Por LUIZ MARQUES*
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| Imagem: Miquel Rossy |
resgate dos impulsos orwellianos converte a escrita em uma barricada política indispensável contra o cinismo das elites e a entrega do patrimônio estratégico nacional
“It’s only words (São só palavras) / And words are all I have (E palavras são tudo que tenho) / To take your heart away (Para levar seu coração)” (Bee Gees, letra de Words).
1.
Eric Arthur Blair nasce em 25 de junho de 1903, na região de Bengala, Índia. Já no primeiro livro, Na pior em Paris e Londres, de 1933, assina George Orwell. O sobrenome vem do rio Orwell, que corre no Leste da Inglaterra. O prenome homenageia George Washington, líder dos patriotas na Guerra de Independência dos Estados Unidos. O anti-imperialismo do famoso escritor justifica a escolha do pseudônimo. Cada um sabe onde amarra o sapato.
Em 1949, publica o romance 1984 após refletir sobre as ameaças do totalitarismo, sintetizado no nazismo e stalinismo. Redige as páginas finais entre períodos de internação com uma tuberculose. Morre em 21 de janeiro de 1950 em Londres, ainda aos 46 anos.
Em Por que escrevo, George Orwell elenca quatro motivos para escrever em tempos sombrios: (i) “Puro egoísmo”. O desejo de ser visto como inteligente, de ser tema das conversas alheias, de ser lembrado, de se vingar dos adultos que o desdenharam criança, etc. (ii) “Entusiasmo estético”. A percepção da beleza no mundo externo e das palavras dispostas com correção, junto ao prazer com o impacto de sons no ritmo da narrativa e da experiência.
(iii) “Impulso histórico”. O desejo de ver as coisas como são, de descobrir os fatos e preservá-los para a posteridade. Brasil: Nunca mais, com Prefácio do saudoso Dom Paulo Evaristo Arns, tem tal sentido. Em época da Pós-Verdade (Post Truth) e das fake news essa é uma obrigação moral. (iv) “Propósito político”. O termo “político” em acepção ampla traduz o desejo de impelir o mundo em uma direção para alterar a concepção dos outros quanto ao que deveriam almejar para a sociedade – o socialismo participativo.
A travessia das motivações do “eu” e seus fantasmas interiores até um “nós” direcionado para a coletividade, com uma igualdade republicana e uma democracia social, estetiza afetos e historiciza gestos. Assim, os textos assumem o tom afirmativo radical da liberdade e o porvir instala-se na própria dimensão do presente, para barrar o neofascismo, o pesadelo agourento de nossos dias.
2.
A extrema direita na Europa e nos EUA evoca um nacionalismo exacerbado e expansionista. Na América Latina e no Brasil utiliza símbolos nacionais, em especial a bandeira, e oculta o complexo de vira-lata da elite neoliberal. A nação vira entreposto comercial de potências de vulto. Ao oferecer as terras raras brasileiras aos interesses norte-americanos, a famiglia que usa a política como uma profissão comete uma traição lesa-pátria de corar frades de vitral. Sua única e exclusiva vocação é delinquir e enriquecer.
O país do extrativismo das riquezas naturais e da exportação de commodities manteve no desgoverno a disposição subalterna de suprir as megametrópoles, em detrimento do mercado nativo. As privatizações entreguistas das Refinarias Reman (Amazônia), Clara Camarão (Rio Grande do Norte) e Landulpho Alves (Bahia) trazem prejuízos ao retirar o patrimônio público de áreas tão estratégicas – o controle do refino e da distribuição do petróleo.
A mídia corporativa abraça as utopias reacionárias que zelam pelas hierarquias tradicionais de gênero, raça e classe, adotando mais do que a hipocrisia social no relacionamento com a opinião pública. O gozo aumenta em face do sofrimento da população com os bombardeios que empoderam a indústria armamentista e a gentrificação dos territórios em conflito. O passeio de foguete dos bilionários na pandemia, para se divertir fora da gravidade, ilustra bem o nonsense. “Na sociedade atual a ideologia dominante é o cinismo”, dispara um filósofo. Haja despudor na Rede Globo.
A política que busca o bem comum é fiel à tradição que recende a transparência. Em contrapartida, a politicagem atende ambições individuais e de grupos para explorar vantagens sob uma suposta legalidade. É o que se constata em um Congresso que se arroga as atribuições do regime presidencialista e que pratica as “emendas parlamentares impositivas”. Eis o vil mentor dos escândalos de corrupção de grosso calibre que atingem o INSS e o Banco Master. Há que sempre cortar o mal pela raiz, reza o ditado.
“Combater os abusos promovidos pela ascensão da direita obtusa passa por desmontar seu arsenal palavroso, identificando atrás da aparente inovação e espontaneidade os elementos de cálculo, de falsificação histórica e de perpetuação de elementos coloniais”, sublinham com acuidade os editores da Expressão Popular ao prefaciar o ensaio Dialética do marxismo cultural.
3.
A escrita é um ato de resistência ao eclipse do trabalho pelas big techs e o rentismo que garantem ao establishment a impunidade por seus crimes, recorrendo ao método usual: trocar a veracidade pela falsidade. O lawfare é apontada aos críticos do status quo no desvio de responsabilidades. Régua e compasso obedecem aos valores estadunidenses e à labirintite de um palhaço sociopata.
A palavra serve de substrato da política entendida na condição grega de politiká (“assuntos da pólis”). A ferramenta linguística municia a luta ideológica, ergue barricadas nos espaços públicos e constrói os laços de solidariedade pela práxis. Sem a palavra, os conflitos perduram indefinidos; não se convertem em consensos absolutos e sequer relativos. Cai então um silêncio de morte.
Os escritos permitem ao particular via poesia e ao universal na forma de panfleto ou artigo dialogar com a multidão. Fazem com que os indivíduos apareçam como o sintoma clínico de uma Era, qual a depressão na canção de Noah Kahan ou a explosão na Fé cega, faca amolada de Milton Nascimento. Despem contradições para realçar la verità effettuale della cosa e superar a alienação tóxica do sistema. O que será, será, seja à prestação seja à vista.
O Estado e as instituições sociais são modificáveis com programa e organização, em um movimento amplo de ação palavrial pela persuasão. Ao interpelar a vida privada do indivíduo burguês, o ser social incita à cidadania. Se escrevinhadores inspiram projetos, sujeitos da história contemporânea surgem no universalismo dos embates por direitos, a começar pelo tardio fim da escala 6 x 1.
O livre mercado coloca a pata na dinâmica socioeconômica para alijar a vontade geral. A antipolítica pretende um horizonte refém perpétuo da mais-valia. Daí incentivar uma desconfiança com a política e os políticos in totum para pintar todos de malfeitores. Conforme o prócer do atraso na FIESP, Paulo Skaf: “É bom que o lado liberal, a direita, tenha bons nomes nessas eleições. Flávio é um Bolsonaro mais jovem que toma vacina, que não fala palavrão, equilibrado”. A desfaçatez é a tatuagem das entidades patronais.
Já a democracia enquanto alavanca de novos direitos está ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva (presidente) e de Geraldo Alckmin (vice). Para a esquerda e os progressistas, escrever é esperançar.
*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.

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