De Outras Palavras, 25 de março 2026
Por Erik Chiconelli Gomes
Por Erik Chiconelli Gomes
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| Foto de Cezar Xavier |
O sentimento de quem vive do trabalho: entre a estatística e a experiência concreta
Os indicadores de mercado de trabalho costumam ser apresentados sob uma linguagem técnica que, ao traduzir vivencias humanas em percentuais e medias moveis, acaba por ocultar a dimensão mais concreta da relação entre pessoas e trabalho. A nona edição dos Indicadores de Qualidade do Trabalho da Sondagem de Mercado de Trabalho do FGV IBRE, divulgada em 16 de marco de 2026, traz dados que obrigam a uma leitura mais atenta. Segundo o levantamento, 53,6% dos entrevistados afirmam que conseguir trabalho no pais esta difícil ou muito difícil, ao passo que 34,3% projetam que a situação tenderá a piorar nos próximos seis meses. Não se trata, portanto, de um exercício abstrato de projeção macroeconômica, mas de uma percepção enraizada na experiência cotidiana de quem busca emprego, negocia salários e convive com a incerteza.
Essa percepção ganha relevo quando se considera que o trimestre móvel findo em fevereiro de 2026 registrou o maior índice de pessimismo desde outubro de 2025. A passagem de 2025 para 2026 marca uma inflexão na tendência de melhora que vinha sendo observada: o aquecimento econômico do ano anterior, com níveis recordes de ocupação, não se traduziu em confiança duradoura entre os trabalhadores. A desconexão entre a realidade agregada dos indicadores e a vivencia singular de quem depende do mercado de trabalho para sobreviver revela um fenômeno que a mera análise quantitativa não alcança. É preciso compreender as condições materiais e culturais que moldam o sentimento do trabalhador, a economia moral que orienta suas expectativas e frustrações.
Rodolpho Tobler, economista da FGV IBRE, afirmou que os primeiros resultados de 2026 indicam continuidade do aquecimento visto no ano passado, mas com uma tendência maior de estabilidade. Tobler apontou ainda que, dado o cenário macroeconômico desafiador e a desaceleração da economia, e esperado que o número de vagas abertas seja inferior ao que foi observado ao longo de 2025. Essa leitura, embora tecnicamente correta, não dá conta de um problema anterior: a qualidade das vagas ofertadas e as condições efetivas de acesso a elas. O sociólogo Ricardo Antunes, em O privilegio da servidão (2018), já demonstrava como a expansão da ocupação no Brasil contemporâneo se acompanhada da multiplicação de formas precárias, intermitentes e uberizadas de trabalho, que desproveem os trabalhadores de estabilidade, proteção social e perspectiva de futuro.
Marcio Pochmann, economista e pesquisador histórico do mercado de trabalho brasileiro, argumentou em diversas obras que o desemprego no Brasil possui características estruturais que não podem ser reduzidas a oscilações cíclicas. A heterogeneidade do mercado de trabalho, com seu alto grau de informalidade e desproteção, e um problema que antecede a conjuntura e que se agrava em períodos de retração econômica. Ruy Braga (2017), por sua vez, ao analisar o preparado brasileiro, demonstrou que a inserção subalterna de amplos segmentos da população trabalhadora gera uma experiência compartilhada de insegurança que não aparece nos indicadores convencionais de desemprego.
A nota técnica do IPEA intitulada Crescimento sem formalização do trabalho: déficit de capacidade fiscalizatória e necessidade de recomposição da burocracia especializada (Pateo; Lobo, 2025) traz um dado revelador: enquanto o desemprego atingiu mínimas históricas em 2024 (6,6%), a taxa de informalidade alcançou 31,77%, o maior percentual da série. Ou seja, a redução do desemprego não se converteu em ampliação do emprego formal. O número de auditores fiscais do trabalho caiu 34,1% entre 2012 e 2024, enquanto os trabalhadores assalariados cresceram 11,4%. Esse descolamento entre ocupação e formalização exige que se pergunte: emprego para quem, em quais condições, com quais direitos?
