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O broche que virou o mundo com o Sul no centro da nova imaginação global

Do GGN, 16 de março 2026
Por Marcio Pochmann

A atriz brasileira Alice Carvalho surgiu no tapete vermelho usando um broche singular, pois continha um mapa do mundo invertido.

Alice Carvalho no Oscar - Reprodução

Na abertura da 98a edição do Oscar realizada em Los Angeles, um detalhe aparentemente discreto capturou a atenção de quem observa o mundo para além do espetáculo. A atriz brasileira Alice Carvalho surgiu no tapete vermelho usando um broche singular, pois continha um mapa do mundo invertido. A América do Sul no topo e o nome do continente escrito em língua de povo originário.

O objeto era pequeno, mas sua simbologia imensa. Em poucos centímetros de metal e desenho, condensava séculos de história, disputas de poder e transformações na forma como o planeta é imaginado. Durante mais de quatro séculos, a cartografia dominante ensinou silenciosamente uma determinada visão do mundo.

A projeção elaborada originalmente pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator no século XVI tornou-se o padrão dos mapas modernos. Embora extremamente eficaz para a navegação, a projeção cartográfica consolidou uma representação simbólica poderosa com o Norte acima e a Europa no centro.

Essa organização visual nunca foi apenas técnica. Ao longo do tempo, ajudou a naturalizar uma ordem geopolítica na qual os países do hemisfério norte apareciam como centro moderno do poder econômico, político e cultural, enquanto o Sul surgia como o atraso periférico.

Mas mapas não são espelhos neutros da realidade. Como demonstrou o historiador da cartografia J. B. Harley, eles são também formas de poder e narrativas sobre o mundo. Cada mapa seleciona, enfatiza e silencia elementos do território, contribuindo para moldar a maneira como sociedades compreendem a história e o espaço.

Foi contra essa naturalização que o artista uruguaio Joaquín Torres García produziu, em 1943, a obra América Invertida. Nela, a América do Sul aparece invertida, com o Sul no topo do mapa. A mensagem era direta e provocadora: “nosso norte é o sul”.

O broche exibido no Oscar retoma exatamente essa tradição crítica. Ao inverter o mapa-múndi, ele desloca o olhar e convida o observador a imaginar o planeta a partir de outra perspectiva, aquela do Sul global.

Mas a simbologia do gesto não se esgota na inversão cartográfica. O nome do continente aparecia inscrito em língua indígena, lembrando que a própria palavra “América” deriva do navegador europeu Amerigo Vespucci. Muito antes da chegada dos colonizadores, entretanto, povos originários já possuíam suas próprias formas de nomear, representar e compreender esse território, senão o todo, mas em boa parte dele.

Assim, o broche combinou dois movimentos simultâneos. De um lado, virar o mapa, questiona a hierarquia geográfica herdada da modernidade europeia e, de outro, restitui o direito de nomear, reconhecendo as cosmologias e cartografias dos povos originários.

O gesto adquire ainda mais significado no momento histórico atual. Nas últimas décadas, o mundo tem assistido a um deslocamento gradual do eixo da economia e da política internacional. Os países do chamado Sul global, especialmente aqueles que integram iniciativas como o grupo BRICS, ampliam sua presença nas decisões globais, nas redes comerciais e na produção cultural.

Nesse contexto, pensar o mundo a partir do Sul deixa de ser apenas um exercício simbólico. Torna-se também uma forma de reinterpretar a história global.

Vista a partir do Atlântico Sul, por exemplo, a história moderna revela conexões muitas vezes invisíveis na narrativa tradicional, como as rotas atlânticas da escravidão, os intercâmbios culturais afro-americanos, as redes de comércio e circulação de saberes que ligaram América do Sul, África e outras regiões do planeta.

O pequeno broche exibido no tapete vermelho do Oscar tornou visível essa mudança de perspectiva. Em vez de repetir a cartografia herdada da modernidade europeia, ele sugere uma nova forma de imaginar o planeta a partir do mundo visto a partir do Sul.

No fundo, virar o mapa não altera a posição dos continentes. Mas pode alterar profundamente a maneira como pensamos a história, o poder e o futuro do mundo.

Talvez seja justamente esse o significado mais profundo daquele gesto ao lembrar que o centro do mundo não é um dado da natureza. É uma construção histórica e, como toda construção histórica, pode sempre ser reinventada.

Essa atribuição vem sendo apontada pelas contribuições recentes do IBGE que ampliou a versão de produção de mapas. Assim, os novos mapas, o do Brasil no centro do mundo e o do mapa-mundi invertido.


Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE. Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]

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