Por Vijay Prashad; Instituto Tricontinental
O Irã sofreu perdas de infraestrutura e vidas humanas, mas é provável que vença politicamente a guerra contra EUA e Israel.
As guerras raramente se decidem apenas no campo de batalha. As campanhas militares podem destruir cidades e matar grandes contingentes de pessoas, mas os resultados políticos são definidos pela resistência, pela legitimidade e pelas correntes históricas que fluem sob a violência imediata.
Embora a guerra que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impôs ao povo do Irã possa gerar vitórias táticas para Israel e os Estados Unidos, o cenário político já aponta para uma realidade distinta. O Irã sofreu perdas de infraestrutura e vidas humanas, mas é provável que vença politicamente a guerra.
Primeiro aspecto: mudança de regime
O objetivo central da campanha militar dos EUA e de Israel parecia ser a desestabilização ou a mudança de regime. No entanto, as primeiras avaliações dos serviços de inteligência norte-americanos indicam que, apesar dos assassinatos de líderes políticos de alto escalão, o sistema político iraniano não colapsou.
Além disso, apesar do intenso bombardeio, não houve qualquer revolta interna. Pelo contrário, a guerra parece ter fortalecido a República Islâmica e o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC).
A história mostra que, quando uma nação — especialmente uma com forte tradição de orgulho nacional, como o Irã — é atacada por forças externas, as disputas políticas internas tendem a recuar temporariamente, à medida que a questão da soberania se torna central.
Isso indica que nem os Estados Unidos nem Israel dispõem de um objetivo político claro para o desfecho da guerra.
Quando eles vão parar de bombardear? Em 9 de março, Trump afirmou que o Irã “não tem marinha, não tem comunicações, não tem força aérea. Seus mísseis foram reduzidos a poucos remanescentes. Seus drones estão sendo destruídos por todo o país”.
Se o Irã não tem mais capacidade militar, por que não invadir e derrubar o que resta do Estado? Evidentemente, essa possibilidade não está sendo considerada. O objetivo de mudança de regime permanece, na prática, um projeto da antiga oligarquia iraniana no exílio e do governo israelense.
Segundo aspecto: poder assimétrico
Ao longo do genocídio contra o povo palestino, as forças armadas israelenses enfraqueceram o “eixo da resistência” no Líbano e na Síria — incluindo permitir que um ex-dirigente da Al-Qaeda se tornasse presidente da Síria, que então concedeu a Israel direito de sobrevoo para bombardear o Irã.
Israel e os Estados Unidos presumiram que isso significava que o Irã havia perdido essa vantagem estratégica. No entanto, o “eixo de resistência” não é apenas uma aliança militar; ele também está enraizado em uma cultura política.
Ao longo da última década, ao percorrer bairros operários — majoritariamente xiitas — no sul do Líbano e na Síria (incluindo um particularmente marcante na zona rural de Aleppo), observei que essas áreas mantêm forte afinidade cultural com a liderança religiosa e política iraniana.
Esse vínculo insere o Irã em uma disputa política mais ampla contra Israel e os Estados Unidos, o que complica o ambiente estratégico e eleva o custo de uma escalada.
O conflito não é uma simples guerra entre Estados, mas parte de uma disputa mais ampla pelo futuro da Ásia Ocidental, envolvendo diversos grupos políticos e sociais que não estão dispostos a permitir a vitória dos Estados Unidos e de Israel no Irã.
Terceiro aspecto: problemas diplomáticos
A guerra começou com um ataque que matou 165 meninas em uma escola primária. Erika Guevara-Rosas, da Anistia Internacional, afirmou que esse “ataque angustiante a uma escola, com salas de aula cheias de civis, é uma ilustração repugnante do preço catastrófico e inteiramente previsível que os civis estão pagando durante este conflito armado”.
Os ataques destruíram infraestruturas civis essenciais, como hospitais e instalações de energia, e causaram graves impactos na vida cotidiana em todo o Irã.
Como os Estados Unidos e Israel iniciaram o bombardeio justamente quando parecia haver avanços diplomáticos, governos e populações ao redor do mundo passaram a ver mais um exemplo do uso de força militar avassaladora em detrimento da diplomacia.
Essa percepção é relevante, pois a legitimidade global está em transformação, e países como China e Rússia se recusam a isolar o Irã.
Segundo relatos, a Rússia chegou a transportar de avião o novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, para Moscou, onde teria recebido tratamento médico — um sinal das relações duradouras entre os dois países.
Quarto aspecto: geografia estratégica
A capacidade do Irã de fechar o Estreito de Ormuz — por onde passa uma parcela significativa do abastecimento global de petróleo e gás — já provocou impactos em toda a economia mundial.
O petróleo Brent ultrapassou os US$ 100; os custos de transporte marítimo e os seguros contra riscos de guerra dispararam; e fertilizantes que transitam pelo estreito ficaram retidos, com potenciais efeitos severos sobre a agricultura global.
Essa posição geográfica confere ao Irã uma vantagem estratégica que poucos países possuem.
