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Das terras raras às terras áridas: o país no limiar entre a bênção e a maldição

Do GGN, 2 de março 2026
Por Susana Prizendt




Poucos assuntos têm tido tanto destaque nos debates geopolíticos como o das chamadas terras raras.

“Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para o seu interior, para decidir o que usar, o que fazer, onde avançar, onde recuar. Como um médico a procura do coração”
Itamar Vieira Junior, Torto Arado

(artigo escrito inteiramente por uma pessoa humana)

Suspensa em um apartamento de um bairro cada vez mais verticalizado da capital paulista – assim como outras milhões de pessoas urbanizadas -, posso esquecer que, sob todas as camadas de concreto abaixo de mim, existe um elemento natural chamado solo. Mas, ao regar minhas plantinhas na janela, procuro me conscientizar de que, apesar do crescente sufocamento ao qual ele tem sido submetido, ele ainda está lá, resistindo a ser dado como morto.

Há mais de 4 décadas, a Dra Ana Primavesi, mestra inconteste de quem atua nos movimentos agroecológicos, já semeara, no meio acadêmico brasileiro, algo que nossos povos originários sempre souberam: o solo é um organismo vivo. Ele pulsa, gestando lentamente as condições para a existência do que chamamos de fertilidade.

Estima-se que um quarto das espécies de seres vivos já conhecidas por nós esteja no solo. É o dobro das que habitam os oceanos. Uma biodiversidade que envolve animais, vegetais, fungos e uma infinidade de microorganismos, em uma trama dinâmica e vibrante, responsável pela ciclagem da matéria. Este é o processo que permite o crescimento das plantas; são elas que vão alimentar a fauna local e, também, a população humana.

Se você tem uma composteira, com certeza já possui familiaridade com o que chamamos de ciclo alimentar. Como nada na natureza é lixo, os resíduos do que comemos são transformados em adubo e podem voltar para os territórios que geraram esses alimentos, enriquecendo seus solos para que sigam férteis. Desse modo, mais cultivos virão, mais comida chegará ao nosso prato e a vida continuará seu curso.

Quer dizer, ao menos era para ser assim… se nosso modelo produtivo, dominado pelo capital globalizado, não tivesse implodido a circularidade de seus processos. É o que Nêgo Bispo – pensador quilombola que esteve recentemente no centro de uma pendenga acalorada dentro da intelectualidade dita progressista – caracterizava como modelo finito: há um começo, há um meio e há um fim.

No caso dos resíduos alimentares, este fim (que seria apenas simbólico, já que eles seguirão se decompondo junto aos resíduos não orgânicos, trazendo impactos ambientais pra lá de problemáticos) seria o aterro, como vemos constantemente ocorrer com a maior parte do que é chamado popularmente de lixo.

Dos quilombos às aldeias

Como um contraponto ao modelo produtivo dominante, Bispo defendia que o modo de vida nos quilombos não pode ser enquadrado nesse tempo linear. Assim, o que há em seus territórios é algo como um “flerte com o infinito”. Ou seja, há um começo, há um meio e há um novo começo; e assim sucessivamente. Essa dinâmica seria, inclusive, uma evidência de que os quilombos não foram colonizados, ideia defendida por ele em suas andanças e escrevinhanças.

Se levarmos em conta que, ainda hoje, esses territórios, junto aos territórios indígenas, são responsáveis pelas áreas mais protegidas do país, podemos compreender a profundidade das diferenças entre nossas formas ocidentalizadas de viver e as formas de viver dos povos tradicionais – que, em meio à ferocidade do capital, ainda resistem bravamente em todas as regiões.

E foi seguindo o rastro dessas raízes ancestrais, que pesquisadores como Eduardo Neves nos revelaram que antigos povoados, estruturados de acordo com essa circularidade, não apenas mantinham seus solos férteis, mas foram responsáveis por um aumento expressivo dessa fertilidade, transformando áreas que tinham um solo pobre em manifestações pulsantes de biodiversidade.

Só a partir dessa descoberta, pudemos perceber que alguns ecossistemas, que eram até então considerados inalterados pela ação humana, na realidade, foram resultado de centenas ou milhares de anos de intervenções de sociedades nativas.

Um exemplo que instiga nosso campo agroecológico é a existência da chamada Terra Preta de Índio (TPI), presente na região amazônica. Trata-se de um solo de origem antrópica, repleto de minerais, como cálcio, fósforo, magnésio e zinco, fruto do manejo da matéria orgânica e não orgânica que sustentava a vida nas comunidades, ao longo de gerações.

