Pages

Arquitetura da impunidade e predação do pneuma: o Rio de Janeiro como laboratório da noite feroz.

Entrevista com Luiz Eduardo Soares

Neste proscênio de 2026, onde a restauração trumpista não apenas reconfigura mapas, mas desarticula a própria gramática da diplomacia liberal, o Rio de Janeiro emerge não como um enclave de exceção, mas como o laboratório biopolítico mais avançado do Sul GlobalFavela no Rio de Janeiro 

| Foto: Antonio Bermudez | Wikimedia Commons

Do IHU, 04 Março 2026
Entrevista com Luiz Eduardo Soares


O que se testemunha é uma inversão topográfica definitiva: a falência da promessa civilizatória da capital diante de uma Baixada Fluminense que, longe de ser um resíduo do passado, colonizou o centro do poder com sua lógica de mandonismo armado e clientelismo despótico. Esta metástase institucional revela que a transição democrática brasileira foi um simulacro geográfico; o “gangsterismo mafioso” das periferias não apenas infiltrou o Estado, mas converteu-se na sua própria infraestrutura logística.

A prisão de Rivaldo Barbosa e o desfecho do caso Marielle Franco não são, portanto, anomalias de um sistema que falhou, mas a evidência de um sistema que opera em sua plenitude técnica.

Estamos diante de uma “arquitetura da impunidade” onde a eliminação política foi assimilada como um procedimento administrativo ordinário, operado de dentro dos gabinetes que, por um cinismo ontológico, deveriam salvaguardar a justiça. Aqui, o Estado deixa de ser o mediador do conflito para se tornar o Demiurgo do crime, um arquiteto que desenha o próprio labirinto onde a memória social é conduzida ao abate. É o que poderíamos chamar, em uma visada mais radical, de uma “estetização da barbárie”, onde a força bruta prescinde de máscaras jurídicas para se afirmar como a única natureza real.



Essa soberania territorial encontra seu espelhamento e sua ampliação na expropriação do sensível operada pelo “capital de nuvem”. A Governança Algorítmica não se contenta em capturar dados; ela opera uma predação do Pneuma, devastando a capacidade metonímica do sujeito e substituindo o pensamento arquitetônico pela descarga espasmódica de adrenalina do scrolling infinito.

É a aniquilação da faculdade de fabular mundos: quando a linguagem é devorada por algoritmos que expelem uma sucessão esvaziada de laços lógicos, a política coletiva reduz-se a um simulacro processado em silos digitais. O indivíduo, capturado por uma epistemologia orgânica que altera sua própria bioquímica hormonal, torna-se incapaz de articular uma dissidência que não seja, ela mesma, uma peça na engrenagem da acumulação algorítmica.

Nesse cenário, a geopolítica do medo se reorganiza para enfrentar o que resta de resistência no Sul Global. O elixir da barbárie — que encontra em Gaza e no Trumpismo de 2026 suas versões mais sanguinárias — sinaliza o fim do soft power e a entronização da força como o único imperativo categórico.

O capitalismo contemporâneo, no osso, dispensa as mediações culturais e impõe-se como uma autopoiese autofágica. Resta-nos, entre as ruínas dessa modernização conservadora e o avanço da noite feroz, a insistência em uma philia visceralmente avessa ao pugilato fratricida, buscando nas frestas da imprevisibilidade histórica a faísca de uma soberania que ainda não tenha sido codificada.

Esta entrevista não é um mero protocolo acadêmico; é o registro de uma interlocução necessária entre o rigor da História Comparada e a carne viva de uma das mentes mais brilhantes e corajosas da nossa era.

Conduzida por e-mail pelo doutorando em História Comparada Thiago Gama (UFRJ), esta série de dez provocações foi endereçada ao homem que, no limiar dos anos 2000, encarnou a esperança de uma geração de fluminenses e cariocas.

Naquela aurora de milênio, Luiz Eduardo Soares não era apenas um intelectual; era o arquiteto de um sonho possível: a união entre a justiça social e um combate à criminalidade que prescindisse da barbárie, ancorado na inteligência e no respeito absoluto aos Direitos Humanos.