Os Estados Unidos buscam pressionar outros países — militar e diplomaticamente — a forçar a reabertura do estreito, mas poucos demonstram disposição para isso.
A China, por exemplo, iniciou negociações bilaterais com o Irã para garantir a passagem de seus próprios navios e, ao mesmo tempo, defendeu a redução das tensões. Aliados dos EUA na Ásia, como Japão e Coreia do Sul, assim como países europeus, recusaram-se a participar da escalada militar.
Quinto aspecto: limites do poder militar
Israel e os Estados Unidos podem atacar instalações iranianas, mas não podem invadir um país com quase 100 milhões de habitantes, muitos dos quais resistiriam ativamente à ocupação.
Uma invasão terrestre desencadearia uma conflagração regional envolvendo países como Iraque e Iêmen.
As experiências do Iraque (2003) e da Líbia (2011) mostram que é relativamente fácil destruir o núcleo do poder estatal, mas muito mais difícil desmantelar um sistema político sem gerar caos.
A superioridade militar esbarra na realidade política. O poder aéreo pode destruir infraestruturas, mas não pode eliminar uma ideologia nem desmantelar um Estado que mantenha coesão interna.
Sexto aspecto: um futuro nuclear
O ataque de julho de 2025 destruiu as instalações nucleares do Irã. Trump afirmou à época: “Obliteração é uma definição adequada”.
O que não foi destruído, no entanto, foi o estoque de 440 kg de urânio enriquecido — base suficiente para um eventual programa de armas nucleares, caso o Irã decida rever sua estratégia de dissuasão.
A história recente da proliferação nuclear é instrutiva. Após pressões dos Estados Unidos e mudanças no contexto estratégico, a Coreia do Norte abandonou compromissos anteriores e desenvolveu armas nucleares.
As guerras impostas ao Irã em 2025 e 2026 podem produzir efeito semelhante.
Vijay Prashad é um historiador, editor e jornalista indiano. Ele é redator e correspondente-chefe da Globetrotter. É editor da LeftWord Books e diretor do Tricontinental: Instituto de Pesquisa Social. Ele escreveu mais de 20 livros, incluindo The Darker Nations e The Poorer Nations. Seus livros mais recentes são On Cuba: Reflections on 70 Years of Revolution and Struggle (com Noam Chomsky), Struggle Makes Us Human: Learning from Movements for Socialism e (também com Noam Chomsky) The Withdrawal: Iraq, Libya, Afghanistan, and the Fragility of US Power. Chelwa e Prashad publicarão How the International Monetary Fund is Suffocating Africa ainda este ano pela Inkani Books.
As guerras raramente se decidem apenas no campo de batalha. As campanhas militares podem destruir cidades e matar grandes contingentes de pessoas, mas os resultados políticos são definidos pela resistência, pela legitimidade e pelas correntes históricas que fluem sob a violência imediata.
Embora a guerra que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impôs ao povo do Irã possa gerar vitórias táticas para Israel e os Estados Unidos, o cenário político já aponta para uma realidade distinta. O Irã sofreu perdas de infraestrutura e vidas humanas, mas é provável que vença politicamente a guerra.
Primeiro aspecto: mudança de regime
O objetivo central da campanha militar dos EUA e de Israel parecia ser a desestabilização ou a mudança de regime. No entanto, as primeiras avaliações dos serviços de inteligência norte-americanos indicam que, apesar dos assassinatos de líderes políticos de alto escalão, o sistema político iraniano não colapsou.
Além disso, apesar do intenso bombardeio, não houve qualquer revolta interna. Pelo contrário, a guerra parece ter fortalecido a República Islâmica e o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC).
A história mostra que, quando uma nação — especialmente uma com forte tradição de orgulho nacional, como o Irã — é atacada por forças externas, as disputas políticas internas tendem a recuar temporariamente, à medida que a questão da soberania se torna central.
Isso indica que nem os Estados Unidos nem Israel dispõem de um objetivo político claro para o desfecho da guerra.
Quando eles vão parar de bombardear? Em 9 de março, Trump afirmou que o Irã “não tem marinha, não tem comunicações, não tem força aérea. Seus mísseis foram reduzidos a poucos remanescentes. Seus drones estão sendo destruídos por todo o país”.
Se o Irã não tem mais capacidade militar, por que não invadir e derrubar o que resta do Estado? Evidentemente, essa possibilidade não está sendo considerada. O objetivo de mudança de regime permanece, na prática, um projeto da antiga oligarquia iraniana no exílio e do governo israelense.
Segundo aspecto: poder assimétrico
Ao longo do genocídio contra o povo palestino, as forças armadas israelenses enfraqueceram o “eixo da resistência” no Líbano e na Síria — incluindo permitir que um ex-dirigente da Al-Qaeda se tornasse presidente da Síria, que então concedeu a Israel direito de sobrevoo para bombardear o Irã.
Israel e os Estados Unidos presumiram que isso significava que o Irã havia perdido essa vantagem estratégica. No entanto, o “eixo de resistência” não é apenas uma aliança militar; ele também está enraizado em uma cultura política.
