Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*
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A violência escolar é o produto previsível de um arranjo social que normaliza o intolerável
1.
Assisti o documentário, candidato ao Oscar, Quartos vazios. Eu me coloquei a pergunta de imediato: por quais razões acontecem tantos tiroteios nas escolas dos EUA com mortes de crianças inocentes? Há risco dessa “cultura americana” se espalhar, dada a transmissão imediata a todo o mundo?
Essa tragédia recorrente nos EUA não tem uma causa única. Ela emerge – como nem um sistema complexo – das interações de vários fatores. Eles se reforçam mutuamente. O resultado é um padrão estrutural, não um desvio ocasional.
A “cultura das armas” age lá como identidade, não atua apenas como um direito individual. Nos EUA, a arma não é só um instrumento: é símbolo de autonomia individual, virilidade, autodefesa e desconfiança do Estado.
O direito constitucional ao porte de armas foi reificado culturalmente, blindado contra qualquer ponderação coletiva. Como resultado, há circulação massiva de armas de alto poder letal em ambientes onde conflitos psíquicos e sociais são frequentes.
Há facilidade extrema de acesso a armas letais. Não se trata apenas de “ter armas”, é quais armas e como obtê-las. Os indivíduos armamentistas se vangloriam de possuírem rifles semiautomáticos, carregadores de alta capacidade.
Eles se deparam com checagens frouxas e ausência de rastreabilidade nacional. Isso cria um ambiente onde surtos individuais se convertem rapidamente em massacres. Em outros países, crises semelhantes produzem brigas, suicídios ou agressões isoladas, mas não carnificinas massivas em impulsos imediatos.
Nos Estados Unidos, houve desintegração do tecido social e solidão radical. A sociedade americana vive há décadas com enfraquecimento de comunidades locais. Muitas famílias estão sob estresse econômico e as escolas ficam sobrecarregadas jovens socialmente isolados.
Muitos autores desses ataques são adolescentes ou jovens adultos profundamente solitários, ressentidos, sem vínculos afetivos sólidos. Não há mediações simbólicas eficazes para os impedir dos atos insanos.
A saúde mental é tratada como problema individual, não social. Há sofrimento psíquico em todo o mundo. A diferença é o contexto institucional: acesso precário a cuidados preventivos, estigmatização e ausência de acompanhamento contínuo.
Quando o sofrimento individual encontra armas, a estatística vira tragédia coletiva. Entre 2009 e maio de 2022 ocorreram 274 tiroteios em massa nos Estados Unidos. Em 2021, houve 691 tiroteios em massa no país.
Em 2025, ocorreram 230 tiroteios em escolas nos EUA – um número ainda assustadoramente alto. Em comparação, foram registrados 336 tiroteios em escolas em 2024, 352 em 2023, 308 em 2022 e 257 em 2021.
2.
A espetacularização da violência e a lógica do “legado” em mídia – e hoje as redes – transformam esses eventos em narrativas acessíveis a todos os potencialmente atiradores. Alguns agressores buscam visibilidade, notoriedade, inscrição simbólica: existir pelo choque. Isso cria um efeito de contágio, documentado empiricamente: cada massacre aumenta a probabilidade do próximo.
Escolas atuam como palco simbólico. Cada uma concentra crianças em vulnerabilidade máxima, autoridade institucional identificada como opressora por alunos punidos e expectativa de futuro não atingível pelos frustrados. Atacar a escola é visto com atacar a promessa de ascensão social sentida como inalcançável. É violência como mensagem, ainda sendo delirante.
Pior, há um bloqueio político estrutural ao combate dessas tragédias familiares. Mesmo após massacres repetidos com frequência, o lobby armamentista poderoso domina o sistema político capturado diante a polarização ideológica extrema.
Nada muda diante a direita armamentista. A repetição vira normalidade. A exceção vira rotina. Não se trata de “loucura individual”, nem de “falta de valores”. Tampouco é um problema isolado de segurança. É a convergência explosiva entre cultura armamentista, armas abundantes, sofrimento psíquico, isolamento social, mídia “espetacularizante” e paralisia política. Quando esse sistema complexo emerge, crianças inocentes pagam com a vida.
