Por ANTONIO VALVERDE*
Artigo da coletânea recém-lançada “Figuras do marxismo”.
“A indústria moderna jamais considera nem trata como definitiva a forma existente de um processo de produção. Sua base técnica é, por isso, revolucionária, ao passo que a de todos os modos de produção anteriores era essencialmente conservadora. Por meio da maquinaria, de processos químicos e outros métodos, ela revoluciona continuamente, com a base técnica da produção, as funções dos trabalhadores e as combinações sociais do processo de trabalho. [Assim], ela revoluciona de modo igualmente constante a divisão do trabalho no interior da sociedade e não cessa de lançar massas de capital e massas de trabalhadores de um ramo de produção a outro”
(Karl Marx O Capital, Livro I, p. 557).
“Os homens nada criam, nada inventam nem fabricam que não seja expressão de suas necessidades, tendo de resolver as contradições com a realidade. […] Quando nos extasiamos diante dos milagres da tecnologia moderna e construímos uma visão do mundo tendo por concepção central a infinita expansibilidade de nosso poder criador, a primeira coisa a reconhecer, logo depois de haver moderado um pouco o cândido entusiasmo manifestado pelos técnicos, é que toda possibilidade de avanço tecnológico está ligada ao processo de desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, a principal das quais cifra-se no trabalho humano”
(Álvaro Vieira Pinto, O Conceito de Tecnologia, I, p. 49).
Registros iniciais
Do âmbito da Filosofia Antiga, o tema da técnica remonta a Aristóteles, ao inscrever o termo tekhnê, compreendido por “reta razão”, como se lê em a Ética a Nicômaco, IV, ao reproduzir a opinião de Agatão.[i] O que mostra a longevidade e a relevância da noção, a compor parte do arcabouço filosófico primordial. Se ausente, o uso da tekhnê para o produzir, apontava para o raciocínio insuficiente, falseado. Por compor parte da civilização, imemorialmente, a “técnica […] é a vitória do homem sobre a natureza” (VieiraPinto, I, 2005, pp. 160 ss.). Vez que, posta em chave de comparação, “o animal conhece no ato de consumir, o homem conhece no ato de produzir” (Vieira Pinto, I, p. 165).[ii]
Todavia, a técnica insurgiu com força pungente aos primórdios da Idade Moderna, tempo em que a produção material da vida social, em termos aparentemente abstratos, visava antecipar o que viria a ser a Revolução Industrial. Assim, de cunho emblemático, Galileu, Francis Bacon e René Descartes, ao perspectivarem novos métodos de pesquisa da natureza, e, mais adiante, Isaac Newton, por consequência, alinharam a possibilidade de aplicabilidade técnica, ao projetarem a passagem da nascente teoria científica (à técnica).[iii]
De modo que a produção material passaria a utilizar conhecimentos de química e de física em fábricas artesanais, até o uso em escala elevada sob a emergência da maquinaria e da grande indústria, durante o século XIX. Hoje, menos contemplada que compreendida em seu caráter, a técnica aplicada e aplicável – derivada da pesquisa científica – adentrou todos os campos da produção material da reprodução da vida social, desde laboratórios, fábricas, oficinas até o universo da cibernética. De fusão semântica, emergiu um termo contemporâneo de expressividade ímpar: tecnociência. A ciência creditada, fundida à técnica. E vice-versa.
Não obstante, entusiasmado com as descobertas ao campo da biologia, Karl Marx registrara: “Charles Darwin atraiu o interesse para a história da tecnologia natural, isto é, para a formação dos órgãos das plantas e dos animais como instrumentos de produção para a vida. [Acaso,] Não mereceria igual atenção a história da formação dos órgãos produtivos do homem social, da base material de toda organização social particular? E não seria ela mais fácil de ser compilada, uma vez que, como diz Vico, a história dos homens se diferencia da história natural pelo fato de fazermos uma e não a outra? [Pois,] A tecnologia desvela a atitude ativa do homem em relação à natureza, o processo imediato de produção de sua vida e, com isso, também de suas condições sociais de vida e das concepções espirituais que dela decorrem. Mesmo toda história da religião que abstrai dessa base material é acrítica. De fato, é muito mais fácil encontrar, por meio da análise, o núcleo terreno das nebulosas representações religiosas do que, inversamente, desenvolver, a partir das condições reais da vida de cada momento, suas correspondentes formas celestializadas. Este é o único método materialista e, portanto, científico. O defeito do materialismo abstrato da ciência natural, que exclui o processo histórico, pode ser percebido já pelas concepções abstratas e ideológicas de seus porta-vozes, onde quer que eles se aventurem além dos limites de sua especialidade” (Marx, I, 13, 2013, p. 446, nota 89).