Um alento para quem, como eu, tantas vezes se indaga – com tristeza – se os seres humanos têm mesmo uma tendência para mudar para pior os lugares em que se estabelecem.

O que mais impressiona nessa descoberta, é que a produção de um solo fértil, como o encontrado pelos pesquisadores, é algo lento, que depende de condições muito específicas para se viabilizar. A estimativa é que, para formar 1 cm desse tipo de terra sobre uma determinada superfície, é necessário à natureza entre 200 a 400 anos. Ao observar esses dados, podemos nos perguntar: será que as florestas com densas camadas de terra preta de índio teriam algo de mágico?

Deixando de lado a dimensão sobrenatural (a qual não tenho acesso, mas que está sempre presente nas culturas ancestrais), o que podemos dizer é que esses solos são de um valor incalculável para nossos ecossistemas, sobretudo considerando o bioma amazônico, cujos solos costumam ser arenosos, protegidos somente por uma fina camada de matéria orgânica, que precisa ser sempre renovada pelas florestas – o que traz a possibilidade, a cada dia mais tangível, de que sofram um processo de savanização e até de desertificação.

Fertilidade à venda?

Entramos no ano de 2026 com um alerta sobre os preços dos fertilizantes industrializados: houve um aumento consistente, que bateu nos 20%. Para quem não vê muito motivo para fazer alarde, vale observar que o tal do Agro brasileiro, baseado em monoculturas envenenadas, depende fortemente desses insumos e que a dificuldade em obtê-los costuma trazer consequências para toda a cadeia produtiva.

Com esses adubos mais caros, o custo do cultivo fica mais alto e a pressão inflacionária sobre os valores das commodities produzidas aumenta, o que também pode ocorrer com o preço de certos alimentos. Para termos uma noção do grau de vulnerabilidade a que a agricultura convencional nacional está exposta, vejamos que, atualmente, cerca de 90% dos fertilizantes usados por ela são importados e que as principais regiões exportadoras estão envolvidas em conflitos bélicos. Guerra e fome sempre caminham de mãos dadas, não é?

Por falar em guerra e, neste caso, na inexistência de coincidências, é importante saber qual a matéria prima que está na base desses produtos. Húmus de minhoca, bosta de vaca e titica de galinha, adubos orgânicos tradicionais, passam longe da sua composição. É que, assim como os agrotóxicos, eles são constituídos a partir do petróleo, material que fornece a uréia, onipresente nos chamados compostos nitrogenados, negociados às toneladas no mercado internacional.

Portanto, é dedutível que as disputas pelo “ouro negro” estejam umbilicalmente ligadas ao modelo produtivo alimentar. Além de adubos e venenos, é ele quem fornece o combustível para transportar, ao redor do mundo, tanto os insumos adquiridos como os alimentos produzidos (sejam in natura, beneficiados ou industrializados).

É um processo que, ao acelerar o caos climático com a emissão de combustíveis fósseis, também acelera a perda da biodiversidade planetária – que tem, entre seus principais responsáveis, justamente a poluição causada por nitrogênio, bem assentada no terceiro lugar no podium. Perdem-se, inclusive, os microorganismos que garantem a fertilidade dos territórios. Isso mesmo, no idolatrado Agro, a produção e a aquisição de fertilizantes contribui para a infertilidade dos solos, uma das inúmeras contradições que ele coleciona.

Voltando ao plano financeiro, o impacto dessa dependência de fornecedores estrangeiros para “fertilizar” as monoculturas de commodities, das quais tanto se vangloriam as elites econômicas brasileiras, está no centro da tormenta que abate o setor. Estima-se que os gastos com essa importação equivalem a 40% dos custos da produção agrícola convencional. E, segundo relatório da CONAB, seu volume atingiu um novo recorde da série histórica em 2025: 45,5 milhões de toneladas (frente às 44,28 milhões de toneladas registradas em 2024). Haja grana!

A crise da agricultura exportadora, nutrida por fatores geopolíticos e ambientais, amplia o endividamento e ameaça inviabilizar a produção. Segundo o ex-ministro Roberto Rodrigues, ferrenho defensor do Agronegócio, “o custo financeiro atingiu patamares incompatíveis com a lógica da atividade agrícola”. De fato, culturas como a soja seguem batendo recordes de produção, mas não de lucratividade, o que explica as crescentes queixas de seus representantes.

Degradados e desnutridos

Não dá mais para esconder que esse modelo produtivo não pára em pé. Se não fosse o Estado “patrocinando o Agro”, como declarou o ministro Fernando Haddad (o que inclui uma isenção fiscal de 158 bilhões de reais ao ano), a tal potência sustentadora do PIB, anunciada com estrondo pelas propagandas, já teria se estrumbicado de vez. Mas, enquanto não se estrumbica, segue fazendo estragos incalculáveis.