A percepção de 32,7% dos entrevistados pelo FGV IBRE de que o mercado tende a permanecer estável, e não a crescer, carrega consigo uma leitura prosaica, mas profundamente significativa: a estabilidade, nesse contexto, não é sinônimo de segurança, mas de acomodação a uma precariedade percebida como normal. Graziela Ansiliero e Marcelo Abi-Ramia Caetano, pesquisadores do IPEA, já haviam identificado essa naturalização da insegurança entre trabalhadores de baixa renda, que ajustam suas expectativas para baixo diante de sinais macroeconômicos adversos. A sazonalidade dos dados, ressaltada pelo próprio FGV IBRE pela ausência de ajuste sazonal nas series, reforça a cautela na interpretação, mas não invalida a tendência detectada.
O Boletim Mercado de Trabalho n. 80 do IPEA (novembro de 2025) registrou que a taxa de ocupação atingiu 58,8% no segundo trimestre de 2025, o maior nível da série histórica, com a população ocupada alcançando cerca de 100,2 milhões de pessoas. Esse patamar recorde coexiste com a percepção negativa captada pela Sondagem da FGV IBRE, e a coexistência não é paradoxal: ela expressa o fato de que a quantidade de ocupados não equivale a qualidade do trabalho. Uma parcela significativa dessa ocupação e formada por trabalhadores por conta própria, intermitentes, plataformizados e informais, cujas condições não lhes garantem acesso a direitos trabalhistas, previdência social ou remuneração digna.
Marcelo Perroni, em estudo publicado na revista Estudos Avançados, denominado Precariedade ocupacional: uma questão de gênero e raça (2016), demonstrou que a maioria das ocupações precárias no Brasil e exercida por negros e mulheres, e que os efeitos de crises econômicas sobre o mercado de trabalho penalizam esses segmentos de maneira desproporcional. A Sondagem do FGV IBRE não desagrega seus dados por raça e gênero, o que constitui uma lacuna analítica que impede a identificação de quem, concretamente, experimenta a dificuldade de acesso ao trabalho como impossibilidade real.
Em resumo, a transição do otimismo para a cautela entre 2025 e 2026 não e apenas uma oscilação conjuntural. Ela reflete a experiência acumulada de trabalhadores que, mesmo em períodos de aquecimento, enfrentam barreiras estruturais de acesso, permanência e qualidade no emprego. A tabela a seguir sintetiza os principais contrastes entre os indicadores agregados e as condições efetivas de trabalho no Brasil recente.
Tabela 1. Indicadores agregados vs. condições efetivas de trabalho no Brasil (2024-2026)
| Indicador / Dimensão | Dado agregado | Condição efetiva |
| Taxa de desemprego (2024) | 6,6% (mínima histórica) | Informalidade de 31,77%, a maior da serie |
| População ocupada (2o tri. 2025) | 100,2 milhões (recorde) | Parcela expressiva sem carteira, por conta própria ou intermitente |
| Percepção de dificuldade (FGV IBRE, fev./2026) | 53,6% consideram difícil ou muito difícil conseguir trabalho | Mercado aquecido não se traduz em acesso percebido |
| Expectativa futura (FGV IBRE, fev./2026) | 34,3% projetam piora | Maior pessimismo desde outubro de 2025 |
| Auditores fiscais do trabalho | Queda de 34,1% entre 2012 e 2024 | Chance de fiscalização por estabelecimento caiu de 11,3% para 3,8% |
| Prioridade dos trabalhadores | 32,7% citam estabilidade como prioridade | Estabilidade como conformismo, não como segurança |
A questão em perspectiva comparada: como outras economias periféricas enfrentam o mesmo dilema
O descompasso entre indicadores macroeconômicos favoráveis e a percepção negativa dos trabalhadores não é uma exclusividade brasileira. Economias periféricas e semiperiféricas com estruturas produtivas heterogêneas, mercados de trabalho segmentados e histórias de industrialização tardia compartilham dilemas semelhantes. A comparação com Colômbia, México, África do Sul e Turquia permite identificar padrões comuns e especificidades nacionais que iluminam o caso brasileiro.