A propósito da nota de Marx, João Bernardo sintetiza: “Trata-se de um verdadeiro manifesto filosófico e de um programa de estudos e investigação. A importância que Marx dá, neste conjunto de teses, à concepção da tecnologia como expressão básica de um modo de produção e de organização social é bem sublinhada pelo facto de se articular com outras concepções que o leitor sabe constituírem a síntese filosófica que Marx apresenta do seu sistema: o materialismo, a inversão da metodologia tradicional na história das religiões, a visão da sociedade como resultante de uma prática coletiva. (Bernardo, III, 1977, p. 176).
A questão da técnica em Marx
O interesse de Karl Marx (1818-1883) por pesquisar em torno da técnica integra a parceria intelectual com Friedrich Engels (1820-1895), herdeiro industrial da linha têxtil, em Alemanha e Inglaterra. Mais precisamente da leitura de A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de 1845, obra engelsiana, resultado de dois anos de pesquisa in loco. Anteriormente, Marx se empenhara em criticar a filosofia do direito de Georg Wilhelm Friedrich; fundar a teoria da alienação desde Ludwig Feuerbach, em vista de premissas da economia política – ao louvor da divisão social do trabalho, projetado por Adam Smith; pensar a História como ciência, única, primeiramente, por englobar todas as outras e ser capaz de explicá-las, conjugadamente, além de alinhá-la sob método próprio, o do materialismo histórico.[iv]
Tudo ocorrido no curto período de dois anos. De braços com o método dialético, assimilado e transfigurado em chave própria a partir do de Hegel.[v] Contudo, a parceria Marx-Engels progrediu vertiginosamente, a ponto de registrarem os progressos alcançados em A ideologia alemã, escrito entre 1845 e 1846. De crítica contundente aos herdeiros do hegelianismo (Ludwig Feuerbach, Bruno Bauer, Max Stirner) e da necessidade de mostrar a tese da concepção própria de história, sob cunho metódico materialista histórico.[vi] Contudo, a obra seria publicada somente em 1932, lançada que esteve à crítica roedora dos ratos, segundo Engels.
Karl Marx encarna o filósofo que ao seu tempo melhor e mais extensamente compreendeu a realidade material forjada do modo de produção capitalista e a correspondente representação ideológica. Desde a linha de montagem fabril à aceleração revigorada do acúmulo de riqueza / capital, disparada da mais-valia, perpassado de tecnologia, no detalhe e ao limite necessário. Por vezes, extra limite. E não só, vez que o capital segue sendo o portador da crise social permanente. Mas qual o lugar da técnica para a multiplicação do capital? Sob que formas a tecnologia se realiza como capital?
Périplo marxiano à técnica.
Enrico Dussel organizou e traduziu para o espanhol a primeira pesquisa de Marx acerca de tecnologia, intitulada Cuaderno Tecnologico-Historico (Extractos de la lectura B 56, Londres 1851), publicada em 1984.[vii] “Tecnologia”, porque o termo fora criado por J. Beckmann, professor de filosofia, no ano de 1776, em Goettingen. Em verdade, Marx suspendera a pesquisa teórica concernente à técnica para adentrar obras relativas à pesquisa empírica, concreta (da técnica).[viii]
Assim, leu e anotou no Cuaderno B 56 as seguintes obras de J. H. Poppe: 1. A mecânica do século XVIII e os primeiros anos do século XIX, de 1807, com teorias de estática, dinâmica mecânica e mecânica prática; 2. Manual de tecnologia geral,de 1809, lida atentamente por Marx, por cuidar de ação produtiva e dos instrumentos utilizados, sejam naturais, artesanais, manufaturados ou industriais, e dos principais modos de ação e de mediação: triturar, reduzir, ligar e unir, configurar, como fundamentos das ações técnicas, – uma ratio technica; 3. A física especialmente aplicada às artes…, de 1830, proposta de uma física popular, por não tratar de física técnica teórica, mas de explicações físicas experimentais; 4. História da Matemática desde a antiguidade até os tempos modernos, de 1828, quatro obras: história da matemática e aplicada (mecânica óptica e astronômica); e 5. História da tecnologia, em três tomos, editados de 1807 a 1811, ao sentido abstrato (da tecnologia), sem referências econômicas e sociais, aspecto denunciado por Marx, em O capital (Marx e Dussel, 1984, pp. 20-22).
