Por NADJA RAKOWITZ & FRANK ENGSTER*
Mais que um intérprete de Marx, Backhaus foi um pensador que experienciou a dialética na pele: sua vida errante entre duas Alemanhas e sua fúria teórica contra o simplismo econômico marcam uma trajetória de coerência rara
Hans-Georg Backhaus é considerado, juntamente com Helmut Reichelt, um pioneiro e fundador da chamada Nova Leitura de Marx [Neuen Marx-Lektüre], à qual hoje são por vezes associados intérpretes bastante diversos de Karl Marx. O que era novo, em meados da década de 1960, era sua leitura “lógico-categorial”, também chamada “analítico-formal”, da análise da forma do valor em Marx – em oposição às interpretações historicizantes e sociologicamente reduzidas do início de O capital.
Uma tal leitura lógico-categorial tinha, de fato, predecessores tanto no marxismo clássico e no chamado “marxismo ocidental” quanto na Teoria Crítica. No entanto, apenas Hans-Georg Backhaus extraiu dela aquela consequência radical que pode ser descrita como uma virada copernicana na crítica do valor e do dinheiro orientada em Marx: a crítica da teoria pré-monetária do valor, isto é, das teorias que derivam o valor ou do trabalho ou da troca de mercadorias e que, a partir disso, procuram construir uma teoria positiva do valor. Segundo Hans-Georg Backhaus, o dinheiro é logicamente primeiro – não há valor sem dinheiro!
O capital como crítica
Isso tinha implicações teóricas e políticas de grande alcance. A mais importante delas era que Hans-Georg Backhaus levava a sério, de modo consequente, o subtítulo de O capital: em Marx trata-se de uma crítica da economia política, e não de uma economia melhor. Marx não era um Ricardo melhorado, cuja teoria pudesse servir de base para a construção de uma economia socialista.
Pelo contrário, ele pretendia realizar uma crítica da totalidade do capitalismo e de sua economia política, por meio da qual somente se tornariam compreensíveis as próprias dimensões de sua abolição. Os três volumes de O capital constituíam o início dessa obra inacabada.
Hans-Georg Backhaus formulou os fundamentos para uma tal compreensão de O capital como crítica e os desenvolveu a partir da conexão interna entre dinheiro e valor. Essa grande intuição – a necessidade de uma unidade entre a crítica do dinheiro e a crítica do valor – foi exposta por ele repetidamente em uma série de artigos; contudo, nunca escreveu um livro próprio nem desenvolveu plenamente as consequências e implicações de sua abordagem a partir dos três volumes de O capital.
Alguns dos seus ensaios foram traduzidos para diversas línguas; hoje Hans-Georg Backhaus é conhecido não apenas na Europa e no mundo anglófono, mas também, por exemplo, na China, no Japão e na Coreia do Sul. Seus textos mais importantes foram publicados em 1997 em um volume intitulado Dialética da forma do valor, no qual também se encontram os Materiais para a reconstrução da teoria do valor de Marx I–IV, elaborados na década de 1970.
Os títulos do livro e desses materiais expressam com precisão aquilo em torno do que Hans-Georg Backhaus girou durante toda a sua vida. Incansavelmente, demonstrou aos economistas burgueses que eles não compreendem o seu próprio objeto fundamental – dinheiro e valor –, mas que essa incapacidade se deve à “monstruosidade” do próprio objeto econômico. No entanto, ele atribuiu essa mesma incapacidade no conceito de dinheiro e valor também ao adversário da teoria econômica burguesa: o marxismo clássico.
Considerava igualmente limitada a compreensão da crítica marxiana da economia política presente na Teoria Crítica, embora sempre se tenha entendido como aluno de Theodor Adorno. Por fim, ele também identificou no próprio Marx “ambivalências” no conceito de valor e de dinheiro, bem como no seu método de exposição – ambivalências que, contudo, residem na própria coisa e que, nesse sentido, apontam para um problema, talvez até para um limite da própria ciência econômica enquanto tal.
Experienciar o que significa dialética
Hans-Georg Backhaus morreu em sua cidade adotiva, Frankfurt am Main, onde viveu até o último dia com plena lucidez, dotado de uma memória fenomenal e cercado por sua biblioteca caótica. Quem o visitava era recebido, sem muitas fórmulas de cortesia, imediatamente com alguma nova descoberta proveniente do que ele havia acabado de ler.
Nos últimos anos, tratava frequentemente de livros de história. Ele se dedicava à Revolução Francesa e, em particular, às suas frações de esquerda. Além disso, preocupava-o a história do nacional-socialismo na Turíngia, na qual via paralelos com desenvolvimentos atuais que o inquietavam.
