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Antonio Candido – nova geração

Do A Terra É Redonda, 27 de abril 2026
Por FLORESTAN FERNANDES*

Samia Halaby, Land, 1988


Na figura de Antonio Candido, a nova inteligência universitária supera o estigma do academicismo para consolidar a crítica como instrumento metódico de interpretação da realidade


(Acervo do Fundo Florestan Fernandes, UFSCar ).


1.
Escrever sobre Antonio Candido até certo ponto é tomar um compromisso sério com uma geração – a “nova geração”, especialmente, os “chatos-boys”.

Sua atividade de crítico em muitos dos aspectos de sua prodigiosa carreira literária torna-se muito mais compreensível quando encarada sob este prisma – da mesma forma que Silvio Romero, Tobias Barreto, Artur Orlando, etc., adquirem um ar comum e próprio que lhes dá o movimento renovador de Recife.

Antonio Candido é um dos elementos mais expressivos e característicos desta geração e o que mais rapidamente consolidou sua posição no mundo das letras brasileiras.

Toda geração tem seu aspecto romântico, suas aventuras. Esta, porém, é conhecida como uma geração de abelhas, abelhas noturnas, de bibliotecas – suas aventuras são aventuras de pensamento. Os seus namoros são com os livros.

É uma geração universitária… Moços – velhos, cacetes, que veem a rua das janelas, a vida dos livros. Os chatos-boys do apelido que pegou, de Oswaldo de Andrade – um apelido que no começo quase azedou muita gente, mas que hoje serve de debique.

A nova geração, afinal de contas, ficou conhecida como uma geração universitária sisuda, sem grandes entusiasmos, retraída e confundida na poeira das bibliotecas, dos livros, alheia à vida, chata por seu eruditismo, novata por contingência biológica, todavia, petulante e palpiteira. Incapaz de viver, por causa da crise de uma maturação prematura, precipitada, insuportável, indigesta.

Indecisa, confusa diante do mundo imediato da realidade; “geração noturna”, conforme interessante equívoco de outro geracionovista que é Luís Washington.

Em resumo, a “nova geração” lembraria o sabiá – mas o sabiá tonto que se deixou engaiolar, que perdeu o contato direto com as belezas da vida, o fundo romântico de seus cantos, a liberdade e o élan vital.

Ora, um homem preso aos livros, encarcerado numa biblioteca, está para a espécie como para os pássaros cantores está para o sabiá na gaiola.

2.
Em tudo isso há uma confusão e o pior é que se trata de uma confusão terrível. Porque não resulta de uma má intenção de ninguém: é a consequência de um baralhamento dos dados, de uma confusão natural, se me permitem falar assim. Uma confusão que nasceu espontaneamente, gerada como foi das próprias circunstâncias.

A geração da “Semana” não era nem melhor nem pior que a geração aparecida após 1930, principalmente, esta que saiu timidamente, homeopaticamente, nas colunas dos jornais de São Paulo – com artigos de 100 cruzeiros e em três ou quatro laudas de papel.

Nunca se viu tanta parcimônia e tanta modéstia literária, como essa que os chatos-boys revelaram. E enfim, uma boa parte deles tinha o que dizer.

Aprenderam bastante e quem sabe gostam de fazer praça; tinham “formação” como disse uma vez mestre Mário de Andrade. Contudo, por previdência, abandonaram a corrente tradicional das “doses-maciças” da literatura brasileira.

Quase todos escreveram algo em revistas – Clima, por exemplo – e depois, fiéis ao artigo, começaram a invadir os jornais, alguns, como Antonio Candido e Lourival Gomes Machado, logo com as honras do rodapé. Romperam com a tradição do artigo “de graça” e colheram uma parte dos frutos que, a rigor, iriam cair nas mãos da ex-nova geração. Esta, envelhecida, fazia jus ao reconhecimento tácito de consagração representado entre nós pelo uso intenso do rodapé.

Por isso, o ímpeto suave e amistoso de revisão que animava os chatos-boys – pontilhado, é certo, de alguns hábitos e vezos devidos a “formação” universitária – pareceu um impacto atrevido e doloroso, indesculpável. Falta de respeito e “sociologismo” e, durante alguns dias, as páginas literárias de matutinos paulistanos ficaram pitorescas.

3.
A ex-geração-nova fazia o testamento, a nova geração subia à plataforma dando a mão a Mário Neme e o sr. Sérgio Milliet – aliás muito acusado de novageracionismo – dizia amavelmente, mas com uma ironia shawniana, que afinal de contas ele estava de Pullman (vagão inglês) e os outros esperavam o trem na… plataforma.

