Por JORGE FELIX
Considerações sobre o livro, recém-lançado, de Pierre Dardot & Christian Laval
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William Lundstrom, Elipse azul e rosa com quadrados sobre fundo marrom e azul, 1918 |
Considerações sobre o livro, recém-lançado, de Pierre Dardot & Christian Laval
1.
O filósofo Pierre Dardot e o sociólogo Christian Laval são as maiores referências na defesa e na construção do marco teórico do “comum”. Trata-se de um esforço intelectual para estabelecer uma alternativa política, econômica e social depois do fracasso, para alguns, ou do aprofundamento, para outros, do neoliberalismo. Não recorrem aos parâmetros do século passado, embora sejam fiéis ao constructo marxista.
Os autores têm sido bem-sucedidos, há mais de uma década, na tentativa de erguer ou, na verdade, de reabilitar a ideia do comum. A cada obra se revelaram mais promissores até do que economistas premiados com o Nobel, que ensaiaram passos no tema e logo perderam o fôlego, como Jean Tirole,[i] por exemplo. E, sobretudo, depois da morte dos italianos Domenico Losurdo (1941-2018)[ii] e Antônio Negri (1933-2023)[iii] e, mais recentemente, de Jürgen Habermas (1929-2026).[iv]
Lançado no ano passado na França e ainda sem tradução no Brasil, Instituer les mondes – Pour une cosmopolitique des comuns (Instituir os mundos – por uma cosmopolítica dos comuns) é a obra mais musculosa da empreitada analítica dos autores. Em A nova razão do mundo – ensaio sobre a sociedade neoliberal, publicado na França em 2009, portanto 12 anos antes da invasão golpista do Capitólio nos Estados Unidos, e 14 antes da intentona bolsonarista em Brasília, Pierre Dardot e Christian Laval alertaram sobre o aumento do risco do antidemocratismo, a característica natural do capitalismo e ainda mais intrínseca ao neoliberalismo.
Escreveram eles que depois da crise financeira de 2008, o neoliberalismo acentuaria sua resistência ao sufrágio universal. O mundo assistiria, segundo a dupla, a uma radicalização neoliberal que implicaria na desativação do jogo democrático, isto é, uma “era pós-democrática” ou antidemocrática.[v] Embora sem a sua concretização efetiva, essa “era” está em plena observância.
Em Comum, ensaio sobre a revolução no século XXI, publicado na França em 2014, os autores partem da constatação, de certa forma consensual no pensamento crítico, de que o neoliberalismo é um sistema normativo a reger todos os tempos de vida e, assim, fazer a lógica do capital abarcar todas as relações sociais, a ponto de constituir um “cosmocapitalismo”, baseado na concorrência tão ilimitada quanto a acumulação de riqueza, na exploração da natureza e em atender a todos os interesses das elites, sempre sob o auxílio do Estado.
A solução seria derrubar um sistema de normas que estaria mesmo ameaçando a humanidade. Os autores clamam por uma ação coletiva que possa fazer frente à incapacidade das sociedades nacionais e dos Estados de darem respostas eficientes aos processos em andamento no planeta. Essa ação seria a instituição de uma federação dos comuns.
2.
Mais uma vez, a análise de Pierre Dardot e Christian Laval tornou-se ainda mais válida, depois de 12 anos, diante dos fatos políticos vivenciados. Sobretudo a de “federação”. Quase à guisa de conclusão, eles terminam o livro com nove “proposições políticas”. A última é “instituir uma federação dos comuns” – e esse ponto é relevante porque é de onde darão a partida no livro mais recente. Ao analisar, com bases kantianas, o federalismo em escala nacional e os tipos de federalismo, os autores atestam que o modelo hegemônico na contemporaneidade é o de uma “federação interestatal puramente defensiva”, onde moraria todo o mal.[vi]
A ideia federativa consolidou-se no mundo, sobretudo depois da II Guerra Mundial, com as instituições de Bretton Woods, como uma simples “aliança de paz” (foedus pacificum), na qual, paradoxalmente, esse meio de os Estados nacionais se protegerem da guerra é renunciar ao pretenso “direito à guerra” sem a menor chance de se constituir uma “ideia positiva de uma república mundial” – aliás já posta em interrogação pelo próprio Kant.[vii]
O pecado deste modelo ou sua ineficiência, do ponto de vista da tese dos comuns, é ter sido forjado apenas para dar sustentação aos intercâmbios comerciais, que seriam, supostamente, a base para a paz. Quando, de fato, são o seu oposto. Basta recordarmos a famosa máxima: toda guerra é uma disputa por mercados.
