De Outras Palavras, 25 de março 2026
Em 1978, enquanto o mundo ocidental ainda debatia os rumos de um feminismo majoritariamente branco e europeu, a antropóloga senegalesa Awa Thiam foi além. Em vez de falar sobre as mulheres negras, ela decidiu falar com elas e, mais importante, deixou que falassem.

O resultado é Com a palavra, as pretas, obra fundadora do feminismo negro francófono que chega agora ao público brasileiro pela Edições Sesc São Paulo, com prefácios da psicóloga Mônica Mendes Gonçalves e da feminista francesa Benoîte Groult.
Outras Palavras e Edições Sesc São Paulo irão sortear um exemplar de Com a palavra, as pretas, de Awa Thiam, entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 4/6, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!

1ª publicação de La parole aux négresses
Awa Thiam é uma antropóloga, escritora, política e feminista senegalesa. Em La Parole aux négresses (título original) denuncia abertamente a poligamia, o dote e a mutilação genital, expondo para o debate público as mazelas às quais milhares de mulheres africanas estão submetidas.
Na primeira parte do livro, a antropóloga conversa com mulheres negras de diferentes países e realidades, transformando seu livro em um documento vivo de experiências.
Por meio de entrevistas, emergem relatos sobre o corpo, a sexualidade, o casamento, a maternidade e a fé – mas também sobre a dor, a violência e a resistência cotidiana.
É ali, nas palavras dessas mulheres, que o leitor encontra a matéria-prima de tudo o que virá a seguir.
Na segunda parte, Awa Thiam assume a voz analítica para dissecar o que chama de “tripla opressão” da mulher negra: gênero, classe e raça. Contudo, não o faz por meio de um exercício teórico distante.
A autora ancora sua reflexão em problemas concretos e específicos que afligem milhões de mulheres africanas, como a mutilação genital praticada em nome da tradição; o analfabetismo que limita horizontes; a gravidez precoce que interrompe sonhos; a poligamia e o casamento forçado como instrumentos de controle; e o peso da religião na manutenção de estruturas patriarcais.
Thiam não julga de fora nem recorre a um olhar ocidentalizante, sua análise parte de dentro, construída a partir das próprias narrativas que colheu.
É na terceira parte, porém, que o livro atinge seu ponto mais contundente, questionando abertamente o feminismo ocidental e lançando a pergunta “esse feminismo dá conta das demandas das mulheres africanas?”. Sua resposta é clara: não.
Para Thiam, as africanas precisam construir seu próprio caminho de emancipação, com reivindicações que partam de suas realidades específicas, não de agendas importadas.
Isso não significa rejeitar solidariedades, mas sim afirmar que a luta precisa ter rosto, voz e cor local. Além disso, a autora exige preparação, organização e um discurso independente.
A edição brasileira ganha camadas extras de sentido com o prefácio de Mônica Mendes Gonçalves, que ajuda a situar a obra no contexto das lutas contemporâneas do feminismo negro no país.
A luta de Thiam não se limita às trincheiras do campo das palavras. Na década de 2010, a escritora atuou como Deputada na Assemblée Nationale du Sénégal (Assembleia Nacional do Senegal) e Presidente da Commission de la Santé, de la Population, des Affaires Sociales et de la Solidarité Nationale (Comissão de Saúde, População e Assuntos Sociais).
Além disso, serviu como Diretora do Centre National d’Assistance et de Formation de la Femme (CNAFF – Centro Nacional de Assistência e Formação de Mulheres), orgão vinculado ao Ministère de la Famille et das Solidarités. Em 1995, foi co-fundadora da Alliance pour une Nouvelle Citoyenneté (ANC – Aliança para uma Nova Cidadania); organização em Dakar que visa promover a ideia de que a mulher não deve ser apenas um sujeito passivo da tradição, mas uma cidadã com plenos direitos políticos e civis – a visão de “Nova Cidadania” proposta pela organização influenciou diretamente debates sobre a Lei da Paridade no Senegal e a criminalização de práticas como a mutilação genital feminina.
Para quem deseja compreender o feminismo para além dos limites eurocêntricos Com a palavra, as pretas é leitura obrigatória. O que Thiam nos ensina é que a luta por emancipação tem tantas faces quantas são as mulheres que a protagonizam.
