Por MARCO MONDAINI*
Uma recepção sem citação: Gramsci entra como lente de cultura e política, e sai como hipótese de percurso—datável, discutível, mas sustentada por evidências de leitura
Mais perguntas que respostas
Principio a continuação do artigo que teve a sua primeira parte publicada nos site A Terra é Redonda, no dia 12 de abril, chamando a atenção para o fato de que, nas duas principais obras de Antonio Candido e Sergio Buarque de Holanda publicadas entre fins da década de 1950 e início dos anos 1970 – Formação da Literatura Brasileira e História Geral da Civilização Brasileira. Do Império à República –, inexistem referências aos Quaderni del Carcere de Antonio Gramsci.[i]
Considero tal informação relevante pois, quando da redação dos dois livros – entre 1945 e 1951 e no início da década de 1970, respectivamente –, já haviam sido publicadas as edições dos Quaderni de Antonio Gramsci lidas por Antonio Candido e Sérgio Buarque de Holanda – a do primeiro, 1949, em formato brochura; a do segundo, 1966, encadernados em capa dura –, o que não implica dizer necessariamente que a sua leitura tenha sido feita enquanto os dois livros estavam sendo redigidos. Na verdade, no caso de Antonio Candido, há um forte indício de que a leitura dos Quaderni tenha sido realizada após o biênio de 1961/1962, como será visto mais à frente.
De toda forma, estudiosos da vida e obra de Antonio Candido e Sérgio Buarque de Holanda ou pesquisadores interessados em se debruçar sobre a recepção e apropriação da obra de Antonio Gramsci por intelectuais não-gramscianos brasileiros[ii] (do campo marxista[iii] ou não) poderão afirmar com maior exatidão: (i) se tal ausência repetiu-se, ou não, no conjunto dos seus artigos, capítulos de livros e livros e, até mesmo, aulas, palestras e entrevistas; (ii) se houve algum tipo de influência das reflexões gramscianas (por menor que tenha sido esta) sobre um momento particular das suas trajetórias acadêmicas e políticas; (iii) o momento exato em que foram feitas as leituras das notas gramscianas pelos dois clássicos do pensamento social e crítico-literário brasileiro e suas motivações.
Dito isso, reitero a advertência feita no texto de 12 de abril de que o objetivo aqui proposto se limita à tentativa de, a partir das marcações e anotações feitas por Antonio Candido e Sérgio Buarque de Holanda nos Quaderni de Gramsci, sugerir as possíveis temáticas de interesse acadêmico e político na leitura que os dois intelectuais fizeram da obra carcerária do comunista italiano responsável por dar um autêntico “sopro de renovação” no pensamento marxista, quando seus escritos de fevereiro de 1929 a agosto de 1935 começaram a ser publicados no pós-Segunda Guerra Mundial, por iniciativa do secretário-geral do Partido Comunista Italiano (PCI), Palmiro Togliatti.
Nessa segunda parte do artigo, o foco das preocupações estará concentrado exclusivamente, por um lado, nas marcações feitas por Antonio Candido e Sérgio Buarque de Holanda em Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce e, por outro lado, numa anotação específica feita por Antonio Candido no “fichamento” de Letteratura e vita nazionale.[iv]
Hegemonia e ortodoxia
As marcações de Sérgio Buarque de Holanda em Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce podem ser divididas em três áreas de interesse: (a) as relações entre ciência, religião e senso comum; (b) os vínculos entre, de uma parte, Contrarreforma, Companhia de Jesus e Democracia-Cristã e, de outra parte, Reforma, Renascimento e individualismo; (c) os conceitos de catarse, história ético-política e hegemonia.
Como a terceira parte desse artigo abordará as duas primeiras áreas, destacarei aqui a atenção dispensada por Sérgio Buarque de Holanda aos três conceitos fundamentais na obra carcerária de Antonio Gramsci, que parte da crítica feita por este ao mecanicismo ainda presente nos momentos iniciais da filosofia da práxis.
Nesse sentido, aparecem marcados dois trechos dos Quaderni que possuem um valor inestimável para os gramscianos:
Na página 40: “O termo “catarse”. Pode-se empregar o termo “catarse” para indicar a passagem do momento meramente econômico (ou egoístico-passional) ao momento ético-político, isto é, a elaboração da estrutura em superestrutura na consciência dos homens. Isso significa também a passagem do “objetivo ao subjetivo” e da “necessidade à liberdade” (…) A fixação do momento “catártico” torna-se assim, me parece, o ponto de partida de toda a filosofia da práxis, o processo catártico coincide com a cadeia de sínteses que são resultantes do desenvolvimento dialético”.
