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Feliz ano novo do cavalo

Do A Terra É Redonda, 27 de março 2026
Por SAMUEL KILSZTAJN*


Entre o cavalo castrado e domado e os déspotas que transformam prazer em poder, o que nos resta é o olhar do outro, porque, no fim, a única dignidade está na companhia que escolhemos

Quando ainda potro, o cavalo é castrado. Mesmo depois de castrado, para permitir que montem em seu lombo, ele ainda precisa ser domado. Depois de castrado e domado, para conduzi-lo, deve-se meter um freio de ferro em sua boca, entre os dentes, acionado com o auxílio de rédeas. Chicotes e esporas também podem ser empregados. E, por fim, ele só vai se dignar a puxar alguma carroça se taparem a sua visão com viseiras.

Aos 18 anos de idade, apanhei na prisão sem esboçar a mínima reação, para não alimentar a ira dos meus algozes (apanhar é eufemismo porque, na verdade, fui torturado). Quando voltei para casa, meu pai, para emendar, desfechou um soco na minha cara, que só não me atingiu porque eu treinava karatê. Fugi de casa!

Minha professora de ballet clássico dizia que as mulheres tinham que dançar igual homem; e os homens igual cavalo. E, para distensões musculares, empregávamos a pomada calminex de uso veterinário. É impossível adivinhar o esforço físico de um bailarino por detrás de seu semblante enlevado.

Feliz ano novo do cavalo de fogo chinês!

Tristes limites mundanos

Feliz ou infelizmente, não sabemos de onde viemos, para onde vamos e muito menos onde estamos. Deste lado do paraíso, só nos resta nascer, crescer, procriar (ou não, devemos hoje acrescentar), entrar em decadência e morrer. E, neste percurso, podemos sentir prazer no conforto, alimentação, sexo e, principalmente, no convívio social. Contudo não consigo entender o apego à vida, qual é a vantagem de se ficar insistindo em eternizar a juventude e adiar a morte?

O apego à vida e o medo da morte atravancam viver a vida em sua plenitude. Acho que só quer eternizar a juventude e adiar a morte quem não viveu com desprendimento cada uma das etapas de sua vida. Sartre costumava dizer que a saúde foi feita para gastar. Certamente todos querem evitar o sofrimento, mas quanto mais prolongamos a vida, mais expostos estaremos ao sofrimento – ninguém merece!

Quando a realidade é muito frustrante, você pode se entreter com um livro, passar duas horas no cinema ou também encher a cara de drogas. Entre nós, dinheiro compra tudo, garante conforto, boa alimentação, realização de fantasias sexuais, generosas doações filantrópicas e poder sobre outros corpos, inclusive de funcionários públicos e juízes. Mas a distância entre o rei e o mendigo é muito estreita, por mais que se reforce a pobreza da plebe, porque os prazeres mundanos são muito limitados.

Não faço voto de pobreza, não sei se um camelo consegue passar pelo fundo de uma agulha, nem se os ricos vão entrar no reino de Deus – o que sei é que, deste lado do paraíso, de forma geral, os pobres vivem alegres e os ricos vivem entediados. O apego aos prazeres mundanos exige contínuas doses crescentes. A pessoa pode ter muito dinheiro, mas quer mais, pode ter muito poder, mas quer mais, muito prazer sexual, mas quer mais – afinal, ela é especial. Conta-se que Nero provocava vômitos para continuar ingerindo alimentos e que Calígula vivia em intermináveis orgias sexuais.

E de que me adianta todo esse dinheiro que acumulei com a minha esperteza e labuta, que pode comprar mercados inteiros e fechar boates, se disponho de um só estômago e um único órgão sexual? Então vou reunir os amigos num yacht e enchê-lo de adolescentes, porque burro velho gosta mesmo é de capim novo… O que não é a vaidade? – nada mais lhe entretém. Pequenos e grandes déspotas, tudo é vaidade, diria o Eclesiastes no Velho Testamento.

Os arquivos do escandaloso caso Jeffrey Epstein citam políticos, empresários, artistas, cientistas e até consagrados intelectuais como Noam Chomsky. É provável que Donald Trump só não esteja formalmente mais comprometido no caso Epstein por conta de blindagem (há também quem afirme que Benjamin Netanyahu possui documentos de Jeffrey Epstein que incriminam Donald Trump diretamente).

