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Trabalho e desenvolvimento no Brasil

Do A Terra É Redonda, 07 de março 2026
Por FLORESTAN FERNANDES*



Florestan Fernandes numa manifestação em defesa do ensino público

Texto da arguição da tese de livre-docência de Luiz Pereira.[i]

“O professor que elege o ensino como arma de luta política, por manter acesa a chama da liberdade como auto-emancipação intelectual, o ardor do pensamento critico e inventivo, a confiança na dignidade concreta do ser humano” (Florestan Fernandes, 1986, p. 242).

1.
O doutor Luiz Pereira representa um dos valores mais destacados da nova geração de sociólogos. Impoz-se pela seriedade de seus propósitos, sua dedicação exemplar e intensa ao trabalho e a inteligência que colocou a serviço de uma careira científica ambiciosa.

Importa, sobretudo, salientar o que representa sua contribuição. Todos nós escolhemos um ou dois ângulos para canalizar as nossas carreiras. Luiz Pereira escolheu a educação e os problemas que giram em torno da sociologia das ocupações para encetar a sua carreira científica. E aí já nos deu duas excelentes contribuições: o primeiro estudo sociológico sistemático sobre a escola primária considerada como parte de uma comunidade (PEREIRA, 1960); e um magnífico estudo sobre a situação do professor primário na fase de transição em que estamos vivendo (PEREIRA, 1963).[ii]

Os dois estudos possuem uma sólida fundamentação empírica, uma clara visão dos problemas teóricos que podem esclarecer sociologicamente os temas abordados, e uma visão, às vezes implícita, outras vezes explícita, dos dilemas práticos que estamos enfrentando.

Portanto, trata-se de um cientista social que sabe combinar teoria, pesquisa e aplicação, que procura desempenhar, simultaneamente, os papéis que decorrem de sua qualidade de cidadão e de homem do mundo.

Neste trabalho, o professor Luiz Pereira atinge o ápice e, ao mesmo tempo, o término da fase por assim dizer formativa de sua carreira como sociólogo. Este constitui o trabalho mais ambicioso que realizou, aquele no qual se pode avaliar melhor as suas qualidades de intelectual, de cientista e de pensador.

Por todos os títulos, é um trabalho dramático. Mostra-nos uma realidade que muitos teimam em ignorar, que é sombria sob muitos aspectos, e que, de fato, está sucedendo: uma sociedade em que surge um proletariado que não tem condições para tomar consciência de sua situação de classes, organizar-se para defender seus interesses mais profundos e lutar por seu destino.

Em todos os níveis, aparece a propensão incoercitível e intensa de identificar-se e de integrar-se ao “sistema”.

Incapaz de uma tomada de consciência, esse proletarado manifesta-se, ao mesmo tempo, como incapaz de uma opção histórica e atua numa linha de passividade ou de conformismo político.

Como sucede, atualmente, em outros países, em primeiro lugar, o que conta para o proletariado é conseguir uma “posição dentro do sistema” e, em segundo lugar, conquistar uma melhoria progressiva, uma participação num nível de consumo que lhe permita um estalão de vida.

2.
Por outro lado, este trabalho de Luiz Pereira revela o drama em que vive o intelectual brasileiro, principalmente, aquele que labuta na área das ciências sociais.

Refina suas possibilidades de consciência da situação e chega a descrever as coisas, tanto teórica quanto empírica e pragmaticamente, com um avanço que o separa dos seus colegas europeus e norte-americanos.

No entanto, no fim de tudo, essa consciência do intelectual, armada com os recursos mais finos e adequados da ciência moderna, só pode levar a uma clara noção da impotência do intelectual.

A sociedade reluta para criar os quadros de modernização que poderiam acolher e reelaborar tal contribuição. Ela ainda não alcançou um padrão de reação societário que dê sentido ao trabalho intelectual do cientista e ao que ele poderia significar como fator de mudança social construtiva num país em transformação e com tantos dilemas sociais.

Esse ponto merece ser enfatizado, pois, se essa é uma constante geral em relação à maioria dos cientistas sociais de nossos dias, ela aparece de modo agudo na contribuição postiva deste trabalho.