Na página 189: “Pode-se dizer que não somente a filosofia da práxis não exclui a história ético-política, mas que, pelo contrário, a sua mais recente fase de desenvolvimento consiste justamente na reivindicação do momento da hegemonia como essencial na sua concepção estatal e na “valorização” do fato cultural como necessário ao lado daqueles meramente econômicos e meramente políticos”.
Em Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce, foram localizadas apenas três marcações de Antonio Candido, às páginas 157 (duas) e 158 (uma), na nota sobre o “conceito de ‘ortodoxia’”, em dois parágrafos nos quais Antonio Gramsci afirma que, tal qual o cristianismo foi revolucionário no confronto com o paganismo, a filosofia da práxis deve sê-lo com o velho mundo, rompendo todos os vínculos existentes com este último.
Para Antonio Gramsci, de maneira equivocada a meu ver, o conceito de ortodoxia encontra-se vinculado à ideia de que a filosofia da práxis deve “bastar-se a si mesma”, pois “contém em si os elementos fundamentais para construir uma total e integral concepção de mundo”.
No entanto, num parêntese marcado na leitura de Antonio Candido, Gramsci pondera que “isto não quer dizer que entre a filosofia da práxis e as velhas filosofias não existam relações, mas estas são menores que aquelas existentes entre o cristianismo e a filosofia grega”.
A referência a Guimarães Rosa
No fichamento de doze páginas em folha pautada de Letteratura e vita nazionale, Antonio Candido faz uma referência digna de destaque. Em meio às notas de Antonio Gramsci sobre Alessandro Manzoni, Liev Tolstói, William Shakespeare e Edmundo De Amicis, o autor de Os parceiros do Rio Bonito indica Guimarães Rosa e seus contos, em particular Famigerado (publicado no jornal O Globo no ano de 1961 e incluído no livro Primeiras Estórias de 1962 – o que sugere que Antonio Candido só tenha feito a leitura dos Quaderni após a publicação do seu Formação da Literatura Brasileira, de 1959), como exemplo de algo presente na obra de Liev Tolstói, segundo Antonio Gramsci.
De acordo com o “fichamento” de Antonio Candido, o conto de Guimarães Rosa que narra o encontro entre um médico (narrador) da cidade e um jagunço do sertão e sua busca pelo significado da palavra famigerado, revelaria como “a sabedoria intuitiva do povo – às vezes enunciada em uma palavra casual – é capaz de desencadear uma crise no homem culto”.
*Marco Mondaini, historiador, é professor titular do Departamento de Serviço Social da UFPE e apresentador do programa Trilhas da Democracia. Atualmente é doutorando no Departamento de Sociologia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de A invenção da democracia como valor universal (Alameda) [https://amzn.to/3KCQcZt]
Para ler a primeira parte deste artigo clique em https://aterraeredonda.com.br/os-cadernos-do-carcere-de-sergio-buarque-de-holanda-e-antonio-candido/
Notas
[i] Agradeço ao bolsista de iniciação acadêmica da FACEPE e discente do curso de Direito da UFPE, Ramon Moura, a busca de tais referências, que acabaram não sendo encontradas.
[ii] Creio não fazer muito sentido este tipo de investigação direcionada a intelectuais marcados decisivamente pela obra de Gramsci, como, por exemplo, Carlos Nelson Coutinho e Edmundo Fernandes Dias (só para citar dois grandes intelectuais marxistas brasileiros que se apropriaram da obra de Gramsci de diferentes maneiras e nos deixaram num intervalo de apenas um ano), à medida em que a bibliografia produzida pelos dois já explicita a leitura que fizeram do comunista sardo.
[iii] A busca e, caso sejam localizados, a leitura das marcações e anotações feitas por Florestan Fernandes e Caio Prado Júnior nos Quaderni de Gramsci “estão no radar” de quem escreve o presente texto.
[iv] Na terceira e última parte do presente texto, examinaremos as extensas marcações e anotações feitas por Antonio Candido em Note sul Machiavelli, sulla politica e sullo Stato moderno, e as igualmente extensas marcações de Sérgio Buarque de Holanda em Il Risorgimento e Gli intellettuali e l’organizzazione della cultura.