Nos anos 1980, levei minha filha e um bando de pré-adolescentes para um final de semana na praia. As meninas reclamaram que os meninos as beijavam e, depois, saíam contando a façanha por aí. Perguntei aos meninos se eles poderiam se ater a beijar as meninas comprometendo-se a ser discretos. E o líder dos meninos disse: “mas então, qual seria a graça!?”

O prazer pode estar relacionado à repressão aos instintos. Todo impulso contido ganha intensidade e densidade. Peço desculpas por entrar em um terreno um tanto quanto escatológico, mas até defecar pode ser prazeroso. Como assim? É só perguntar para alguém que sofre de constipação intestinal. O que eu quero dizer com tudo isso, em bom português, é que o Jeffrey Epstein fez e Donald Trump continua fazendo merda. Sexo é um tabu que envolve o prazer da carne, a procriação e o poder.

O ocidente levou a extremos a divisão entre o bem e o mal, o divino e o pecaminoso – aspira-se pelo bem e sucumbe-se ao mal. Em Memórias, sonhos e reflexões, Carl Gustav Jung, filho de pastor protestante, relata uma imagem a seus olhos aos 12 anos de idade: “O mundo é belo, a igreja é bela, e Deus, que criou tudo isso, está sentado lá no alto, no céu azul, em um trono de ouro…” Mas Carl Jung não conseguiu completar a imagem e entrou em profundo sofrimento. Após três dias de angústias, reprimindo o pensamento, conseguiu enfim dar sequência à imagem e entrou em êxtase. “… Deus está sentado em seu trono de ouro, muito alto acima do mundo – e, debaixo do trono, um enorme excremento cai sobre o telhado novo e brilhante, que se estilhaça, e destrói as paredes da catedral” (Desculpem mais uma vez, até parece obsessão).

O cavalo de fogo já está dando os seus coices, neste momento em que o Irã está sendo bombardeado pelos irresponsáveis Donald Trump e Benjamin Netanyahu.

Meta ou caminho? Fins ou meios?

Via de regra, as pessoas se decidem por uma das duas opções que ofereço, principalmente pelo caminho. Quando digo, inspirado na cultura chinesa, que o mais importante é a companhia, elas geralmente reclamam “mas você não ofereceu esta opção!” Aí eu digo que elas podem ser criativas, não precisam necessariamente se ater às opções que os outros lhe oferecem.

Ernest Hemingway, em Adeus às armas, a partir de sua experiência na Primeira Guerra Mundial, preconiza que quem está ao seu lado na trincheira importa mais que a própria guerra – “Palavras abstratas como glória, honra, coragem ou sagrado soavam obscenas ao lado dos nomes concretos das aldeias, dos números das estradas, dos nomes dos rios, dos números dos regimentos e das datas.”

George Orwell começa sua Homenagem à Catalunha citando o encontro casual com um miliciano italiano com quem teve uma afeição imediata – “eu esperava que ele gostasse de mim tanto quanto eu gostava dele”. Este encontro ficou gravado em sua memória como o símbolo da atmosfera de Barcelona em 1936.

Nestes tempos tenebrosos pelos quais estamos passando, e dado o avançado da minha idade, sinto o calor dos amigos que me acompanharam e que, vivos ou mortos, continuam me acompanhando nesta minha jornada. Os companheiros que fui cruzando na vida portavam símbolos manifestos, porém discretos, como, guardada a devida distância, o esquadro e o compasso que os maçons portam ocultos no avesso da gola do paletó.

Qualquer que seja a meta ou o caminho que esteja seguindo, basta olhar para as pessoas que você cruza em sua jornada para se certificar se está no lugar certo. Você se reconhece no olhar do outro, na companhia que, de seu ponto de vista, dignifica a nossa condição humana.

Me empenho para me libertar do mal ancestral que carrego dentro de mim. Os amigos compartilham os nossos sonhos e pesadelos, nos ajudam a amortecer as vicissitudes, os altos e baixos com que nos deparamos em nosso caminho, fazem crescer em nós o gosto de viver. No trem da vida, às vezes, também nos deparamos com jovens desconhecidos que sabemos portarem, em seus corações, os ideais que sempre nos acalentaram.

*Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de 1968, sonhos e pesadelos [https://amzn.to/4pdWVen]

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