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¿Muchas balas, verdad?

Do A Terra É Redonda, 03 de abril, 2026
Por RENATO ORTIZ*



Imagem: Maksym Kaharlytskyi


O trabalho intelectual não se mede pela quantidade de notas ou de citações, mas pela precisão do acorde: basta a mão com seus poucos dedos para acertar o alvo sem desperdiçar balas

1.
Procurei pelo termo para definir meu sentimento no estúdio de gravação: satisfação. Ele tem um quê de gustativo, quando em alguns momentos, ao ingerir um alimento, uma tenra corrente de prazer nos percorre. Foi a primeira vez que me ouvi cantar a melodia (“Ausência”), ela estava simultaneamente dentro e fora de mim. Entre a porta do estúdio e o computar, no qual se faz o registro sonoro, são poucos passos, isolados pela cabine de som; há assim uma proximidade temporal entre o “acabei de tocar” e o “comecei a me ouvir”, curta distância entre a performance e a escuta.

A satisfação se aninha neste intervalo de tempo, o átimo entre ser e perceber. É uma sensação plena e fugaz. A plenitude está em se reconhecer em algo que se encontra fora, mas é ainda parte de mim, a fugacidade revela sua duração discreta, o momento que preenche e se esvai. Resta a nostalgia de que estive ali. Depois, fomos tomar um café no soturno bar da ECA-USP, tudo aí é meticulosamente ruína, a qualidade dos alimentos, o serviço, a decoração, uma espécie de greasy spoon universitário.

Conversamos sobre música e livros. Lembrei-me do documentário de Tom Jobim e Elis Regina sobre a produção de um disco memorável, “Chega de Saudade”, gravado em Los Angeles. Conta a história do encontro de dois grandes astros e as dificuldades de entendimento entre o maestro e o arranjador, o jovem e excelente músico Cesar Camargo Mariano.

Em determinado momento Tom Jobim diz ao arranjador, repete a frase várias vezes: “quantos dedos você tem na sua mão”, “quantos dedos”? Queria dizer que em um acorde não cabia mais notas do que era necessário para fazê-lo soar bem. Muitas vezes os músicos deslizam para a ilusão da virtuosidade, confundem a performance com a verdade musical, como se a infinidade de dedos completasse a lacuna entre a apresentação e a essência.

O trabalho intelectual tem algo disso. Para ser preciso o argumento deve ser trabalhado com os dedos disponíveis da mão, de nada adianta acrescentar ao texto uma erudição inútil se ela soar como as notas excêntricas de uma melodia encharcada.

2.
Estava em Guadalajara num desses encontros internacionais, quando numa roda de conversa o assunto resvalou para a escrita. Quais os dilemas de um escritor? Pensei em um tema específico: escrever é uma atividade marcada pela lentidão. Há primeiro o plano das ideias, sua maturação, tudo se passa “na cabeça” à parte do mundo concreto. É possível perder-se neste jogo de abstrações, mas é preciso saber alimentar o hiato entre as ideias e o real, sem o que elas seriam uma fotografia distorcida do que gostaríamos de dizer. Vem em seguida a escrita, ela é reflexiva e lenta, dobra-se sobre si mesma.

A conversa continuou, e como nas conversas casuais os temas são erráticos, flutuam, o assunto mudou. Haveria uma conjunção necessária entre luz e conhecimento? Os iluministas pensavam que sim, o conhecimento nos retiraria das trevas, seria uma forma de “esclarecimento” (diz-se em alemão: Aufklärung). No entanto, a metáfora me parecia pouco propícia para caracterizar a vida intelectual.

Platão, em sua alegoria da caverna, dizia que os homens acostumados à escuridão, ao saírem de seu isolamento, retornando à superfície da terra, sofriam com a intensidade da luz, conseguiam discernir apenas as sombras dos objetos (creio que os filósofos usam óculos Ray Ban para se proteger da verdade). Porém, passado o momento de indecisão, a vista se acostumaria à luminosidade excessiva e o reino das ideias poderia ser alcançado em sua plenitude.

Tinha dúvidas a esse respeito. A questão não é tanto ter clareza das coisas, mas acertar o alvo, o trabalho intelectual é uma construção, a arte consiste em selecionar ideias e fatos que melhor explicitem a exposição. O resultado é uma composição na qual cada peça é minuciosamente encaixada em seu devido lugar, o arranjo das partes confere sentido à narrativa. A virtuosidade à qual tinha me referido é muitas vezes inócua, como as citações em excesso, que funcionam, talvez, como argumento de autoridade, porém, resvalam pela tangente do que se quer apresentar.

Dizem os atiradores de elite que se enxerga melhor o alvo com um dos olhos vendados, a restrição é a qualidade que os liberta do brilho cego da luz. Apresentei assim minha “teoria”: o trabalho intelectual é como um western clássico (tipo High noon de Fred Zinnemann) no qual o herói durante a maior parte do filme destila suas dúvidas e dilemas existenciais para somente resolvê-los no fade out. Ele possui poucas balas e não pode desperdiçá-las, o tiro deve ser certeiro (geralmente um duelo ao pôr do sol).

Em espanhol o ponto de interrogação invertido vem no início da frase, sua função é orientar a entonação da pronúncia na direção correta, ele funciona como um sinal de alerta em relação àquilo que se interroga. Segue depois o ponto em sua posição revertida, confirma que no fim da frase a pergunta ali se encerra.

A afirmação encontra-se contida entre duas interrogações que a protegem de qualquer mal-entendido. Em português não existe aviso prévio, tropeça-se pela frase sem saber muito bem o que esperar. No dia seguinte retornamos ao evento, um auditório grande, repleto de pessoas.

Minha colega, uma das organizadoras do encontro, tinha se divertido com minhas especulações da noite anterior. Sentou-se na fileira de cadeiras à minha frente para escutar o orador da manhã. Após um tempo, inquieta, olhou várias vezes o relógio de pulso, a fala se alongava cada vez mais, sorrindo, virou-se para mim e disse: “¿Muchas balas, verdad?”.

*Renato Ortiz é professor titular do Departamento de Sociologia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de O universo do luxo (Alameda). [https://amzn.to/3XopStv]

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