Natural de Nova Friburgo, Luiz Eduardo Soares é o antropólogo que ousou mergulhar nas vísceras das instituições para revelar a face oculta do Estado. Coautor de Elite da Tropa (2006) — obra seminal que gerou o fenômeno cinematográfico de José Padilha —, Soares transpôs os limites da academia para pautar o debate público nacional.


Luiz Eduardo Soares (Foto: José Cruz | Agência Brasil)

Sua trajetória é marcada pela coerência trágica dos que veem à frente: como Secretário Nacional de Segurança Pública no primeiro governo Lula (2003), ele tentou operar a reforma das estruturas que hoje, em 2026, assistimos colapsar sob o peso do milicianato e do neofascismo.

O que distingue Luiz Eduardo Soares não é apenas o seu currículo monumental, mas a sua aristocracia do espírito. Homem de uma afabilidade rara, paciente e profundamente didático, ele possui a generosidade de quem transita, com a mesma dignidade, entre o graduando iniciante e o topo do pós-doutorado. Essa disponibilidade sincera é a marca dos grandes: intelectuais que não apenas escrevem a teoria, mas sangram a práxis.

Nesta entrevista o Brasil é convidado a confrontar a lucidez de quem nunca temeu a verdade, por mais cortante que ela fosse. Soares nos oferece as chaves para entender como o Rio de Janeiro se deixou arrastar para este túnel abissal, onde a luz parece ter sido sequestrada por uma “geopolítica do medo”. É um documento de indignação controlada, um manifesto de reverência a um mestre que, mesmo diante da “noite feroz”, insiste em cultivar a memória social como único anteparo contra o esquecimento deliberado.

Eis a entrevista.

Em Escolha sua distopia, o senhor aponta o Rio de Janeiro como um laboratório do neofascismo. Diante da restauração trumpista em 2026, como essa “geopolítica do medo” se reorganiza para neutralizar as instituições democráticas que ainda resistem no Sul Global?

Permita que eu comece com algumas ponderações gerais. Há processos nacionais, refratados por especificidades regionais, e há aqueles marcadamente locais. Todos se articulam entre si e interagem com dinâmicas transnacionais.

O estado do Rio de Janeiro, particularmente a região metropolitana, pode ser considerado um laboratório do neofascismo, isto é, do movimento bolsonarista – Luiz Eduardo Soares Tweet.

Os pesos relativos dependem de conjunturas históricas, nas quais se envolvem movimentos geopolíticos, crises do capitalismo em múltiplas escalas e os tensionamentos políticos, que remetem à luta de classes e a outros conflitos sociais, em suas diversas modalidades e manifestações.

Dessa constelação mutante e crescentemente complexa fazem parte dimensões culturais, ideológicas e intersubjetivas, impactando regimes afetivos e os sempre fundamentais jogos de expectativas.

A meu ver, o eixo que deve orientar a análise é a disputa por hegemonia, responsável pela produção das sínteses que, em cada momento, orientam a distribuição de poder intelectual, moral, econômico e político. Entretanto, o que se passa em cada um desses níveis não necessariamente coincide.

Além disso, é preciso considerar duas variáveis até certo ponto exógenas ao quadro sociológico tradicional: o poderio militar dos entes nacionais e o grau de vulnerabilidade à crise ambiental.

Esta vulnerabilidade é função, entre outros fatores, do acesso a recursos naturais (como água, florestas, biodiversidade, território, população) e tecnológicos (indissociáveis do investimento público em universidades e institutos de pesquisa, e do controle soberano sobre condições materiais para o desenvolvimento), e da extensão dos efeitos potenciais de desastres e mudanças ecológicas em curso.

Esse preâmbulo ajuda a calibrar a ambição da resposta. Sendo limitada no tempo e no espaço, e no recorte temático, ela estará condenada a deixar de lado inúmeros aspectos relevantes. Mesmo assim, a título de aproximação do objeto, retomo, resumidamente, o que formulei no livro “Escolha sua distopia ou pense pelo avesso” (Edições 70, 2025). Vou ao ponto: sim, a meu juízo, o estado do Rio de Janeiro, particularmente a região metropolitana, pode ser considerado um laboratório do neofascismo, isto é, do movimento bolsonarista, porque lá se reuniram algumas de suas condições de possibilidade e lá se desencadeou uma cadeia de decisões políticas, desde a transição democrática, por parte de protagonistas importantes da direita, que as souberam aproveitar, e de lideranças da esquerda, que não as souberam identificar, desarmar e reverter.