Quero convidá-los a refletir sobre isso, pois aí está o próprio cerne do drama moral e do dilema intelectual em que se acha o sociólogo brasileiro de vanguarda.

Tenho poucos reparos a fazer. Uns possuem alguma importância, outros são, por ventura, inócuos. Mas, cumprindo a minha função, gostaria de apresentá-los ao candidato:

(i) Tenho uma crítica miúda a fazer. Na p. 114, vem transcrito longo excerto de Roberto Simonsen (A evolução industrial do Brasil). Trata-se de uma passagem importante, verdadeiramente pioneira e condensa muitas das novidades em torno das quais se firmaram interpretações dos nossos economistas modernos (inclusive Celso Furtado). Desse ângulo, é uma citação meritória e que faz justiça.

Mas, há nela um trecho que não poderia ser endossado por um sociólogo, referindo-se à crise provocada pela superprodução de café e seus reflexos demográficos, escreve Roberto Simonsen: “A depressão dos preços acarretou violenta baixa dos salários no interior, verificando-se, então, desde 1901, pronunciado afluxo de colonos e imigrantes para as cidades e notadamente para a capital”.

Ora, a expansão das fazendas de café e o crescimento urbano foram quase concomitantes e constituem, nas zonas em prosperidade econômica do Estado de São Paulo, uma tendência bem definida (até diria, um padrão de desenvolvimento socio-econômico).

É provável que os efeitos da depressão acelerassem, momentaneamente, o referido processo. Mas, não o engendraram, nem o modificaram em sua essência na referida conjuntura. O município da capital oferece boa ilustração e o recenseamento de Toledo Piza (1896) revela: Estrangeiros – 71.468 (54,6%); Nacionais – 59.307 (45,4%). Separando-se os brancos nacionais desse conjunto, só os italianos entravam com uma cota superior – 44.854.

Seria prudente corrigir, pois, a interpretação de Roberto Simonsen. Os economistas são propensos a procurar explicações econômicas simples para fenômenos sociais complexos e que, por vezes, condicionam o próprio crescimento econômico.

3.
(ii) No plano teórico, levanto quatro tipos de objeção em face do trabalho: (a) Houve uma espécie de ingurgitamento teórico do programa inicial de pesquisa. Esta foi concebida e centrada, inicialmente, na situação de trabalho. Depois, acabou sendo projetada num contexto teórico demasiado amplo, de desenvolvimento econômico. Como muitos problemas não haviam sido previstos como problemas de pesquisa, sua solução aparece como elocubração de temas tratados por outros especialistas.

O alargamento do contexto teórico, neste sentido, empobreceu uma exploração a fundo e completa dos resultados da pesquisa inicial e ela própria não se beneficiou daquele alargamento;

(b) Há uma contradição insanável entre o sistema de referência teórico adotado e o próprio nível de análise da realidade. O método escolhido foi o dialético; a realidade foi vista através de concomitantes. Em consequência, o que resulta é uma caracterização estrutural-funcional do sistema, esse momento não caracteriza o que é específico e essencial da análise dialética: a abstração das variáveis que explicam a flutação desse padrão, em termos de desenvolvimento e em termos de crise.

Em vista disso, não vejo porque teimar em escolher e apontar como método de interpretação o recurso interpretativo que não foi realmente explorado. Por que não dizer que se trata de uma análise de concomitantes em nível estrutural-funcional e, pois, de análise funcional?

(c) Há um esforço meritório de integração teórica. Mas, ele conduziu o autor por caminhos incongruentes e indefensáveis. Tome-se, por exemplo, a análise da personalidade: personalidade básica capitalista, personalidade-status operária, etc; como outras soluções: sistemas, subsistemas, subsistemas de subsistemas, etc. Quase compete com Talcott Parsons no furor decomposocionista…

Aí aparece um problema real. Abram Kardiner e Ralph Linton levaram em conta sociedades mais ou menos homogêneas; Karl Marx ignorou os elementos comuns na participação da cultura pelas diferentes classes sociais. Todavia, se existe uma personalidade básica capitalista, como explicar os conteúdos e a organização da personalidade do operário em face do empreário ou capitalista?