Rememoremos mais uma vez o que diz Ana Primavesi: “a nutrição humana começa na terra. Solo sadio, plantas sadias, pessoas saudáveis.” Se, para a Agroecologia, esse saber está na base técnica e na prática diária, para o Agronegócio, ele é sumamente pisoteado.

Os adubos químicos nitrogenados usados em massa nas plantações, somados a outros fatores que caracterizam essas monoculturas, acabam enfraquecendo as plantas e deixando-as vulneráveis a insetos e fungos. Para evitar que sejam “atacadas” por eles, o uso abusivo de agrotóxicos é uma constante.

Quando chegam ao nosso prato, mesmo depois de passarem por processamento na indústria alimentícia, esses vegetais nos trazem um conjunto de resíduos venenosos que causa danos inquestionáveis à saúde. E são menos nutritivos do que seriam se fossem cultivados segundo princípios agroecológicos. O resultado é a tríade solos doentes, plantas doentes e pessoas doentes – lamentável retrato de nossa sociedade ecocida.

Aqui, chamo a atenção para uma terrível semelhança entre dois dados: o número de pessoas em situação de insegurança alimentar (moderada e severa) e a quantidade de hectares de terras agrícolas degradadas no mundo.

Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), ambos estão em torno de 2 bilhões! Isso significa 40%, no caso territorial, e 28%, no caso populacional. Falta de terra fértil e falta de comida caminhando conjuntamente.

Mas a destruição dos solos não anda de braços dados somente com a falta de comida. Ela afeta o acesso a outro elemento, que, se é essencial à agricultura, também é necessário a todas as dimensões da vida: a água. E as mudanças nos ciclos hidrológicos são expressivas, com o agravamento crescente das secas planetárias. Somente de 2000 à 2024, elas se ampliaram em quase 30%.

Para completar nosso alerta, as previsões não são nada fáceis de digerir: em torno de 7,5 bilhões de pessoas (quase toda a humanidade existente hoje) vão ser impactadas até 2050. A pergunta que não quer calar é: quem seriam as pessoas não afetadas?

Nós, os países do sul global, somos regiões fortemente atingidas pela degradação do solo. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), em torno de 10,9 milhões de hectares de florestas são desmatadas a cada ano no planeta.

Sabemos muito bem como esse processo se dá, não é? É assim que, somente no Brasil, existem mais de 140 milhões de hectares degradados.

Brasil se mexe

É preciso reconhecer que nosso país, após a implementação de programas de combate à fome pelo governo Lula, conseguiu reduzir a insegurança alimentar grave de cerca de 3,1 milhões para cerca de 2,5 milhões de famílias. Isso significa que atingimos os níveis mais baixos da série histórica, como havíamos feito em 2013, saindo mais uma vez do Mapa da Fome. Mas, como a degradação segue corroendo nossos territórios, a situação está longe de ser estável e é urgente resgatar a fertilidade perdida, sobretudo com a intensificação da emergência climática.

A urgência do problema esteve em pauta na COP 30 e a própria FAO integra uma iniciativa, lançada pelo Brasil com apoio de outros nove países, chamada RAIZ – Resilient Agriculture Investment for Net-Zero Land Degradation (em português, Investimento em Agricultura Resiliente para Degradação Líquida Zero da Terra). Ela se propõe a mapear essas áreas, apresentar propostas de ação, reunir os investimentos e compartilhar as experiências.

Desse modo, o RAIZ busca colaborar para que a meta da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca seja atingida. Ela propõe a restauração de 250 milhões de hectares de solo agrícola até 2030, sendo 40 milhões em nosso país e grande parte do restante em países africanos.

A previsão é a de que o valor total dos investimentos necessários para se atingir esse objetivo, ao longo desses 5 anos que temos até lá, seja de 2,6 trilhões de dólares. Parece uma fortuna? Pois é mais ou menos o que se gastou com a indústria da guerra apenas no ano de 2023! E, segundo a Declaração de Belém sobre Fertilizantes, acordo feito entre Brasil e Reino Unido durante a COP 30, o uso excessivo deles “causa danos aos ecossistemas e perdas de colheitas que chegam a US$3,4 trilhões anualmente”.

