Do GGN, 13 de abril 2026
Por Leonardo Avritzer e Rômulo Paes de SousaÉ importante lembrar que EUA e Israel atacaram o Irã naquilo que a maior parte dos comentaristas caracteriza como uma guerra por escolha.
Irã, petróleo e drones baratos: a guerra que muda o equilíbrio global de poder
A semana passada trouxe fatos importantes na guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. No dia 7 de abril, foi estabelecida uma trégua para que negociações de paz, mediadas pelo Paquistão, pudessem ocorrer. Nos dias 11 e 12 de abril, essas negociações não lograram êxito. Teerã que tem sido consistente na guerra, também o foi nas mesas de negociação, não aceitando as exigências norte-americanas quanto ao controle do Estreito de Ormuz, a entrega de urânio enriquecido remanescente no Irã e a não liberação de recursos financeiros congelados em vários países decorrentes da venda de petróleo iraniano. O Irã também buscou a supressão dos ataques de Israel ao Hezbollah, no Líbano, e reparação pelos danos causados em seis semanas de bombardeio. Apesar do fracasso das negociações, é a primeira vez que uma negociação pública de alto nível ocorre entre os dois países, desde a revolução iraniana de 1979 e o subsequente rompimento de relações diplomáticas entre os dois países. Para os EUA, que comandam uma guerra assimétrica emprestando uma narrativa estridente de superioridade militar, o simples fato de enviar o seu vice-presidente a uma mesa de negociação já uma demonstração de que subestimaram o seu inimigo e as adversidades dos combates.
É importante lembrar que Estados Unidos e Israel atacaram o Irã naquilo que a maior parte dos comentaristas caracteriza como uma guerra por escolha. Parte-se aqui da distinção entre dois tipos de guerra, a guerra por necessidade e a guerra por escolha. Esta última é aquela que não precisava ser necessariamente travada por aqueles que atacam o inimigo, sendo antes uma decisão tomada em função da suposta fraqueza do adversário e da possibilidade de derrotá-lo de forma mais contundente ou de forçar uma mudança de regime.
Estados Unidos e Israel estabeleceram dois objetivos fundamentais na guerra, expressos tanto pelo presidente Donald Trump quanto pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. O primeira seria a mudança de regime teocrático iraniano por meio de bombardeios ou da destruição de infraestrutura física, apesar de não haver evidências, nem na ciência política, nem em estudos das relações internacionais, que essa estratégia tenha funcionado. Outro objetivo diz respeito ao desarmamento nuclear do Irã ou, mais precisamente, à transferência dos 408 quilos de urânio já enriquecido pelo país para a Agência Internacional de Energia Atômica. Trata-se de um objetivo estratégico, mas certamente sem urgência, uma vez que toda a capacidade do Irã de produzir energia nuclear já havia sido profundamente comprometida, em junho de 2025.
Vale a pena apontar que as principais questões acumuladas ao longo de muitas décadas, especialmente no Departamento de Estado dos Estados Unidos, em relação aos riscos de atacar o Irã, foram completamente ignoradas pelo governo de Donald Trump. Destaca-se, entre elas, a ideia de que o Irã teria a capacidade de fechar o Estreito de Ormuz, algo que poderia ser feito com relativa facilidade, utilizando equipamentos militares de baixo custo e limitados contingentes militares, cuja neutralização exigiria a presença de tropas no terreno, algo para o qual os Estados Unidos não estavam dispostos a comprometer e Israel sequer poderia cogitar. Ao mesmo tempo, também foi negligenciada a possibilidade de retaliação do Irã contra os países do Golfo, que hoje constituem o principal eixo de relações dos Estados Unidos no Oriente Médio.
Os objetivos do Irã acabaram se mostrando viáveis por serem mais limitados. Um deles, evidentemente, era a sobrevivência do regime, isto é, evitar que o ataque militar por parte dos Estados Unidos e de Israel levasse ao seu colapso, algo que o Irã conseguiu, rapidamente, na medida em que foi capaz de unir a população em torno da resistência a um ataque estrangeiro. Esse resultado, mais uma vez, confirma o que a literatura internacional sobre o tema aponta há décadas.
Como previsto, o Irã foi efetivamente capaz de fechar o Estreito de Ormuz. O mais importante, contudo, é que o governo dos Estados Unidos fracassou ao não conseguir envolver os aliados europeus para a reabertura do Estreito de Ormuz, não obtendo apoio sequer de seu mais fiel aliado histórico, a Grã-Bretanha.