Na Colômbia, Ham, Maldonado e Guzman-Gutierrez (2021), em estudo publicado no IZA Journal of Labor Policy, documentaram que os jovens colombianos enfrentam taxas de desemprego sistematicamente superiores aos dos adultos, com forte participação em ocupações informais e não assalariadas. As desigualdades de gênero no mercado de trabalho colombiano são pronunciadas, com a taxa de desemprego feminino juvenil entre as mais altas da América Latina. Os autores observam que, apesar de melhorias recentes, a inserção produtiva dos jovens permanece precária e lenta, com políticas ativas de mercado de trabalho ainda incipientes.
O México, por sua vez, apresenta uma taxa de informalidade que ultrapassa 55% da população ocupada, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A economia mexicana, apesar de taxas de desemprego relativamente baixas (em torno de 2,5% a 3%), mascara uma realidade de subemprego, baixa remuneração e ausência de proteção social para a maioria dos trabalhadores. O contraste entre desemprego baixo e precariedade elevada reproduz, em escala ampliada, o mesmo fenômeno identificado pela Sondagem do FGV IBRE no Brasil.
Na África do Sul, o desemprego juvenil atingiu níveis críticos, ultrapassando 60% entre jovens de 15 a 24 anos segundo o Statistics South África (2025). A economia sul-africana combina crescimento lento, desigualdade racial historicamente enraizada e exclusão territorial que impede o acesso ao mercado formal de trabalho. A herança do apartheid continua moldando as oportunidades de emprego, com trabalhadores negros concentrados em ocupações de menor remuneração e proteção. Shin, Kalleberg e Hewison (2023), em artigo publicado no Sociology Compass, analisaram como o trabalho precário assumiu formas heterogêneas nos países do Sul Global, com impactos desproporcionais sobre mulheres, jovens, minorias raciais e migrantes.
A Turquia, economia emergente com histórico de industrialização acelerada e posterior desindustrialização parcial, registra taxa de desemprego juvenil em torno de 17% (TURKSTAT, 2025), com forte incidência de informalidade nas regiões rurais e do sudeste do pais. A participação feminina no mercado de trabalho turco permanece entre as mais baixas do grupo de economias de renda média-alta, refletindo barreiras culturais e institucionais de acesso. O caso turco reafirma a tese de que a mera contabilização de postos de trabalho não revela a qualidade da inserção produtiva nem a experiência vivida dos trabalhadores.
O que esses cenários revelam e que a precariedade do trabalho nos países periféricos não é um desvio, mas uma característica estrutural do modo como essas economias se inserem na divisão internacional do trabalho. A desindustrialização, a reprimarização e a financeirização, como apontou o dossiê Precarização do trabalho, nova informalidade e território (Cadernos Metrópole, 2024), combinam-se para produzir mercados de trabalho nos quais o crescimento da ocupação convive com a ampliação da vulnerabilidade. A tabela a seguir sintetiza a comparação.
Tabela 2. Comparativo do mercado de trabalho em economias periféricas selecionadas
| Indicador | Brasil | Colômbia | México | África do Sul |
| Taxa de desemprego geral | 6,6% (2024) | 10,2% (2024) | 2,7% (2024) | 32,9% (2024) |
| Desemprego juvenil | Aprox. 18% | Aprox. 22% | Aprox. 7,5% | Acima de 60% |
| Taxa de informalidade | 31,77% | Aprox. 58% | Acima de 55% | Aprox. 34% |
| Desigualdade racial no trabalho | Negros: 65,1% dos desocupados (DIEESE) | Afrocolombianos sobre-representados no informal | Indígenas em ocupações precárias | Herança do apartheid no mercado de trabalho |
| Desigualdade de gênero | Mulheres negras: 10,1% desemprego (2o tri. 2024) | Gap de gênero entre os maiores da A.L. | Baixa participação feminina formal | Desemprego feminino superior ao masculino |
Os dados desagregados por raça, gênero e faixa etária produzidos pelo DIEESE e pelo IBGE conferem espessura social ao que a Sondagem do FGV IBRE apresenta de forma agregada. De acordo com o Boletim Especial do DIEESE de novembro de 2024, o rendimento médio dos trabalhadores negros e 40% inferior ao dos não negros. Mesmo entre trabalhadores com ensino superior completo, a diferença salarial alcança 32%. No segundo trimestre de 2024, a taxa de desemprego das mulheres negras era de 10,1%, mais que o dobro da taxa dos homens não negros (4,6%). Esses números não são anomalias estatísticas: são expressões de uma estrutura de desigualdade que se reproduz no interior do mercado de trabalho, independentemente dos ciclos econômicos. Segundo o levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego com base na RAIS, 66% dos trabalhadores resgatados em condições análogas a escravidão entre 2002 e 2024 eram negros.