De A. Ure, Marx consultou o Dicionário técnico, três tomos, em tradução alemã do original inglês, publicado em Praga entre 1843 e 1844, com a introdução de termos ingleses; o Corifeu da Filosofia Moderna interessou-se pela máquina a vapor de Watt; e, de J. Bechkmann, leu e anotou as Contribuições à história dos inventos,cinco volumes, editados entre 1780 e 1805; de material disperso, não organizado, que findava por ser mais econômico que tecnológico.[ix]
Em 1852, Marx encerrara novamente a pesquisa acerca de técnica prática para trabalhar como periodista, sob crises pessoais e agruras materiais graves (Marx e Dussel, 1984, p. 22).
A propósito de máquinas, em Miséria da filosofia: resposta à “Filosofia da miséria” de Pierre Joseph Proudhon, escrita durante o inverno de 1846-1847, Marx posicionara: “As máquinas são, para o Sr. Proudhon, ‘a antítese lógica da divisão do trabalho’, e, em apoio de sua dialética, começa por transformar as máquinas em fábrica. […] As máquinas não constituem uma categoria econômica, como tampouco o boi que puxa o arado. As máquinas não são mais que uma força produtiva. A fábrica moderna, baseada no emprego das máquinas, é uma relação social de produção, uma categoria econômica (Marx, 1976, p. 126).[x]
Talvez seja esta a primeira inserção marxiana acerca da técnica, refletida do uso de máquinas fabris.
Para redigir O capital, Marx escreveu complexos manuscritos, resultados de estudos árduos, com o intuito de fundamentar as teses a serem explicitadas. Primeiro, os Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858. Esboços da crítica da economia política, editado pelo Instituto Marx-Engels-Lênin do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, em 1939 (Marx, 2011). Em verdade, um longo rascunho, uma das fontes próprias do autor para a redação de O capital, assim como os manuscritos Para a Crítica da Economia Política: manuscritos de 1861-1863 / Cadernos I a V – Terceiro Capítulo – O Capital em geral (Marx, 2010). Contudo, é consensual, para Dussel, Heinrich, De Lisa e Badaloni, que Marx operou os Manuscritos 1861-1863 tal um laboratório teórico para a redação de O capital (Romero, 2005, pp. 14-15).
A questão da técnica nos Grundrisse, se considerada nominalmente referida, encontra-se mais latente que explícita, sobremaneira na “Terceira Seção. O Capital que gera frutos. Juro. Lucro. (Custos de produção etc.)” (Marx, 2011, pp. 623-759).[xi] Após fecunda reflexão acerca do dinheiro, do capital, do processo de produção do capital e de sua circulação, sempre cumulada de recortes de obras lidas e anotadas, registradas nas partes anteriores da obra (Marx, 2011, pp. 67-622).
Em verdade, o termo “técnica” aparece poucas vezes na obra, eclipsado pelas explanações acerca de manufatura, máquina, maquinaria, instrumento, cooperação, recaindo, por exemplo, sobre o fato de a técnica para descoberta do ouro ser muito antiga, e, em alguns casos, o ouro era encontrado em veias auríferas, sem grandes dificuldades.[xii]
Outrossim, para exploração de jazidas aluviais, eram requeridas técnicas mais refinadas por parte dos garimpeiros. À sua vez, a prata, devido à escassez, apresentava dificuldades técnicas de exploração, sobremaneira na Ásia (Marx, 2011, pp. 121-133). Contudo, nexos entre a técnica, a maquinaria, o trabalho e o capital, ao reunir passagens de autores e reflexões pessoais, encontram-se registrados no âmbito da “Segunda Seção. O processo de circulação do capital” (Marx, 2011, pp. 485 ss.). No entanto, há centenas de remissões aos termos “manufatura”, “máquina” e “maquinaria”, fundando o caudal reflexivo do autor, disseminadas por toda obra.
