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Teoria crítica ou devaneio crítico?

Do A Terra É Redonda, 06 de março 2026
Por ELEUTÉRIO F. S. PRADO*


Julie Mehretu, Detalhe de Black City, 2007

Considerações sobre o livro “And, Phenomenology of the end” de Franco “Bifo” Berardi

Do capitalismo ao semiocapitalismo

Começo com uma questão: o intrigante e desafiante livro And, Phenomenology of the end de Franco “Bifo” Berardi vem a ser uma adição à crítica da economia política ou um deslizamento numa outra forma de crítica? Nesse folhoso, esse teórico das mídias e do movimento operaísta italiano busca compreender de novo inovador a transformação do capitalismo que veio a existir após a crise dos anos 1970, com o advento da financeirização e do neoliberalismo.

Segundo ele, nessa década e nas seguintes, o capitalismo deixa de ser industrial para se tornar pós-industrial, ou melhor, deixa de ser capitalismo para se tornar semiocapitalismo – caracterização esta que requer certamente explicação. Para alcançá-la, note-se de início como resume o seu projeto de pesquisa: “Quero investigar aqui” – diz – “a genealogia do semiocapitalismo, e particularmente do capitalismo financeirizado, do ponto de vista da sensibilidade linguística”. Sendo assim, pode-se ver de imediato que ele não pensa mais no interior da exposição dialética que constitui O capital, mas fora dela.

Todavia, como ele pensa, então? “O que me interessa” – diz em continuação – “é fazer uma analogia entre a revolução simbolista na esfera da linguagem e a revolução da finança em rede introduzida na esfera da economia”. Como está indicado no trecho acima transcrito, o seu projeto está precisamente no campo da genealogia nietzscheana que examina as formas sociais aparentes com o intuito de investigar as estruturas de poder que as sustentam.

Mas por que essa investigação se vale de uma analogia com o mencionado movimento literário que irrompeu do final do século XIX? Ora, na financeirização da economia capitalista, ocorrida após o fim dos trinta anos gloriosos, teria ocorrido algo – segundo ele – que também esteve presente na revolução literária do simbolismo. Veja-se como ele mesmo apresenta o ponto focal de sua analogia: “o simbolismo foi um experimento de emancipação do signo poético da referenciação e a atribuição de um poder evocativo ao signo”.

Se o signo, é preciso lembrar, está estruturado pela triangulação entre significante, significado e referência, o simbolismo rompe com a referência para permitir o voo livre da significação. Ora, assim como o signo abandonara a referência no movimento simbolista, o mesmo ocorrera com o signo econômico por excelência – e com as suas formas derivadas – na “revolução” da financeirização.

E isso foi possível porque “o dinheiro e a linguagem tem algo em comum: eles não são nada e movem tudo. Não são mais do que símbolos, convenções, flatus vocis, mas têm o poder de persuadir as pessoas a agirem, a trabalharem e a transformarem as coisas físicas”.[i] Ora, mesmo se podem abandonar as suas referências, seriam os signos em geral meras convenções ou seriam, diferentemente, estruturações formadas na práxis histórica, as quais podem, inclusive, serem reificadas? Como tais, elas não precisam ser examinadas na práxis histórica própria em que surgem? Raciocinar por analogia nessa matéria não seria já, em consequência, uma arbitrariedade?

A sua tese é que a decisão do governo de Richard Nixon, em 1971, de desvincular o dólar do ouro, tornando o dinheiro “made in USA” puramente fiduciário, deu início à transformação do capitalismo em semiocapitalismo. Assim como o simbolismo libertara o signo do referente, permitindo voos de significação, a mera decisão do governante norte-americano emancipara supostamente – segundo Franco Berardi – o dólar a sua referência no ouro, possibilitando uma inflação rastejante, mas permanente.

Na verdade, essa alusão está incorreta: Richard Nixon fez o que não podia mais deixar de ser feito. Eis que a desreferenciação do dólar ao ouro ocorrera antes; sobreviera com o fim do padrão ouro ocorrida na fase depressiva do capitalismo que se desenvolveu, aos solavancos, nas e entre as duas guerras mundiais. Como se sabe, o padrão ouro foi instituído para constranger o gasto público, mas fora quebrado sempre que esse gasto precisou se expandir para financiar a guerra ou enfrentar a depressão.

