Do GGN, 10 de março 2026
Por Vanessa Africani e Ronaldo VieiraÁfrica, AL, Ásia e Oriente Médio foram analisados como unidades estratégicas, tratadas como mercados e fornecedores de commodities
Por décadas, o Sul Global foi julgado quase exclusivamente a partir de indicadores econômicos, fluxos comerciais e disputas geopolíticas. É necessária uma revisão dessa mentalidade. A revisão necessária não parte de pressões externas nem de expectativas impostas pelo Norte global; ela emerge de dentro do próprio Sul global, que hoje reconhece que seus desafios comuns — desigualdade, vulnerabilidade climática, exclusão social e instabilidade econômica — não podem ser enfrentados apenas com métricas macroeconômicas ou acordos tecnocráticos. Por décadas, África, América Latina, Ásia e Oriente Médio foram analisados como unidades estratégicas, tratadas como mercados, fornecedores de commodities ou zonas de influência. É hora dessas regiões se perceberem como sociedades complexas compostas por pessoas com necessidades, saberes e aspirações próprias.
O século XXI exige que os próprios países periféricos revisitem essa lógica e passem a olhar uns para os outros com lentes mais humanas, construindo uma cooperação técnica que valorize dignidade, inclusão e sustentabilidade. A agenda de futuro do Sul global depende menos de cifras e mais da capacidade de seus povos de dialogarem entre si, compartilharem experiências sociais e culturais e formularem soluções que coloquem o ser humano — e não apenas o Estado — no centro das parcerias internacionais. O enfraquecimento das potências tradicionais, conjugado às guerras têm transformado o cenário internacional. Como destaca o cientista político Oliver Stuenkel (2016), o mundo caminha para uma ordem global mais fragmentada e plural, na qual o poder se distribui entre múltiplos atores e regiões. Nesse contexto, o Sul Global deixa de ser apenas objeto da política internacional para se tornar sujeito ativo da construção de novas regras, valores e formas de cooperação.
No entanto, essa transição não é automática nem garantida. A tendência dos países em desenvolvimento em reproduzir a lógica predatória de exploração de recursos e a arrogância de transferência unilateral de tecnologia ameaçam esvaziar o potencial transformador da cooperação Sul-Sul. Sem uma base ética e humanística, o risco é que o Sul Global apenas replique, em nova escala, as desigualdades históricas que marcaram a relação entre Norte e Sul. Talvez a saída seja oferecida pelo Humanismo.
Essa afirmação não é retórica, mas estrutural. O humanismo, entendido como a centralidade da dignidade humana, da justiça social, do respeito às culturas e da valorização das trajetórias históricas dos povos, é o único fundamento capaz de sustentar uma cooperação genuína entre países que compartilham desafios semelhantes: pobreza, desigualdade, vulnerabilidade institucional e dependência tecnológica.
Ao contrário da lógica puramente mercantil, uma abordagem humanística reconhece que desenvolvimento não é apenas crescimento do PIB, mas expansão de capacidades humanas, acesso a direitos, fortalecimento das comunidades e construção de soberania. A cooperação entre países do Sul Global, quando orientada por esse princípio, deixa de ser apenas transacional e passa a ser civilizatória.
Stuenkel (2016) argumenta que a multipolaridade abre espaço para que diferentes modelos de modernidade coexistam. Essa pluralidade pode ser uma oportunidade histórica para o Sul Global formular sua própria narrativa de desenvolvimento, baseada não na imitação do Norte, mas na valorização de suas próprias experiências sociais, culturais e políticas. Nesse sentido, o humanismo não é um adorno moral, mas uma estratégia de poder: ele redefine as prioridades, os critérios de sucesso e os objetivos da cooperação internacional.
Colocar o ser humano no centro da cooperação — ou adotar a ideia de “o homem no centro”, que reconhece a pessoa humana como unidade moral fundamental da política internacional — exige reposicionar prioridades e transformar a própria lógica da relação entre países do Sul global. Essa abordagem pressupõe a prática da “escuta ativa”, entendida como a disposição genuína de ouvir o parceiro, compreender sua realidade concreta e construir, a partir desse diálogo, soluções que promovam o crescimento sustentável de todos os envolvidos. Repensar acordos comerciais passa, assim, a significar avaliar seus efeitos sobre vidas reais, e não apenas sobre indicadores macroeconômicos; considerar impactos ambientais implica reconhecer como comunidades vulneráveis são afetadas de maneira desigual; valorizar o conhecimento local deixa de ser gesto simbólico e se torna reconhecimento de que saberes tradicionais, comunitários e afro‑indígenas são parte essencial das respostas aos desafios contemporâneos. Sob essa ótica, a verdadeira integração entre países do Sul não se dá apenas entre governos e empresas, mas entre sociedades que se escutam, se reconhecem e constroem, juntas, uma cooperação técnica orientada pela dignidade humana, pela inclusão e pela sustentabilidade.
O desafio do Sul Global, portanto, não é apenas ampliar sua presença nos fóruns internacionais, mas redefinir o sentido da própria globalização. Em um mundo marcado por crises simultâneas — climática, econômica, democrática e humanitária —, o humanismo deixa de ser uma opção ideológica para se tornar uma necessidade histórica.
