Por FLAVIO AGUIAR*
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Imagem: Alexandre Lalemand |
Do Concerto Europeu ao silêncio obsequioso, a longa agonia de um continente
“Os Deuses vendem quando dão / Compra-se a glória com desgraça” (Fernando Pessoa, Mensagem).
1.
A Europa é o continente que tem mais países por quilômetro quadrado: 50. Nesta contagem, tomo duas liberdades. Primeira: estou incluindo o chamado Chipre Turco, a metade da ilha que se declarou independente e que só a Turquia reconhece. Segunda: excluo a Rússia, que geopoliticamente foi expulsa da Europa e passou a ser um país exclusivamente asiático, levando consigo quase 10% do território geográfico europeu.
Também é o continente cujo mapa de países soberanos e cujas fronteiras passaram por mais mudanças desde o século XIX, todas elas dramáticas e traumáticas.
O século XIX viveu sob a égide conservadora do chamado “Concerto Europeu”, nascido em 1815 no Congresso de Viena, pós-napoleônico.
A miríade de reinos, ducados e principados em que se dividia a Europa atravessou este período sob a liderança dos países vencedores, Rússia, Prússia, Grã-Bretanha e Áustria, e da França Restaurada, que virou República, depois novamente Império, e por fim de novo República.
Este “Concerto Europeu” passou por sérios abalos, como o isolamento da Rússia durante e depois da Guerra da Criméia (1853 – 1856), e a Guerra Franco-Prussiana (1870 – 1871), que terminou com a derrota humilhante da França e a proclamação do Império Alemão em pleno Palácio de Versalhes, nos arredores de Paris. Assim mesmo, ele incorporou o Império Otomano e sobreviveu até seu fim apocalíptico na Primeira Guerra Mundial, quando desapareceram o Império Alemão e o Austro-Húngaro, o Imério Otomano começou a se desfazer e o Império Russo se transformou na União Soviética.
A partir daí a Europa se viu convulsionada pela ascensão do nazi-fascismo e suas anexações até o final da Segunda Guerra Mundial. A Europa que emergiu desta hecatombe viveu dividida entre o Ocidente, transformado num protetorado norte-americano através da OTAN, e o Leste, administrado pela União Soviética através do Pacto de Varsóvia.
Apesar das ditaduras na Grécia, na Espanha e em Portugal, a Europa Ocidental deste momento caracterizou-se em grande parte pela social-democracia, vista como uma alternativa democrática aos regimes comunistas.
2.
O colapso da URSS abriu espaço para a criação da União Europeia em 1999, que hoje abrange 27 países, secundada pela Zona do Euro, moeda adotada por 20 deles. Desde então houve uma aproximação dos países do antigo Leste Europeu da OTAN e dos Estados Unidos, intensificada pela Gerra na Ucrânia a partir de 2022.
A União sofreu um forte abalo com a saída do Reino Unido a partir de 2016, depois de um plebiscito catastrófico chamado pelo primeiro-ministro conservador David Cameron. Hoje também está pressionada pela política imperial adotada pelo governo de Washington, liderado por Donald Trump.
Algum tempo atrás a União Europeia e por tabela a Europa toda tinham o aspecto de um Ancien Régime equilibrado, vetusto e estável.
Entre o final da primeira e a metade da segunda década deste século este equilíbrio reinou. A inflação continental era baixa, o euro era valorizado e estável, os problemas sociais eram evitados, mitigados ou contidos. Os planos de austeridade imperavam, incontestes.
Havia uma Rainha-Mãe (Angela Merkel) severa, mas simpática e protetora; um burgomestre (Nicolas Sarkozy) saltitante e seguro de si, sucedido por outro (François Hollande) menos lustroso, mais cinzento e opaco, mas igualmente confiável para o equilíbrio das finanças. Havia uma Príncipa Herdeira, Úrsula von der Leyen, que, de fato, veio a herdar da Rainha-Mãe o reino da União Europeia.
Na ilha o brilhoso e faceiro David Cameron, Embaixador da Corte junto aos ilhéus, dava as tintas conservadoras; o mesmo fazia desde a Capela Sixtina o doutrinário e ultra-montano Capelão-Mor, Bento XVI. Havia até um Bobo da Corte em Roma, Silvio Berlusconi. E na Tesouraria quem dava as tintas no Banco Central Europeu, desde o Bundesbank em Frankfurt, o Banco Central Alemão, era Jens Weidman, que faria Roberto Campos parecer um aventureiro esquerdista.
Não faltava nem mesmo um Rasputin, Vladimir Putin, que irrigava a economia alemã e europeia com o gás russo. Para completar a cena, houve até um Príncipe Rebelde, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, do esquerdista Syriza, cujo governo foi reduzido a frangalhos pela pressão da Rainha-Mãe e seus aliados nos bancos credores alemães e outros europeus.
Este bloco tinha a firmeza de um gigantesco iceberg, e como um iceberg ele derreteu a partir de 2016, quando David Cameron meteu os pés pelas mãos com seu desastrado plebiscito.
Hoje todos aqueles personagens são sombras do passado, com exceção de Vladimir Putin, que permanece mais vivo do que nunca, mas banido para a Ásia, sob o braço protetor de Xi Jinping.