Esse cenário levou rapidamente a três consequências do ataque. Em primeiro lugar, um aumento exponencial do preço do petróleo. Em segundo lugar, um enfraquecimento do dólar, na medida em que parte das ações do Irã e de outros países foram no sentido de buscar alternativas à moeda norte-americana nas negociações de petróleo. Por fim, vale a pena apontar o surgimento de um problema de sustentabilidade financeira da guerra no longo prazo. Isso se deve ao fato de que o Irã passou a adotar uma eficaz estratégia no confronto assimétrico, utilizando equipamentos militares de baixo custo, especialmente drones avaliados entre 20 e 30 mil dólares norte-americanos, cuja neutralização exige o uso de mísseis que custam alguns milhões na mesma moeda.
No dia 12 de março, o presidente Trump anunciou em sua conta no Truth Social que os navios de guerra americanos impedirão a passagem dos navios comerciais que tiverem pagado “pedágio” ao Irã pelo uso da rota. China, Japão e países europeus poderão ser fortemente afetados por essa ação. Isso deverá agravar a crise no mercado de energia já que as reservas emergenciais de combustível dos países europeus estão próximas do fim. Com a proximidade do inverno no hemisfério norte, a sustentação dessa medida enfurecerá os eleitores europeus e forçará os dirigentes de seus países a aprofundarem o conflito com o governo Trump.
Todos esses elementos apontam que a guerra parece ter acelerado um processo de decadência da hegemonia americana no Oriente Médio. Isso se deve às consequências da guerra, tanto à sua relevância no mercado mundial de petróleo, quanto à importância das relações prioritárias que o país estabeleceu ao longo das décadas de 1970 e 1980, inicialmente com a Arábia Saudita e, posteriormente, com quase todos os países do Golfo. Nesse sentido, a guerra levou ao enfraquecimento dessa hegemonia sob o ponto de vista da influência política, da capacidade financeira de sustentar um conflito de longo prazo e da explicitação de um enfraquecimento militar relativo dos Estados Unidos, que já era observável, mas que hoje se torna ainda mais contundente. Esse quadro se evidencia especialmente quando se considera um dos principais favorecidos pelo conflito, a China, que, ao não se envolver diretamente, reforçou as negociações de trégua por meio do Paquistão e consolidou sua posição como potência hegemônica em ascensão.
Leonardo Avritzer é professor aposentado do Departamento de Ciência Política da UFMG.
Rômulo Paes de Sousa é pesquisador da Fiocruz e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).
A semana passada trouxe fatos importantes na guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. No dia 7 de abril, foi estabelecida uma trégua para que negociações de paz, mediadas pelo Paquistão, pudessem ocorrer. Nos dias 11 e 12 de abril, essas negociações não lograram êxito. Teerã que tem sido consistente na guerra, também o foi nas mesas de negociação, não aceitando as exigências norte-americanas quanto ao controle do Estreito de Ormuz, a entrega de urânio enriquecido remanescente no Irã e a não liberação de recursos financeiros congelados em vários países decorrentes da venda de petróleo iraniano. O Irã também buscou a supressão dos ataques de Israel ao Hezbollah, no Líbano, e reparação pelos danos causados em seis semanas de bombardeio. Apesar do fracasso das negociações, é a primeira vez que uma negociação pública de alto nível ocorre entre os dois países, desde a revolução iraniana de 1979 e o subsequente rompimento de relações diplomáticas entre os dois países. Para os EUA, que comandam uma guerra assimétrica emprestando uma narrativa estridente de superioridade militar, o simples fato de enviar o seu vice-presidente a uma mesa de negociação já uma demonstração de que subestimaram o seu inimigo e as adversidades dos combates.
É importante lembrar que Estados Unidos e Israel atacaram o Irã naquilo que a maior parte dos comentaristas caracteriza como uma guerra por escolha. Parte-se aqui da distinção entre dois tipos de guerra, a guerra por necessidade e a guerra por escolha. Esta última é aquela que não precisava ser necessariamente travada por aqueles que atacam o inimigo, sendo antes uma decisão tomada em função da suposta fraqueza do adversário e da possibilidade de derrotá-lo de forma mais contundente ou de forçar uma mudança de regime.
Estados Unidos e Israel estabeleceram dois objetivos fundamentais na guerra, expressos tanto pelo presidente Donald Trump quanto pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. O primeira seria a mudança de regime teocrático iraniano por meio de bombardeios ou da destruição de infraestrutura física, apesar de não haver evidências, nem na ciência política, nem em estudos das relações internacionais, que essa estratégia tenha funcionado. Outro objetivo diz respeito ao desarmamento nuclear do Irã ou, mais precisamente, à transferência dos 408 quilos de urânio já enriquecido pelo país para a Agência Internacional de Energia Atômica. Trata-se de um objetivo estratégico, mas certamente sem urgência, uma vez que toda a capacidade do Irã de produzir energia nuclear já havia sido profundamente comprometida, em junho de 2025.