Em certos momentos chegamos a resvalar – em São Paulo destes dias – ao provincialismo da polêmica pessoal. Mas depois tudo cessou.

Algumas luvas caíram no chão, as correntes e subcorrentes acomodaram-se e já no I Congresso Brasileiro de Escritores todos se uniram, ombro a ombro, como irmãos de armas, atacando juntos o inimigo comum em defesa da democracia, da democratização da cultura, da participação do intelectual, etc.

Ainda assim, tudo indica que aquela impressão inicial tem mais fôlego do que se esperava. Algumas sobrevivências persistiram.

Incapacidade para a aventura, falta de espírito criador, indiferença à ação, ausência de temperamento poético e heroico da vida, em síntese, tipificariam esta nova geração como um grupo de intelectuais talhados para tintureiros – irremediavelmente destinados, nesta era de especialização, à lavanderia da literatura brasileira, ótimos para bater a roupa suja dos literatos de outros tempos.

Aqui, parece-me, é preciso recolocar os debates. Não houve desaparecimento de faculdades, mas apenas mudanças no modo de manifestá-las.

O que na aparência assustou de início, Antonio Candido num artigo magistral de defesa-de-classe reduziu às devidas proporções. Atrás disso, escreveu, ocultam-se muitos ensaios, muitos trabalhos de valor; uma obra significativa e de importância que deve ser feita e provavelmente o será pela turminha da Faculdade.

Além disso, penso, ninguém é culpado dessas modificações: não é o homem que muda, mas sim a sociedade.

A Faculdade de Filosofia foi uma consequência, as condições novas de vida foram consequência e os chatos-boys – talvez a parte mais agitada e ativa da “nova geração” – também foram consequência.

E do ponto de vista literário tanto o desassombro dos artemodernistas, como os romancistas e ensaístas pós-machadeanos têm uma grande parte nisso.

O problema – se é que existe problema – é outro, pois. Sem descer ao cerne do assunto – a análise de seu aparecimento como um fenômeno normal de relação de gerações no espaço social – compreende-se que o sentido desta “nova geração” está no próprio papel que lhe é atribuído na presente configuração sociocultural brasileira. E os chatos-boys, particularmente, deveriam ser o que são.

Aliás, com esse objetivo foi criada uma instituição de ensino superior – o de transformá-los todos e na medida de suas faculdades em ensaístas, críticos, professores, técnicos, pesquisadores, etc.

4.
Chegamos, portanto, a um paradoxo: as restrições seriam cabíveis somente no caso inverso, deles se apresentarem doutra forma. Por isso, é lógico que os chatos-boys primeiro que tudo não são “chatos”. São, simplesmente, uma novidade ou, para sermos francos, uma novidade que responde a uma necessidade social do nosso meio.

E como novidade foi que atraíram a atenção dos outros e a má vontade automática dos inimigos das novidades, dos conservadores.

Eles representam uma inovação e um alargamento de nossas possibilidades intelectuais. Numa tentativa de transplantar para o Brasil um padrão europeu que ainda não fora integrado em nossa cultura: uma tradição intelectual de trabalho e uma compreensão universalista da cultura, tendo em mira, sobretudo, um velho sonho de todos os países novos – desenvolver as condições favoráveis à profissão do autor, acabando com as improvisações mais ou menos felizes de qualquer gênero criadas pelo empiricismo.

Por isso, o aproveitamento do elemento humano nacional, a princípio, devia fatalmente ser limitado: não havia experiências sérias a respeito e para evitar na própria fonte o empiricismo, a improvisação, o governo precisou solicitar a colaboração participante da “inteligência” europeia.

A Faculdade de Filosofia surgiu como verdadeira variante da Universidade de Lausanne. Abrigou franceses, italianos, alemães, ingleses, portugueses e espanhóis, tendendo também para o aproveitamento de grandes especialistas norte-americanos.

Nestes nossos dias, entretanto, estamos propensos a acreditar que as forças centrípetas do conservadorismo tentam uma violentíssima marcha à ré. Pretendem conseguir no fim o que lhes foi impossível no começo, adulterando a principal instituição desse processo, fraudando concursos, violentando posições, exorbitando direitos de continuísmo e de direção, etc.

Em todo o caso, nesse processo, como elemento fundamental, está o grupo dos chatos-boys. Que saiu “primeiro”, por assim dizer, das mãos e do exemplo de seus grandes mestres, como evidencia Antonio Candido na introdução de sua magnífica tese sobre Silvio Romero.