3.
O derretimento definitivo aconteceu a partir de 2022, com a adesão da Alemanha às sanções econômicas contra a Rússia, devido à guerra na Ucrânia e a pressão norte-americana. Moscou fechou as torneiras do gás, e a crise energética abalou profundamente a economia alemã e por conseguinte a europeia. Aliás, os gasodutos entre a Rússia e a Alemanha foram sabotados num incidente até hoje não esclarecido.
Aqueles personagens acima enumerados foram substituídos pela atual coleção de mediocridades espantosas, com raras exceções: Pedro Sanchez na Espanha, Francisco I e agora Leão XIV no Vaticano e um ou outro perdido no nevoeiro em que a Europa se transformou.
No comando da União Europeia Ursula von der Leyen parece uma comandante sem comandados, já que seus súditos permanecem mais atentos às platitudes de Friedrich Merz ou aos cada vez mais raros lampejos de lucidez de Emmanuel Macron defendendo a soberania europeia, sem falar nos arrancos tonitruantes de Donald Trump.
A Europa estagnou no atoleiro de sua fragmentação. A alternativa que os principais países do continente encontraram para enfrentar a crise econômica foi apostar na indústria de armamentos. Por um lado isto procura capitalizar a russofobia como elemento de união. Por outro, o militarismo crescente impulsiona os nacionalismos xenófobos e as tradicionais bandeiras particularistas das extremas direitas, que crescem por todo lado.
A contaminação de todos os partidos pela xenofobia vem provocando a retomada dos controles policiais nas fronteiras terrestres, o que enfraquece o acordo de Schengen, que prevê a livre circulação entre os países signatários.
Dirigentes e ministros falam abertamente na inevitabilidade de uma guerra com a Rússia, o que eleva o tom com Viktor Otban, o primeiro-ministro húngaro, mais próximo de Moscou.
Politicamente os países nórdicos, antigos esteios da social-democracia, estão, como a Alemanha, acossados pela extrema-direita. Esta ocupa o governo italiano e pressiona outros. Na maior parte os partidos social-democratas e socialistas renderam-se aos princípios do neo-liberalismo e dos planos de austeridade. Muitos dirigentes dos Partidos Verdes traíram o ideal pacifista de sua fundação e aderiram ao crescente militarismo, descrito como “defensivo”.
A primeira reação da maioria dos governantes europeus diante do tarifaço de Donald Trump foi de subserviência ou contemporização. Mais recentemente Friedrich Merz e Emmanuel Macron vêm esboçando alguma reação retórica, este um pouco mais ruidoso do que aquele. Keir Starmer, do Reino Unido, vem mantendo um silêncio obsequioso.
Os partidos mais à esquerda seguem divididos e impotentes. Seu melhor desempenho acontece na França, onde os votos úteis da França Insubmissa têm assegurado a vitória de Emmanuel Macron no segundo turno, contra a extrema direita de Marine Le Pen.
Em matéria de política externa, a encarregada da pasta na União Europeia, Kara Kallas, da Estônia, é ferozmente antirrussa. Antes de Donald Trump assumir a Casa Branca os EUA vinham retomando a instalação de ogivas nucleares e mísseis na Europa. E dirigentes do antigo Leste Europeu aplaudem a retomada.
Donald Trump exorta os países europeus a investirem mais na OTAN e na própria capacidade militar. Mas até agora não falou em diminuir a presença militar dos Estados Unidos no continente. Washington mantém lá mais de 100 instalações militares. A maior delas é a Base Aérea de Ramstein, na Alemanha, com cerca de 16.200 norte-americanos estacionados.
A reação entre pusilânime e tíbia da maioria dos governantes europeus diante da agressão israelense e norte-americana ao Irã mostra como ainda permanecem a reboque dos EUA em matéria de geopolítica. Emmanuel Macron exibiu uma reação um pouco mais enérgica, exortando seus “parceiros europeus” a dependerem menos de terceiros e projetando um aumento do poderio nuclear e convencional da França.
Quanto à América Latina, duas únicas vozes se levantaram defendendo a soberania da Venezuela ou criticando abertamente a invasão norte-americana: a do Papa Leão XIV e a do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, respectivamente. Este último criticou abertamente o ataque dos EUA e Israel ao Irã, e negou autorização para que Washington use bases espanholas, o que enfureceu Donald Trump.
Há iniciativas de diversificar a pauta comercial europeia, por exemplo, com a assinatura do acordo de livre-comercio com o Mercosul.
Além de na França, há resistências localizadas em países como a Itália, Polônia, Luxemburgo, Holanda, Irlanda, Áustria e Bélgica. Ursula von der Leyen declarou que vai implementar o acordo assinado, “mem que seja provisoriamente”.
Houve um avanço crucial com a Índia, com a assinatura de acordo semelhante, depois de 20 anos de negociação, restando ver quem será beneficiado. Apesar da pauta do acordo ser ampla, fala-se sobretudo em vantagens no campo da tecnologia militar.
Em resumo, é difícil visualizar que Europa sairá deste atoleiro, porque, antes de maus nada, é difícil imaginar que, no curto e médio prazos, ela sairá dele.
*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo). [https://amzn.to/48UDikx]

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