Exposto e analisado o trâmite acerca da produção, do consumo, do dinheiro, da circulação do capital, a intensa premissa inicial da “Terceira Seção. O capital que gera frutos. Juro. Lucro. (Custos de produção etc.)”, Marx assevera, de modo sintético, que o “capital é agora posto como unidade de produção e circulação, e o mais-valor que ele cria por um determinado período. […] O capital é realizado agora não só como valor que se reproduz e assim se pereniza, mas também como valor ponente de valor” (Marx, 2011, p. 623).
Ao que adita, “O produto do capital é, portanto, o lucro. Relacionando-se consigo mesmo como lucro, o capital se relaciona consigo mesmo como fonte de produção de valor, e a taxa de lucro expressa a proporção em que ele aumentou seu próprio valor” (Marx, 2011, p. 635). Em seguida, analisa a função econômica da maquinaria na indústria, os custos da ciência e do desenvolvimento de capacidades intelectuais, sendo o crescimento da população a única despesa que não se deve ao capitalista, e finda por analisar algumas relações entre produção e comércio.
Anota a “Lei dos Pobres”, de Elizabeth, criada para forçar “desocupados” a trabalharem em indústria, depois do fechamento dos monastérios (Marx, 2011, pp. 641-661). As anotações encaminham para o item “Maquinaria e lucro”, após considerações, infere que, sob domínio do capital, a utilização da maquinaria não encurta o trabalho, mas o prolonga. Tema recorrente para diversas situações tensas de confirmação e de negação do fato (Marx, 2011, pp. 693-707). Conclui que o “capital produtor de lucro é o capital real, o valor posto simultaneamente como valor que se reproduz e se multiplica, e como pressuposto que permanece igual a si mesmo, que se diferencia de si mesmo como mais-valor posto por ele mesmo.”
Contudo, o “capital produtor de juro, por sua vez, é a forma puramente abstrata do capital produtor de lucro” (Marx, 2011, p. 753). Em seguida, analisa a mercadoria posta em forma de dinheiro. “Então como o valor de uso se transforma em mercadoria?” (Marx, 2011, p. 756). Ao encerrar o Manuscrito, mostra-se preparado para a escrita de “A Mercadoria”, Primeiro Capítulo de O capital, e outros.[xiii]
Por certo, as considerações sumarentas acerca de técnica aplicada à maquinaria e à produção, na linha de preparo da escrita de O Capital, encontram-se, de modo sintético, no item “y) Maquinaria. Utilização de forças naturais e ciência. (steam, electricity, mechanical and Chemical agencies)”, de Para a Crítica da Economia Política. Manuscritos de 1861-1863.
O texto principia com referência à observação de John Stuart Mill: “É questionável se todas as invenções mecânicas feitas até agora aliviaram o árduo trabalho diário de qualquer ser humano”.[xiv] Ao que Marx contesta: “Ele deveria ter dito de qualquer ser humano que trabalha arduamente. Porém, a maquinaria, sobre a base da produção capitalista, não objetiva em absoluto aliviar ou encurtar o árduo trabalho diário dos trabalhadores. (Pois) – ‘Os artigos são baratos, mas são feitos de carne humana’. […] Falando muito em geral, a finalidade da maquinaria é diminuir o valor das mercadorias, ergo seu preço, barateá-la, isto é, encurtar o tempo de trabalho necessário à produção de uma mercadoria, mas, de modo algum, encurtar o tempo de trabalho enquanto o trabalhador é ocupado com a produção dessa mercadoria mais barata. (Marx, 2010, p. 367)
Prossegue, constatando que “o emprego da maquinaria aumenta a divisão do trabalho no interior da sociedade, a multiplicação dos ramos de atividade particulares e as esferas de produção independentes. (Pois), seu princípio fundamental é a substituição do trabalho qualificado pelo trabalho simples, portanto, também a redução da massa de salário ao salário médio, ou redução do trabalho necessário do trabalhador ao mínimo médio e redução de custos de produção da capacidade de trabalho aos custos de produção da capacidade de trabalho simples. […] (Porque) O emprego da maquinaria não torna efetivas apenas as forças produtivas do trabalho social, à diferença do trabalho dos indivíduos reunidos. Ela transforma forças naturais simples em potências do trabalho social, como água, vento, vapor, eletricidade, etc. Isso, abstraindo da utilização das leis mecânicas que atuam na parte propriamente trabalhadora (isto é, a parte da maquinaria que transforma diretamente a matéria-prima, mecânica ou quimicamente (Marx, 2010, pp. 370-371).[xv]
Marx pensa, dialeticamente, ao conjugar todos os elementos envolvidos na produção, em vista do lucro do capital e da expropriação do mais valor, em alternâncias combinadas.