Vale a pena apontar que as principais questões acumuladas ao longo de muitas décadas, especialmente no Departamento de Estado dos Estados Unidos, em relação aos riscos de atacar o Irã, foram completamente ignoradas pelo governo de Donald Trump. Destaca-se, entre elas, a ideia de que o Irã teria a capacidade de fechar o Estreito de Ormuz, algo que poderia ser feito com relativa facilidade, utilizando equipamentos militares de baixo custo e limitados contingentes militares, cuja neutralização exigiria a presença de tropas no terreno, algo para o qual os Estados Unidos não estavam dispostos a comprometer e Israel sequer poderia cogitar. Ao mesmo tempo, também foi negligenciada a possibilidade de retaliação do Irã contra os países do Golfo, que hoje constituem o principal eixo de relações dos Estados Unidos no Oriente Médio.
Os objetivos do Irã acabaram se mostrando viáveis por serem mais limitados. Um deles, evidentemente, era a sobrevivência do regime, isto é, evitar que o ataque militar por parte dos Estados Unidos e de Israel levasse ao seu colapso, algo que o Irã conseguiu, rapidamente, na medida em que foi capaz de unir a população em torno da resistência a um ataque estrangeiro. Esse resultado, mais uma vez, confirma o que a literatura internacional sobre o tema aponta há décadas.
Como previsto, o Irã foi efetivamente capaz de fechar o Estreito de Ormuz. O mais importante, contudo, é que o governo dos Estados Unidos fracassou ao não conseguir envolver os aliados europeus para a reabertura do Estreito de Ormuz, não obtendo apoio sequer de seu mais fiel aliado histórico, a Grã-Bretanha.
Esse cenário levou rapidamente a três consequências do ataque. Em primeiro lugar, um aumento exponencial do preço do petróleo. Em segundo lugar, um enfraquecimento do dólar, na medida em que parte das ações do Irã e de outros países foram no sentido de buscar alternativas à moeda norte-americana nas negociações de petróleo. Por fim, vale a pena apontar o surgimento de um problema de sustentabilidade financeira da guerra no longo prazo. Isso se deve ao fato de que o Irã passou a adotar uma eficaz estratégia no confronto assimétrico, utilizando equipamentos militares de baixo custo, especialmente drones avaliados entre 20 e 30 mil dólares norte-americanos, cuja neutralização exige o uso de mísseis que custam alguns milhões na mesma moeda.
No dia 12 de março, o presidente Trump anunciou em sua conta no Truth Social que os navios de guerra americanos impedirão a passagem dos navios comerciais que tiverem pagado “pedágio” ao Irã pelo uso da rota. China, Japão e países europeus poderão ser fortemente afetados por essa ação. Isso deverá agravar a crise no mercado de energia já que as reservas emergenciais de combustível dos países europeus estão próximas do fim. Com a proximidade do inverno no hemisfério norte, a sustentação dessa medida enfurecerá os eleitores europeus e forçará os dirigentes de seus países a aprofundarem o conflito com o governo Trump.
Todos esses elementos apontam que a guerra parece ter acelerado um processo de decadência da hegemonia americana no Oriente Médio. Isso se deve às consequências da guerra, tanto à sua relevância no mercado mundial de petróleo, quanto à importância das relações prioritárias que o país estabeleceu ao longo das décadas de 1970 e 1980, inicialmente com a Arábia Saudita e, posteriormente, com quase todos os países do Golfo. Nesse sentido, a guerra levou ao enfraquecimento dessa hegemonia sob o ponto de vista da influência política, da capacidade financeira de sustentar um conflito de longo prazo e da explicitação de um enfraquecimento militar relativo dos Estados Unidos, que já era observável, mas que hoje se torna ainda mais contundente. Esse quadro se evidencia especialmente quando se considera um dos principais favorecidos pelo conflito, a China, que, ao não se envolver diretamente, reforçou as negociações de trégua por meio do Paquistão e consolidou sua posição como potência hegemônica em ascensão.
Leonardo Avritzer é professor aposentado do Departamento de Ciência Política da UFMG.
Rômulo Paes de Sousa é pesquisador da Fiocruz e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Nenhum comentário:
Postar um comentário