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Foto: Reprodução/China Daily |
Por Carlos Aguiar de Medeiros
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O texto a seguir integra o número 16 (março de 2026) do boletim do Observatório do Século XXI, parceiro editorial de Outras Palavras. A edição pode ser baixada e lida aqui.
Na segunda década do novo milênio, diversas transformações ocorreram na economia chinesa, decorrentes de pressões e desafios externos e internos. Entre os fatores externos, os principais foram a grande crise financeira de 2008, a desaceleração do crescimento do comércio mundial e o aprofundamento do protecionismo e das sanções americanas ao acesso a semicondutores avançados. Entre os fatores internos, os principais foram o boom imobiliário, a expansão dos salários reais, a implementação de uma abrangente política industrial voltada à redução da dependência tecnológica – as metas do Made in China 2025, lançadas em 2015 – e à diversificação energética, e a construção de uma ampla rede egional de comércio e investimentos (o BRI foi lançado em 2012). Estes movimentos iniciaram um deslocamento relativo das fontes de crescimento da economia chinesa, com a contração da parcela das exportações no PIB – hoje em torno de 20% –, a favor do consumo e dos investimentos em infraestrutura, e da mudança na estrutura do produto e do emprego, com forte expansão dos serviços. (Medeiros, Majerowicz, 2024).
Nos últimos anos, diversos eventos e circunstâncias, como a pandemia da Covid-19 e a guerra da Ucrânia, reforçaram o movimento voltado à redução da dependência externa e à autossuficiência em insumos e equipamentos essenciais. No primeiro ano do novo governo Trump, um novo choque tarifário foi implementado, e a utilização geopolítica do poder econômico do mercado americano, visando enquadrar aliados e atingir a China, foi ampliada. No plano interno, após a forte contração decorrente da política de Covid Zero e da crise imobiliária, a economia chinesa retomou uma taxa de crescimento superior à dos países da OCDE, ainda que inferior à dos últimos anos.
No 14º Plano Quinquenal (2021-5), o governo reiterou, na estratégia de “circulação dual”, publicada em 2020, a prioridade à expansão do consumo que, mesmo após um período de elevação do salário real e de transferências sociais ocorrido na última década, permanece interno – hoje cerca de 39% do PIB –, num patamar muito inferior ao das economias industriais. Sob elevadas tarifas no mercado americano e sob fortes sanções tecnológicas, os investimentos em inovação, na energia renovável, de aumento do consumo das famílias e na diversificação dos parceiros comerciais ganharam novo ímpeto. O 15º Plano quinquenal (2026-2030) prioriza a política industrial, a construção de um mercado nacional unificado e o aumento do consumo. O foco foi posto nas “Forças Produtivas de Nova Qualidade”, isto é, na modernização das indústrias tradicionais por meio da digitalização e do uso da IA, bem como no esforço científico voltado ao progresso técnico e às inovações.
As relações entre os EUA e a China possivelmente evoluirão para um tipo de acomodação (Gao, 2026) entre as duas superpotências, por meio de negociações permanentes sobre tarifas e sanções. Este movimento ficou evidente quando o governo americano, depois do choque tarifário de 150% imposto à China, adiou sua implementação e reduziu as alíquotas, após esta ter imposto fortes restrições às exportações de terras raras (reunião da APEC, na Coreia, em outubro de 2025). Tendo em vista este contexto, objetiva-se, nesta pequena nota, discutir alguns movimentos de reposicionamento das relações internacionais chinesas, como a relocalização do comércio externo, os investimentos em semicondutores e IA, a diversificação da base energética e a produção industrial de baixo carbono. A questão da expansão do consumo das famílias, que constitui prioridade nos dois últimos planos quinquenais, está fora do escopo desta nota.