Comparar com outros países armados sem esse padrão, justamente, desmonta a ideia de a “arma em si” explicar tudo. Há países com alta taxa de armas por habitante sem apresentarem massacres escolares recorrentes. Isso indica o fenômeno ser institucional, cultural e sistêmico, não meramente técnico.
Os contrastes mais elucidativos são os seguintes. No caso dos EUA e da Suíça, ambos cidadãos podem ser armados, mas os resultados são opostos.No caso do país europeu, com população tendo ultrapassado nove milhões de pessoas em 2025, há alta posse de armas, como fosse uma espécie de “milícia cidadã”, mas as armas são vinculadas ao serviço militar, com registro rigoroso. Arma não é símbolo de ressentimento individual, mas de dever cívico.
Lá há forte coesão social, baixa desigualdade e um Estado funcional. Praticamente, há inexistência de massacres escolares.
Acontece ao contrário nos Estados Unidos, onde arma, para a população próxima de 349 milhões pessoas, atua como expressão de identidade individual e autodefesa privada. A indústria de armamentos explora um grande mercado privado com publicidade agressiva e lobby político. Junto com a fragmentação social, competição extrema e desigualdade, os mass shootings são recorrentes.
3.
Esses “tiroteios em massa” referem-se a incidentes de violência armada onde múltiplas vítimas, geralmente, pelo menos três ou quatro pessoas, excluindo o atirador, são baleadas ou mortas em um curto período. Ocorrem em locais públicos, sem motivação relacionada a crimes organizados ou terrorismo.
Logo, a diferença-chave não é a quantidade de armas, mas o regime social, simbólico e institucional no qual elas circulam. Comparando EUA e Canadá, com cultura próxima, os resultados são muito distintos. No Canadá, armas são permitidas, mas com licenciamento rigoroso, treinamento obrigatório, armazenamento fiscalizado e saúde mental de 41,5 milhões de habitantes integrada ao sistema público. Ocorre menor espetacularização da violência com casos raros e isolados de ataques em escolas.
Nos Estados Unidos, a regulação encontra-se fragmentada por estados (unidades federativas), armas de guerra são legalizadas para civis e a saúde mental é mercantilizada. Pior, a violência é convertida em espetáculo midiático. A diferença-chave é o Canadá tratar armas como risco público regulado. Os EUA as tratam como mercadorias de direito absoluto de acesso por qualquer consumidor.
Entre os EUA e o Japão, o contraste é quase didático. Nesse país asiático, com 124 milhões de habitantes, quase não há nenhuma arma de fogo. Violência escolar existe, mas assume formas não letais por causa do forte controle social informal, cultura de vergonha pública e mediação institucional. Há isolamento social grave, mas sem massacres armados como expressão de ressentimento.
Nos Estados Unidos, há o mesmo isolamento social, mas qualquer indivíduo tem acesso imediato a armas letais. Logo, uma crise psíquica vira massacre em minutos. Lição central é o sofrimento psíquico ser universal, mas a letalidade em massa não é.
A diferença entre os EUA e Israel é outro caso comumente mal interpretado. Em Israel, a população anda armada em contexto de segurança nacional. Armas estão ligadas a função nacional específica, não a consumo privado. Há controle rigoroso de quem porta, quando e por quê. Massacres escolares são praticamente inexistentes. Sua diferença-chave está em ver a arma como instrumento funcional e temporário, não como extensão permanente do ego.
Os países sem massacres recorrentes combinam regulação estatal forte, controle simbólico do uso da força, menor desigualdade social, sistemas de saúde mental integrados e ausência de culto à violência como identidade. Os EUA reúnem o oposto: armas como mercadoria e fetiche, individualismo radical, isolamento social profundo, mídia sensacionalista e bloqueio político estrutural
Os tiroteios em escolas, lá, não são acidentes, nem simples desvios individuais. São um produto emergente de um arranjo social específico. Onde a violência é privatizada, mercantilizada e desregulada, ela inevitavelmente encontra alvos simbólicos máximos — e nada é mais simbólico (e indefeso) diante a morte de crianças inocentes em uma escola.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]
1.