Porque, quanto “maior a eficiência da maquinaria, (tanto) mais ela aumenta a força produtiva do trabalho, na proporção em que ela capacita um trabalhador para realizar o trabalho de muitos trabalhadores, aumenta a massa de valores de uso e, por isso, de mercadorias que são produzidas no mesmo tempo de trabalho com o auxílio da maquinaria. (Marx, 2010, p. 373)
Nesse passo, Marx inclui a mercadoria, pois a “diferença de valor entre maquinaria e ferramenta manual ou instrumento de trabalho simples, na mercadoria entrará uma parcela de valor menor para a maquinaria do que para o instrumento de trabalho e a capacidade de trabalho que a maquinaria substitui, na proporção em que o valor da maquinaria se reparte numa soma total maior de produtos, mercadorias. (Marx, 2010, p. 373)
Sob tensão peculiar em alguns de seus textos, Marx reforça que uma “das primeiras consequências da introdução de nova maquinaria, antes de ela ter se tornado dominante em seu ramo de produção, é prolongar o tempo de trabalho dos trabalhadores que continuam a trabalhar com os antigos meios de produção imperfeitos. […] (Todavia), Em particular, lá onde a maquinaria já foi introduzida, as melhorias que reduzem o número de trabalhadores em relação à massa de mercadorias produzidas e à maquinaria empregada são acompanhadas da circunstância de que o trabalho do trabalhador individual, que substitui um ou dois trabalhadores, cresce com a maquinaria melhorada, portanto, a maquinaria lhe permite fazer aquilo que dois ou três faziam antes somente na medida em que o obriga a aumentar seu trabalho e a preencher mais intensivamente cada fração de tempo de trabalho. Assim, a capacidade de trabalho se torna obsoleta mais rapidamente, na mesma hora de trabalho. (Marx, 2010, p. 386)
O que aponta, dentre outras condições, para a “substituição da cooperação simples pela maquinaria”, pois, “Assim como a maquinaria elimina ou revoluciona a cooperação desenvolvida em divisão do trabalho, em muitos casos ela também faz o mesmo com a cooperação simples” (Marx, 2010, p. 393). As abordagens subsequentes tratam de greves e formas de resistência dos trabalhadores frente à dinâmica organizacional do trabalho.
Em dois momentos, Marx recorre a Ure, primeiro, para referendar a nova máquina de tecelagem e a rendição dos trabalhadores (Marx, 2010, p. 394). Depois, ao citá-lo: “Com relação ao ‘homem de ferro’ (self-acting mule), Ure diz: ‘quando o capital recruta a ciência para seu serviço, a mão rebelde da indústria aprende sempre a ser dócil’” (Ure apud Marx, 2010, p. 396) – tensão posta desde os primórdios da relação capital-trabalho.
