Pages

Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários

Do A Terra É Redonda, 12 de março 2026
Por FELIPE SANCHES*



Imagem: Meike

As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil

12 de março de 2026 é o Dia da Bibliotecária e Bibliotecário. O governo do presidente Lula, recentemente, atualizou o programa Minha Casa, Minha Vida. Uma das novidades que o presidente anunciou, entre as qualificações que visam promover o acesso a direitos fundamentais, foi a criação de Bibliotecas Comunitárias nas novas unidades do programa habitacional. Em uma mídia de divulgação do governo federal, pode-se ver o conceito que rege esses espaços: salas com paredes e mobiliários brancos, uma estante e alguns poucos livros. Evidentemente, o foco do programa é criar habitações que ofereçam progressivamente melhor qualidade de vida a pessoas de baixa renda; e não a criação de dispositivos culturais. Mas há, entretanto, uma importante discussão que pode ser feita sobre a visão dos governos Lula e da esquerda, em grande medida. Para ir direto ao ponto: as Bibliotecas são, quando muito, elementos secundários, dadas pouca importância, e simbolicamente passivos, quase estático, onde pouco acontece, onde falam poucas vozes. Nesse sentido, são um espaço de lazer insosso e sem vida.

Todo dia 12 de março comemoramos o dos trabalhadores bibliotecários. A data é uma lembrança a Manuel Bastos Tigre, nordestino que viveu a virada do século XX, primeiro Bibliotecário concursado do Brasil. Engenheiro de profissão, Bastos Tigre foi aos Estados Unidos especializar-se, e lá conheceu o então bibliotecário-chefe da Universidade de Columbia, Melvil Dewey. Retornando desse importante encontro, eventualmente tornou-se Bibliotecário do Museu Nacional. Esse seu mentor, entretanto, é de especial interesse para nós. Ele criou, como fruto de seu trabalho, um Sistema de Classificação — isto é, uma maneira de organizar livros — que acabou por se tornar o método mais utilizado pelas Bibliotecas no Mundo: até mesmo na Índia, país de outro cânone da área de organização. Esta constatação já dá apresenta pedaço do problema: nesse caso, do contexto de imperialismo e colonialismo que envolve as Bibliotecas. Seja por esse fato do domínio estadunidense, seja pelo sistema de Dewey carregar essencialmente a forma de pensar de um homem branco do ocidente.

Isso já é suficiente para colocar o problema e voltarmos a relacioná-lo com o problema inicial. Ainda mais no contexto altamente contraditório em que vivemos; de um lado o desenvolvimento das chamadas “Inteligências Artificiais” – IA; de outro, as escolas sem biblioteca funcionando. A Biblioteconomia é política.

As bibliotecas estão atravessadas pela política — seja pela questão do letramento, memória e verdade, ou direito à cultura — e quem as faz também deve ser político. Se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao papel estratégico das Bibliotecas no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil. Se proibimos ou deixamos de incentivar sua existência, nos tornamos uma nação sem memória, sem capacidade de ler o presente, e sem possibilidades de Futuro. Sem o fator fundamental, o ser humano, os bibliotecários e trabalhadores de bibliotecas, não há bibliotecas. Sem eles, não há um intermediário entre o livro, a informação que seja, e o usuário; sem uma sustentação em tripé, as dinâmicas culturais desmoronam sobre si.

Nessa empreitada, as bibliotecas tomam outra dimensão, para além de maçantes salas com livros. Por isso dizemos que a “Biblioteconomia é política”, não é neutra. Mas mais do que isso, é necessário levar a cabo tudo isso e defender a materialidade dessa afirmação. Defender as bibliotecas, hoje, é defender principalmente as pessoas que nela trabalham. E, hoje, se entender pessoa bibliotecária dentro desse escopo perpassa por uma reflexão crítica da formação acadêmica nas universidades e da atuação conjunta enquanto categoria. O mito da neutralidade bibliotecária é perverso nesse sentido, ele divide uma categoria que já é nucleada quase que por definição. Por isso mesmo uma articulação bibliotecária nacional: nossos locais de trabalho são campos sígnicos, que refletem e projetam o sistema epistêmico de nossa sociedade. As bibliotecas do Minha Casa, Minha Vida, então, têm o potencial de serem dispositivos de formação do pensamento crítico. Mas para isso, os bibliotecários e todos aqueles que valorizam a interculturalidade e a criticidade devem defender bibliotecas cada vez melhores, que reflitam nosso projeto de país.

*Felipe Sanches é bibliotecário e integrante do SinBiesp. É mestrando em Ciência da Informação na ECA/USP. Organizador da iniciativa A Biblioteconomia é política.

Nenhum comentário:

Postar um comentário