Ele também se ocupava da Turíngia porque, nascido em 1929, cresceu ali, na pequena cidade de Remda, perto de Rudolstadt, e vivenciou pessoalmente o fascismo turíngio. Após a guerra, permaneceu inicialmente na Turíngia e, na República Democrática Alemã, teve a possibilidade de concluir o ensino secundário em uma espécie de ginásio noturno.
Ainda que na década de 1950 tenha ido para o Oeste, para Heidelberg, a fim de estudar direito, ele sempre reconheceu à RDA o mérito de ter possibilitado isso já naquela época e, mesmo depois de 1989, nunca participou da atitude depreciativa em relação à RDA que se tornou comum inclusive em amplos setores da esquerda.
Em 1961 mudou-se para Frankfurt porque, como sempre contava, queria “finalmente experienciar o que significa dialética”. Assistiu inicialmente às aulas de Max Horkheimer, também às de Karl Heinz Haag e, a partir de 1962, às de Theodor W. Adorno. Já antes tivera contato, entre outros, com Heinz Brakemeier e Leo Kofler, que desenvolviam uma interpretação antistalinista de Marx, e participara dos seminários de fim de semana de Kofler.
Desde então passou a dedicar-se à teoria do valor de Marx e encontrou por acaso um exemplar da primeira edição de O capital, de 1867, no espólio do combatente da resistência Hermann Brill, com cuja trajetória então se ocupava. A comparação entre o texto da análise da forma do valor na MEW 23 e essa primeira edição tornou-se o impulso inicial para a nova leitura de Marx por Hans-Georg Backhaus, pois sobretudo a “transição” do valor para o dinheiro, bem como observações metodológicas, estão ausentes na versão posterior de O capital. A isso somou-se sua recepção dos Grundrisse, até então pouco considerados.
Ele apresentou um primeiro resultado em uma exposição no seminário de Theodor Adorno, mas isso – para grande decepção de Hans-Georg Backhaus – não produziu o efeito esperado. Ainda assim, mesmo atribuindo a Theodor Adorno mais “intuições geniais” sobre Marx e O capital do que um conhecimento aprofundado, Hans-Georg Backhaus manteve até o fim grande estima por ele.
As descobertas de Hans-Georg Backhaus foram então retomadas por Helmut Reichelt e Hans-Jürgen Krahl, embora por vezes sem mencionar Backhaus de maneira adequada. Também Diethard Behrens e Kornelia Hafner continuaram a trabalhar a partir das teses de Hans-Georg Backhaus. E, na década de 1990, formou-se em Frankfurt, na universidade (e logo também em outros lugares), um pequeno grupo de estudantes que desenvolveu ainda mais a leitura de Marx proposta por Backhaus e Behrens e publicou sobre ela, entre outras coisas em teses de doutorado.
Aparições lendárias
Para além de Frankfurt, suas teses passaram a ser discutidas nos encontros da “Marx Gesellschaft” [Sociedade Marx], fundada em 1994 por ele, Diethard Behrens, Heinz Brakemeier, Hans-Joachim Blank, Michael Heinrich e outros. As aparições de Hans-Georg Backhaus nos seminários da universidade, mas também nos encontros da Marx Gesellschaft, tornaram-se lendárias. Ele se dedicava de tal maneira às suas questões e teorias que podia facilmente se exaltar: repreendia o interlocutor, saía da sala, encerrava abruptamente as atividades – para então retornar meia hora depois e continuar a discussão de maneira cordial.
Ele conservou esse temperamento até o fim. Sua indignação diante da estupidez e da ousadia de muitos políticos contemporâneos, mas também de alguns acadêmicos, era revigorante. Quando estava em boa forma e, por exemplo, se mencionavam os nomes de Saskia Esken ou Jürgen Habermas, era possível fazê-lo ferver de indignação.
Esse ímpeto contrastava fortemente com sua profunda gentileza para com os amigos, com os profissionais de cuidado e com todos os visitantes que não diziam disparates políticos. Apesar de sua crítica contundente e de seu desprezo pela sociedade capitalista, Hans-Georg se contentou com sua situação pessoal até os últimos anos e nunca se queixou. Pelo contrário, gostava de comer carne de caça, alegrava-se com os bolos e com as sopas preparadas pela cuidadora polonesa. Ria alto e com frequência, até o dia de sua morte.
Com Hans-Georg Backhaus não aprendemos apenas a ler Karl Marx, mas também como manter firmeza de caráter quando o vento sopra em sentido contrário.
*Nadja Rakowitz é filósofa. Autora, entre outros livros, de Einfache Warenproduktion: Ideal und Ideologie (Ca Ira Verlag).
*Frank Engster é filósofo.
Tradução: Rafael Padial.
Publicado originalmente no portal nd.

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