Ouso afirmar que, em alguma medida, a transição não chegou à Baixada Fluminense e a São Gonçalo - segunda cidade do estado. A promulgação da Constituição, em 1988, não promoveu alterações significativas.

Esse conjunto de cidades se caracterizou pela permanência do pacto entre as elites armadas, herdeiras do mandonismo tradicional, aliadas à ditadura e protegidas pelos militares, que continuaram agindo, depois da restauração do poder civil, como gangsters mafiosos, organizados em torno do jogo do bicho e da cooptação das polícias, dominando – diretamente ou via chantagens – a precária economia local.

A circulação promíscua de policiais entre os porões da ditadura, a segurança privada de bicheiros e outros negócios escusos, em associação progressiva com políticos municipais, demonstrava a profundidade da captura de instituições do Estado, cujos titulares passavam da tolerância à cumplicidade e, daí, à rendição.

A transição não chegou à Baixada Fluminense e a São Gonçalo - segunda cidade do estado. A promulgação da Constituição, em 1988, não promoveu alterações significativas – Luiz Eduardo Soares Tweet.

Enquanto a Baixada e São Gonçalo congelavam no tempo político, a capital sucumbia ao que poderia ser qualificado de mudança regressiva, promovendo-se a confluência entre as características das duas regiões.

Na capital, o associativismo, o ímpeto participativo, a tradição de entrelaçamento entre camadas sociais -expressivo de fecundo diálogo cultural, na contramão dos bloqueios racistas e de classe - e a histórica politização (limitada, mas significativa) da base popular foram obstados e transformados pela presença de grupos armados, que assumiam, ao longo dos anos 1980, o controle progressivo de territórios e comunidades.

A resistência foi diminuta e insuficiente, sobretudo por conta dos arranjos clientelistas, eleitoreiros, oportunistas e fisiológicos, que deram o tom mesmo nas esquerdas - com as exceções de praxe.

Como digo em “Escolha sua distopia ou pense pelo avesso”, a ciência política e a sociologia política, que, desde início da década de 1980, investiram com vigor em pesquisas sobre associativismo e participação popular, saíram de campo, ante a conflagração da cidade, e passaram a bola aos estudiosos da violência e da segurança pública - evidentemente, houve exceções, das quais é exemplar a obra de José Cláudio Souza Alves.

Quando mais precisávamos retomar a linhagem analítica de Vitor Nunes Leal, em “Coronelismo, enxada e voto”, menos atentamos para o fio condutor entre o Brasil profundo e as promessas da modernização, assombrados com a aparência de ruptura gerada pelos efeitos especiais das balas traçantes, nos tiroteios diários, e das emergentes esperanças democráticas.

A linha de continuidade, não obstante tantas mudanças profundas, estava no caráter conservador de nossa modernização e na natureza intrinsecamente autoritária de nosso capitalismo periférico.

Foi um erro a normalização do hibridismo fluminense entre clientelismo - enquanto mecanismo indesejável, mas compreensível de inclusão numa democracia que se institucionalizava e massificava- e subordinação política de setores populares a micropoderes locais armados, que envolviam segmentos policiais em dinâmicas de balcanização.

A resistência foi diminuta e insuficiente, sobretudo por conta dos arranjos clientelistas, eleitoreiros, oportunistas e fisiológicos, que deram o tom mesmo nas esquerdas - com as exceções de praxe – Luiz Eduardo Soares Tweet.

Erro gravíssimo, que traduzia a visão dominante em certa intelectualidade politizada fluminense. Observe-se a armadilha em que caímos: para evitar reproduzir o preconceito supostamente elitista atribuído à crítica uspiana ao populismo, e sensíveis ao discurso anti-etnocêntrico que se fortalecia, dado o prestígio crescente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, da UFRJ, chegamos ao extremo oposto: a subestimação da natureza perversa de nosso modo peculiar de operar o clientelismo, especialmente no caso das mediações políticas locais, exercidas direta ou indiretamente pelos grupos ligados ao tráfico de armas e drogas -associados a segmentos policiais-, cujo papel costumo definir como análogo ao de startups das milícias.

