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Movimentos sociais no Irã: protagonismo na resistência à política imperialista mundial.

Entrevista especial com Camila Hirt Munareto

Quatro grandes grupos não homogêneos se destacam no cenário interno. Entretanto, suas articulações nesse ambiente repressivo estão ainda mais impactadas frente ao conflito deflagrado por Israel e EUA, cuja reação iraniana foi subestimada 


Manifestações populares em Teerã (1978)
| Foto: Autor desconhecido/Sajedir/Wikimedia Commons


Do IHU, 07 Abril 2026

Por: Márcia Junges 


As mobilizações sociais no Irã revelam uma dinâmica complexa, marcada por transformações constantes e por uma profunda ligação com a história política do país. Em uma sociedade atravessada por interferências estrangeiras, esses movimentos não podem ser compreendidos de forma isolada, mas sim como parte de uma trajetória mais ampla de resistência e afirmação nacional. Como explica a pesquisadora Camila Hirt Munareto na entrevista concedida por WhatsApp ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, “em uma sociedade cuja história é marcada pela interferência estrangeira, a mobilização social não se separa do desejo por independência e soberania”, sendo justamente essa busca o principal motor das ações coletivas iranianas ao longo do tempo.

Apesar de sua relevância, mapear os movimentos sociais iranianos é um desafio. A ausência de estruturas organizacionais rígidas e a constante adaptação desses grupos dificultam classificações definitivas. Ainda assim, é possível identificar padrões de atuação e interesses comuns que permitem compreender suas articulações. “Os movimentos de oposição no Irã são difusos e heterogêneos”, destaca Munareto, ressaltando que essa característica, somada à repressão estatal, impede a consolidação de uma liderança única capaz de centralizar demandas ou disputar o poder político de forma direta.

Esse cenário interno se conecta a uma percepção internacional frequentemente distorcida sobre o Irã, especialmente após a Revolução Islâmica de 1979. Segundo Munareto, a imagem de um país “radical” foi construída mais como resposta ao confronto com interesses ocidentais do que por uma análise fiel de sua política. Ao mesmo tempo, conflitos recentes no Oriente Médio reforçam narrativas de desumanização e ampliam tensões geopolíticas. Nesse contexto, compreender o papel dos movimentos sociais e da sociedade iraniana torna-se essencial para superar estereótipos e analisar, com maior profundidade, os rumos políticos e estratégicos do país.

Camila Hirt Munareto (Foto: arquivo pessoal)


Camila Hirt Munareto é graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) com a monografia A Política Externa como Instrumento de Legitimidade no Irã. É mestra em Ciências Sociais pela mesma instituição com a dissertação Modernização, Instituições e Revolução: O Caso Iraniano (1953-1979) e doutora em Estudos Estratégicos Internacionais com a tese Política Externa e Movimentos Sociais: uma análise da República Islâmica do Irã. Leciona na Universidade Federal do Pampa (Unipampa).

Confira a entrevista.


IHU – A partir de sua pesquisa de doutorado, quais são as principais relações entre política externa e movimentos sociais na República Islâmica do Irã?

Camila Hirt Munareto – Quando olhamos para a trajetória de mobilização social iraniana, percebemos que esses movimentos sociais têm, ao longo de muito tempo, lutado contra o autoritarismo e a dominação estrangeira. Isso não teve início com a Revolução Islâmica e tampouco se encerrou após 1979. Na verdade, podemos notar essa tendência desde o século XX, com mobilizações como a Revolução Constitucional em 1905 e, especialmente, o Movimento de Nacionalização do Petróleo em 1951. Ainda que cada mobilização tenha ocorrido em um contexto particular, todas elas buscavam, em alguma medida, conter o autoritarismo do Estado e romper com a subjugação política e a exploração econômica que sempre condicionou as relações do Irã com o sistema internacional.

Isso fica ainda mais evidente com a Revolução Islâmica de 1979. O movimento revolucionário não só alterou as estruturas sociais e políticas do Irã como também reorientou sua política externa. A partir de então, o comportamento internacional do Irã passou a ser guiado por princípios islâmicos e anti-imperialistas, que encontram suas bases no processo revolucionário. Mesmo depois da consolidação da República Islâmica, a sociedade iraniana permanece atuante. Os protestos estudantis de 1999, o Movimento Verde de 2009, as manifestações populares de 2017 e 2019, o Movimento Mulher, Vida e Liberdade de 2022 e, mais recentemente, os protestos de janeiro de 2026 são exemplos do dinamismo social iraniano e indicam que, além de demandas internas, esses movimentos sociais também tinham uma concepção própria de como deveriam ser conduzidas as relações externas do Irã.