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Imagem: Jonathan Greenaway |
Uma recepção sem citação: Gramsci entra como lente de cultura e política, e sai como hipótese de percurso—datável, discutível, mas sustentada por evidências de leitura
Mais perguntas que respostas
Principio a continuação do artigo que teve a sua primeira parte publicada nos site A Terra é Redonda, no dia 12 de abril, chamando a atenção para o fato de que, nas duas principais obras de Antonio Candido e Sergio Buarque de Holanda publicadas entre fins da década de 1950 e início dos anos 1970 – Formação da Literatura Brasileira e História Geral da Civilização Brasileira. Do Império à República –, inexistem referências aos Quaderni del Carcere de Antonio Gramsci.[i]
Considero tal informação relevante pois, quando da redação dos dois livros – entre 1945 e 1951 e no início da década de 1970, respectivamente –, já haviam sido publicadas as edições dos Quaderni de Antonio Gramsci lidas por Antonio Candido e Sérgio Buarque de Holanda – a do primeiro, 1949, em formato brochura; a do segundo, 1966, encadernados em capa dura –, o que não implica dizer necessariamente que a sua leitura tenha sido feita enquanto os dois livros estavam sendo redigidos. Na verdade, no caso de Antonio Candido, há um forte indício de que a leitura dos Quaderni tenha sido realizada após o biênio de 1961/1962, como será visto mais à frente.
De toda forma, estudiosos da vida e obra de Antonio Candido e Sérgio Buarque de Holanda ou pesquisadores interessados em se debruçar sobre a recepção e apropriação da obra de Antonio Gramsci por intelectuais não-gramscianos brasileiros[ii] (do campo marxista[iii] ou não) poderão afirmar com maior exatidão: (i) se tal ausência repetiu-se, ou não, no conjunto dos seus artigos, capítulos de livros e livros e, até mesmo, aulas, palestras e entrevistas; (ii) se houve algum tipo de influência das reflexões gramscianas (por menor que tenha sido esta) sobre um momento particular das suas trajetórias acadêmicas e políticas; (iii) o momento exato em que foram feitas as leituras das notas gramscianas pelos dois clássicos do pensamento social e crítico-literário brasileiro e suas motivações.
Dito isso, reitero a advertência feita no texto de 12 de abril de que o objetivo aqui proposto se limita à tentativa de, a partir das marcações e anotações feitas por Antonio Candido e Sérgio Buarque de Holanda nos Quaderni de Gramsci, sugerir as possíveis temáticas de interesse acadêmico e político na leitura que os dois intelectuais fizeram da obra carcerária do comunista italiano responsável por dar um autêntico “sopro de renovação” no pensamento marxista, quando seus escritos de fevereiro de 1929 a agosto de 1935 começaram a ser publicados no pós-Segunda Guerra Mundial, por iniciativa do secretário-geral do Partido Comunista Italiano (PCI), Palmiro Togliatti.
Nessa segunda parte do artigo, o foco das preocupações estará concentrado exclusivamente, por um lado, nas marcações feitas por Antonio Candido e Sérgio Buarque de Holanda em Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce e, por outro lado, numa anotação específica feita por Antonio Candido no “fichamento” de Letteratura e vita nazionale.[iv]
Hegemonia e ortodoxia
As marcações de Sérgio Buarque de Holanda em Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce podem ser divididas em três áreas de interesse: (a) as relações entre ciência, religião e senso comum; (b) os vínculos entre, de uma parte, Contrarreforma, Companhia de Jesus e Democracia-Cristã e, de outra parte, Reforma, Renascimento e individualismo; (c) os conceitos de catarse, história ético-política e hegemonia.
Como a terceira parte desse artigo abordará as duas primeiras áreas, destacarei aqui a atenção dispensada por Sérgio Buarque de Holanda aos três conceitos fundamentais na obra carcerária de Antonio Gramsci, que parte da crítica feita por este ao mecanicismo ainda presente nos momentos iniciais da filosofia da práxis.
Nesse sentido, aparecem marcados dois trechos dos Quaderni que possuem um valor inestimável para os gramscianos:
Na página 40: “O termo “catarse”. Pode-se empregar o termo “catarse” para indicar a passagem do momento meramente econômico (ou egoístico-passional) ao momento ético-político, isto é, a elaboração da estrutura em superestrutura na consciência dos homens. Isso significa também a passagem do “objetivo ao subjetivo” e da “necessidade à liberdade” (…) A fixação do momento “catártico” torna-se assim, me parece, o ponto de partida de toda a filosofia da práxis, o processo catártico coincide com a cadeia de sínteses que são resultantes do desenvolvimento dialético”.