Em relação ao comércio externo, um fato notável é que, em meio ao forte protecionismo americano, as exportações globais chinesas atingiram, em 2025, um recorde histórico. Do mesmo modo, em que pese o importante crescimento das importações, o saldo comercial da China em 2025, em dólares correntes, é o maior de sua história (China Briefing, 2026). Esta corrente de comércio, entretanto, mudou de direção. O principal movimento foi a queda das exportações da China para o mercado americano. Em 2017, elas constituíam 21% das importações totais dos EUA; em 2025, já sob o regime tarifário instituído por Trump 2.0, situaram-se em 9%. (Alfaro, Chor, 2026). Sob o efeito das tarifas americanas, as exportações passaram a dirigir-se cada vez mais para outros mercados, especialmente para a ASEAN, a UE, a América Latina, a Austrália e o Japão. Os países da ASEAN, especialmente Tailandia, Malásia e Vietnã, foram os principais beneficiários do desvio de comércio decorrente das tarifas impostas pelos EUA à China. Os deslocamentos das rotas de comércio que já estavam em movimento desde 2018 incluem tanto o de bens finais chineses reexportados por terceiros países para os EUA, quanto o de bens intermediários provenientes da China, contidos nas exportações dos países da ASEAN (particularmente do Vietnã) destinadas aos EUA. Estas triangulações fazem com que o declínio das exportações chinesas para os EUA não seja tão intenso quanto o indicado pelas estatísticas oficiais do comércio bilateral. Ainda que a geografia do comércio esteja em processo de mudança em direção a outros países, especialmente os da Iniciativa Cinturão e Rota, que envolve 151 países, os principais parceiros comerciais da China são os da ASEAN, que superam tanto os EUA quanto a UE. As exportações que mais cresceram nos últimos anos são as de máquinas e equipamentos, produtos eletrônicos, painéis solares, turbinas a vento e automóveis elétricos. O deslocamento da composição setorial das exportações chinesas se dá não apenas pelo aumento da parcela de produtos de maior conteúdo tecnológico, mas também pelo fato de estes produtos possuírem marcas chinesas. Progressivamente, a principal base exportadora chinesa vem mudando de equipamentos manufaturados sob encomenda (OEM) para equipamentos manufaturados sob marca própria (OBM) (Bruh, 2024). Do lado das importações, dois movimentos centrais vieram se afirmando após a Covid-19: a forte retomada da demanda por energia, alimentos e minerais, responsável pelo crescimento do valor total das importações num período de queda dos preços das commodities, e a substituição de importações de produtos de alta tecnologia, em especial semicondutores (Outlook, 2026), que seguem sendo o principal item importado— e o petróleo, o segundo.
Associada a estas transformações nos fluxos comerciais, a China prosseguiu, ainda que em ritmo menor, suas exportações de capital sob a forma de investimentos diretos e empréstimos, especialmente destinados aos países da Iniciativa do Cinturão e Rota. Por outro lado, introduziu diversas iniciativas visando à internacionalização do RMB. Particularmente significativo foi o aumento das exportações chinesas denominadas em RMB e a sua expansão nas operações de crédito.
Em relação à questão energética e à infraestrutura, dois motores importantes para o crescimento dos investimentos chineses, os principais movimentos são a elevada expansão da capacidade de geração solar e eólica (incomparável em termos internacionais), a construção de novas usinas nucleares e, simultaneamente, tendo em vista a base energética chinesa, a expansão de novas plantas de energia a carvão. Face à demanda crescente de gás e petróleo, investimentos importantes em pipelines e em estruturas de conversão de LNG importado estão em curso. Ao lado destes investimentos, os em transportes continuam em expansão, com planos de ampliação substancial da rede de trens de alta velocidade, que já é a maior em operação na economia mundial, visando a unificar e integrar o mercado interno. (Brüh, 2024).
Em relação a uma “innovation-driven economy” estabelecida no 14º Plano e reforçada no 15º Plano Quinquenal, o objetivo é fazer da inovação um motor central dos investimentos, por meio de estímulos ao P&D e à formação de diversos clusters industriais, visando à aproximação entre a inovação e a produção industrial. A China hoje está na liderança em algumas tecnologias críticas, especialmente associadas às energias renováveis, baterias elétricas, painéis solares, veículos elétricos e infraestrutura de telecomunicações (5G), e está muito próxima dos EUA em IA (evidente com o lançamento do DeepSeek, em 2025), computação quântica, big data, nanotecnologia e big Pharma, e vem aumentando rapidamente suas capacidades em semicondutores, petroquímica e armamentos. O controle e as sanções estabelecidos hoje pelos EUA sobre chips sofisticados e máquinas de litografia avançadas constituem a maior ofensiva tecnológica contra a China e, ao mesmo tempo, um forte incentivo à inovação e à produção doméstica. Presentemente, a SMTC já produz chips de 7 nanômetros (e os projetos em curso são para chips menores) e as máquinas necessárias a esta produção (The Economist, 2025).
A política industrial em curso, estimulada pelas sanções e tarifas americanas, faz da inovação em tecnologias avançadas o eixo central para elevar o conteúdo tecnológico das exportações, bem como para expandir a renovação dos padrões de consumo das famílias em novos bens e serviços. Desse modo, é possível dizer – já há um relativo consenso entre especialistas – que o forte aumento do protecionismo e das sanções americanas tem levado ao aprofundamento da estratégia chinesa de diversificação e regionalização dos mercados, bem como de autonomia tecnológica iniciada há uma década.
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