Ao longo da última década, ao percorrer bairros operários — majoritariamente xiitas — no sul do Líbano e na Síria (incluindo um particularmente marcante na zona rural de Aleppo), observei que essas áreas mantêm forte afinidade cultural com a liderança religiosa e política iraniana.
Esse vínculo insere o Irã em uma disputa política mais ampla contra Israel e os Estados Unidos, o que complica o ambiente estratégico e eleva o custo de uma escalada.
O conflito não é uma simples guerra entre Estados, mas parte de uma disputa mais ampla pelo futuro da Ásia Ocidental, envolvendo diversos grupos políticos e sociais que não estão dispostos a permitir a vitória dos Estados Unidos e de Israel no Irã.
Terceiro aspecto: problemas diplomáticos
A guerra começou com um ataque que matou 165 meninas em uma escola primária. Erika Guevara-Rosas, da Anistia Internacional, afirmou que esse “ataque angustiante a uma escola, com salas de aula cheias de civis, é uma ilustração repugnante do preço catastrófico e inteiramente previsível que os civis estão pagando durante este conflito armado”.
Os ataques destruíram infraestruturas civis essenciais, como hospitais e instalações de energia, e causaram graves impactos na vida cotidiana em todo o Irã.
Como os Estados Unidos e Israel iniciaram o bombardeio justamente quando parecia haver avanços diplomáticos, governos e populações ao redor do mundo passaram a ver mais um exemplo do uso de força militar avassaladora em detrimento da diplomacia.
Essa percepção é relevante, pois a legitimidade global está em transformação, e países como China e Rússia se recusam a isolar o Irã.
Segundo relatos, a Rússia chegou a transportar de avião o novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, para Moscou, onde teria recebido tratamento médico — um sinal das relações duradouras entre os dois países.
Quarto aspecto: geografia estratégica
A capacidade do Irã de fechar o Estreito de Ormuz — por onde passa uma parcela significativa do abastecimento global de petróleo e gás — já provocou impactos em toda a economia mundial.
O petróleo Brent ultrapassou os US$ 100; os custos de transporte marítimo e os seguros contra riscos de guerra dispararam; e fertilizantes que transitam pelo estreito ficaram retidos, com potenciais efeitos severos sobre a agricultura global.
Essa posição geográfica confere ao Irã uma vantagem estratégica que poucos países possuem.
Os Estados Unidos buscam pressionar outros países — militar e diplomaticamente — a forçar a reabertura do estreito, mas poucos demonstram disposição para isso.
A China, por exemplo, iniciou negociações bilaterais com o Irã para garantir a passagem de seus próprios navios e, ao mesmo tempo, defendeu a redução das tensões. Aliados dos EUA na Ásia, como Japão e Coreia do Sul, assim como países europeus, recusaram-se a participar da escalada militar.
Quinto aspecto: limites do poder militar
Israel e os Estados Unidos podem atacar instalações iranianas, mas não podem invadir um país com quase 100 milhões de habitantes, muitos dos quais resistiriam ativamente à ocupação.
Uma invasão terrestre desencadearia uma conflagração regional envolvendo países como Iraque e Iêmen.
As experiências do Iraque (2003) e da Líbia (2011) mostram que é relativamente fácil destruir o núcleo do poder estatal, mas muito mais difícil desmantelar um sistema político sem gerar caos.
A superioridade militar esbarra na realidade política. O poder aéreo pode destruir infraestruturas, mas não pode eliminar uma ideologia nem desmantelar um Estado que mantenha coesão interna.
Sexto aspecto: um futuro nuclear
O ataque de julho de 2025 destruiu as instalações nucleares do Irã. Trump afirmou à época: “Obliteração é uma definição adequada”.
O que não foi destruído, no entanto, foi o estoque de 440 kg de urânio enriquecido — base suficiente para um eventual programa de armas nucleares, caso o Irã decida rever sua estratégia de dissuasão.
A história recente da proliferação nuclear é instrutiva. Após pressões dos Estados Unidos e mudanças no contexto estratégico, a Coreia do Norte abandonou compromissos anteriores e desenvolveu armas nucleares.
As guerras impostas ao Irã em 2025 e 2026 podem produzir efeito semelhante.
Vijay Prashad é um historiador, editor e jornalista indiano. Ele é redator e correspondente-chefe da Globetrotter. É editor da LeftWord Books e diretor do Tricontinental: Instituto de Pesquisa Social. Ele escreveu mais de 20 livros, incluindo The Darker Nations e The Poorer Nations. Seus livros mais recentes são On Cuba: Reflections on 70 Years of Revolution and Struggle (com Noam Chomsky), Struggle Makes Us Human: Learning from Movements for Socialism e (também com Noam Chomsky) The Withdrawal: Iraq, Libya, Afghanistan, and the Fragility of US Power. Chelwa e Prashad publicarão How the International Monetary Fund is Suffocating Africa ainda este ano pela Inkani Books.

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