Essas mobilizações sociais não são uniformes e tampouco tiveram os mesmos objetivos, mas o que podemos observar é que, em uma sociedade cuja história é marcada pela interferência estrangeira, a mobilização social não se separa do desejo por independência e soberania. Na verdade, a busca por esses elementos tem sido a mola propulsora dos movimentos sociais iranianos e impactado substancialmente as relações entre Estado e sociedade no país. Da mesma forma que o desejo por autonomia externa influenciou a mobilização social iraniana, esses movimentos foram protagonistas na trajetória de resistência do Irã na política mundial.

Essas mobilizações sociais não são uniformes e tampouco tiveram os mesmos objetivos, mas o que podemos observar é que, em uma sociedade cuja história é marcada pela interferência estrangeira, a mobilização social não se separa do desejo por independência e soberania – Camila Hirt Munareto Tweet.

IHU – Quais os principais movimentos sociais do Irã e quais são suas características e demandas centrais?

Camila Hirt Munareto – Elencar os principais movimentos sociais iranianos é uma tarefa difícil porque esses grupos têm se transformado ao longo da história e não têm estruturas organizacionais bem delimitadas e definidas. Ainda assim, apesar da repressão e dos limites impostos pelo Estado, a ação coletiva encontra espaço para se desenvolver e é possível identificar ações e lideranças políticas conjuntas que nos permitem agrupar os movimentos sociais a partir de seus interesses e objetivos comuns. Podemos dividir essa atuação em quatro grandes grupos, mas é importante destacar que eles não são homogêneos e não representam a totalidade da atuação social iraniana.

Começo citando o movimento reformista, que teve uma atuação significativa ao longo da década de 1990 e chegou a ocupar postos importantes na política iraniana, com a eleição de Mohammad Khatami à presidência da República Islâmica em 1997. Esse movimento promoveu uma série de reformas no sistema político iraniano e, por um bom tempo, desempenhou um papel de liderança dentro dos movimentos sociais de oposição no Irã. Como o próprio nome indica, este é um movimento de reforma que defende a permanência do sistema político, mas confere a ele um caráter mais democrático e favorável a uma maior participação política e social. Porém, desde 2009, depois dos protestos do Movimento Verde, esse grupo foi sistematicamente excluído da esfera política iraniana e acabou perdendo parte significativa do seu apelo popular.

Cabe destacar também o movimento estudantil e o movimento de mulheres. Os estudantes foram uma peça central no processo revolucionário e na consolidação da República Islâmica, constituindo um dos grupos mais fiéis às ideias defendidas pelo líder revolucionário, o aiatolá Khomeini. Ao longo do tempo, contudo, alguns destes grupos se afastaram das correntes políticas mais conservadoras e passaram a compor a oposição política iraniana. De modo semelhante, a mobilização das mulheres no Irã desempenhou um papel significativo nos protestos que culminaram na derrubada da monarquia em 1979. Com o passar dos anos, esse grupo passou a fazer oposição à República Islâmica e defender mudanças dentro do regime. Atualmente, as mulheres são uma força política central na República Islâmica, com muitas delas desafiando o sistema político, como vimos nos protestos de 2022.

Além desses movimentos de oposição, é necessário reconhecer que a atuação do movimento conservador iraniano também é significativa. Este movimento engloba os partidários do Líder Supremo do Irã e defensores dos princípios ideológicos centrais da Revolução Islâmica de 1979. Suas lideranças são afiliadas ao estabelecimento clerical baseado em Qom e contam com o apoio de parcela considerável da população. Além disso, mesmo entre os grupos que compõem o movimento de mulheres e o movimento estudantil é possível encontrar apoiadores das vertentes políticas mais conservadoras.

Elencar os principais movimentos sociais iranianos é uma tarefa difícil porque esses grupos têm se transformado ao longo da história e não têm estruturas organizacionais bem delimitadas e definidas – Camila Hirt Munareto Tweet.

IHU – Como esses movimentos estão reagindo e se (re)articulando no contexto do conflito em curso?

