Por Observatorio de Geopolitica:Gisele Agnelli
No centro desse rearranjo está uma figura que encarna essa transição com clareza quase didática, o genro de Trump: Jared Kushner.
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Trump e Kushner - Reprodução |
No centro desse rearranjo está uma figura que encarna essa transição com clareza quase didática, o genro de Trump: Jared Kushner. Ex-assessor sênior da Casa Branca, hoje operador de um fundo de investimentos financiado por capital soberano do Golfo, Kushner ocupa uma posição inédita na arquitetura do poder contemporâneo… simultaneamente agente político informal e gestor de ativos profundamente enraizados na geopolítica regional. Após deixar o governo, fundou a Affinity Partners, que recebeu cerca de US$ 2 bilhões do fundo soberano saudita, uma decisão aprovada diretamente por Mohammed bin Salman, apesar de objeções técnicas internas. Não se tratava de uma decisão puramente financeira. O ativo adquirido não era apenas retorno esperado: era a monetização do acesso.
O que Kushner vende não é expertise em private equity. É proximidade com o núcleo decisório do poder americano. Durante o primeiro mandato de Donald Trump, foi peça-chave na construção de uma nova arquitetura regional: os Acordos de Abraão, que redesenharam o equilíbrio de forças no Oriente Médio ao aproximar Israel e monarquias do Golfo em torno de um eixo comum: a contenção do Irã.
Ao sair do governo, essa rede relacional não se dissolve. Ela é convertida em estrutura de investimento. A Affinity Partners passa, então, a operar como algo mais do que um fundo: uma extensão econômica privatizada de uma estratégia geopolítica. Seu portfólio — conectando Estados Unidos, Israel e Golfo — espelha com precisão os eixos da reorganização política construída anteriormente.
Não se trata mais de “porta giratória” entre público e privado. Trata-se de algo mais sofisticado: a criação de um mercado paralelo de política externa, onde capital soberano estrangeiro compra não apenas influência difusa, mas previsibilidade estratégica.
Esse movimento se torna ainda mais significativo quando observado em conjunto com a expansão da Trump Organization na mesma geografia. Projetos imobiliários na Arábia Saudita, empreendimentos nos Emirados Árabes Unidos, resorts em Omã… todos baseados em um modelo de baixo risco e alta captura de valor simbólico via licenciamento de marca.
O ponto crítico não é a existência desses negócios em si, aliás, sempre existiram em algum grau…..mas sua sincronia com fluxos de capital e decisões estratégicas. O fenômeno pode ser descrito com uma privatização informal da política externa. Não se trata de corrupção clássica. Não há, necessariamente, ilegalidade explícita. O que ocorre é mais sutil….. com a implosão das relações internacionais e das regras e direito internacional conhecido desde o final da segunda-guerra, estamos observando em tempo real as “novas regras do jogo” impostas por Trump 2, o rebelde: uma erosão funcional das instituições, em que redes pessoais, capital financeiro e decisões estratégicas passam a operar em um mesmo circuito.
Nesse contexto, a accountability institucional torna-se difusa. Atores com enorme influência geopolítica operam fora dos mecanismos tradicionais de controle … Jared Kuchner é “conselheiro informal”, assim como Elon Musk…. apontados sem sabatina no Senado estadunidense, sem supervisão legislativa, protegidos por relações pessoais e pelo chamado executive privilegie (cargo de confiança). O resultado é um descompasso crescente entre poder e responsabilidade.
Essa dinâmica não se limita ao núcleo familiar presidencial. Ela se expande para um ecossistema mais amplo de operadores híbridos: figuras que transitam entre o mercado e a diplomacia…Steve Witkoff é emblemático desse padrão. Empresário do setor imobiliário de alto padrão e fundador do Witkoff Group, sua trajetória está profundamente ancorada em fluxos de capital internacional… incluindo, estruturalmente, investidores do Golfo. Trata-se de um segmento cuja lógica depende menos de mercados anônimos e mais de relações pessoais, confiança e acesso privilegiado a grandes pools de capital soberano. Ao ser mobilizado como interlocutor político no Oriente Médio, Witkoff opera em uma região onde os mesmos atores que influenciam decisões estratégicas são, simultaneamente, investidores potenciais ou efetivos no tipo de ativo que ele desenvolve.
Quando agentes econômicos cuja atividade depende de capital estrangeiro passam a atuar como mediadores informais de política externa, cria-se uma zona cinzenta onde diplomacia e interesse privado deixam de ser esferas separadas. Witkoff, nesse sentido, é evidência de um padrão emergente. A política externa deixa de ser conduzida exclusivamente por diplomatas, militares ou burocratas de carreira e passa a incorporar operadores de mercado cuja principal vantagem comparativa não é expertise institucional, mas capital relacional, networking.
O resultado é uma transformação profunda: não apenas a privatização da diplomacia, mas a financeirização do próprio acesso ao poder geopolítico.
Do ponto de vista das monarquias do Golfo, essa lógica é perfeitamente racional. Investir bilhões em veículos associados ao entorno presidencial americano é uma forma eficiente de reduzir incertezas e garantir alinhamento estratégico, sobretudo em um ambiente de rivalidade com o Irã. Em termos frios: US$ 2 bilhões (que Jared negociou inicialmente) é um preço modesto para aumentar a previsibilidade da política externa da principal potência militar do mundo. Segundo o NY Times, Trump e o Príncipe Saudita se comunicam semanalmente e a recomendação do príncipe é “continue bombardeando o Irã”, enquanto simultaneamente, Jared Kushner pede mais alguns bilhões para seu fundo privado…
A guerra, nesse contexto, deixa de ser apenas instrumento de Estado. Ela pode passar a operar como externalidade funcional de um sistema onde instabilidade geopolítica, realinhamento estratégico e fluxos de capital estão interligados.
A questão central, portanto, não é se há conflito de interesses. Isso é evidente. A questão é mais radical: ainda faz sentido falar em interesse nacional quando os próprios mecanismos que o definem estão inseridos em circuitos de rentabilidade privada transnacional?
Quando essa fronteira se dissolve, não estamos apenas diante de um problema ético. Estamos diante de uma transformação de regime…. já que, no limite, a política externa deixa de ser uma função do Estado. E passa a ser um ativo.
Talvez este não seja apenas um choque de petróleo…. nem apenas mais uma guerra no Oriente Médio. É um teste de maturidade do sistema internacional, e, sobretudo, da erosão silenciosa das democracias.
Gisele Agnelli – Socióloga com especialização em ciências políticas, graduada pela PUC-SP, pós-graduada em Marketing e em Gestão da Informação, ambos pela ESPM. Fundadora do #VoteNelas. Atualmente reside nos EUA e faz parte do Movimento de Lideranças Femininas do Partido Democrata, Hoosier Women Forward.
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