Da Revista Piauí, abril 2026
Por Camille Lichotti e Allan de Abreu
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David Samuel Alcolumbre Tobelem – ele usa a grafia “Davi” e o sobrenome da mãe – é um hábil articulador. Gestado no baixo clero do Congresso, emergiu à alta política em 2019, surfando o tsunami que havia varrido Brasília com a eleição de Bolsonaro. Embora suas chances fossem consideradas risíveis, decidiu naquele ano se candidatar à presidência do Senado, enfrentando o todo-poderoso Renan Calheiros (MDB-AL). Depois de uma exaustiva campanha nos bastidores, em que prometeu agrados por todos os lados, conseguiu o que queria. No biênio seguinte, emplacou seu sucessor, Rodrigo Pacheco (PSB-MG), um aliado próximo. Em 2025, retornou ao cargo e tornou-se uma incômoda pedra no sapato de Lula. Nesta quarta-feira (29), impôs uma das maiores derrotas já sofridas pelo presidente: Jorge Messias, indicado por Lula ao STF, foi rejeitado pelo plenário do Senado, algo que não acontecia desde o século XIX.
Quem convive com Alcolumbre, no entanto, conta que, no dia a dia, ele é um bonachão, como mostra uma reportagem publicada na edição deste mês da piauí. O senador amapaense gosta de boa comida, boa bebida, música alegre. Na juventude, depois de encerrar o expediente na loja dos seus pais, a Shalom Autopeças, ligava as caixas de som automotivo e convocava os amigos para uma festa com música alta e bebida farta ali mesmo, na calçada da loja. Na Câmara, onde exerceu três mandatos de deputado de 2003 a 2015, costumava escapar das sessões plenárias para tomar vinho e confraternizar em restaurantes de Brasília, em especial no Dom Francisco, local tradicional da capital. Quando voltava de suas andanças pelo interior do seu estado, o Amapá, divertia os colegas mostrando vídeos das viagens, nos quais aparecia dançando brega e tecnobrega, dois ritmos populares na região.
Quando foi eleito para a presidência do Senado pela primeira vez, Alcolumbre agradeceu o apoio abraçando e beijando testas e mãos dos aliados. “Ele visita meu gabinete e se deita no sofá”, descreve o senador Plínio Valério (PSDB-AM), que já teve entreveros com o colega. “Você vai ficar com raiva do cara que te abraça e beija sua mão?” Um dia, Alcolumbre se desentendeu com uma senadora e, semanas depois, apareceu num evento organizado pelo filho dela – e se esbaldou. Vestiu calção, chuteira, meião e entrou em campo. “Ele corria de um lado para o outro. É uma coisa que alegra, que gera simpatia pela pessoa”, diz o ex-senador Antonio Anastasia, hoje no Tribunal de Contas da União.
Como a política pune a arrogância e premia a simpatia, Alcolumbre tem sido um sucesso em Brasília. Depois de exercer apenas metade do mandato de vereador em Macapá, mudou-se para a capital federal ao ser eleito deputado. Em 2015, após três mandatos, trocou a Câmara pelo Senado quando venceu a eleição com 36% dos votos. De lá, não saiu mais. Com sua figura de aparência despreocupada, conta piadas, atende pequenos e grandes pleitos e leva sorvete de açaí e cupuaçu para os almoços com colegas.
Comerciante de origem, ele tem prazer em satisfazer o cliente. Um dia, uma assessora parlamentar do Ministério da Educação enfrentava dificuldades com o trâmite burocrático de sua licença-maternidade e recorreu à ajuda do senador, então vice-líder do governo de Michel Temer. Alcolumbre marcou uma reunião com um alto funcionário do MEC e intercedeu em favor da servidora. Deu certo. Em outra ocasião, mais recente, distribuiu canetas de Mounjaro aos colegas que duelavam com os quilos extras quando o medicamento nem circulava livremente no Brasil e custava mil reais a unidade.
Esse é um Davi Alcolumbre, o bonachão. Há outro.
Ao alto funcionário do MEC com quem tratou da licença-maternidade, pediu o favor embalado numa ameaça: “Vai ser ruim para você negar um pedido do vice-líder do governo, em pleno mês das mulheres”, disse, segundo uma testemunha, relacionando o pedido ao mês de março, época em que a conversa ocorreu.* Era uma modesta mostra de como Alcolumbre explora o peso do seu poder. Segundo o portal uol, as canetas Mounjaro de que dispunha eram um presente de um personagem radioativo, o empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, hoje foragido da Justiça por falcatruas no mercado de combustíveis e suspeitas de ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior organização criminosa do país. Era, outra vez, uma modesta mostra de sua rede explosiva de relações pessoais.