Bibliografia:
Stuenkel, Oliver. (2016). Post-Western World: How Emerging Powers Are Remaking Global Order. Cambridge: Polity Press.
Vanessa Africani, especialista em comunicação e marketing com experiência profissional em promoção de negócios. Atua na promoção com ênfase no continente africano e na promoção de relações bilaterais e comerciais com diversos países do Mercosul, Américas e África.
Ronaldo Vieira, diplomata de carreira, mestre em Relações Internacionais.
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O século XXI exige que os próprios países periféricos revisitem essa lógica e passem a olhar uns para os outros com lentes mais humanas, construindo uma cooperação técnica que valorize dignidade, inclusão e sustentabilidade. A agenda de futuro do Sul global depende menos de cifras e mais da capacidade de seus povos de dialogarem entre si, compartilharem experiências sociais e culturais e formularem soluções que coloquem o ser humano — e não apenas o Estado — no centro das parcerias internacionais. O enfraquecimento das potências tradicionais, conjugado às guerras têm transformado o cenário internacional. Como destaca o cientista político Oliver Stuenkel (2016), o mundo caminha para uma ordem global mais fragmentada e plural, na qual o poder se distribui entre múltiplos atores e regiões. Nesse contexto, o Sul Global deixa de ser apenas objeto da política internacional para se tornar sujeito ativo da construção de novas regras, valores e formas de cooperação.
No entanto, essa transição não é automática nem garantida. A tendência dos países em desenvolvimento em reproduzir a lógica predatória de exploração de recursos e a arrogância de transferência unilateral de tecnologia ameaçam esvaziar o potencial transformador da cooperação Sul-Sul. Sem uma base ética e humanística, o risco é que o Sul Global apenas replique, em nova escala, as desigualdades históricas que marcaram a relação entre Norte e Sul. Talvez a saída seja oferecida pelo Humanismo.
Essa afirmação não é retórica, mas estrutural. O humanismo, entendido como a centralidade da dignidade humana, da justiça social, do respeito às culturas e da valorização das trajetórias históricas dos povos, é o único fundamento capaz de sustentar uma cooperação genuína entre países que compartilham desafios semelhantes: pobreza, desigualdade, vulnerabilidade institucional e dependência tecnológica.
Ao contrário da lógica puramente mercantil, uma abordagem humanística reconhece que desenvolvimento não é apenas crescimento do PIB, mas expansão de capacidades humanas, acesso a direitos, fortalecimento das comunidades e construção de soberania. A cooperação entre países do Sul Global, quando orientada por esse princípio, deixa de ser apenas transacional e passa a ser civilizatória.
Stuenkel (2016) argumenta que a multipolaridade abre espaço para que diferentes modelos de modernidade coexistam. Essa pluralidade pode ser uma oportunidade histórica para o Sul Global formular sua própria narrativa de desenvolvimento, baseada não na imitação do Norte, mas na valorização de suas próprias experiências sociais, culturais e políticas. Nesse sentido, o humanismo não é um adorno moral, mas uma estratégia de poder: ele redefine as prioridades, os critérios de sucesso e os objetivos da cooperação internacional.
Colocar o ser humano no centro da cooperação — ou adotar a ideia de “o homem no centro”, que reconhece a pessoa humana como unidade moral fundamental da política internacional — exige reposicionar prioridades e transformar a própria lógica da relação entre países do Sul global. Essa abordagem pressupõe a prática da “escuta ativa”, entendida como a disposição genuína de ouvir o parceiro, compreender sua realidade concreta e construir, a partir desse diálogo, soluções que promovam o crescimento sustentável de todos os envolvidos. Repensar acordos comerciais passa, assim, a significar avaliar seus efeitos sobre vidas reais, e não apenas sobre indicadores macroeconômicos; considerar impactos ambientais implica reconhecer como comunidades vulneráveis são afetadas de maneira desigual; valorizar o conhecimento local deixa de ser gesto simbólico e se torna reconhecimento de que saberes tradicionais, comunitários e afro‑indígenas são parte essencial das respostas aos desafios contemporâneos. Sob essa ótica, a verdadeira integração entre países do Sul não se dá apenas entre governos e empresas, mas entre sociedades que se escutam, se reconhecem e constroem, juntas, uma cooperação técnica orientada pela dignidade humana, pela inclusão e pela sustentabilidade.
O desafio do Sul Global, portanto, não é apenas ampliar sua presença nos fóruns internacionais, mas redefinir o sentido da própria globalização. Em um mundo marcado por crises simultâneas — climática, econômica, democrática e humanitária —, o humanismo deixa de ser uma opção ideológica para se tornar uma necessidade histórica.
Bibliografia:
Stuenkel, Oliver. (2016). Post-Western World: How Emerging Powers Are Remaking Global Order. Cambridge: Polity Press.
Vanessa Africani, especialista em comunicação e marketing com experiência profissional em promoção de negócios. Atua na promoção com ênfase no continente africano e na promoção de relações bilaterais e comerciais com diversos países do Mercosul, Américas e África.
Ronaldo Vieira, diplomata de carreira, mestre em Relações Internacionais.

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