Camila Hirt Munareto – No início do conflito, Estados Unidos e Israel enfatizaram em seus discursos que este ataque seria uma oportunidade para a oposição iraniana tomar o poder no país e colocar fim à República Islâmica. Ainda que essa expectativa possa ter sido incentivada pelos protestos ocorridos em janeiro de 2026, ela ignora que, em um contexto de ameaça externa, a oposição iraniana tem pouco espaço de ação.

Esses movimentos, que já enfrentam dificuldades para se articular em um ambiente repressivo, veem sua capacidade de atuação reduzida diante do conflito. Como citei anteriormente, os movimentos de oposição no Irã são difusos e heterogêneos, de modo que não conseguimos identificar um grupo que consiga desempenhar um papel de liderança e tenha a capacidade de tomar o poder no Irã. Além disso, medidas como o controle da informação, a censura na internet e a vigilância de ativistas se tornam ainda mais comuns sob a alegação de proteger a segurança nacional, de modo que as forças dissidentes acabam sendo suprimidas e impedidas de atuar politicamente.

Na verdade, o que podemos observar é que a presença de uma ameaça externa reforça a posição da elite política e o caráter autoritário da República Islâmica. Nesse contexto, quem acaba tendo maior destaque é o movimento conservador e os grupos apoiadores do sistema político. Um exemplo disso são as ruas iranianas repletas de apoiadores da República Islâmica um dia após o assassinato do aiatolá Khamenei. Acontecimentos como este devem ser entendidos como um sinal de que o sistema político iraniano está ancorado em uma base social significativa, que tende a ser reforçada no atual contexto. Também é importante destacar que mesmo os movimentos de oposição no Irã não são favoráveis à interferência externa. Diante disso, o ataque promovido por Israel e Estados Unidos corrobora a ideia de que o Irã está sob ameaça externa e colabora para a manutenção da unidade social.

IHU – Por que existe uma tendência na literatura de Relações Internacionais a ignorar o dinamismo social do Irã? Em que medida essa realidade espelha os limites de compreensão do Ocidente sobre o Oriente?

Camila Hirt Munareto – Desde a eclosão da Revolução Islâmica, a comunidade internacional ocidental delegou ao Irã a imagem de um país radical. Essa categorização da política iraniana não encontra sua origem no comportamento internacional iraniano, mas sim no fato de que a partir de 1979 a política externa do Irã passou a confrontar os interesses dos Estados Unidos e seus aliados, em especial, Israel. Além de permanecer sendo um país estrategicamente importante, o Irã emerge de seu processo revolucionário com um discurso que denunciava a hierarquia das relações internacionais e contestava o status quo regional.

A partir de então, o Irã passa a ser combatido com um potente contradiscurso e a política iraniana começou a ser lida por meio de binômios e adjetivos como “louco”, “irracional”, “mau”, “incompetente” e “incompreensível”. Esse tipo de categorização retórica é utilizado estrategicamente para demonizar o outro, mesmo em situações em que existem explicações compreensíveis para suas ações. Como essas categorizações são formuladas por quem está em uma posição capaz de influenciar a política mundial, essa imagem do Irã não só se tornou aceita e disseminada amplamente, bem como condicionou suas relações com a comunidade internacional.

Soma-se a isso o orientalismo e a desconfiança histórica em relação aos mulçumanos e, o que se observa, é uma tendência a conceber a sociedade iraniana de forma estática. Isso decorre de concepções errôneas sobre a natureza da política no mundo não ocidental, tratando o autoritarismo e a democracia como realidades inatas a certas regiões e mutuamente excludentes. Como reflexo disso, apesar do seu longo histórico de mobilização social, o Irã tende a ser visto como um local resistente à mudança e seus movimentos reduzidos ao fundamentalismo islâmico e reacionário.

Medidas como o controle da informação, a censura na internet e a vigilância de ativistas se tornam ainda mais comuns sob a alegação de proteger a segurança nacional, de modo que as forças dissidentes acabam sendo suprimidas e impedidas de atuar politicamente – Camila Hirt Munareto Tweet.

IHU – Qual é o nexo que une modernização, instituições e revolução no Irã pensando nos anos de 1953 a 1979? Qual é o legado da Revolução de 79?