Além disso, há cálculos de que uma “gestão de nutrientes” mais equilibrada poderia trazer 25 vezes mais benefícios econômicos do que as despesas realizadas para que ela fosse possível. Não é à toa que os adeptos do “capitalismo verde” (expressão que é um contrasenso, já que a busca por crescimento infinito é incompatível com a existência em um planeta materialmente finito) enxergam esse processo como uma “oportunidade econômica”.

Dela, faria parte o setor de Bioinsumos, que teve um aumento na quantidade de empresas produtivas de 600% em 10 anos, ganhando até o próprio Fórum no Agro, e acendendo um alerta para nossa rede agroecológica pela ameaça de apropriação de saberes populares e o fortalecimento de mega corporações. A recente parceria entre a Yara fertilizantes e a PepsiCo na produção de batatas, que “chega ao Brasil para promover a agricultura regenerativa” (!!!), dá uma ideia do que virá por aí.

Se parece um pouco economicista demais, ressaltamos que, no Brasil, a liderança do RAIZ é do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) e dialoga com programas já iniciados pela pasta, como o Solo Vivo e o Caminho Verde Brasil.

Nas palavras do secretário de Desenvolvimento Rural do Mapa, Marcelo Fiadeiro: “produzimos para alimentar um bilhão de pessoas e mostramos que isso é possível com sustentabilidade”. Coelhinho da Páscoa também acha.

Corre-corre tecnológico

Poucos assuntos têm tido tanto destaque nos debates geopolíticos como o das chamadas terras raras. Trata-se de um conjunto de minerais necessários para a fabricação de boa parte das traquitanas tecnológicas associadas ao capitalismo verde. Mesmo não sendo tão raros assim, eles têm alguns pontos de encrenca: estão concentrados em poucos lugares no planeta e sua obtenção e refino implicam em impactos ambientais complexos.

Na ponta da disputa planetária por esses materiais – e das maravilhas tecnológicas para as quais eles são fundamentais, como carros elétricos, computadores, painéis de energia solar e turbinas eólicas – estão as duas principais potências planetárias: China e EUA. E a vantagem da primeira começa com a posse de quase metade da reserva mundial das terras raras, enquanto a segunda amarga pífios 2%.

A volta de Donald Trump ao poder, dessa vez com uma agressividade assustadora em relação aos demais países do globo, explicitou de vez e intensificou a guerra pelo controle dos “recursos” naturais que ainda existem no planeta, destacando aqueles chamados de minerais críticos, base do desenvolvimento tecnológico. E é bem nesse imbróglio que o Brasil está inescapavelmente metido, já que possui cerca de um quarto das reservas mundiais de terras raras, ocupando o segundo lugar.

Mais uma vez nos cabe a pergunta: seria esse patrimônio natural uma benção ou uma maldição para o país? O caso do petróleo serve de base para refletirmos, já que ele sempre foi um dos fatores do desencadeamento de guerras assumidas ou veladas. A recente invasão da Venezuela pelos EUA de Trump, bem como todo o boicote de que ela foi alvo nas últimas décadas, não nos deixam margem para dúvidas. O próprio golpe sofrido por Dilma Rousseff e a farsa da Lava Jato, na rabeira da exploração do Pré Sal, botam lenha nessa fogueira.

A atividade de extrair o petróleo já é em si uma ação predatória, que implica em danos e riscos aos territórios em que ocorre. E o uso dele está associado aos principais dramas socioambientais que vivemos, como a emissão de gases de efeito estufa e a poluição plástica, na qual a indústria de refrigerantes é campeã, sendo a Coca Cola uma unanimidade no ranking.

Não há um/a pesquisador/a ambientalista minimamente responsável que não diga que é necessário parar de explorar o material, se quisermos impedir a aceleração rumo ao precipício civilizacional. Principalmente porque novos pontos de extração se encontram em locais vitais para o equilíbrio de nossa Pachamama, como a foz do Rio Amazonas.

O mesmo ocorre com os jazigos de terras raras: eles estão, em parte significativa, sobrepostos ou próximos a territórios de povos tradicionais e reservas naturais. Levantamento do Repórter Brasil revelou que, até outubro de 2025, existiam 1.827 pedidos para explorar terras raras, cobre, lítio e outros 13 minerais em locais que estavam a menos de 40 km de povoados indígenas isolados.

São alguns dos poucos refúgios de fertilidade que nos restam. Oásis em que a fauna e a flora se manifestam em sua plenitude. Bases do que ainda podemos encontrar do nosso equilíbrio hídrico. Se fôssemos seres dotados de um instinto de sobrevivência bem apurado, com certeza nós deixaríamos esses minerais onde estão, não é?

