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Quando o rabo abana o cão

Do Brasil 247, 01 de março 2026
Por Francisco Teixeira



Os ataques de Israel e EUA ao Irã revelam como interesses eleitorais e agendas internas podem dominar a política externa


Teerã, Irã, após ataques dos EUA e de Israel em 28 de fevereiro de 2026 (Foto: Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS)

Os ataques desta madrugada, 28 de fevereiro, longamente planejados, de Israel e Estados Unidos, contra o Irã, marcam uma profunda ruptura na ordem mundial.

A decisão de atacar foi tomada em meio a um processo internacional, mediado por países como Turquia, Oman e Emirados, de negociações entre as partes. Tais ataques remetem claramente ao ataque do Império do Japão contra Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941, quando negociações estavam em curso. Os Estados Unidos denominaram este dia como o "Dia da Infâmia". Hoje vivemos o mesmo desprezo dos fascistas históricos pelas regras e normas do Direito Internacional.

A motivação em Washington e Tel Aviv são duplamente condenáveis: de um lado, mentem ao atribuir capacidade nuclear iminente ao Irã. Trata-se de uma mentira , contra uma realidade factual, usada para efeito doméstico, que ignora as ofertas de acordo existentes da parte de Teerã e o fato de que foi Trump que rompeu o acordo de limitação do enriquecimento de urânio com Irã. Atacar enquanto negocia demonstra má fé, e tornam os Estados Unidos um Estado pouco confiável e com o qual negociar é extremamente perigoso. A outra justificativa, a mudança de regime - um velho hábito de Washington na América Latina - não só é ilegal, como ainda ineficaz e muito pouco efetivo, como nos mostram os ataques contra o Iraque, Afeganistão, Síria, Líbia. Além de destruição e mortes, as tentativas de mudança de regime resultaram no advento de regimes ainda mais instáveis após a intervenção do Ocidente. Da mesma forma, os argumentos sobre defesa dos direitos humanos soam risíveis. Não só tais direitos são pisoteados pelos seus pretensos defensores, em Gaza ou na infame "Alligator Alcatraz Camp" do ICE, como, ainda, são os dirigentes de ambas as nações atacantes, Trump e Netaniahu, contumazes violentadores de direitos básicos, incluindo de crianças, seja em Gaza, seja em mansões na Flórida.

Todos argumentos de justificativa dos ataques são, portanto, inaceitáveis e falsos. Na verdade, trata-se de um notável caso de "rabo que abana o cachorro": as eleições gerais em Israel e nos EUA, entre outubro e novembro de 2026, ao lado do fato que Trump e Netaniahu são alvo de investigações criminais, iluminam, bem mais, as motivações dos ataques. São ambos líderes acusados de obstruir a justiça, de corrupção e, mesmo, no caso de Trump, de pedofilia e tráfico sexual. Claro, seria uma excelente oportunidade para controlar o mercado mundial de petróleo, fechar o abastecimento de energia da China, isolar a Rússia e de paralisar os BRICs. Mas, não podemos deixar de sublinhar o primado da política interna, neste caso, sobre a política externa. É o rabo que abana o cão em serviço de agendas autoritárias e corruptas de ambos os políticos. A superioridade da força criou uma hubris, a arrogância que mata e ao final volta-se contra seu autor, que transformou o campo das relações internacionais em um espaço sem lei.

Francisco Carlos Teixeira da Silva UFRJ

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