Logo abaixo, disponibilizamos um trecho no qual a autora aponta as necessidades prementes que distinguem o feminismo africano do ocidental. Boa leitura!
Parte III
Feminismo e revolução
Enquanto as mulheres dos países industrializados concentram seus esforços, entre outras coisas, na busca e na criação de um discurso tipicamente feminino, a África negra e suas filhas estão na fase de busca de sua dignidade, de reconhecimento de sua especificidade como seres humanos. Essa especificidade sempre lhes foi negada pelos brancos colonialistas ou neocolonialistas e por seus machos negros. Basta uma olhada rápida na história para se dar conta disso. Como era a África nos séculos XV e XVI? O terreno de onde se extraía essa mercadoria humana, o “ouro negro” da época: os escravos, espalhados pela América e pelas Antilhas.
Não se trata de modo algum de dizer: “Irmãs pretas, tenham cuidado! A luta das mulheres dos países industrializados não é a nossa”, mas simplesmente de lembrar, embora algumas estejam conscientes disso, que a nossa luta, Pretas, nem sempre se situa no mesmo nível daquela das mulheres europeias. As nossas reivindicações primordiais não são as mesmas.
Na África negra, grassam a poligamia institucionalizada, as práticas de mutilação sexual, os casamentos forçados, os noivados de crianças… É verdade, por outro lado, que as mulheres negras têm que lutar contra os mesmos flagelos que suas irmãs europeias. Trata-se, no entanto, de distinguir dois níveis da exploração e da opressão das mulheres:
• aquele em que a exploração e a opressão são sofridas sem serem compreendidas pelas vítimas: é o caso de muitas negro-africanas, tradicionalistas ou não;
• aquele em que a exploração e a opressão são sofridas, parcialmente compreendidas ou totalmente teorizadas — e às vezes despontam — sobre movimentos de libertação das mulheres, como é o caso nos Estados Unidos e na Europa.
Mas um esclarecimento é necessário.
As feministas europeias muitas vezes compararam a opressão e a exploração das mulheres às dos negros nos Estados Unidos ou na África negra. Assim, na mensagem enviada por Kate Millett aos organizadores da manifestação Dez Horas contra o Estupro, lê-se: “O estupro é para as mulheres o que o linchamento é para os negros”. Como se houvesse uma identificação — mulheres/negros (como seres oprimidos) e estupro/linchamento. Isso é um erro.
Comparemos coisas comparáveis. Uma igualdade termo a termo entre mulheres e pessoas negras não poderia se justificar. É possível ser do sexo feminino e da raça negra. Se o estupro é para as mulheres o que o linchamento é para as pessoas negras, então o que dizer do estupro de mulheres negras por homens negros? Para dissipar qualquer ambiguidade na frase de Millett, é necessário especificar que se trata [do estupro] de mulheres brancas, o que ela não faz. Nesse caso, a identificação antes sublinhada permanece, mas dificilmente se justifica. Onde — em tudo isso — está situada a mulher negra? As feministas europeias que são complacentes com essa equivalência errada — o problema ou a situação das mulheres (brancas, é preciso ouvir, mesmo que elas não o digam) = a situação dos negros — parecem não saber disso. Assim como aqueles que dizem que “as mulheres são os negros da humanidade”. O que ou quem são as negras, as pretas?
Alguém poderia dizer que as pretas nem existiam. Na verdade, elas são negadas aqui pelas mesmas pessoas que afirmam lutar pela libertação de todas as mulheres.
O que emerge dessas entrevistas é o estado de opressão, de exploração e de frustração em que vivem as mulheres negro-africanas. Com exceção de uma minoria pertencente à burguesia, no caso alguns intelectuais, a mulher negro-africana, seja ela moradora da cidade ou do campo, seja casada, divorciada ou solteira, vive em condições deploráveis.