Veja-se também que o chamado padrão dólar-ouro, um mero remendo criado pelo Acordo de Bretton Woods em 1944, não foi capaz de impedir o governo americano de emitir dólares durante a sua vigência além do montante que garantiria a paridade fixada com o ouro, visando financiar os seus gastos militares exorbitantes. Para não perder as barras de ouro compromissadas e que estavam sendo reclamadas, o governo americano decidiu, em 1971, que não entregaria mais a “relíquia bárbara” (Keynes) aos possuidores do “papel pintado” em que está escrito “In god we trust”.

Do semiocapitalismo ao capitalismo

Antes de entrar no mérito da tese de Franco “Bifo” Berardi, talvez valha a pena mencionar que Friedrich Nietzsche talvez tenha vencido Karl Marx nas concepções de certas esquerdas e em sua crítica do capitalismo.[ii] Como “não há texto, só interpretação”[iii] na interpretação do filósofo do niilismo, não há mais inibição opinativa e mesmo teórica: “tudo vale” no “vale tudo” da vida contemporânea dominada em que pontificam os “influenciadores”. Mas, como aquele que aqui escreve é um velho rabugento, ele precisa voltar para o discurso rigoroso e bem referenciado, ou seja, para a apresentação dialética de O capital.

Como se sabe, Marx termina as três primeiras seções do primeiro capítulo de O capital, mostrando que o dinheiro é equivalente geral no mundo das mercadorias, formas por excelência da riqueza no modo de produção capitalista. Eis que ele fora derivado aí da simples forma mercadoria, mostrada como unidade contraditória de valor de uso e valor, por meio de vários passos lógicos. No terceiro capítulo, apresenta então o dinheiro como medida de valores, ou seja, como expressão da redução objetiva do trabalho concreto ao trabalho abstrato, operação de mensuração que é feita objetivamente pelo próprio processo de produção e circulação de mercadorias.

Após expô-lo em sequência como meio de circulação, Marx mostra depois que o dinheiro ganha então a “figura de moeda”. Ora, a forma moeda enseja já a dissociação entre o seu conteúdo nominal de valor e o seu conteúdo real. E se isso ocorre já na própria circulação da moeda de ouro, completa-se no advento da moeda papel. Nesse momento Marx diz que “a moeda papel é o signo de ouro ou signo de dinheiro”.[iv]

A moeda papel, que não porta valor, encontra-se assim referenciada ao dinheiro-mercadoria (ouro, mas podendo ser prata ou mesmo outra mercadoria) que o porta. Marx não dá esse passo explicitamente, mas é evidente que já aí se encontra a possibilidade real da forma puramente fiduciária de moeda – ou fictícia, como ousei chamá-la uma vez.[v]

Pois, a própria multiplicidade do uso da moeda de curso forçado na infinitude da circulação mercantil tem a capacidade de desreferenciar o signo monetário, de fazer com que o meio circulante deixe de ser signo de valor. É por isso que a moeda papel apenas pode manter a referência ao ouro por uma decisão de Estado que cria um vínculo externo entre essas duas formas monetárias. Historicamente, esse vínculo externo, entre outros, deu origem ao chamado “padrão ouro”.

Algo semelhante não ocorre no curso forçado de certas palavras na infinitude do uso cotidiano da linguagem? Por exemplo, a palavra “trem”, que tem um uso inflacionado na linguagem dos habitantes de Minas Gerais, não perdeu por causa disso a sua referência primordial? Franco Berardi parece concordar com essa observação: “no léxico da teoria econômica, inflação significa que uma grande quantidade de moeda compra cada vez menos bens; similarmente, uma inflação semiótica implica que mais e mais signos compram menos e menos significado”. E isso, segundo ele, é “provocado pela proliferação da estimulação semiótica”.[vi]

Logo, não parece haver razão que não seja meramente ilusória para julgar que o capitalismo se transformou em semiocapitalismo. Pensar assim só ajuda a escapar do rigor para cair no devaneio segundo o qual valor é criado agora no âmbito do capital de finança e não, como sempre, no âmbito do capital industrial. Outrossim, pode-se encontrar a prova dessa fantasia no próprio escrito aqui examinado: “o capitalismo financial” – diz “Bifo” numa passagem crucial – “está baseado na dinâmica da moeda e na autonomização da produção de valor, libertada que foi da manipulação física das coisas e da interação física das pessoas”.[vii]