Camila Hirt Munareto – Em 1953, a interferência externa ocidental atingiu seu ápice no Irã, com a execução de um golpe de Estado que depôs o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, líder do movimento nacionalista iraniano que havia conseguido aprovar, em 1951, seu projeto de nacionalização do petróleo. Após tentativas frustradas de interromper a nacionalização por meio da negociação, os governos britânico e estadunidense forneceram suporte para que as forças armadas iranianas depusessem Mossadegh. Nisso, em 1º de março de 1953, a operação Ajax pôs fim a autonomia do primeiro-ministro e do parlamento iraniano, centralizando o poder político no Xá Reza Pahlavi.

Com a ocorrência do golpe e o fim do processo de nacionalização, a oposição à interferência ocidental ganhou ainda mais força e, além de consolidar o imaginário coletivo iraniano de que os atores estrangeiros eram responsáveis pelas crises que afligiam o país, transformou Mossadegh em um símbolo da resistência à influência externa.

O golpe de Estado de 1953 consolidou o compromisso do Xá com o Ocidente e transformou o Irã em uma peça central dentro da esfera de influência norte-americana no Oriente Médio. A partir de então, sob uma organização política fortemente centralizada e autoritária, a monarquia promoveu uma série de medidas com o objetivo de modernizar suas estruturas políticas e econômicas e tornar-se uma grande potência no sistema internacional. Essa modernização, no entanto, baseava-se na imposição do modelo ocidental de desenvolvimento e na rejeição dos aspectos locais. Foi nesse contexto que o movimento revolucionário iraniano se fortaleceu e desafiou a dinastia Pahlavi.

Além de permanecer sendo um país estrategicamente importante, o Irã emerge de seu processo revolucionário com um discurso que denunciava a hierarquia das relações internacionais e contestava o status quo regional – Camila Hirt Munareto Tweet.

Nesse sentido, a Revolução Islâmica de 1979 surge como uma resposta à interferência externa e à imposição de um modelo de modernização política e econômica que desconsiderava a identidade iraniana. No centro do processo revolucionário estavam os conceitos de ocidentalização (westernization) e intoxicação ocidental (westoxification). Elaborados como uma resposta às reformas modernizantes executadas pelo regime do Xá, estes conceitos refletiam a rejeição à influência ocidental no Irã. Pressupondo que o Ocidente era incapaz de compreender as dinâmicas dos países não ocidentais, estes conceitos advogavam por uma modernização que fizesse jus às raízes autênticas e à identidade do Irã.

Deste modo, as tradições islâmicas passaram a ser mobilizadas como uma forma de materializar uma modernidade nacional iraniana, contrastando com o modelo que vinha sendo promovido desde 1953. Com isso, o estabelecimento de um regime fundamentado em ideais religiosos não configurou um entrave ao processo de modernização. Ao contrário, a Revolução Islâmica teve como legado a promoção de um processo de modernização político e social fundamentado nos princípios revolucionários.

Diante disso, o comportamento internacional iraniano se adaptou a este novo contexto e passou a ser guiado por uma doutrina de política externa anti-imperialista, islâmica e revolucionária. Esses princípios orientadores da política externa iraniana alteraram as preferências estratégicas do Estado iraniano e, por mais que tenham se modificado ao longo do tempo, ainda exercem influência sobre a ação externa do Irã.

IHU – Sob que aspectos o que ocorreu (e ainda ocorre) em Gaza serviu de “laboratório” da política externa dos EUA e de Israel e ajuda a entender o que está havendo agora, com os ataques à Venezuela e ao Irã?

Camila Hirt Munareto – Acredito que o que aconteceu (e continua acontecendo) em Gaza testou os limites para a impunidade de Israel no cenário internacional e tornou ainda mais visível o entrelaçamento entre a política externa norte-americana e os interesses israelenses. Evidentemente, esta não é a primeira vez que Estados Unidos e Israel desrespeitam o direito internacional sem consequências proporcionais, no entanto, as repercussões internacionais limitadas e a incapacidade dos organismos multilaterais de produzir respostas efetivas acabam por incentivar a continuidade de suas políticas agressivas na região. Além disso, a lógica de desumanização dos adversários, que foi central na violência contra os palestinos, parece ser reiterada, agora direcionada também ao Irã.

IHU – Por outro lado, como o conflito em curso ajuda a fortalecer a resistência iraniana e enfraquece os movimentos internos que lutam por democracia?