A idealização do processo de desenvolvimento da política democrática previa o aperfeiçoamento gradual seja das instituições, seja do funcionamento de seus elos com a sociedade civil.

Por isso, a imagem corrente no período da transição e nos anos subsequentes, até mesmo em setores da esquerda, era de que o capital civilizaria o “atraso” e a capital civilizaria a Baixada - tanto quanto seus próprios “enclaves” de pobreza -, isto é, levaria a modernidade aos rincões em que reinava o país pretérito, como se a miséria e os atavismos antidemocráticos fossem sobrevivências, resíduos e não produtos do país que ainda somos e viríamos a ser.

Mesmo alertados por críticos lúcidos e agudos, como Chico de Oliveira, que recusavam o modelo evolucionista e chamavam a atenção para a estrutura combinada e desigual de nossa formação econômica, muita gente bem-intencionada e intelectualmente sofisticada negligenciou a importância do que estava em jogo para o futuro do Rio, do Brasil e da democracia.

Quanto à segurança pública, pensavam: o desenvolvimento resolveria como que naturalmente o “problema”. Quanto a mudar as polícias, diziam: não nos metemos nisso, polícia é matéria da e para a direita; nossa tarefa é promover a mudança das estruturas sociais e econômicas.

Essa mudança daria conta do recado. De novo, naturalmente. A esquerda não deveria sujar as mãos com propostas nessa área. Vimos no que deu. Quando os pesquisadores que ousaram meter a mão na combuca e estudar as polícias, escreveram sobre elas e mostraram as implicações dramáticas da manutenção do que herdamos da ditadura, nessa área, as respostas foram decepcionantes e refratárias à assunção de qualquer protagonismo coletivo e institucional que fizesse a diferença.

Não se enraizou e difundiu a consciência de que a problemática estava no centro da questão democrática. Assim como o clientelismo degenerou em subordinação a tiranias locais armadas, a entrega das polícias à hegemonia da direita produziu todo tipo de ameaça aos negros, aos pobres e à viabilidade de que se constitua, de fato, no Brasil, o Estado democrático de direito. Nessa toada, a capital não civilizou a Baixada; foi a Baixada que colonizou a capital, politicamente.

A capital não civilizou a Baixada; foi a Baixada que colonizou a capital, politicamente – Luiz Eduardo Soares Tweet.

O imenso equívoco de considerar atenção à corrupção policial (sabendo-se que ela é sempre a contraface da brutalidade policial, aplicada com viés de raça, cor, território e classe) uma espécie de purismo pequeno-burguês ou moralismo udenista fechou os olhos de muitas lideranças progressistas para as implicações de alianças com grupos políticos vinculados, direta ou indiretamente, a estruturas de poder milicianas, envolvendo vertebrações clientelistas perversas.

A incompreensão quanto ao significado da ordem despótica de poder que vigora na Baixada, em São Gonçalo, e crescentemente na capital e em outras regiões, levou lideranças e partidos progressistas a condenar por sectários os atores políticos que se recusaram a endossar essa tática suicida.

O apoio de setores da esquerda aos grupos que dominaram o estado do Rio, antecedendo a emergência da hegemonia bolsonarista e que terminaram por precipitá-la, era justificado por dúvidas legítimas: como romper o domínio de grupos político-econômicos que bloqueiam a participação independente e que se impõem pela força quando se percebem sob risco eleitoral, quando os arranjos econômicos estão em risco, quando as garantias da reprodução de seu poder se fragilizam?

Por que não jogar o jogo, aliar-se, vencer e, gradualmente, produzir espaços de liberdade e independência, até reverter a correlação de forças, em todos os níveis?

As dúvidas eram razoáveis, suscitavam conclusões que pareciam sensatas. Entretanto, elas serviram a um projeto que falhou, faliu, trouxe o estado do Rio até aqui, gestou a hegemonia bolsonarista.