Mas o devaneio continua: “a economia territorializada da economia burguesa estava baseada (…) no ferro e no aço, mas hoje a economia está baseada na desterritorializada máquina da produção semiótica: as mercadorias que circulam no espaço da economia são signos, imagens, projeções e expectativas. Não mais uma ferramenta para representar o processo econômico, a linguagem se torna a principal fonte da acumulação, constantemente desterritorializando o campo da troca”.[viii]

Para ir bem longe no sonho crítico: Jean Baudrillard havia dito, referindo-se à economia industrial, que “o princípio de realidade correspondia a certo estágio da lei do valor” e que, aludindo agora à economia pós-industrial, “todo o sistema foi lançado na indeterminação; a realidade foi absorvida na hiper-realidade do código e da simulação”. Diante dessa enormidade, Franco Berardi completa com certa euforia: “o sistema como um todo foi lançado na indeterminação, pois a correspondência entre signo e referente, simulação e evento, valor e tempo de trabalho não está mais garantida”.[ix]

Ora, como tentei mostrar no passado,[x] a desmedida do valor – a dificuldade para reduzir trabalho concreto cada vez mais complexo e mais intelectual a trabalho abstrato – não implica o abandono da medida do valor no capitalismo. Eis que ela é inerente à regulação interna do funcionamento desse modo de produção mesmo se ele foi financeirizado nas últimas décadas. Para ajudar a compreender esse ponto, dou aqui uma dica: não se abandona, por exemplo, o metro para medir o perímetro um território mesmo quando ele é muito ou mesmo extremamente recortado.

Viajando pelo território do “Bifo”

O livro de Franco Berardi é um território onde medra um certo irracionalismo pós-moderno. Contudo, há aí também um grande esforço para compreender o mundo da vida da sociedade contemporânea, a qual não deixa de ter o seu interesse e mesmo o seu encanto. Pode parecer estranho para aqueles que leram esta nota até este ponto, mas o eterno estudante que aqui escreve achou coisa interessante na fenomenologia do fim.

Em artigo anterior, postado no site A Terra é Redonda argumentou-se, a partir de Karl Marx e Ruy Fausto, que o capitalismo deixou a fase da grande indústria para entrar na fase da pós-grande indústria, rebatizada agora por Fernando Haddad como superindústria. Se na primeira, a organização da produção se fazia predominantemente sob a lógica da subsunção real e material do trabalho ao capital, agora ela passara a ocorrer em geral por meio da lógica da subsunção real e intelectual.

Ora, a sua fenomenologia da sensibilidade, que se empenha na tarefa de desvelar as disposições psicoculturais da sociedade contemporânea, talvez ajude a compreender essas logicas, em particular a última delas. Pois, grande parte de seu escrito descreve o meio social permeado pela cultura digital em que se vive atualmente e que ele chama de “infosfera”.

Como bem se sabe, trata-se de um meio dotado de complexidade algorítmica crescente que, sob a ordem do capital, subsumi e confronta a capacidade cognitiva e afetiva – sentimental e emocional – do ser humano em geral.

Fazendo uso do modelo do rizoma de Gilles Deleuze e Felix Guattari, apresentado no livro Mil platôs, ele quer compreender as anomalias do processo cultural contemporâneo, que transcorre por meio da interação entre os seres humanos dotados da linguagem natural e uma infosfera marcada pela predominância crescente das linguagem computacionais. Nessa perspectiva, ele se refere à transição de um mundo da vida articulado de modo conjuntivo para um mundo da vida articulado crescentemente de modo conectivo.

A linguagem natural é assim caracterizada pela concatenação conjuntiva. Falar, por exemplo, é uma ação criativa que junta signos singularmente, dentro de determinados padrões pouco rígidos e que podem ser subvertidos, para transmitir mensagens que portam significação cognitiva e afetiva. Ora, esse tipo de mensagem não pode ser condensada num programa, numa linguagem computacional, cuja característica é conectar externamente símbolos vazios de significado.

Nessa perspectiva, eis o projeto de Franco “Bifo” Berardi: “Argumento que a transição em curso na infosfera, de alfabética para digital, está marcada por uma mudança do modelo cognitivo, de concatenação conjuntiva para concatenação conectiva (…), a qual transforma os padrões cognitivos, os comportamento sociais e as expectativas psicológicas. (…) A investigação permitirá descrever a composição, os conflitos e as coevoluções de diferentes regimes psicoculturais, conforme eles se aproximam, colidem e entremeiam no processo da globalização”.[xi]

Segundo ele, essa mudança tem implicações antropológicas preocupantes. A primeira delas aponta para a dissociação entre a compreensão e a empatia. Essa última, que consiste na capacidade da pessoa em vibrar em conjunto com outra ou outras em termos de sentimentos, emoções e cognição, é a fonte das conjunções. Se mesmo uma competência linguística rígida pode machucar a capacidade de empatia, a necessidade de se adaptar às concatenações conectivas pode destrui-la irremediavelmente. Ora, a ausência de empatia se encontra entre as causas da anomia e, em particular, do comportamento destrutivo e violento.