Camila Hirt Munareto – Como comentei anteriormente, este conflito limita o espaço de atuação dos movimentos de oposição iranianos. Na verdade, esse cenário de ameaça externa acaba reforçando o que podemos chamar de “política de resistência iraniana”. Essa política pode ser compreendida como uma orientação da política externa do Irã que considera ser papel da República Islâmica resistir ao expansionismo de Israel e à constante interferência dos Estados Unidos no Oriente Médio. Essa postura encontra suas raízes no histórico de dominação política e dependência econômica que o Irã vivenciou desde o século XIX. Essas experiências consolidaram, ao longo do tempo, a percepção entre muitos iranianos de que os problemas do país são resultado, em grande parte, de intervenções externas. Com a Revolução Islâmica de 1979, essa perspectiva passou a orientar a política externa do Irã, de modo que resistir à pressão de potências estrangeiras tornou-se uma forma de reafirmar o caráter revolucionário do sistema político e proteger a soberania iraniana no cenário internacional.

Esses ataques confirmam que Estados Unidos e Israel são uma ameaça ao Irã e corroboram com a visão de que é necessário continuar resistindo às tentativas de dominação externa, fortalecendo o consenso da elite política em torno dessa perspectiva. Além disso, a impunidade aos países agressores diante do desrespeito das normas internacionais contribui para a percepção de que o sistema internacional é hierárquico e injusto, fortalecendo o entendimento iraniano de que o país está sendo punido por desafiar uma ordem global desigual.

Acredito que o que aconteceu (e continua acontecendo) em Gaza testou os limites para a impunidade de Israel no cenário internacional e tornou ainda mais visível o entrelaçamento entre a política externa norte-americana e os interesses israelenses – Camila Hirt Munareto Tweet.

IHU – Bloquear o fluxo de petróleo é a estratégia central do Irã, além de minar as bases norte-americanas no Golfo. EUA e Israel calcularam mal a repercussão de seus ataques? O que a trégua de 5 dias proposta por Trump e suas falas desencontradas e até contraditórias revelam?

Camila Hirt Munareto – Desde o início da guerra, há dificuldade em compreender qual era o objetivo inicial dos Estados Unidos e exatamente o que Trump esperava alcançar com esse conflito. A partir de suas declarações, pode-se supor que houvesse a expectativa de uma reação semelhante à observada na Venezuela, ou mesmo de uma tomada de poder por manifestantes, com o consequente estabelecimento de um governo alinhado aos interesses americanos e israelenses. Essas expectativas revelam uma leitura bastante equivocada sobre o funcionamento da política iraniana e, em certa medida, indicam também uma postura de subestimação do adversário. Desde então, as falas desencontradas de Trump podem ser interpretadas tanto como sinal de falta de coordenação quanto como uma possível estratégia de distração, enquanto o governo norte-americano se reorganiza em relação ao conflito e prepara uma eventual invasão terrestre.

IHU – Ao contrário do que houve na Venezuela, o governo iraniano não caiu após os ataques sofridos. O que explica e motiva essa diferença entre os dois países atacados?

Camila Hirt Munareto – Aqui entramos na discussão sobre os elementos que sustentam a República Islâmica. Se o governo norte-americano pensou que a reação iraniana seria semelhante ao que aconteceu na Venezuela, isso indica uma incompreensão profunda da política iraniana por aqueles que estão no poder nos Estados Unidos. A República Islâmica não se sustenta na figura central do Líder Supremo, ao contrário, é um sistema político institucionalizado e fortemente ancorado em uma sólida base social.

Isso fica ainda mais evidente se considerarmos que desde 1979 as preferências estratégicas do Irã estão enraizadas nos princípios revolucionários. Formulados ao longo da década de 1970, estes princípios foram institucionalizados com a instauração da República Islâmica e orientam as relações internacionais iranianas desde então. A geração revolucionária internalizou a ideia de que o Irã tem uma missão histórica de contestar uma ordem internacional percebida como hierárquica e injusta, o que se traduz em uma política externa marcada por tentativas recorrentes de desafiar o status quo.

À luz desse contexto, é possível argumentar que o conflito em curso tende, inclusive, a reforçar essa missão revolucionária, o que ajuda a explicar por que ele não será facilmente encerrado. Para o Irã, o que está em jogo é a própria sobrevivência da revolução. Com isso, essa estratégia de eliminar as lideranças iranianas têm repercussões limitadas no país justamente porque seu sistema político está fortemente institucionalizado e encontra respaldo social, mesmo diante de uma grande força opositora. Então, por mais que esses ataques acabem gerando desafios para a coordenação política no Irã e fragilizem suas estruturas econômicas e militares, o sistema político consegue sobreviver, especialmente diante de um acontecimento que tende a gerar coesão interna.