Mas o garimpo no território yanomami – que pôs em curso um verdadeiro genocídio – nos mostra que, ao menos no que se refere às elites econômicas atuais, faltam muitos parafusos nessas cucas viciadas em dinheiro e poder. Se os povos indígenas dependerem dos “povos da mercadoria”, como bem definiu Davi Kopenawa Yanomami, estão lascados. E, junto com eles, toda a chamada humanidade ou, mais enfaticamente falando, NÓS.

Rara é a Terra

Como sabemos que não é possível simplesmente dizer um redondo e definitivo não para a exploração das terras raras, já que estrupícios como Trump e a corja de donos de Big Techs não iriam deixar (o artigo de Edna Aparecida da Silva no Outras Palavras deixa isso explícito), resta-nos encontrar uma forma menos danosa de lidar com essa benção amaldiçoada ou maldição abençoada. E a aproximação das eleições traz uma urgência extra nesse percurso.

O governo Lula 3 tem se comportado de modo ambíguo quanto às questões ambientais. Acenando ora a quem busca por medidas de combate ao colapso planetário, ora aos interesses do auto-intitulado “mercado verde”, ele tenta lidar com as pressões internas e internacionais, caminhando sobre uma finíssima linha pendurada nas alturas de um abismo.

Cabe a nós, movimentos sociais, fazer o possível e o mais que possível para trazer o governo para o único caminho que realmente existe, o do respeito às forças da Mãe Terra, se quisermos seguir vivendo em condições viáveis nas décadas que virão. Sem esquecer que, do outro lado, há quem detenha o acesso ao botão do fim do mundo, já que os EUA seguem se engalfinhando internamente quanto à permissão de deixar que um ecossociopata dirija o país.

Estabelecer uma política brasileira para a exploração mineral, frente à corrida tecnológica em curso e à emergência ambiental que nos atropela, envolve acionar nossas empresas estatais. No caso das terras raras, há a proposta de criação de uma nova empresa, a Terrabras, voltada unicamente para conduzir as políticas a elas relacionadas.

Poderia ser um modo de nos proteger do assédio do capital estrangeiro – algo impossível de ignorar, como mostra a idealização, por parte da Embaixada dos Estados Unidos, de um simpósio sobre minerais críticos, que deverá ser realizado em São Paulo. Ele pretende reunir, no mês de março, as principais mineradoras que atuam no Brasil, dando sequência às conversas que o diplomata dos EUA, Gabriel Escobar, vem tendo com cada uma delas para buscar acordos econômicos. Enfrentar esse lobby é imprescindível.

Mas, seja que caminho formos tomar, é essencial abrir um amplo e sincero debate com a sociedade, sobretudo com os povos tradicionais e campesinos. Na pauta, questões como “para quê?”, “com quem?”, “de que maneira?” e “a que custo?” não podem ser empurradas para baixo do tapete. A ocupação da Cargill pelos movimentos indígenas que lutam contra a privatização do Rio Tapajós não deixa margem para dúvidas quanto ao protagonismo que vêm assumindo nesse debate. A mobilização se espalhou pelo país, chegou até São Paulo, onde houve um protesto em frente à sede da empresa, e conseguiu a revogação do decreto: vitória importantíssima que renova nossa caminhada!

Estamos, inegavelmente, assistindo a um processo acelerado de degradação dos nossos solos. As terras férteis estão ficando cada vez mais raras, e sabemos que, sem essa fertilidade, não há água, não há comida, não há vida possível. Não podemos mais seguir nesse modelo linear de produção, esquecendo que, como diz Nêgo Bispo: “a terra dá, a terra quer”. A retomada da circularidade se faz essencial, unindo as cidades, os campos, as águas e as florestas – com harmonia e justiça.

É imprescindível intensificar as demarcações de territórios indígenas e quilombolas; promover a Reforma Agrária Popular Agroecológica; botar um freio no agro exportador de commodities, seus adubos nitrogenados e seus venenos assassinos; e unir forças com os demais povos latinoamericanos para nos protegermos dos ataques terroristas de um império que agoniza, mas parece disposto a levar o planeta inteiro em seu colapso.

E tudo isso sem deixar de ter em mente (e no coração) que a maior e mais incrível raridade que temos – em nossas curtas vidas em meio ao tempo-espaço do Cosmos – é mesmo a Terra, nossa Casa Comum, ponto pulsante de vida, girando, girando, girando… entre zilhões de estrelas de fogo.

Susana Prizendt, arquiteta urbanista, é judárabe (descendente de judeus romenos pelo lado paterno e de árabes libaneses por parte materna). É integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, do Movimento Urbano de Agroecologia (MUDA) e do Coletivo Banquetaço

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