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O Irã vencerá a guerra: seis aspectos a considerar

Do GGN, 24 de março 2026
Por Vijay Prashad; Instituto Tricontinental



O Irã sofreu perdas de infraestrutura e vidas humanas, mas é provável que vença politicamente a guerra contra EUA e Israel.

As guerras raramente se decidem apenas no campo de batalha. As campanhas militares podem destruir cidades e matar grandes contingentes de pessoas, mas os resultados políticos são definidos pela resistência, pela legitimidade e pelas correntes históricas que fluem sob a violência imediata.

Embora a guerra que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impôs ao povo do Irã possa gerar vitórias táticas para Israel e os Estados Unidos, o cenário político já aponta para uma realidade distinta. O Irã sofreu perdas de infraestrutura e vidas humanas, mas é provável que vença politicamente a guerra.

Primeiro aspecto: mudança de regime

O objetivo central da campanha militar dos EUA e de Israel parecia ser a desestabilização ou a mudança de regime. No entanto, as primeiras avaliações dos serviços de inteligência norte-americanos indicam que, apesar dos assassinatos de líderes políticos de alto escalão, o sistema político iraniano não colapsou.

Além disso, apesar do intenso bombardeio, não houve qualquer revolta interna. Pelo contrário, a guerra parece ter fortalecido a República Islâmica e o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC).

A história mostra que, quando uma nação — especialmente uma com forte tradição de orgulho nacional, como o Irã — é atacada por forças externas, as disputas políticas internas tendem a recuar temporariamente, à medida que a questão da soberania se torna central.

Isso indica que nem os Estados Unidos nem Israel dispõem de um objetivo político claro para o desfecho da guerra.

Quando eles vão parar de bombardear? Em 9 de março, Trump afirmou que o Irã “não tem marinha, não tem comunicações, não tem força aérea. Seus mísseis foram reduzidos a poucos remanescentes. Seus drones estão sendo destruídos por todo o país”.

Se o Irã não tem mais capacidade militar, por que não invadir e derrubar o que resta do Estado? Evidentemente, essa possibilidade não está sendo considerada. O objetivo de mudança de regime permanece, na prática, um projeto da antiga oligarquia iraniana no exílio e do governo israelense.

Segundo aspecto: poder assimétrico

Ao longo do genocídio contra o povo palestino, as forças armadas israelenses enfraqueceram o “eixo da resistência” no Líbano e na Síria — incluindo permitir que um ex-dirigente da Al-Qaeda se tornasse presidente da Síria, que então concedeu a Israel direito de sobrevoo para bombardear o Irã.

Israel e os Estados Unidos presumiram que isso significava que o Irã havia perdido essa vantagem estratégica. No entanto, o “eixo de resistência” não é apenas uma aliança militar; ele também está enraizado em uma cultura política.

Ao longo da última década, ao percorrer bairros operários — majoritariamente xiitas — no sul do Líbano e na Síria (incluindo um particularmente marcante na zona rural de Aleppo), observei que essas áreas mantêm forte afinidade cultural com a liderança religiosa e política iraniana.

Esse vínculo insere o Irã em uma disputa política mais ampla contra Israel e os Estados Unidos, o que complica o ambiente estratégico e eleva o custo de uma escalada.

O conflito não é uma simples guerra entre Estados, mas parte de uma disputa mais ampla pelo futuro da Ásia Ocidental, envolvendo diversos grupos políticos e sociais que não estão dispostos a permitir a vitória dos Estados Unidos e de Israel no Irã.

Terceiro aspecto: problemas diplomáticos

A guerra começou com um ataque que matou 165 meninas em uma escola primária. Erika Guevara-Rosas, da Anistia Internacional, afirmou que esse “ataque angustiante a uma escola, com salas de aula cheias de civis, é uma ilustração repugnante do preço catastrófico e inteiramente previsível que os civis estão pagando durante este conflito armado”.

Os ataques destruíram infraestruturas civis essenciais, como hospitais e instalações de energia, e causaram graves impactos na vida cotidiana em todo o Irã.

Como os Estados Unidos e Israel iniciaram o bombardeio justamente quando parecia haver avanços diplomáticos, governos e populações ao redor do mundo passaram a ver mais um exemplo do uso de força militar avassaladora em detrimento da diplomacia.

Essa percepção é relevante, pois a legitimidade global está em transformação, e países como China e Rússia se recusam a isolar o Irã.

Segundo relatos, a Rússia chegou a transportar de avião o novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, para Moscou, onde teria recebido tratamento médico — um sinal das relações duradouras entre os dois países.

Quarto aspecto: geografia estratégica

A capacidade do Irã de fechar o Estreito de Ormuz — por onde passa uma parcela significativa do abastecimento global de petróleo e gás — já provocou impactos em toda a economia mundial.

O petróleo Brent ultrapassou os US$ 100; os custos de transporte marítimo e os seguros contra riscos de guerra dispararam; e fertilizantes que transitam pelo estreito ficaram retidos, com potenciais efeitos severos sobre a agricultura global.

Essa posição geográfica confere ao Irã uma vantagem estratégica que poucos países possuem.

Os Estados Unidos buscam pressionar outros países — militar e diplomaticamente — a forçar a reabertura do estreito, mas poucos demonstram disposição para isso.

A China, por exemplo, iniciou negociações bilaterais com o Irã para garantir a passagem de seus próprios navios e, ao mesmo tempo, defendeu a redução das tensões. Aliados dos EUA na Ásia, como Japão e Coreia do Sul, assim como países europeus, recusaram-se a participar da escalada militar.

Quinto aspecto: limites do poder militar

Israel e os Estados Unidos podem atacar instalações iranianas, mas não podem invadir um país com quase 100 milhões de habitantes, muitos dos quais resistiriam ativamente à ocupação.

Uma invasão terrestre desencadearia uma conflagração regional envolvendo países como Iraque e Iêmen.

As experiências do Iraque (2003) e da Líbia (2011) mostram que é relativamente fácil destruir o núcleo do poder estatal, mas muito mais difícil desmantelar um sistema político sem gerar caos.

A superioridade militar esbarra na realidade política. O poder aéreo pode destruir infraestruturas, mas não pode eliminar uma ideologia nem desmantelar um Estado que mantenha coesão interna.

Sexto aspecto: um futuro nuclear

O ataque de julho de 2025 destruiu as instalações nucleares do Irã. Trump afirmou à época: “Obliteração é uma definição adequada”.


O que não foi destruído, no entanto, foi o estoque de 440 kg de urânio enriquecido — base suficiente para um eventual programa de armas nucleares, caso o Irã decida rever sua estratégia de dissuasão.

A história recente da proliferação nuclear é instrutiva. Após pressões dos Estados Unidos e mudanças no contexto estratégico, a Coreia do Norte abandonou compromissos anteriores e desenvolveu armas nucleares.

As guerras impostas ao Irã em 2025 e 2026 podem produzir efeito semelhante.

Vijay Prashad é um historiador, editor e jornalista indiano. Ele é redator e correspondente-chefe da Globetrotter. É editor da LeftWord Books e diretor do Tricontinental: Instituto de Pesquisa Social. Ele escreveu mais de 20 livros, incluindo The Darker Nations e The Poorer Nations. Seus livros mais recentes são On Cuba: Reflections on 70 Years of Revolution and Struggle (com Noam Chomsky), Struggle Makes Us Human: Learning from Movements for Socialism e (também com Noam Chomsky) The Withdrawal: Iraq, Libya, Afghanistan, and the Fragility of US Power. Chelwa e Prashad publicarão How the International Monetary Fund is Suffocating Africa ainda este ano pela Inkani Books.

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