Quem convive com Alcolumbre, no entanto, conta que, no dia a dia, ele é um bonachão, como mostra uma reportagem publicada na edição deste mês da piauí. O senador amapaense gosta de boa comida, boa bebida, música alegre. Na juventude, depois de encerrar o expediente na loja dos seus pais, a Shalom Autopeças, ligava as caixas de som automotivo e convocava os amigos para uma festa com música alta e bebida farta ali mesmo, na calçada da loja. Na Câmara, onde exerceu três mandatos de deputado de 2003 a 2015, costumava escapar das sessões plenárias para tomar vinho e confraternizar em restaurantes de Brasília, em especial no Dom Francisco, local tradicional da capital. Quando voltava de suas andanças pelo interior do seu estado, o Amapá, divertia os colegas mostrando vídeos das viagens, nos quais aparecia dançando brega e tecnobrega, dois ritmos populares na região.
Quando foi eleito para a presidência do Senado pela primeira vez, Alcolumbre agradeceu o apoio abraçando e beijando testas e mãos dos aliados. “Ele visita meu gabinete e se deita no sofá”, descreve o senador Plínio Valério (PSDB-AM), que já teve entreveros com o colega. “Você vai ficar com raiva do cara que te abraça e beija sua mão?” Um dia, Alcolumbre se desentendeu com uma senadora e, semanas depois, apareceu num evento organizado pelo filho dela – e se esbaldou. Vestiu calção, chuteira, meião e entrou em campo. “Ele corria de um lado para o outro. É uma coisa que alegra, que gera simpatia pela pessoa”, diz o ex-senador Antonio Anastasia, hoje no Tribunal de Contas da União.
Como a política pune a arrogância e premia a simpatia, Alcolumbre tem sido um sucesso em Brasília. Depois de exercer apenas metade do mandato de vereador em Macapá, mudou-se para a capital federal ao ser eleito deputado. Em 2015, após três mandatos, trocou a Câmara pelo Senado quando venceu a eleição com 36% dos votos. De lá, não saiu mais. Com sua figura de aparência despreocupada, conta piadas, atende pequenos e grandes pleitos e leva sorvete de açaí e cupuaçu para os almoços com colegas.
Comerciante de origem, ele tem prazer em satisfazer o cliente. Um dia, uma assessora parlamentar do Ministério da Educação enfrentava dificuldades com o trâmite burocrático de sua licença-maternidade e recorreu à ajuda do senador, então vice-líder do governo de Michel Temer. Alcolumbre marcou uma reunião com um alto funcionário do MEC e intercedeu em favor da servidora. Deu certo. Em outra ocasião, mais recente, distribuiu canetas de Mounjaro aos colegas que duelavam com os quilos extras quando o medicamento nem circulava livremente no Brasil e custava mil reais a unidade.
Esse é um Davi Alcolumbre, o bonachão. Há outro.
Ao alto funcionário do MEC com quem tratou da licença-maternidade, pediu o favor embalado numa ameaça: “Vai ser ruim para você negar um pedido do vice-líder do governo, em pleno mês das mulheres”, disse, segundo uma testemunha, relacionando o pedido ao mês de março, época em que a conversa ocorreu.* Era uma modesta mostra de como Alcolumbre explora o peso do seu poder. Segundo o portal uol, as canetas Mounjaro de que dispunha eram um presente de um personagem radioativo, o empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, hoje foragido da Justiça por falcatruas no mercado de combustíveis e suspeitas de ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior organização criminosa do país. Era, outra vez, uma modesta mostra de sua rede explosiva de relações pessoais.
Alcolumbre começou sua carreira no PDT, mas logo aderiu à direita, filiando-se ao PFL, que deu origem ao DEM, que, por sua vez, virou União Brasil, essa legenda que aparece em onze de cada dez escândalos nacionais. Na transição entre o DEM e o União Brasil, quando a direita e a extrema direita varreram as urnas do país, sua vida política tomou um impulso decisivo. De início, como deputado federal, Alcolumbre restringia-se à política miúda. Integrava o chamado baixo clero, formado pela massa de parlamentares que atuam com a precisão das águias na defesa de seus interesses, mas não têm voz nas grandes questões nacionais.
Logo na estreia em Brasília, seu nome apareceu em gravações interceptadas pela Polícia Federal, nas quais o então prefeito de Macapá e um empresário atribuíam ao jovem deputado a definição de valores de emendas parlamentares destinadas a obras públicas com licitações fraudulentas. A investigação não avançou. Em 2013, reapareceu em interceptações telefônicas, desta vez em conversa com o doleiro Fayed Traboulsi, participando de um esquema de lavagem de dinheiro e desvios de fundos de pensão. As provas acabaram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal.
Ainda na sua época de deputado, uma reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo mostrou que Alcolumbre usava toda a verba de combustível do seu gabinete (9,3 mil reais mensais, em valores atualizados) em postos de propriedade do seu tio Salomão, uma prática proibida por lei. Seu gabinete respondeu que a família era dona de cerca de 70% dos postos do Amapá, “sendo inviável não abastecer na empresa de parentes”. (Ainda hoje, em plena era do Pix, alguns postos da família só aceitam pagamento em dinheiro vivo.)