Assisti o documentário, candidato ao Oscar, Quartos vazios. Eu me coloquei a pergunta de imediato: por quais razões acontecem tantos tiroteios nas escolas dos EUA com mortes de crianças inocentes? Há risco dessa “cultura americana” se espalhar, dada a transmissão imediata a todo o mundo?
Essa tragédia recorrente nos EUA não tem uma causa única. Ela emerge – como nem um sistema complexo – das interações de vários fatores. Eles se reforçam mutuamente. O resultado é um padrão estrutural, não um desvio ocasional.
A “cultura das armas” age lá como identidade, não atua apenas como um direito individual. Nos EUA, a arma não é só um instrumento: é símbolo de autonomia individual, virilidade, autodefesa e desconfiança do Estado.
O direito constitucional ao porte de armas foi reificado culturalmente, blindado contra qualquer ponderação coletiva. Como resultado, há circulação massiva de armas de alto poder letal em ambientes onde conflitos psíquicos e sociais são frequentes.
Há facilidade extrema de acesso a armas letais. Não se trata apenas de “ter armas”, é quais armas e como obtê-las. Os indivíduos armamentistas se vangloriam de possuírem rifles semiautomáticos, carregadores de alta capacidade.
Eles se deparam com checagens frouxas e ausência de rastreabilidade nacional. Isso cria um ambiente onde surtos individuais se convertem rapidamente em massacres. Em outros países, crises semelhantes produzem brigas, suicídios ou agressões isoladas, mas não carnificinas massivas em impulsos imediatos.
Nos Estados Unidos, houve desintegração do tecido social e solidão radical. A sociedade americana vive há décadas com enfraquecimento de comunidades locais. Muitas famílias estão sob estresse econômico e as escolas ficam sobrecarregadas jovens socialmente isolados.
Muitos autores desses ataques são adolescentes ou jovens adultos profundamente solitários, ressentidos, sem vínculos afetivos sólidos. Não há mediações simbólicas eficazes para os impedir dos atos insanos.
A saúde mental é tratada como problema individual, não social. Há sofrimento psíquico em todo o mundo. A diferença é o contexto institucional: acesso precário a cuidados preventivos, estigmatização e ausência de acompanhamento contínuo.
Quando o sofrimento individual encontra armas, a estatística vira tragédia coletiva. Entre 2009 e maio de 2022 ocorreram 274 tiroteios em massa nos Estados Unidos. Em 2021, houve 691 tiroteios em massa no país.
Em 2025, ocorreram 230 tiroteios em escolas nos EUA – um número ainda assustadoramente alto. Em comparação, foram registrados 336 tiroteios em escolas em 2024, 352 em 2023, 308 em 2022 e 257 em 2021.
2.
A espetacularização da violência e a lógica do “legado” em mídia – e hoje as redes – transformam esses eventos em narrativas acessíveis a todos os potencialmente atiradores. Alguns agressores buscam visibilidade, notoriedade, inscrição simbólica: existir pelo choque. Isso cria um efeito de contágio, documentado empiricamente: cada massacre aumenta a probabilidade do próximo.
Escolas atuam como palco simbólico. Cada uma concentra crianças em vulnerabilidade máxima, autoridade institucional identificada como opressora por alunos punidos e expectativa de futuro não atingível pelos frustrados. Atacar a escola é visto com atacar a promessa de ascensão social sentida como inalcançável. É violência como mensagem, ainda sendo delirante.
Pior, há um bloqueio político estrutural ao combate dessas tragédias familiares. Mesmo após massacres repetidos com frequência, o lobby armamentista poderoso domina o sistema político capturado diante a polarização ideológica extrema.
Nada muda diante a direita armamentista. A repetição vira normalidade. A exceção vira rotina. Não se trata de “loucura individual”, nem de “falta de valores”. Tampouco é um problema isolado de segurança. É a convergência explosiva entre cultura armamentista, armas abundantes, sofrimento psíquico, isolamento social, mídia “espetacularizante” e paralisia política. Quando esse sistema complexo emerge, crianças inocentes pagam com a vida.