Outra se alevanta quando se percebe que a construção linguística conjuntiva está na base da formação comunitária do corpo social. Ora, se os “algoritmos se tornam cruciais na formação do corpo social, a construção do poder social muda do nível político da formação da consciência e da vontade para um nível técnico dos automatismos inseridos dentro do processo linguístico da troca simbólica, da formação psíquica e do corpo orgânico”.[xii]

Se a indústria cultural do pós-guerra uniformiza e subordina as pessoas à produção pela produção de mercadorias, a indústria tecno-digital de grande escala faz o mesmo, conduzindo esse processo ao paroxismo.

Em consequência, a mudança em curso pode borrar a distinção posta pela modernidade entre indivíduo e sociedade, pode obliterar a esfera da ação pessoal na qual o “sujeito” pode se tornar sujeito efetivo, pode criar coletivos que degeneram em massa, uma possibilidade que os movimentos totalitários bem conhecidos do passado tentaram realizar.

Segundo Franco Berardi, se a psique dos indivíduos for penetrada e concatenada por meio de interfaces linguísticas computacionais, o comportamento coletivo pode assumir um caráter de enxame. “Se o humano é o animal que transforma o mundo exterior transformando o seu próprio mundo interior, o efeito enxame, como resultado de transformação técnica do ambiente, só pode produzir um comportamento mental subjugado”.[xiii]

Franco Berardi, para chegar a essas conclusões, adota o método fenomenológico que evita, segundo ele, “a identificação totalitária do pensamento com o mundo”. Como o método dialético está fundado na ideia de totalidade, de que há uma ordem no mundo que a ser abarcada pelo pensamento, ele seria já sempre totalitário.

Ora, ele não se pergunta se esse método não seria adequado para apreender um sistema em devir que é ele próprio, implícita ou explicitamente, totalitário (ainda que seja uma totalidade falsa como disse Theodor Adorno) e se, ao renegá-lo, não está precisamente favorecendo a sua prosperidade ad infinitum. Ademais, esse raciocínio fenomenológico que liga totalidade com totalitarismo seria, afinal, conjuntivo ou conectivo?

*Eleutério F. S. Prado é professor titular e sênior do Departamento de Economia da USP. Autor, entre outros livros, de Complexidade e práxis (Plêiade).

Referência



Franco “Bifo” Beraldi. And – Phenomenology of the end – Sensibility and connective mutation. New York, Semiotext(e), 2015, 352 págs.

Notas

[i] Todas as citações anteriores se encontram na página 156 do livro And – Phenomenology of the end.

[ii] A culpa cabe evidentemente ao marxismo autoritário, em especial estalinista, que matou muito da criatividade no âmbito dessa tradição de pensamento crítico. São inúmeros os críticos marxistas que não resistem a atacar o outro com quem divergem por meio de argumentos ad personam.

[iii] Devo essa referência a um capítulo de Semiocapitalismo, excelente livro de Paulo Ghiraldelli, em que a tese de Franco “Bifo” Berardi é apresentada – e comentada – de modo bem acessível. Ghiraldelli, Paulo – Semiocapitalismo – A era da desferencialização. Cefa Editorial, 2022.

[iv] Ver Marx, Karl – O capital – Crítica da Economia Política. Livro I. Abril Cultural, 1973, p. 109.

[v] Prado, Eleutério F. S. – Da controvérsia brasileira sobre o dinheiro mundial inconversível. In: Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política, vol. 35, junho de 2013, p. 129-152.

[vi] Op. cit., p. 117.

[vii] Idem, p. 157.

[viii] Idem, p. 118.

[ix] Idem, p. 129.

[x] Prado, Eleutério F. S. – Valor desmedido e desregramento do mundo. In: Desmedida do valor – crítica da pós-grande indústria. Xamã, 2005, p. 95-116.

[xi] Op. cit., p. 11.

[xii] Idem, p. 26.

[xiii] Idem, p. 29.

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