Sua atitude diante da vida e das coisas não denuncia senão uma eflorescência criadora do espírito. O alvo foi atingido fecundamente e foram os mestres – brasileiros e estrangeiros – que o disseram pela primeira vez.

5.
Um Jean Maugüé, por exemplo, disse-me que se orgulhava da Faculdade de Filosofia por causa de alunos como Antonio Candido. Um Mário de Andrade, incomparável e apostolar, reconhecia a eficiência e a necessidade da formação universitária.

Em toda a extensão, a chamada atitude crítica surge como um dote necessário e não como uma desqualificação. No fundo, em maior ou menor grau, ela caracteriza toda a geração nova – universitária ou não.

Em última instância, devemos lembrar que a atitude crítica, em si mesma, é um traço típico da civilização ocidental. Além disso, crítica não supõe ausência de faculdades humanas.

Há aventuras, audácia, sentimento poético e espíritos voltados para ação, há criação e renovação naquele grupo.

Vê-se isso quando se analisa sua composição: um Antonio Candido, um Paulo Emílio, um Eduardo França, um Eduardo Alcântara – e tantos outros – participam ativamente da vida política, embora sem muito estardalhaço.

Um Antonio Candido pode ser sociólogo, crítico literário e professor; um Lourival Gomes Machado pode combinar o ensino universitário e a crítica da pintura; um Eduardo Alcântara, a estatística matemática e a poesia; um Cerqueira Leite harmoniza ensino e poética, ao duplo ponto de vista do crítico e do poeta; uma Gilda de Mello e Souza pode ser contista e assistente de sociologia; um Ruy Coelho pode ser professor, jornalista e ensaísta.

Pode-se fazer uma lista bem comprida – contando também uma porção de ensaístas e mesmo romancistas e contistas que em breve dar-se-ão a conhecer.

É, pois, uma geração completa, que vem marcada com o estigma do trabalho e a vontade de realização. Essa é a geração – ou pelo menos a parte da geração – a que pertence Antonio Candido.

Ela não tem uma concepção mística de “missão” e de “revisão”. Mas é uma geração disposta a trabalhar e principalmente preparada para o trabalho, intelectual – como nenhuma outra o foi para isso, até hoje no Brasil.

Custou mesmo alguma coisa a mais que as outras para o Governo: os Luigi Galvani (estatística), os Giuseppe Ungaretti (literatura italiana), os Roger Bastide (sociologia), os Paul-Arbousse Bastide (educação, sociologia e política), os Jean Maugüé (filosofia), os Paul Hugon (economia), os Pierre Monbeig (geografia), os Jean Gagé (história), os Alfred Bonzon (literatura francesa), etc., etc., não chegaram aqui sem despesas.

Por isso, doutro lado, está fadada a ser uma geração universitária até o fim. Todos viveram nesse clima de valores e estarão sempre ligados à sua Faculdade de Filosofia; e uma parte, pelo menos, constituirá os quadros de sua antiga Faculdade.

Antonio Candido coloca-se entre estes. Dos modernos intelectuais brasileiros, sem dúvida alguma, um dos que melhor compreenderam a função da Faculdade de Filosofia em nosso processo cultural e representa um de seus elementos mais característicos, significativos e consagrados.

Antonio Candido é também um dos poucos que reconhecem a amplitude da tarefa pedagógica, atacando-a ao mesmo tempo como professor e como crítico literário.[1]

*Florestan Fernandes (1920-1995) foi professor de sociologia na USP e deputado federal pelo PT. Autor, entre outros livros, de A Revolução burguesa no Brasil (Contracorrente). [https://amzn.to/48VYmss]

Nota

[1] Pesquisa, edição e nota de Diogo Valença de Azevedo Costa (UFRB) e Paulo Henrique Fernandes Silveira (FEUSP e GPDH-IEA). Esse artigo de Florestan Fernandes foi publicado no Jornal de São Paulo, dirigido por Hermínio Sacchetta. Ele é o primeiro de uma série de artigos que Florestan dedica a Antonio Candido, todos publicados no mesmo jornal: “Antonio Candido I – Nova Geração”, 9/9/1945; “Antonio Candido II – Os rodapés”, 16/09/1945; “Antonio Candido III – Brigada ligeira”, 23/09/1945; “Antonio Candido IV – O método crítico de Silvio Romero”, 30/09/1945.

Florestan Fernandes guardou esses artigos por cinco décadas. Atualmente, eles se encontram no acervo do Fundo Florestan Fernandes, na Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

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