Na página 189: “Pode-se dizer que não somente a filosofia da práxis não exclui a história ético-política, mas que, pelo contrário, a sua mais recente fase de desenvolvimento consiste justamente na reivindicação do momento da hegemonia como essencial na sua concepção estatal e na “valorização” do fato cultural como necessário ao lado daqueles meramente econômicos e meramente políticos”.
Em Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce, foram localizadas apenas três marcações de Antonio Candido, às páginas 157 (duas) e 158 (uma), na nota sobre o “conceito de ‘ortodoxia’”, em dois parágrafos nos quais Antonio Gramsci afirma que, tal qual o cristianismo foi revolucionário no confronto com o paganismo, a filosofia da práxis deve sê-lo com o velho mundo, rompendo todos os vínculos existentes com este último.
Para Antonio Gramsci, de maneira equivocada a meu ver, o conceito de ortodoxia encontra-se vinculado à ideia de que a filosofia da práxis deve “bastar-se a si mesma”, pois “contém em si os elementos fundamentais para construir uma total e integral concepção de mundo”.
No entanto, num parêntese marcado na leitura de Antonio Candido, Gramsci pondera que “isto não quer dizer que entre a filosofia da práxis e as velhas filosofias não existam relações, mas estas são menores que aquelas existentes entre o cristianismo e a filosofia grega”.
A referência a Guimarães Rosa
No fichamento de doze páginas em folha pautada de Letteratura e vita nazionale, Antonio Candido faz uma referência digna de destaque. Em meio às notas de Antonio Gramsci sobre Alessandro Manzoni, Liev Tolstói, William Shakespeare e Edmundo De Amicis, o autor de Os parceiros do Rio Bonito indica Guimarães Rosa e seus contos, em particular Famigerado (publicado no jornal O Globo no ano de 1961 e incluído no livro Primeiras Estórias de 1962 – o que sugere que Antonio Candido só tenha feito a leitura dos Quaderni após a publicação do seu Formação da Literatura Brasileira, de 1959), como exemplo de algo presente na obra de Liev Tolstói, segundo Antonio Gramsci.
De acordo com o “fichamento” de Antonio Candido, o conto de Guimarães Rosa que narra o encontro entre um médico (narrador) da cidade e um jagunço do sertão e sua busca pelo significado da palavra famigerado, revelaria como “a sabedoria intuitiva do povo – às vezes enunciada em uma palavra casual – é capaz de desencadear uma crise no homem culto”.
*Marco Mondaini, historiador, é professor titular do Departamento de Serviço Social da UFPE e apresentador do programa Trilhas da Democracia. Atualmente é doutorando no Departamento de Sociologia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de A invenção da democracia como valor universal (Alameda) [https://amzn.to/3KCQcZt]
Para ler a primeira parte deste artigo clique em https://aterraeredonda.com.br/os-cadernos-do-carcere-de-sergio-buarque-de-holanda-e-antonio-candido/
Notas
[i] Agradeço ao bolsista de iniciação acadêmica da FACEPE e discente do curso de Direito da UFPE, Ramon Moura, a busca de tais referências, que acabaram não sendo encontradas.
[ii] Creio não fazer muito sentido este tipo de investigação direcionada a intelectuais marcados decisivamente pela obra de Gramsci, como, por exemplo, Carlos Nelson Coutinho e Edmundo Fernandes Dias (só para citar dois grandes intelectuais marxistas brasileiros que se apropriaram da obra de Gramsci de diferentes maneiras e nos deixaram num intervalo de apenas um ano), à medida em que a bibliografia produzida pelos dois já explicita a leitura que fizeram do comunista sardo.
[iii] A busca e, caso sejam localizados, a leitura das marcações e anotações feitas por Florestan Fernandes e Caio Prado Júnior nos Quaderni de Gramsci “estão no radar” de quem escreve o presente texto.
[iv] Na terceira e última parte do presente texto, examinaremos as extensas marcações e anotações feitas por Antonio Candido em Note sul Machiavelli, sulla politica e sullo Stato moderno, e as igualmente extensas marcações de Sérgio Buarque de Holanda em Il Risorgimento e Gli intellettuali e l’organizzazione della cultura.

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