Comparar com outros países armados sem esse padrão, justamente, desmonta a ideia de a “arma em si” explicar tudo. Há países com alta taxa de armas por habitante sem apresentarem massacres escolares recorrentes. Isso indica o fenômeno ser institucional, cultural e sistêmico, não meramente técnico.
Os contrastes mais elucidativos são os seguintes. No caso dos EUA e da Suíça, ambos cidadãos podem ser armados, mas os resultados são opostos.No caso do país europeu, com população tendo ultrapassado nove milhões de pessoas em 2025, há alta posse de armas, como fosse uma espécie de “milícia cidadã”, mas as armas são vinculadas ao serviço militar, com registro rigoroso. Arma não é símbolo de ressentimento individual, mas de dever cívico.
Lá há forte coesão social, baixa desigualdade e um Estado funcional. Praticamente, há inexistência de massacres escolares.
Acontece ao contrário nos Estados Unidos, onde arma, para a população próxima de 349 milhões pessoas, atua como expressão de identidade individual e autodefesa privada. A indústria de armamentos explora um grande mercado privado com publicidade agressiva e lobby político. Junto com a fragmentação social, competição extrema e desigualdade, os mass shootings são recorrentes.
3.
Esses “tiroteios em massa” referem-se a incidentes de violência armada onde múltiplas vítimas, geralmente, pelo menos três ou quatro pessoas, excluindo o atirador, são baleadas ou mortas em um curto período. Ocorrem em locais públicos, sem motivação relacionada a crimes organizados ou terrorismo.
Logo, a diferença-chave não é a quantidade de armas, mas o regime social, simbólico e institucional no qual elas circulam. Comparando EUA e Canadá, com cultura próxima, os resultados são muito distintos. No Canadá, armas são permitidas, mas com licenciamento rigoroso, treinamento obrigatório, armazenamento fiscalizado e saúde mental de 41,5 milhões de habitantes integrada ao sistema público. Ocorre menor espetacularização da violência com casos raros e isolados de ataques em escolas.
Nos Estados Unidos, a regulação encontra-se fragmentada por estados (unidades federativas), armas de guerra são legalizadas para civis e a saúde mental é mercantilizada. Pior, a violência é convertida em espetáculo midiático. A diferença-chave é o Canadá tratar armas como risco público regulado. Os EUA as tratam como mercadorias de direito absoluto de acesso por qualquer consumidor.
Entre os EUA e o Japão, o contraste é quase didático. Nesse país asiático, com 124 milhões de habitantes, quase não há nenhuma arma de fogo. Violência escolar existe, mas assume formas não letais por causa do forte controle social informal, cultura de vergonha pública e mediação institucional. Há isolamento social grave, mas sem massacres armados como expressão de ressentimento.
Nos Estados Unidos, há o mesmo isolamento social, mas qualquer indivíduo tem acesso imediato a armas letais. Logo, uma crise psíquica vira massacre em minutos. Lição central é o sofrimento psíquico ser universal, mas a letalidade em massa não é.
A diferença entre os EUA e Israel é outro caso comumente mal interpretado. Em Israel, a população anda armada em contexto de segurança nacional. Armas estão ligadas a função nacional específica, não a consumo privado. Há controle rigoroso de quem porta, quando e por quê. Massacres escolares são praticamente inexistentes. Sua diferença-chave está em ver a arma como instrumento funcional e temporário, não como extensão permanente do ego.
Os países sem massacres recorrentes combinam regulação estatal forte, controle simbólico do uso da força, menor desigualdade social, sistemas de saúde mental integrados e ausência de culto à violência como identidade. Os EUA reúnem o oposto: armas como mercadoria e fetiche, individualismo radical, isolamento social profundo, mídia sensacionalista e bloqueio político estrutural
Os tiroteios em escolas, lá, não são acidentes, nem simples desvios individuais. São um produto emergente de um arranjo social específico. Onde a violência é privatizada, mercantilizada e desregulada, ela inevitavelmente encontra alvos simbólicos máximos — e nada é mais simbólico (e indefeso) diante a morte de crianças inocentes em uma escola.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

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