Pages

A magia demoníaca dos autômatos

Do A Terra É Redonda, 11 de abril 2026
Por ALESSANDRA AFFORTUNATI MARTINS*


Imagem: Payam Moin Afshari

O capitalismo digital opera como uma imensa maquinaria de produção de automatismos, convertendo a experiência reflexiva em repetição de dados consumíveis

1.
Os autômatos sempre me fascinaram. Olímpia, a boneca do conto O homem de areia, de E. T. A. Hoffmann, inaugurou minha duradoura mania. Depois de ter inspirado Sigmund Freud em Das Unheimliche, E. T. A. Hoffmann tornou-se uma referência literária na minha biblioteca. O conto Os autômatos,também do escritor realista fantástico alemão, mostra a faceta demoníaca dos humanoides. Já tinha ali uma versão do autômato jogador de xadrez, que depois aparecerá nas Teses sobre o conceito de história, de Walter Benjamin.

Com ele, o filósofo buscava retratar o materialismo-histórico mecanicista e pouco sensível às fugazes faíscas propícias à revolução. Essas aventuras psicanalíticas, literárias, filosóficas e cinematográficas, me levaram a descobrir recentemente o maravilhoso documentário Mechanical Marvels: Clockwork Dreams,realizado por Simon Schaffer para a BBC de Londres. Meu aparente fetiche por autômatos talvez não seja tão diletante. Ele busca investigar como aqueles antigos bonecos representaram uma mutação decisiva na episteme moderna.

Observa-se uma alteração irreversível daquilo que alguma vez se considerou propriamente humano desde a advento das incríveis engenhocas no século XVIII, como o célebre Pato Digestor (1739) construído por Jacques de Vaucanson que simulava funções orgânicas ou as máquinas programáveis de Pierre Jaquet-Droz, especialmente o Escritor (1774) capaz de escrever frases variáveis por meio de um sistema mecânico de memória, ou ainda o Turco enxadrista de Wolfgang von Kempelen (1770),que encenava a própria ideia de inteligência maquínica – não faltam exemplos.

Sinais que antes indicavam a presença da alma, como escrever ou jogar xadrez, se convertem em efeitos de uma combinatória técnica reproduzível. Mimetizando movimentos vivos, esses autômatos embaralharam as fronteiras entre natureza e artifício.

O modelo mecanicista dos autômatos acabou sendo incorporado às formas de pensar e de articular a linguagem. O funcionamento do corpo tornou-se equiparável ao funcionamento das máquinas e a lógica da causalidade mecânica serviu como molde para as construções de raciocínios filosóficos e convenções linguísticas mais corriqueiras.

2.

É dessa linhagem que nascem as Inteligências artificiais contemporâneas. Os robôs são seus irmãos de outra geração. Desenvolvidos por instituições como OpenAI, Boston Dynamics, Tesla, UBTECH Robotics ou SoftBank Robotics, essas máquinas se inserem no campo da interação social e afetiva e seus sistemas reproduzem operações linguísticas e inferenciais.

Os modelos atuais de Inteligências artificiais militarizaram os intrigantes e delicados autômatos do passado. Nessas versões contemporâneas, os robôs materializaram discursos destituídos de agentes. Com elas, observa-se uma exteriorização de operações técnico-simbólicas, pela qual o humano passa a se reconhecer como partícipe de um automatismo que lhe é inteiramente estranho. Os robôs tornaram-se ladrõezinhos incansáveis que roubam humanos para seus donos, CEOs dos oligopólios de tecnologia digital.

Em Terra arrasada: além da era digital, rumo a um mundo pós-capitalista, Jonathan Crary propõe que o capitalismo tardio se configura como uma mutação histórica que ultrapassa o modelo industrial clássico e se estabelece como um regime de extração contínua que não se limita mais à exploração da força de trabalho, mas incorpora a totalidade da vida como fonte de valor.

Isso não visa apenas à produção de mercadorias, ao lucro e ao acúmulo de capital. As Inteligências artificiais estão programadas para obter formas difusas de controle, ligadas a ações políticas e sociais futuras. Massiva e silenciosa, a extração de dados pelo complexo internético coloca-se a serviço da previsão e da modulação de comportamentos. Capta permanentemente a atenção e elimina qualquer forma de tempo improdutivo, como o ócio, o repouso e o sono.