Porém, todo arcabouço registrado nos manuscritos de 1858-1859 e de 1861-1863 confluíra para a redação de O apital. O tema em pauta, a técnica, sob vários sentidos, aspectos e contextos, figura cinquenta e oito vezes no Livro I de sua obra máxima. Assim, em O capital a questão tecnológica finda por ocupar várias reflexões e análises, certamente de modo mais coerente e dialético. Sob a perspectiva da tecnologia como instrumento de trabalho, em geral, porque a “força produtiva do trabalho é determinada por múltiplas circunstâncias, dentre outras pelo grau médio de destreza dos trabalhadores, o grau de desenvolvimento da ciência e de sua aplicabilidade tecnológica, a organização social do processo de produção, o volume e a eficácia dos meios de produção e as condições naturais. (Marx, 2013, p. 118)
Mas a tecnologia é também capital, capital constante. Para o corifeu da filosofia moderna, “a parte do capital que se converte em meios de produção, isto é, em matérias-primas, matérias auxiliares e meios de trabalho, não altera sua grandeza de valor no processo de produção. Por essa razão, denomino-a parte constante do capital, ou, mais sucintamente: capital constante. (Marx, 2013, p. 286)
E a tecnologia como instrumento de trabalho, realiza-se na passagem do abstrato ao concreto, como mediação entre a abstração do capital e a concretude do transformar o concreto, o material, do produzir. Marx nomeia por subsunção ao plano ontológico tal mediação.[xvi] Assim, a tecnologia mostra-se em níveis diversos: capital constante; capital fixo; capital produtivo. A suportar a abertura ao fetiche do tecnologismo, de par com o positivismo e o cientificismo. Contudo, sem considerar a autonomia da tecnologia, como instrumento de trabalho para a libertação do trabalhador.[xvii]
Afinal, “todas as formas de realização da tecnologia capitalista obedecem a uma tendencia fundamental, que é a cisão crescente entre o produtor e os meios ou instrumentos de trabalho. O prosseguimento da exploração significa o desenvolvimento da cisão entre os frutos materiais do trabalho proletário, as máquinas, que são também a sua condição tecnológica, e o proletariado no seu trabalho. E todas as novas formas de realização da tecnologia capitalista não são mais do que o acentuar desta oposição material. A tecnologia capitalista, na sua dinâmica, é a materialização da relação exploradores / explorados, da relação de extorsão da mais-valia no seu prosseguimento” (Bernardo, volume III, 1977, p. 185),
Em síntese
A ciência e a tecnologia subsidiaram, no detalhe, a produção fabril, ao tempo do advento da maquinaria e da grande indústria, da expropriação de mais-valor do trabalhador, do barateamento de mercadorias produzidas em alta escala, mas sem conseguir reduzir, expressivamente, o tempo de trabalho (do trabalhador). Menos ainda obter a redução das taxas de lucro apropriadas do mais-valor.
Taylor e o taylorismo, a meados do século XX, projetaram a realização da organização fabril do trabalho pela negativa das reais aspirações dos trabalhadores, formulada pela economia de gestos (dos trabalhadores), incorporação de técnicas e de máquinas a acelerarem a produção, sob o caráter despótico de gestores, como expressão sistemática e consciente da burguesia ocidental. Por mais lucro e menos tempo para produção e consumo. Deste alinhamento, o que Taylor deveu a Marx.[xviii]
Porém, há sete décadas, Herbert Marcuse imaginou uma futura civilização enredada pela transversalidade libidinal, em que a repressão moral poderia ser relativizada, dado o acúmulo de capital, tecnologia, ciência. Quiçá, por fim, o horizonte de libertação, em que tekhnê e poiesis, compostas em chave de tempo livre e ócio verdadeiro, possam pautar o universo da produção e do trabalho da projetada passagem do reino da necessidade ao reino da liberdade, sob matriz marxiana. Desde a premissa do trabalho conjugado ao prazer de trabalhar (Valverde, 2018). Horizonte da utopia concreta?
Para arremate do ensaio, eis a questão material da maquinaria, da técnica e da consequente alienação: “Na manufatura e no artesanato, o trabalhador se serve da ferramenta; na fábrica, ele serve à máquina. Lá, o movimento do meio de trabalho parte dele; aqui, ao contrário, é ele quem tem de acompanhar o movimento. Na manufatura, os trabalhadores constituem membros de um mecanismo vivo. Na fábrica, tem-se um mecanismo morto, independente deles e ao qual são incorporados como apêndices vivos” (Marx, O capital, Livro I, 2013, p. 494).
