Por JENNIFER RODRIGUES
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| Mark Bradford, Deep Blue, 2018. |
Comentário sobre o livro de Liev Tolstói
Há obras literárias que não apenas narram uma história, mas operam como dispositivos de revelação existencial. A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, insere-se nesse horizonte ao expor, com precisão inquietante, a cisão entre uma vida socialmente bem-sucedida e uma existência autenticamente vivida.
Ivan Ilitch constrói sua trajetória conforme os parâmetros socialmente legitimados de êxito: uma carreira respeitável, inserção em círculos adequados e decisões orientadas por convenções. No entanto, diante da iminência da morte, o que se impõe não é a satisfação, mas um sentimento de vazio radical. A pergunta que o atravessa – “e se minha vida não tiver sido como deveria?” – revela a dimensão trágica de uma existência vivida sob o signo da aparência.
A obra, nesse sentido, desloca o foco da morte enquanto evento biológico para a vida enquanto problema filosófico. A verdadeira tragédia não reside no fim, mas na ausência de autenticidade ao longo do percurso.
O cotidiano como mecanismo de anestesia
Liev Tolstói antecipa, com notável acuidade, um fenômeno que se intensifica na contemporaneidade: o cotidiano como forma de anestesiamento da consciência. Não é o sofrimento excessivo que distancia o indivíduo do essencial, mas a repetição acrítica de rotinas que produzem uma sensação de normalidade e estabilidade.
No contexto atual, essa dinâmica se radicaliza. A valorização da produtividade, a constante ocupação e a busca por validação externa – frequentemente mediada por dispositivos digitais – instauram uma lógica na qual estar ocupado equivale a existir com valor. Contudo, tal movimento não garante sentido, apenas continuidade funcional.
Assim como Ivan Ilitch, o sujeito contemporâneo frequentemente não percebe o momento em que passa a viver para corresponder às expectativas externas, em detrimento de uma experiência interna autêntica. O cotidiano, portanto, não apenas organiza a vida – ele a neutraliza.
A ilusão do adiamento
Outro eixo central da obra é a lógica do adiamento. Ivan Ilitch vive sob a pressuposição de que o essencial pode ser postergado: que haverá um momento oportuno para viver com profundidade, estabelecer vínculos genuínos e confrontar a própria existência.
Essa estrutura de pensamento permanece vigente. Expressões como “quando eu tiver tempo” ou “quando tudo estiver resolvido” revelam uma orientação temporal que desloca a vida para um futuro hipotético. O “depois” torna-se, assim, um mecanismo de fuga do presente.
Liev Tolstói explicita a falácia dessa expectativa: a vida não se realiza em um tempo idealizado, mas no instante vivido. Quando a consciência emerge tardiamente, como ocorre com Ivan Ilitch, já não há margem para reconfiguração existencial. A morte, nesse caso, não chega cedo – a lucidez é que chega tarde.
É por meio da experiência da dor que se rompe a superfície da vida inautêntica. A doença de Ivan Ilitch não apenas deteriora seu corpo, mas desestabiliza as estruturas simbólicas que sustentavam sua identidade.
Nesse ponto, Liev Tolstói sugere uma dimensão paradoxal da dor: aquilo que é evitado a todo custo pode constituir a única via de acesso à verdade. Em contraste, a contemporaneidade tende a suprimir qualquer forma de desconforto, seja por meio do consumo, da distração ou da superficialização das relações.
Ao evitar a dor, evita-se também a possibilidade de transformação. Ivan Ilitch alcança a lucidez apenas quando já não dispõe de tempo para viver de acordo com ela – e é precisamente aí que se configura o caráter trágico da narrativa.
A atualidade da crítica tolstoiana
Embora situada no século XIX, a obra apresenta notável aderência ao presente. A substituição da experiência pela sua representação, intensificada pelas dinâmicas sociais contemporâneas, reforça a centralidade da aparência como critério de validação existencial.
A busca por reconhecimento, status e pertencimento continua a orientar decisões fundamentais, frequentemente em detrimento da autenticidade. A diferença reside na escala e na velocidade com que tais processos ocorrem.
Nesse cenário, A morte de Ivan Ilitch opera como um diagnóstico crítico: nunca foi tão possível construir a imagem de uma vida plena, e, simultaneamente, tão fácil distanciar-se de uma experiência efetivamente significativa.
A reflexão proposta por Liev Tolstói não se configura como um julgamento moral, mas como um convite à consciência. O custo de uma vida inautêntica não se manifesta de forma imediata; ele se acumula silenciosamente e se revela, de maneira incontornável, no limite da existência.
Dessa forma, a obra aponta para uma exigência fundamental: viver não segundo protocolos sociais, mas a partir de uma relação consciente com o próprio existir. No fim, a questão decisiva não diz respeito ao que foi conquistado, mas ao que foi efetivamente vivido.
*Jennifer Rodrigues é jornalista. Escreve sobre temas nas áreas jurídica e econômica.
Referência
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Liev Tolstói. A morte de Ivan Ilitch. Tradução: Boris Schnaiderman. São Paulo, Editora 34, 2009, 96 págs. [https://amzn.to/4cGAOsW]


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