Não por acaso, o relógio era um protótipo dos autômatos. Os robôs atuais estão ordenados por princípios que remontam ao capitalismo industrial dos séculos XVIII e XIX, quando a temporalidade humana passou a se submeter à disciplina produtiva. O tempo, organizado segundo imperativos de maximização da eficiência, instaurou uma lógica de esquematização total da vida. Essas novas tecnologias, desenvolvidas em contextos militares entre os séculos XX e XXI, passaram à cultura da informação que compõe a vida civil pelas redes digitais globais.

Como analisa Simon Schaffer em Mechanical Marvels: Clockwork Dreams, a cidade de autômatos, ligada às oficinas de Pierre Jaquet-Droz, também condensava a exploração de trabalho própria à ordem social do século XVIII. Exposta ao olhar contemplativo da aristocracia e da burguesia, a miniatura urbana aparecia povoada por diminutas figuras sincronizadas em suas diferentes e ininterruptas funções. A aparência de autonomia da cidade em miniatura ocultava sua condição fundamental: ela não funcionava sozinha. Sua existência dependia de uma infraestrutura invisível de trabalho humano que a construía e a mantinha.

3.

Ao mostrar essa dissociação entre os espectadores privilegiados e os operadores ocultos das máquinas, o documentário indica como os autômatos já consolidavam o imaginário idealizado de uma sociedade autorregulada, na qual o trabalho pareceria ocorrer sem trabalhadores. Os bonequinhos naturalizavam simbolicamente uma ordem social fundada sobre a dependência e a exclusão.

O que permanecia fora da cena – os corpos que davam corda, ajustavam e reparavam a maquinaria – era precisamente aquilo que tornava possível a ilusão de um mundo mecânico autossuficiente.

O documentário revela ainda como os próprios autômatos atrelados ao nome singular de um “gênio criador”, como o de Jaquet-Droz, resultavam na verdade de uma complexa divisão do trabalho que envolvia relojoeiros, metalúrgicos, escultores, desenhistas e técnicos especializados, cujas contribuições desapareciam sob a assinatura do mágico-inventor. O objeto final surgia como uma unidade coerente e quase viva, enquanto o processo coletivo de sua produção era apagado. Com isso, o autômato operava uma inversão simbólica: o trabalho humano, que era sua verdadeira origem, reaparecia como propriedade da própria máquina.

Atualmente até “gênios criadores” foram surrupiados pelas Inteligências artificiais. A experiência intelectual, convertida hoje em informação digital, relega qualquer reflexão à repetição de dados consumíveis. O circuito fechado não se rompe, já que a crítica reflexiva a ele é eliminada pela inclusão de sua força de resistência à dinâmica informacional. O capitalismo digital é uma imensa maquinaria de produção de automatismos, na qual a vida é progressivamente reorganizada segundo os princípios da regularidade, da previsibilidade e da resposta condicionada.

Por isso, caberia observar como a análise de Jonathan Crary encontra ressonância direta na concepção psicanalítica de automatismo, tal como elaborada por Sigmund Freud. Talvez não seja exagero dizer que os dados informacionais impactam o aparelho psíquico de maneira traumática. Diante deles opera-se apenas a repetição robótica, tentativa fracassada de saída do círculo cibernético fechado.

Como modelo preponderante de funcionamento psíquico do capitalismo digital, a compulsão à repetição realiza tecnicamente a captura da matéria-prima traumática para adequá-la e usá-la em sistemas computacionais que passam a governar qualquer esfera da experiência. Certa vez o autômato retratava apenas a base de vários mecanismos, hoje tornou-se o corpo e a psique de humanos que se convertem em suportes de processamentos de dados. Magias demoníacas estão entranhadas até mesmo em textos críticos às Inteligências artificiais, como este que você acaba de ler.

*Alessandra Affortunati Martins, psicanalista, é pós-doutoranda no Departamento de Filosofia da Unifesp.

Nenhum comentário:

Postar um comentário