Esse “comum” provido por esse tipo de federação, que garante a livre circulação de pessoas – turistas ávidos para o consumo ou o negócio – ou uma “liberdade de possuir” ou ainda o direito à apropriação, eles destacam, tem pouco a ver com o comum (ou comuns) proposto pelos autores. E, diga-se de passagem, é o comum a sofrer maior erosão nessa “era pós-democrática”.
A premissa para a federação dos comuns é o reconhecimento de uma “cidadania transnacional”, o que o ensaio de cosmopolitismo experimentado na contemporaneidade demonstrou-se por demais passivo para enfrentar fronteiras administrativas e territoriais consolidadas. Pelo contrário, fez ressurgir muros. Os autores encerram Comum evocando Hannah Arendt e sua famosa defesa de um Estado regido por conselhos para esboçar a institucionalidade de um novo modelo de governabilidade: a federação mundial do comum.
3.
Instituer les mondes – pour une cosmopolitique des comuns avança, aprofunda e aprimora a construção teórica do comum, oferecendo novas perspectivas e novos insights à luz da complexidade de fatores necessários de serem convocados para construção de uma análise do atual zeitgeist: avanço da extrema-direita no mundo, o agravamento da questão climática, as contradições e métodos altermundialistas, os limites da cosmopolítica, as lutas dos povos autóctones, a economia feminista, o fetiche da soberania nacional e os fatos históricos mais ou menos recentes, denominados de “erupções cosmopolíticas”. A defesa dos conselhos hannarenditianos perdem força.
De antemão, é preciso reconhecer a impossibilidade de dar conta de resumir ou muito menos analisar com a mínima acuidade todo o conteúdo proposto pelos autores em uma obra de tamanha envergadura. O objetivo aqui será destacar alguns pontos avaliados como instigantes para provocar uma leitura da obra ou remarcáveis para os interessados no caminho de continuidade da linha de pesquisa de Pierre Dardot e Christian Laval.
Sendo assim, o maior destaque é a descentralização dos autores de uma literatura excessivamente europeia (obviamente sem renunciar a referências obrigatórias e/ou clássicos), marcante nas obras anteriores, inclusive quando mencionavam a questão indígena.[viii] A adoção de uma literatura brasileira para a análise do desafio ambiental talvez seja o maior enriquecimento teórico proposto pelos autores nessa nova obra.
Pierre Dardot e Christian Laval adotam o “perspectivismo indigenista” de Eduardo Viveiros de Castro, o conceito de “cidadania indígena” e a bibliografia de Airton Krenak, além de outros autores brasileiros como Michael Löwy, Chico Whitaker, Darcy Ribeiro, João Pedro Stédile, entre outros, para analisar o conceito do comum. Airton Krenak, no entanto, é um dos autores de maior referência e faz com que os teóricos percebam que a ideia dos comuns está mais próxima da ancestralidade indígena do que dos clássicos da ciência política ou da filosofia política. Seria, depois desta nova chave de análise antropológica, legítimo até questionar, concordando com Karl Polany[ix], se o comum não é o estado natural em contraponto ao egoísmo smithiano.
Em diversas partes do livro,[x] Airton Krenak é convocado e suas indagações inquietantes são reproduzidas e repetidas várias vezes ao longo do livro, como a questão: “Nós somos verdadeiramente uma humanidade?”.[xi]
Pierre Dardot e Christian Laval dedicam um capítulo (o 10) à emergência das lutas autóctones. O capítulo é aberto por uma citação longa – uma das raríssimas em toda a obra – de Airton Krenak denunciando o genocídio de povos originários. As ideias de Krenak são usadas como argumento para sustentar a crítica dos autores à organização política unitária do Estado-nação – o grande alvo de Dardot e Laval como estorvo à construção de uma federação de comuns.
4.
Os autores reproduzem o conceito de “sujeitos coletivos”, cunhado por Airton Krenak, para definir a comunhão dos indígenas com outros seres vivos e o ambiente. O alargamento da subjetividade indígena, como diz Krenak, permite conviver pacificamente (ou em comum) com vários povos e idiomas.
A partir daí, os autores não se inibem em reconhecer o pensamento do brasileiro como fio condutor no atual estágio da elaboração teórica do comum do início ao fim: “Isto demonstra como a resistência à colonialidade deve ser entendida como o momento negativo de uma nova subjetivação antropológica, para usar as palavras da introdução desta obra”.[xii] É nesse ponto que Pierre Dardot e Christian Laval começam a problematizar a noção de “mundo” e a elaborar a visão que acabou por dar título ao livro: os mundos.