Vez que “a morna rotina de um trabalho desgastante e sem fim (drudgery), no qual se repete sempre e infinitamente o mesmo processo mecânico, assemelha-se ao suplício de Sísifo – o peso do trabalho, como o da rocha, recai sempre sobre o operário exausto”. (Engels, 2008, p. 213)
Ao tempo presente, a morna rotina transfigurou-se em monotonia do trabalho repetitivo, sem sentido, sob a capa do desassossego expansivo do fetichismo tecnológico, ao ritmo do capital financeiro.
– Cumpre seguir imaginando Sísifo feliz?
*Antonio Valverde é professor do Programa de pós-graduação em filosofia da PUC-SP.
Referência

Antonio Valverde & Iago Martinez (orgs.). Figuras do marxismo: Investigações em filosofia política contemporânea. São Paulo, Educ, 2025, 374 págs. [https://amzn.to/4lolcOE]
Bibliografia
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Notas
[i]. De Aristóteles: “Diferindo, pois, o produzir e o agir, a arte deve ser uma questão de produzir e não de agir; e em certo sentido, o acaso e a arte versam sobre as mesmas coisas. Como diz Agatão: ‘A arte ama o acaso, e o acaso ama a arte’. Logo, como já dissemos, a arte é uma disposição que se ocupa de produzir, envolvendo o reto raciocínio; e a carência de arte, pelo contrário, é tal disposição acompanhada de falso raciocínio. E ambas dizem respeito às coisas que podem ser diferentemente” (Aristóteles, 1991, p. 126). A propósito da técnica entre os gregos antigos, conferir Vernant (1973), “Capítulo VI – O trabalho e o pensamento técnico”, em especial o item “Prometeu e a função técnica” (pp. 207-216).
[ii]. Historiando. A técnica como parte da cultura, sob lances de concretude do desenvolvimento técnico durante a Idade Média, se encontra historicamente inventariada em Trabalho e técnica no Medievo, estudo clássico de Marc Bloch (1886-1944), ao relatar o aparecimento do moinho d’água e do problema do ouro (Bloch, 1992). Em comparação, “[…] Antípatro, poeta grego da época de Cícero, elogiava a invenção do moinho hidráulico para a moagem de cereais, essa forma elementar de toda maquinaria produtiva, como libertadora das escravas e criadora da Idade de Ouro! ‘Os pagãos, sim, os pagãos!’” (Marx, 2013, p. 481).
[iii]. A propósito, Rossi, ao analisar o propalado “utilitarismo” baconiano, assegura que “na filosofia de Bacon haveria uma subordinação da ciência à técnica, da lógica às operações, da verdade à utilidade, do saber ao operar” (Rossi, 1989, p. 139).
[iv]. Em A ideologia alemã (nota de rodapé d) lê-se: “Conhecemos uma única ciência, a ciência da história. A história pode ser examinada de dois lados, dividida em história da natureza e história dos homens. Os dois lados não podem, no entanto, ser separados; enquanto existirem homens, história da natureza e história dos homens se condicionarão reciprocamente. A história da natureza, a assim chamada ciência natural, não nos diz respeito aqui; mas, quanto à história dos homens, será preciso examiná-la, pois quase toda a ideologia se reduz ou a uma concepção distorcida dessa história ou a uma abstração total dela. A ideologia, ela mesma, é apenas um dos lados dessa história” (Marx e, 2015, pp. 86-87).
[v]. Em recensão à obra de Marx Contribuição à crítica da economia política (2008), Engels relembra que, após Hegel, “não houve quase nenhuma tentativa de se desenvolver um ramo da ciência em sua própria coerência interna. […] Marx foi o único que podia se entregar ao trabalho de retirar da lógica hegeliana o cerne que contém os verdadeiros descobrimentos de Hegel nesse campo, e de reconstruir o método dialético despojado de sua forma idealista, na simples transparência como a única forma exata do desenvolvimento do pensamento. O fato de Marx haver elaborado o método da crítica da Economia Política é, a nosso ver, algo que tem quase tanta importância quanto a concepção materialista fundamental” (Engels, 2008, pp. 278-279, 282).