(d) Na representação da realidade e, em seguida, na interpretação da mesma, o autor trilha caminhos que não me parecem isentos de críticas. Na verdade, todo o seu esforço analítico gira em torno da criação de equivalentes conceituais da realidade. De modo que esta não é vista em si mesma, mas através de categorias abstratas.

4.
Nisso não haveria nenhum mal, embora tal procedimento contamine as possibilidades de uma orientação de cunho histórico-sociológico. O mal reside na falta de uma fundamentação metodológica mais sólida e segura da orientação explorada.

O investigador pode operar com tipos empíricos, do nível da sociologia descritiva, ou com tipos esquemáticos, ao nível de outros campos da sociologia (inclusive no da sociologia histórica ou diferencial).

Portanto, a deficiência metodológica aparece na falta de adequação lógica entre a inteligência interpretativa e a realidade: esta não foi elaborada de forma típica. O que aparece na descrição e na interpretação não é a realidade no estado de pureza empírica, nem a realidade vista dialeticamente (como construção de um tipo extremo). Mas o equivalente da realidade, proposto pelo investigador e visto por ele sob alguns aspectos dinâmicos.

Essa crítica me parece a mais fundamental e a única que atinge profundamente a natureza da contribuição teórica do trabalho.

(e) Acredito que possa fazer, por fim, uma crítica estritamente teórica. Ao que parece, trata-se de descobrir uma correlação (ainda mais no nível teórico histórico) entre trabalho e desenvolvimento capitalista, por assim dizer, que empolga e deforma o agente de trabalho, e que o agente de trabalho acaba plasmado pelo contexto capitalista do sistema.

Ora, e os problemas gerais e específicos: como uma coisa tem influenciado, está influenciando e poderá influenciar a outra? Do ponto de vista teórico, esse era o dado geral de maior importância, que ficou num segundo plano e como implicação por causa da técnica de análise e de exposição.

Essas críticas não excluem nem a minha admiração por Luiz Pereira, nem pelo trabalho. Este não só fica como um esforço pioneiro, ele coloca os problemas que temos de enfrentar numa área de investigações dessa natureza.

Em suma, as críticas não indicam senão divergências. Não se trata de uma investigação frustrada, mas de uma contribuição fundamental, que revela grande maestria, alargando sobremaniera a problemática dos estudos sociológicos do trabalho. Pelas qualidades desta investigação, queria felicitar o autor, a Cadeira de Sociologia I e a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.

*Florestan Fernandes (1920-1995) foi professor de sociologia na USP e deputado federal pelo PT. Autor, entre outros livros, de A Revolução burguesa no Brasil (Contracorrente). [https://amzn.to/4rWMlur]

Referências

BARILE, João (2025). Presente do acaso: um ensaio biográfico sobre Silviano Santiago. Belo Horizonte: Autêntica.

FERNANDES, Florestan (1965). Processo para livre-docência de Luiz Pereira. Item documental: 09.AD.01.003. Coleção Especial do Fundo Florestan Fernandes. Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos (BCo/UFSCar), São Carlos.

FERNANDES, Florestan (1986). Luta em surdina. In. FERNANDES, Florestan. Que tipo de república?. São Paulo: Brasiliense, p. 238-242.

FERNANDES, Heloisa; SALLUM JR. Brasílio (1985). Um sociólogo no front. A luta, os livros e a morte de Luiz Pereira, Senhor, n. 226, 17 de julho de 1985, p. 80-81. Disponível neste link.

FLORESTAN Fernandes conversando numa roda de amigos na casa de ??? (1970). Item documental: 3943. Coleção Especial do Fundo Florestan Fernandes. Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos (BCo/UFSCar), São Carlos.

PEREIRA, Luiz (1960). A escola numa área metropolitana: monografia sociológica sobre o funcionamento interno e as relações da escola primária com o meio social local. Boletim 253, n. 8, FFCL da USP, São Paulo. Disponível neste link.