Instituir os mundos (ou um mundo comum) depende de uma revisão do conceito de soberania, tão marcante hoje no debate geopolítico, e uma defesa intransigente da democracia. Prescinde, assim, de questionar o paradigma europeu de civilização, segundo o qual “uma humanidade esclarecida deveria ir ao encontro de uma humanidade que vive no obscurantismo selvagem para irradiar as suas luzes”[xiii] – pensar sustentáculo de organizações multilaterais nascidas em Bretton Woods.
Embora este seja um preceito tocqueviliano ou mesmo encontrado em Montesquieu, bastante citado, os autores preferem recorrer a Airton Krenak para lembrar que a democracia não tem o dom de se instalar sozinha. Como ela pode ser alcançada? Não serão “soluções” capitalistas ou “instrumentos” estatistas nos velhos formatos capazes de tal proeza no século XXI.
Isso só é possível se, no entender dos autores, as lutas permitirem “comunizar” os Estados, isto é, transformá-los em instituições do comum segundo uma lógica pluralista e federativa, e arrancar das classes dominantes os instrumentos de sua dominação, começando pelo seu controle proprietário sobre os meios de produção e os ambientes de vida. Objetivos que supõem que as lutas atinjam uma amplitude máxima e tendam simultaneamente a isso em todos os países e em todos os setores da sociedade.
Em outras palavras, que as forças antisoberanistas e anticapitalistas se colem para conjurar a fatalidade de um planeta devastado pela destruição da natureza, pelo empobrecimento de um grande número de pessoas, pela violência das guerras imperialistas.
Essa nova textura do comum de Pierre Dardot e Christian Laval está dividida em cinco partes. As quatro primeiras, por suas vezes, apresentadas em 14 capítulos, partindo de um resumo histórico do conceito de nação e chegando até ao de cosmopolitismo.
Na quinta parte, seguindo uma metodologia já usada em Comum, os autores traçam 13 “rotas estratégias” (em vez de propostas políticas) de ação: o que fazer do Estado? Em qual Estado nós vivemos? Como organizar os serviços públicos e comuns? Enfim, um resumo da aplicação da teoria comunalista na realidade do agir. Na rota de número 8, o Brasil comparece com o exemplo da Casa Comum de Brasília, enviado aos autores pelo sociólogo David Hamou.[xiv]
5.
Um outro ponto novo, antes de encerrar, a destacar na obra é a inclusão da perspectiva feminista. Ao discutirem a constituição de mundos comuns, Pierre Dardot e Christian Laval incluem a questão de gênero no capítulo dedicado às “práticas transfronteiriças e transformações dos atores coletivos”.[xv]
O “feminismo transfronteiriço” emerge, segundo os autores, exatamente da impotência de uma ordem de governabilidade construída com frágeis alicerces dos conceitos de soberania, Estado e Estado-nação, que só fizeram dividir ainda mais e acentuar a concorrência. Dessa maneira, fóruns multilaterais em plena falência, como a Organização das Nações Unidas, são incapazes de garantir direitos, no caso, a igualdade de direitos das mulheres e entre gêneros.
Mesmo as organizações revolucionárias foram erigidas sob colunas machistas, sublinham eles. E lembram que só no Fórum Mundial Social de 2004 fora criado um espaço de diálogos feministas.
A militância transnacional feminista nasceu em 2016 na Argentina em um movimento grevista contra o feminicídio, historiam Pierre Dardot e Christian Laval, e rapidamente tornou-se uma erupção cosmopolítica – transnacional, multilíngue, interseccional e heterogênea, na qual participaram 55 países.
A partir da cientista política argentina Verônica Gago, os autores abarcam a ideia de que a violência física contra a mulher está enrustida em uma violência financeira patriarcal e neoliberal. A greve do coletivo “Ni uma a menos” pôs em evidência a interdependência do cuidado feminino e o trabalho não-pago, além do endividamento a penalizar mais mulheres do que homens.
