Por Cynthia Sanborn e Ricardo KotzSanborn & Kotz
Com matriz energética relativamente limpa e potencial mineral, o Brasil reúne condições para ocupar posição estratégica na economia verde.
Dos recursos naturais a um futuro sustentável: estudos analisam o papel da China na transição energética da América Latina
Em meio à corrida global por minerais críticos e à reconfiguração das cadeias produtivas da economia verde, a relação entre China e América Latina ganha centralidade estratégica. As principais potências disputam o controle de recursos considerados essenciais para o século XXI, cobre, lítio, cobalto, níquel e terras raras, insumos indispensáveis para tecnologias de energia limpa, digitalização avançada e sistemas de defesa.
A América Latina, detentora de vastas reservas desses minerais, encontra-se no centro dessa nova geoeconomia, marcada simultaneamente pela urgência climática e pelo acirramento das tensões geopolíticas. Uma nova série de 12 estudos, lançada pelo Centro de Estudos sobre China e Ásia-Pacífico da Universidade do Pacífico (CECHAP) em parceria com o Global Development Policy Center da Boston University (GDP Center), lança luz sobre os desafios e oportunidades dessa transformação.
A China consolidou-se como protagonista para a transição energética. O país lidera não apenas o consumo, mas também o processamento de minerais críticos e a fabricação de tecnologias-chave, como veículos elétricos e painéis solares. A liderança chinesa é expressiva: o país concentra mais de 70% da produção global de veículos elétricos e cerca de três quartos da fabricação de baterias, além de dominar mais da metade do refino mundial de minerais críticos e mais de 80% da produção de painéis solares.
Desafios para a América Latina
Para os países latino-americanos, essa presença se traduz em uma relação ambivalente: ao mesmo tempo em que Pequim é o principal parceiro comercial e uma fonte crescente de investimento, também reforça padrões tradicionais de inserção internacional baseados na exportação de commodities.
O desafio, portanto, vai além do crescimento econômico. Para Argentina, Chile, Peru, Brasil e seus vizinhos, avançar rumo a uma transição energética justa implica equilibrar três dimensões: capturar os benefícios das exportações minerais, promover a industrialização verde e garantir padrões robustos ambientais, sociais e de governança (ESG). Sem esse equilíbrio, há o risco de reproduzir relações desiguais com exportação de recursos naturais e importação de produtos de maior valor agregado.
É nesse contexto que se insere o projeto “Capitalizing on the New Climate Economy in the Americas”, desenvolvido pelo CECHAP, pelo GDP Center e por pesquisadores ligados à Universidade de Pequim. A iniciativa reúne especialistas de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Peru para analisar, de forma comparativa, os caminhos possíveis para a região.
Os estudos se estruturam em quatro eixos principais: compreender a crescente presença da China nas cadeias globais de valor energético; identificar os desafios ESG enfrentados pelos países latino-americanos; avaliar o potencial dessas cadeias para promover diversificação produtiva; e examinar o papel das instituições públicas de financiamento no fortalecimento da cooperação Sul-Sul.
Mais do que um diagnóstico, a série busca influenciar políticas públicas. O documento-síntese que inaugura a coleção aponta que a janela de oportunidade para a América Latina pode ser estreita: sem estratégias coordenadas, investimento em inovação e políticas industriais consistentes, a região corre o risco de permanecer como fornecedora de matérias-primas em uma economia global cada vez mais orientada pela tecnologia.
A posição do Brasil e uma agenda para o futuro
Para o Brasil, a agenda é particularmente sensível. Com uma matriz energética relativamente limpa e grande potencial mineral, o país reúne condições para ocupar uma posição mais estratégica na economia verde. Mas isso dependerá de escolhas políticas: investir em agregação de valor, estabelecer políticas industriais de longo prazo, fortalecer cadeias produtivas domésticas e negociar de forma mais assertiva sua inserção nas parcerias com a China, de preferência envolvendo cláusulas para cooperação e transferência de tecnologia.
No fim das contas, para países emergentes a transição energética não é apenas uma questão ambiental, mas também um projeto de desenvolvimento. A América Latina precisará decidir se será apenas fornecedora de recursos ou protagonista de seu próprio futuro sustentável. A transição energética está redesenhando mercados e hierarquias de poder na economia global. A abundância de recursos naturais representa uma vantagem inicial, mas não garante protagonismo.
Sem políticas industriais consistentes e estratégias claras de inserção internacional, o risco é repetir padrões históricos de dependência em uma economia agora “descarbonizada”. Por outro lado, se bem aproveitada, essa janela de oportunidade pode permitir à região avançar na agregação de valor, na inovação tecnológica e na construção de cadeias produtivas mais sofisticadas. A relação com a China, nesse contexto, é uma variável estratégica que exigirá negociação, planejamento e capacidade estatal.
Abaixo encontram-se o link para acesso gratuito e os títulos dos artigos:
https://cechap.up.edu.pe/en/review/latin-america-china-and-a-just-energy-transition-working-paper-series/
Listado de Documentos de Trabajo:
1. “From Resource Curse to Renewable Futures? Chinese Investment and a Just Transition in Latin America”, por Julie Radomski, Rebecca Ray, Cynthia Sanborn y Sergio Serrano.
2. “China´s Energy Transition and Implications for Latin America. Industrial Policy Tools and Renewable Energy Development”, por Ricardo López Kotz. (LINK)
3. “From Minerals to Megawatts: Understanding Chinese Involvement in Latin America’s Renewable Energy Value Chain”, por Kehan Wang. Español (LINK) / Inglés (LINK)
4. “Inversiones chinas minero-energéticas y normas ESG en el Perú, Chile, Colombia y Argentina”, por Roger Merino. (LINK)
5. “Gobernanza socioambiental y presencia china: El caso de Argentina”, por Juliana González Jáuregui y Manuel Trevignanti. (LINK)
6. “Transición energética, cadenas de valor y presencia china: El caso de Argentina”, por Juliana González Jáuregui y Manuel Trevignanti. (LINK)
7. “Gobernanza socioambiental e inversiones chinas: El caso del Perú”, por Roger Merino. (LINK)
8. “Integración regional, minerales críticos y cadenas de valor de electromovilidad en Sudamérica”, por Felipe Irarrázaval y Martin Obaya. (LINK)
9. “Role of Chinese Public Development Financial Institutions in Fostering Renewable Energy Transformation in Latin America”, por Jiajun Xu, Hanyue Deng y Yang Zou. (LINK)
10. “Gobernanza socioambiental y presencia china: El caso de Chile”, por Johannes Rehner, Antonia Lorie, Andrea Freites y Miguel Atienza. (LINK)
11. “América Latina, China y una Transición Energética Justa: El caso de Colombia”, por Camilo DeFelipe Villa y José Luis Diaz Ramos. (LINK)
12. “Cadenas de valor, diversificación y transición energética justa: El caso de Chile”, por Johannes Rehner, Antonia Lorie, Andrea Freites y Miguel Atienza. (LINK)

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