PEREIRA, Luiz (1963). O magistério primário numa sociedade de classes: contribuição ao estudo sociológico de uma ocupação na cidade de São Paulo. Boletim 277, n. 10, FFCL da USP, São Paulo. Disponível neste link.

PEREIRA, Luiz (1965a). Trabalho e desenvolvimento no Brasil. São Paulo: DIFEL.

PEREIRA, Luiz (1965b). Correspondência. Destinatário: Florestan Fernandes, 11 set. 1965. Item documental: 09.AD.04.113. Coleção Especial do Fundo Florestan Fernandes. Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos (BCo/UFSCar), São Carlos.(FERNANDES, 1965, p. 1).(PEREIRA, 1965b).(FLORESTAN, 1970. Pesquisadores brasileiros na cidade de Buffalo, Estados Unidos, no período dos exílios de Abdias Nascimento e Florestan Fernandes. Da esquerda para direita aparecem: Silviano Santiago, Abdias Nascimento, Florestan Fernandes e Ubiratan D’Ambrosio).

Notas

[i] A edição e as notas explicativas deste texto foram elaboradas por Paulo Fernandes Silveira (FEUSP; IEA-USP), com as colaborações de Heloisa Fernandes, Caio Toledo e Diogo Valença.

Esse texto foi preparado por Florestan Fernandes para sua participação na banca do concurso de livre-docência de Luiz Pereira, que ocorreu entre 30 de junho e 2 de julho de 1965, na USP. A versão original desse documento encontra-se na Coleção Especial do Fundo Florestan Fernandes, da Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos (BCo/UFSCar).

Luiz Pereira publicou esse trabalho em 1965, pela editora DIFEL. O autor dedica o livro: “A Florestan Fernandes, mestre e amigo” (1965a, p. 5).

Após a morte precoce de Luiz Pereira, em 1985, Florestan Fernandes publicou num jornal de grande circulação um texto em sua homenagem: “Luta em surdina”. Este texto foi reeditado na coletânea de ensaios de Florestan Fernandes (1986) intitulada: Que tipo de república?.

Numa carta enviada em 11 de setembro de 1965, Luiz Pereira informa a Florestan Fernandes, que estava exilado nos Estados Unidos, que ele e o desembargador e romancista Ewelson Soares conversaram com Myriam Fernandes, esposa de Florestan, sobre a decretação do pedido de prisão de todos os implicados no Inquérito Policial Militar (IPM) sobre docentes da USP. Florestan Fernandes teria deixado o Brasil uma hora antes de ser decretada a sua prisão.

Em outras correspondências, Luiz Pereira e Ewelson Soares continuaram auxiliando Florestan Fernandes para evitar sua prisão pela ditadura militar, razão pela qual o sociólogo manteve-se no exílio.

No ensaio biográfico sobre Silviano Santiago, o jornalista João Barile (2025) transcreve um testemunho de Silviano Santiago sobre a perseguição militar e o exílio de Florestan Fernandes.

[ii] Florestan Fernandes orientou as pesquisas de mestrado e de doutorado de Luiz Pereira (1960; 1963). Luiz Pereira, por sua vez, orientou as pesquisas de mestrado e de doutorado de Heloisa Fernandes, filha de Florestan Fernandes e mãe do editor deste texto.

Heloisa Fernandes e Brasílio Sallum Júnior (1985) publicaram um texto em homenagem a Luiz Pereira: “Um sociólogo no front. A luta, os livros e a morte de Luiz Pereira”.

Na infância, eu frequentei o sitio que Luiz Pereira e Ewelson Soares possuíam em Cotia, cidade próxima a São Paulo. Eu pouco podia aproveitar das conversas dos adultos intelectuais. Todavia, eu ficava impactado com a aura que circundava Luiz Pereira. Lembro-me de algumas experiências com ele que foram significativas para mim, por exemplo, nos finais de tarde, sentávamos todos num espaço elevado do sítio, que ficava numa região montanhosa, e contemplávamos o horizonte.

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