A juventude brasileira e outro grupo que experimenta de forma aguda a precariedade do mercado. O Boletim Emprego em Pauta n. 31 do DIEESE (outubro de 2025) registrou que, no segundo trimestre de 2025, cerca de 8,9 milhões de jovens entre 14 e 29 anos estavam sem trabalho e fora da escola, o que representava 17,9% da população nessa faixa etária. Embora o número tenha recuado em relação a anos anteriores, permanece elevado e revela uma exclusão que combina dimensões educacionais e laborais. O IPEA, no Boletim Mercado de Trabalho n. 78 (outubro de 2024), apontou que 40% dos jovens ocupados se encontram na informalidade, percentual muito superior à média geral. Mont’Alvao e Ribeiro (2020), em artigo publicado nos Annals of the American Academy of Political and Social Science, demonstraram que durante a recessão brasileira de 2014-2017, as diferenças de desemprego entre jovens brancos e negros se ampliaram, assim como entre jovens com e sem escolaridade superior.
Quando se sobrepõe a analise racial a analise geracional, o quadro se torna ainda mais grave. A taxa de desemprego entre jovens negros e consistentemente superior à dos jovens brancos, e a inserção das jovens negras no mercado de trabalho e marcada pela concentração em ocupações domesticas, de alimentação e limpeza, com remunerações inferiores e baixa perspectiva de mobilidade. Os dados recentes do Ministério do Trabalho indicam que apenas 2,1% dos trabalhadores negros, homens ou mulheres, ocupam cargos de direção ou gerencia, enquanto entre homens não negros essa proporção e de 5,5%. Essa configuração não se explica por diferenças individuais de qualificação, mas por mecanismos sociais de triagem, discriminação e reprodução da desigualdade que operam de forma silenciosa e continua no interior das relações de trabalho. A percepção negativa captada pela Sondagem do FGV IBRE para fevereiro de 2026 não se distribui uniformemente pela população: ela atinge com mais forca aqueles que já ocupam as posições mais vulneráveis da estrutura ocupacional.
O que os dados revelam, em conjunto, e que a transição do otimismo para a cautela entre 2025 e 2026 não pode ser compreendida como uma mera reversão cíclica. Ela traduz o acumulo de experiências de frustração, exclusão e instabilidade que atravessam a vida de milhões de trabalhadores brasileiros. A melhora dos indicadores agregados durante 2025, com recordes de ocupação e quedas nominais de desemprego, não alterou a percepção de quem enfrenta diariamente um mercado de trabalho fragmentado, racialmente estratificado. A estabilidade apontada por 32,7% dos entrevistados não reflete confiança, mas resignação. A projeção de piora feita por 34,3% não é pessimismo infundado, mas leitura realista de quem observa os sinais da desaceleração econômica a partir de um lugar social especifico. O desafio colocado para 2026 não e apenas gerar vagas, mas transformar as condições em que o trabalho e ofertado, remunerado e protegido. Sem enfrentamento da informalidade crescente, sem recomposição da capacidade fiscalizatória do Estado, sem políticas efetivas de combate à discriminação racial e de gênero no emprego, a tendência e que a cautela se converta em desalento. E o desalento, ao contrário da cautela, não aparece nas pesquisas de expectativa: ele simplesmente retira as pessoas da condição de quem busca trabalho, tornando-as invisíveis para os próprios indicadores que deveriam medi-las.
Referencias
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