Durante a colonização, a mulher negro-africana sofreu uma dupla dominação, uma dupla escravidão. Ela não estava sujeita apenas ao colonizador, mas também ao colonizado, que era o homem negro-africano. Após o período colonial, ela se viu confrontada com problemas cada vez maiores: as consequências da colonização (a descolonização ocorreu apenas na aparência), a tendência à aculturação… Ela está sempre sob o jugo do homem: pai, irmão ou marido; desejada, é objeto da satisfação sexual do macho e faz parte de seu dispositivo de conveniência. Em resumo, ela é uma esposa recatada e do lar.
Outras Palavras e Edições Sesc São Paulo irão sortear um exemplar de Com a palavra, as pretas, de Awa Thiam, entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 4/6, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!
Voltemos ao período colonial. O status real da mulher negro-africana não era idêntico ao da afro-americana da América escravista ou do Caribe? Assim como a afro-americana, a mulher negro-africana se viu forçada a obedecer aos caprichos sexuais de seu senhor branco: o colono que, tendo se apropriado de suas terras, tornou-se onipotente sobre ela.
Não pensamos aqui no problema da libertação das mulheres negras em termos de um pré-requisito ou de uma prioridade. E isso na medida em que dois aspectos das lutas negro-africanas interferem:
• as lutas pela independência econômica e política efetiva;
• as lutas pelo reconhecimento e respeito dos direitos e deveres dos homens e mulheres, para além de tudo, das raças.
Um não deve excluir o outro. O melhor seria poder combinar as duas ao mesmo tempo. “Isso parece impossível”, poderiam responder os sexistas e os racistas. A isso responderemos: estamos na África com tudo o que isso implica em termos de conotações (situação colonial ou neocolonial, patriarcado, feudalidades…). Na Argélia, na Guiné-Bissau e em muitos outros Estados que acreditavam genuinamente que estavam libertando seus países e suas populações por meio de uma guerra de libertação nacional — e, portanto, também as mulheres —, pode-se ver que, para estas últimas, a libertação simplesmente não aconteceu. Na Argélia, a mulher ainda usa o véu e fica confinada às tarefas tradicionais de serva, reprodutora e guardiã do lar. Além disso, tem um papel não desprezível na preservação dos costumes, das tradições (inadaptáveis ou inadequadas à nossa época).
Certamente, a mulher deve adquirir sua independência total. Para isso, terá que lutar para arrancá-la da sociedade. Terá que aprender a desmistificar essa dependência em relação aos homens, essa alienação que ela já viveu ou que ainda vive agora.
Elas precisam travar não apenas uma luta de classes, mas também uma luta de gênero. A norte-americana Shulamith Firestone entendeu bem essa multiplicidade de lutas das mulheres, declarando que: “Para desenraizar efetivamente todos os sistemas de classe, precisaremos de uma revolução sexual muito mais ampla do que a revolução socialista (que seria apenas uma parte dela)”.
Em parceria com a Edições Sesc São Paulo, Outras Palavras irá sortear um exemplar de Com a palavra, as pretas, de Awa Thiam, entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 4/6, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!nosso Apoia.se para ter acesso!
Outras Palavras disponibiliza sorteios, descontos e gratuidades para os leitores que contribuem todos os meses com a continuidade de seu projeto de jornalismo de profundidade e pós-capitalismo.
Outros Quinhentos é a plataforma que reúne a redação e os leitores para o envio das contrapartidas, divulgadas todas as semanas. Participe!
NÃO SABE O QUE É O OUTROS QUINHENTOS?
• Desde 2013, Outras Palavras é o primeiro site brasileiro sustentado essencialmente por seus leitores. O nome do nosso programa de financiamento coletivo é Outros Quinhentos. Hoje, ele está sediado aqui: apoia.se/outraspalavras/
• O Outros Quinhentos funciona assim: disponibilizamos espaço em nosso site para parceiros que compartilham conosco aquilo que produzem – esses produtos e serviços são oferecidos, logo em seguida, para nossos apoiadores. São sorteios, descontos e gratuidades em livros, cursos, revistas, espetáculos culturais e cestas agroecológicas! Convidamos você a fazer parte dessa rede.
• Se interessou? Clica aqui!
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos
Raíssa Araújo Pacheco
Redatora do Outros Quinhentos. Formada em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Assessorou movimentos sociais e entidades envolvidas na pauta de moradia e direito à cidade.

Nenhum comentário:
Postar um comentário