Na Câmara, um de seus primeiros projetos foi batizar o Aeroporto Internacional de Macapá com o nome de outro tio, Alberto Alcolumbre, já falecido. Mas sua principal ocupação era servir de mensageiro do ex-presidente José Sarney, seu mentor e aliado no Amapá. Alcolumbre frequentava ministérios e gabinetes, resolvendo demandas do ex-presidente. Era convidado para as reuniões, festas e jantares na casa de Sarney, nos quais não dava palpite, mas observava a atuação dos cardeais da política. (Seu maior ídolo já morreu. É Antônio Carlos Magalhães, que foi um baiano habilíssimo em distribuir afagos e punhaladas.)
Nas visitas de Sarney a Macapá, para onde o ex-presidente transferiu seu título de eleitor em 1990, Alcolumbre servia de cicerone. Recebia Sarney no aeroporto, testemunhava suas reuniões políticas, subia no seu palanque. A convivência, no Amapá e em Brasília, permitiu que Alcolumbre acompanhasse de perto o gradual enfraquecimento político do mentor. Em 2014, Sarney, então com 84 anos, estava inseguro quanto à sua reeleição para o Senado. A poucos meses do pleito, chegou a ser vaiado cinco vezes num evento do governo federal em Macapá.
Alcolumbre não perdeu tempo. A essa altura, com mais de uma década em Brasília, já tinha criado suas próprias conexões e não dependia tanto de seu padrinho. Em um jantar no finado restaurante Piantella, então o mais relevante epicentro político noturno de Brasília, anunciou aos correligionários do DEM que se candidataria ao Senado para enfrentar “o velho Sarney”. Argumentou que o ex-presidente estava cansado, e a população queria gente nova. De início, os colegas de partido acreditaram que era mais uma galhofa do espirituoso Alcolumbre. A ideia, porém, foi tomando corpo conforme a perda de vigor político do emedebista ficava mais evidente.
Sarney lançou um nome de sua confiança: Gilvam Borges, ex-senador pelo PMDB. O ex-presidente reuniu-se então com Alcolumbre e pediu que retirasse a sua candidatura, cedendo espaço ao apadrinhado da vez. Alcolumbre recusou. “As pessoas gostavam quando o Davi ia confraternizar na casa do Sarney. Ele entrava e já queria tomar conta da festa, beijava a careca do José Serra, agradava o pessoal”, conta Gilvam Borges. “Ele também queria fazer contribuições, mas os bispos nem sempre deixam, né? Aí ele quis se tornar bispo.”
A uma semana da eleição para o Senado, Alcolumbre ganhou o voto útil das forças de esquerda – sobretudo da família Capiberibe, historicamente ligada ao PSB – que queriam impedir a volta de Sarney. Com esse apoio decisivo, Alcolumbre venceu Gilvam Borges e deixou Sarney ressentido até hoje. No mesmo pleito, soube que seu novo aliado, Camilo Capiberibe, estava com pouco dinheiro para o segundo turno da campanha ao governo estadual. Alcolumbre ligou para um empresário de São Paulo, que foi ao Amapá e ofereceu 10 milhões de reais. Com uma condição: se eleito, Capiberibe teria que direcionar contratos na Secretaria de Educação para empresas indicadas por Alcolumbre. Capiberibe não aceitou. Perdeu a eleição.
Depois de sua vitória, Alcolumbre chegou ao Senado nos mesmos moldes de sua entrada na Câmara – sob suspeita. Na sua própria campanha, o novo senador declarara ter gastado 135 mil reais em gasolina nos postos de combustível do tio Salomão – um volume suficiente para dar doze voltas ao redor do planeta. A prestação de contas chamou a atenção do Ministério Público por “ausência de comprovantes bancários” e uso de “notas fiscais frias” – parte das quais foram emitidas por empresas da família Alcolumbre. A retransmissora do SBT, a TV Amazônia Ltda., de propriedade do tio José, pagou uma gráfica que produziu material clandestino de campanha. A afiliada da Band TV, dirigida pelo irmão Josiel, também encomendou material clandestino e emitiu nota quando a eleição já estava encerrada.
Apesar das evidências de irregularidades, o Tribunal Regional Eleitoral do Amapá negou o pedido de cassação de Alcolumbre feito pelo MDB de José Sarney. Na interpretação do tribunal, não se comprovou que o senador sabia dos crimes eleitorais. Mas, como um procurador-geral eleitoral deu parecer favorável à cassação, o caso acabou chegando ao STF. Ali, tramitou sob sigilo até ser definitivamente arquivado em janeiro deste ano. A defesa do senador sustenta a legalidade dos gastos.
Ao comentar sobre o comportamento de seu antigo adversário, Gilvam Borges recorre a um verbo próprio da Região Norte: “mundiar”. Significa algo como espreitar, rondar, aturdir. “Quando tu vês uma cobra na mata cercando a presa, ela fica rondando e rondando os bichos até deixá-los zonzos. Aí, ela ataca”, compara. “O Davi mundia bem.” Mundiou Sarney, chegou ao Senado e, com a posse de Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto, Alcolumbre percebeu que havia mais degraus a galgar. Desde então, ele continua subindo.
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