Pierre Dardot e Christian Laval encontram nas interpretações de Verônica Gago uma trilha da construção do comum na prática política, uma vez que a autora afirma que a greve foi resultado de um “agrupamento” (mis em commum, em francês) que permitiu a formação de “um tipo de comunidade política diferente”.[xvi]
Além de Verônica Gago, a filósofa Silvia Federici também é convocada pelos autores quando discutem, no capítulo 14, a cosmopolítica dos mundos múltiplos (ou o “mundizar” de Airton Krenak). É destacada a conhecida crítica de Federici à concepção de Marx do trabalho improdutivo que condenou a mulher à missão de reprodução social.
O “ecofeminismo” concebido por Silvia Federici faz jus a uma seção específica estabelecendo assim um diálogo enriquecedor em torno da política dos comuns ou do estabelecimento, como quer a autora, de “comuns reprodutivos” organizados em “comunidades” como antídoto a uma “forma patriarcal de coletivismo”. Dito de outro modo, criar “formas de trabalho de cuidado mais cooperativos”.[xvii]
Essa diversidade de pontos de vista na abordagem de seu tema principal e a descentralização já citada, faz de Instituer les mondes – Pour une cosmopolitique des comuns uma obra de vanguarda, revitaliza o conceito do comum e mantém os autores em terreno de segurança quando atestam que é inútil contar com a “comunidade internacional” para superar os antagonismos das soberanias estatais e que uma ação coletiva com respaldo em uma nova cosmopolítica é urgente.
A ampliação dos argumentos deixa Pierre Dardot & Christian Laval
ainda mais confortáveis intelectualmente na defesa de que “os mundos” surgirão no seio dessas erupções cosmopolíticas: as lutas ecológicas, feministas, antirracistas, indígenas, sindicais, camponesas e de gêneros. Jamais nas superestruturas.
*Jorge Felix é professor da pós-graduação em Gerontologia na EACH-USP e pós-doutorando no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), em Paris.
Referência

Pierre Dardot & Christian Laval. Instituer les mondes – pour une cosmopolitique des comuns. Paris, La Découverte, 2025, 776 págs. [https://amzn.to/4dzOCan]
Notas
[i] Tirole, Jean. (2020) Economia do bem comum. Rio de Janeiro: Zahar. Em Comum, ensaio sobre a revolução do século XXI, Dardot e Laval iniciam o livro explicando a questão semântica entre bem comum e comum, que talvez tenha limitado a análise e a popularização da tese de Jean Tirole.
[ii] Ver: Losurdo, Domenico. (2022) A questão comunista – história e futuro de uma ideia. São Paulo: Boitempo.
[iii] Ver: Bernardes, Márcio de Souza. (2023) O comum na filosofia política de Antônio Negri: a restauração de um projeto comunista. In: Ruschel, Caroline Vieira; Milioli, Geraldo (org). O comum e os comuns: teoria e prática para um bem viver planetário. Criciúma, SC: Ediunesc. p. [79]-140.
[iv] Habermas, Jürgen. (2012) Sobre a constituição da Europa. São Paulo: Editora Unesp.
[v] Dardot, Pierre; Laval, Christian. (2016) A nova razão do mundo – ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo; Boitempo. pp. 382-383.
[vi] Dardot, Pierre; Laval, Christian. (2017) Comum – ensaio sobre a revolução no século XXI. São Paulo: Boitempo. p. 581.
[vii] Kant, Emmanuel. (2008) A paz perpétua e outros opúsculos. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70. p. 147.
[viii] Dardot e Laval, 2017, p. 582.
[ix] Karl Polany, evidentemente, está presente na análise dos autores desde o livro anterior.
[x] pp. 343, 386, 553, 554, 752, 757, 758. A título de ilustração, Krenak é o autor brasileiro com mais livros expostos nas vitrines e prateleiras das livrarias mais importantes de Paris na atualidade.
[xi] Krenak, Ailton. (2019) Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras.
[xii] p. 554
[xiii] p. 553
[xiv] Ver: Hamou, D., Savazoni, R. (2024) Comum, trilha para a reconstrução da democracia. Outras palavras. Disponível neste link
[xv] p. 303
[xvi] p. 306 Sobre o trabalho de Verônica Gago sobre o endividamento feminino, ver: Gago, Verônica; Cavallero, Luci. (2021) Uma leitura feminista da dívida. Porto Alegre: Criação Humana. Federici, Silvia; Gago, Verónica; Cavallero, Luci (Orgs.) (2023) Quem deve a Quem? Ensaios transnacionais de desobediência financeira. São Paulo: Elefante. Debert, G.G.; Félix, J. S. (2025) Gênero e a financeirização da vida. Cadernos Pagu, 73, e257312.
[xvii] pp. 535-537.

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