Desde o início da guerra, há dificuldade em compreender qual era o objetivo inicial dos Estados Unidos e exatamente o que Trump esperava alcançar com esse conflito – Camila Hirt Munareto Tweet.

IHU – Como fica a relação dos países do Golfo com os EUA e Israel, que não conseguiram protegê-los dos mísseis iranianos? Por outro lado, como fica a relação do Irã com os países do Golfo?

Camila Hirt Munareto – A estratégia iraniana de responder aos ataques americanos e israelenses por meio de ações contra países do Golfo expõe as fragilidades do arranjo de segurança adotado por essas monarquias. Historicamente, os vizinhos do Irã no Golfo Pérsico têm confiado na proteção dos Estados Unidos para garantir sua segurança, apostando em uma rede de relações duradouras com os norte-americanos. Ainda que seja possível observar tentativas recentes de diversificação de parcerias estratégicas por parte dessas monarquias, esse movimento permanece muito limitado.

Essa posição contrasta fortemente com a perspectiva iraniana sobre a segurança regional. O Irã sustenta que a estabilidade no Golfo deve ser garantida pelos próprios países da região, sem a presença de potências externas, defendendo arranjos de segurança independentes. Nesse sentido, a atual estratégia iraniana pode ser interpretada como um reflexo dessas visões conflitantes sobre a condução das dinâmicas securitárias na região. Evidentemente, esse tipo de reação tende a deteriorar ainda mais as relações do Irã com seus vizinhos, historicamente já marcadas por desconfiança. Ainda assim, o episódio deixa claro os limites do modelo de segurança dependente dos Estados Unidos, reforça a crítica iraniana quanto à vulnerabilidade desse arranjo e expõe a necessidade de esses países repensarem seu posicionamento.

Soma-se a isso o fato de que as monarquias do Golfo têm investido recursos econômicos e esforços diplomáticos para se projetarem como espaços estáveis, seguros e atrativos para negócios e turismo, imagem que o atual conflito coloca em risco. Apesar disso, é importante ponderar que é pouco provável, ao menos no curto prazo, uma reconfiguração profunda desses arranjos de segurança, uma vez que as monarquias do Golfo permanecem estruturalmente vinculadas às garantias de segurança oferecidas pelos Estados Unidos.

A República Islâmica não se sustenta na figura central do Líder Supremo, ao contrário, é um sistema político institucionalizado e fortemente ancorado em uma sólida base social – Camila Hirt Munareto Tweet.

IHU – A geopolítica muda em que aspectos com esse evento bélico?

Camila Hirt Munareto – É difícil projetar os desdobramentos geopolíticos de um conflito ainda em curso. Uma guerra é repleta de imprevisibilidades e, como tem sido dito com frequência por outros analistas, sabemos como uma guerra começa, mas não sabemos como ela termina. Podemos imaginar cenários bastante distintos, que vão desde uma eventual reconfiguração das dinâmicas de segurança no Golfo, caso o Irã saia enfraquecido, até uma ampliação da projeção iraniana no Oriente Médio, especialmente diante de uma eventual retirada desgastada dos Estados Unidos. No entanto, todos esses cenários dependem da duração e da intensidade do conflito, bem como o custo que os atores envolvidos estão dispostos a suportar.

O que parece claro é que, para o Irã, trata-se de uma guerra de sobrevivência, o que implica uma mobilização prolongada e a disposição de empregar recursos significativos ao longo do tempo. Para os demais envolvidos, o cálculo custo-benefício tende a ser mais complexo e pode apontar para direções distintas, especialmente se considerarmos que não há indícios de que os objetivos israelenses e norte-americanos serão alcançados com facilidade. Esse quadro se torna ainda mais incerto em um contexto no qual o próprio presidente americano sinaliza, simultaneamente, abertura para negociações e a possibilidade de intensificação militar, com o envio de tropas e a consideração de uma invasão terrestre.

IHU – Como analisa a reação/posição da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), mas também da Rússia e da China no contexto desse conflito?

