que a empatia e a justiça não são monopólios de nenhuma cultura específica, mas valores universais que podem emergir em diferentes contextos. Ao reconhecermos isso, somos convidados a rever nossas próprias referências e a questionar os limites do pensamento que herdamos. Não se trata de idealizar o passado, mas de reconhecer que há múltiplas tradições de humanidade possíveis.

O eu lírico do poema de Manuel Bandeira imaginou encontrar a felicidade em Pasárgada por enxergar a liberdade na cidade histórica. Essa liberdade, mais do que política, é também existencial: a possibilidade de viver sem as amarras impostas por estruturas rígidas de pensamento. Pasárgada torna-se, assim, um símbolo de fuga não apenas da realidade opressiva, mas também de um imaginário limitado, que não consegue conceber outras formas de organização social e cultural. É uma recusa simbólica daquilo que aprisiona o sujeito em visões estreitas do mundo.

Diferentemente de Manuel Bandeira, alguns setores das mídias hegemônicas do Brasil exalam ignorância e preconceito enquanto se curvam a figuras menores para a história, como Donald Trump, presidente dos estados unidos. Esses setores operam dentro de uma lógica de repetição e validação externa, em que o valor de uma informação está condicionado à sua origem em grandes centros de poder midiático. Nesse sentido, a crítica não se limita ao conteúdo veiculado, mas à própria estrutura de produção e circulação de narrativas.

Esses setores são párias, incapazes de fazer uma leitura mais aprofundada do mundo e da história, ao contrário, reverberam com força o que é determinado pelas agências de notícias estadunidenses. “Se não deu no New York Times”, é mentira! Essa postura revela não apenas uma dependência intelectual, mas também uma renúncia à soberania de decisão, essencial para qualquer sociedade que pretenda se afirmar independente. Ao abrir mão dessa soberania, abdica-se também da capacidade de formular interpretações próprias e de reconhecer a complexidade do cenário internacional.

Ora, esses setores que defendem a submissão de alguns povos em detrimento da soberania de outros, negam o direito internacional, enquanto apregoam o estado mínimo e ironicamente apreciam o epíteto no aumentativo para estado. Há aqui uma contradição evidente: defendem a redução do Estado para a maioria, mas celebram sua expansão quando este serve aos interesses de uma elite específica. Esse duplo padrão revela muito sobre as relações de poder que estruturam o discurso político contemporâneo.

O Estadão, no aumentativo, é apenas para uma burguesia que se curva aos interesses dos estados unidos e sonha com a implementação de um império bárbaro saxônico. Para os demais, é estado mínimo, estadinho, e sem choro. Ao final, o que se observa é a manutenção de desigualdades por meio de discursos que simulam justiça, mas que, na prática, reforçam preconceitos, incultura e a defesa de hierarquias já estabelecidas.

*Janderson Lacerda Teixeira é professor da Universidade Santo Amaro.Autor, entre outros livros, de O mundo ao avesso (Luva Editora).

Referências

BANDEIRA, Manuel. Libertinagem. São Paulo: Global, 2013.

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

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