[vi]. Pois “indivíduos determinados, […] são ativos na produção de determinada maneira, contraem entre si estas relações sociais e políticas determinadas. A observação empírica tem de provar, em cada caso particular, empiricamente e sem nenhum tipo de mistificação ou especulação, a conexão entre a estrutura social e política e a produção. A estrutura social e o Estado provêm constantemente do processo de vida de indivíduos determinados, mas desse indivíduos não como podem aparecer na imaginação própria ou alheia, mas sim tal como realmente são, quer dizer, tal como atuam, como produzem materialmente e, portanto, tal como desenvolvem suas atividades sob determinados limites, pressupostos e condições materiais, independentes de seu arbítrio” (Marx-Engels, 2015, p. 93).
[vii]. Segundo Dussel, “Marx dejó más de ciento ochenta cuadernos, del que nos ocupamos, el B 56, tenía en la numeración de Marx el número XVII. Se puede saber con certeza que fue escrito en Londres, en septiembre y octubre de 1851. Con letra de Marx, el caderno XIX (B 61) escribía: ‘Londres, agosto 1852’. En carta a Engels del 13 de octubre de 1851 indica Marx que en el último tiempo está trabajando en la biblioteca – como todo intelectual pobre – principalmente sobre ‘tecnologia, sobre su historia, y sobre agronomia’” (Marx e Dussel, 1984, p. 9).
[viii]. Simondon reproduz o espírito da questão, sem referir-se a Marx, no Capítulo 1. “Gênese do objeto técnico: o processo de concretização” (Simondon, 2020, pp. 53-95).
[ix]. Todas as obras estudadas por Marx suprarreferidas encontram-se mostradas na forma de extratos, em o Cuaderno XVII, B 56. Extractos tecnológicos-históricos, com respectivos fac-símile(s) (Marx e Dussel, 1984, pp. 83-224).
[x]. A propósito, conferir “II. A divisão do trabalho e as máquinas” (Marx, 1976, pp. 121-137).
[xi]. “En efecto, en los Grundrisse Marx echa mano de cuestiones tecnológicas en todo momento. Por ejemplo, en el Capitulo del Dinero, y hablando del ‘sujeto material’ del dinero, realiza un estúdio químico del oro y la plata: Aurum (Au). Densidad: 19,5; punto de fusión: 1200 grados C…” (Marx e Dussel, 1984, p. 23).
[xii]. Ver “Os métodos de produção da mais-valia relativa (Cooperação, manufatura, maquinaria)” (Rosdolsky, 2001, pp. 201-207).
[xiii]. Ver “A relação estrutural entre os Grundrisse e O Capital” (Rosdolsky, 2001, pp. 56-57).
[xiv]. Marx modaliza seu comentário, após reproduzir a frase de Mill no “Capítulo 13. Maquinaria e grande indústria”, Livro I, de O Capital: “Mas essa não é em absoluto a finalidade da maquinaria utilizada de modo capitalista. Como qualquer outro desenvolvimento da força produtiva do trabalho, ela deve baratear mercadorias e encurtar a parte da jornada de trabalho que o trabalhador necessita para si mesmo, a fim de prolongar a outra parte de sua jornada, que ele dá gratuitamente para o capitalista. Ela é o meio para a produção de mais-valor” (Marx, 2013, p. 445).
[xv]. Acompanhar o desenvolvimento do raciocínio na sequência (Marx, 2010, pp. 371-372).
[xvi]. Ver “A subsunção formal” e “A subsunção real” (Romero, 2005, pp. 71-105, 107-209).
[xvii]. A propósito, conferir “Subsución por parte del sujeto-capital del sujeto-necesidad y del sujeto-productor (tecnológico)”, esquema e reflexões (Marx e Dussel, 1984, pp. 51-65). E também “La tecnologia en el processo de liberación” (Marx e Dussel, 1984, pp. 75-78).
[xviii]. Comentários similares em Coriat, 1973, pp. 133-134. Comentários datados. Em “Presentátion”, Joan Senent-Josa afirma que Economia Socialista e Revolução Tecnológica, de Radovan Richta (1968), levou à escrita da obra de Coriat (Coriat, 1973, pp. 4-5).

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