Camila Hirt Munareto – Apesar de manterem relações consistentes com o Irã, é crucial notar que, historicamente, seus parceiros orientais têm adotado uma postura cautelosa. Embora demonstrem disposição para cooperar, procuram, ao mesmo tempo, evitar comprometer seus laços com o Ocidente. Tudo indica que, neste episódio, essa lógica deve se repetir.

No caso da China, o comércio ocupa um papel central na relação com o Irã há décadas. O país se beneficiou, por exemplo, de condições preferenciais para a importação de petróleo iraniano, especialmente após o agravamento da crise nuclear. Além disso, do ponto de vista geopolítico, o Irã, assim como os demais países do Golfo, é peça-chave para a projeção internacional chinesa. Nesse contexto, qualquer deterioração das relações ou aprofundamento da instabilidade regional representa um obstáculo significativo para seus interesses. Apesar disso, é essencial ponderar que, embora a China busque ampliar seu protagonismo no Golfo, ela não espera substituir os EUA no âmbito da segurança na região.

Para o Irã, o que está em jogo é a própria sobrevivência da revolução – Camila Hirt Munareto Tweet.

Já no caso da Rússia, temos um cenário diferente. Por muito tempo, a Rússia adotou uma estratégia de apoio pontual ao Irã por meios diplomáticos e militares, mas sem comprometer suas relações com os Estados Unidos. Essa situação se modifica com a guerra da Ucrânia, que coloca Rússia e Ocidente em posições opostas e poderia indicar uma maior disponibilidade de alinhamento nesse novo conflito contra o Irã. Porém, embora a guerra na Ucrânia altere esse cenário, a capacidade da Rússia para ajudar o Irã, especialmente em nível econômico, tornou-se mais limitada.

Diante disso, é razoável supor que, ao menos em um primeiro momento, tanto China quanto Rússia tenderão a manter certa distância do conflito. Essa postura pode ser interpretada como reflexo das pressões exercidas pelos Estados Unidos, que continuam a influenciar os cálculos estratégicos dessas potências, seja por meio de instrumentos econômicos, seja pela centralidade que ainda ocupam na arquitetura de segurança internacional. No caso da OTAN, a organização está sob pressão desde que Trump assumiu o seu segundo mandato e essa crise interna tende a limitar seu envolvimento no conflito.

IHU – Há controle de informações de ambos os lados do conflito. O que se sabe sobre os danos sofridos pelo Irã e pelo Líbano, mas também nos países do Golfo e em Israel?

Camila Hirt Munareto – Essa guerra se transformou rapidamente em uma disputa de narrativas, o que dificulta ainda mais a avaliação de seus desdobramentos. Isso é uma tendência nos conflitos contemporâneos, especialmente quando consideramos a influência dos meios digitais na divulgação de dados. Além de versões divergentes sobre os próprios objetivos da guerra, nenhuma das partes divulga dados completos ou verificáveis sobre os danos sofridos, estabelecendo um rígido controle sobre as informações. Ainda assim, é possível afirmar que o conflito tem gerado impactos significativos para todos os lados.

No caso do Irã e do Líbano, há indícios de danos relevantes a infraestruturas militares e civis, além de perdas humanas e pressões adicionais sobre economias que já se encontram fragilizadas. Em Israel, apesar dos sistemas de defesa avançados, também se observam impactos, que atingem áreas urbanas e geram custos econômicos e sociais. Já nos países do Golfo, mesmo aqueles que não estão diretamente no centro das hostilidades, os efeitos aparecem na forma de insegurança regional, riscos a infraestruturas e instabilidade econômica.

IHU – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Camila Hirt Munareto – Penso que seria relevante destacar como a cobertura do conflito rapidamente deslocou o foco da dimensão humanitária para os custos econômicos e estratégicos da guerra. Grande parte da atenção internacional tem se concentrado em questões como a segurança do Estreito de Hormuz, a volatilidade dos preços do petróleo e os impactos econômicos do conflito. Embora esses temas sejam, sem dúvida, relevantes, este enquadramento acaba relegando a segundo plano os efeitos diretos da guerra sobre a população civil. Desde então, as perdas humanas e a destruição de escolas, hospitais e outras infraestruturas essenciais, como usinas de dessalinização de água – que deveriam ocupar um lugar central na análise do conflito –, têm sido sobrepostas pelo preço do petróleo, escancarando a falta de sensibilidade às vidas humanas.

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