Esse projeto legitimou e expandiu o poder do milicianato político. Conforme sustento em “Escolha sua distopia ou pense pelo avesso”, o bolsonarismo é a superestrutura da ordem que descrevi. Portanto, muito do que nos foi vendido sob o título “realismo político”, ao longo das décadas, desde o retorno das eleições, em 1982, foi apenas capitulação.

O bolsonarismo é a superestrutura da ordem miliciana – Luiz Eduardo Soares Tweet.

A sociedade quer mudança, em todos os níveis, não crê na ordem institucional estabelecida, atravessada por desigualdades abissais, repleta de iniquidades, desde a exploração do trabalho à hipocrisia oficial, da privação de serviços públicos à insegurança cotidiana.

Nesse quadro, tem boas chances de vencer quem juntar economia, política, institucionalidade e estruturas sociais numa síntese grosseira mas acessível, chamar esse emaranhado de “isso tudo que aí está” ou de “o sistema”, e propuser sua destruição, fazendo-o com apelo carismático e belicista, adotando uma performance que substitua os bons modos convencionais por aparente espontaneidade feroz, mimetizando o masculinismo caricato, em sintonia com a gramática patriarcal (profundamente abalada, sendo este um vetor decisivo que trabalho no livro, mas aqui me furto a explorar).

Caso, além disso, o proponente dessa destruição apocalíptica se apresentar como leal ao Deus do primeiro testamento e, sob inspiração da vontade divina, disposto a travar a guerra do bem contra o mal, as chances de êxito tenderão a ser ainda maiores.

O parágrafo anterior suscita uma interrogação decisiva: os tentáculos do clientelismo armado e despótico não seriam opressivos e, portanto, não deveriam fazer parte da realidade a destruir?

Como seria então possível afirmar que esses novelos tirânicos locais constituem a infraestrutura política do bolsonarismo, cuja cosmologia aponta exatamente para a urgência “revolucionária”?

A resposta é a seguinte: se a regra é a força, se o padrão, o princípio, a lógica, o imperativo, o que determina a experiência rotineira é a força, o predomínio da força, se a força é a natureza mesma que dita os limites e o horizonte do que nos é dado viver, se é a força que faz e desfaz a realidade em que habitamos, então se trata não de suprimi-la ou substituí-la por mediações institucionais ou legais, mas de dirigi-la, de disputar sua orientação, de submetê-la a uma força maior, e esta força maior, superior, seria tão positiva quão mais comprometida com a obediência à força suprema, divina.

A sociedade quer mudança, em todos os níveis, não crê na ordem institucional estabelecida, atravessada por desigualdades abissais, repleta de iniquidades, desde a exploração do trabalho à hipocrisia oficial, da privação de serviços públicos à insegurança cotidiana – Luiz Eduardo Soares Tweet.

Em meu livro “Dentro da noite feroz, o fascismo no Brasil” (Boitempo, 2020), analiso a brutalidade policial institucionalizada como um processo de autolegitimação tautológica do uso da força por seu próprio exercício. As dinâmicas de autoafirmação das organizações criminosas funcionam de modo análogo, como aliás seria típico de conquistas coloniais.

Transitando do plano estadual ao nacional e ao transnacional, verificamos que o momento histórico parece apontar para a ruína seja da democracia liberal, seja do modelo tradicional de promoção de hegemonia.

Ambos vêm sendo substituídos pelo predomínio da força sobre os outros componentes do que denominamos hegemonia. Estão sendo atropelados o soft power e a própria política.

O capitalismo como exercício de exploração se impõe, no osso, cada vez com menos mediações jurídico-políticas e culturais, em ambiente público -este ambiente, por sua vez, tem sido velozmente ocupado e transformado pela comunicação algoritmizada.

O capitalismo como exercício de exploração se impõe, no osso, cada vez com menos mediações jurídico-políticas e culturais – Luiz Eduardo Soares – Luiz Eduardo Soares Tweet.

O predomínio direto da força está presente desde o crescimento do milicianato fluminense, até a ampliação do âmbito de atuação do PCC e do chamado crime organizado, assim como, globalmente, guardadas as especificidades, pelas ações belicistas que marcam a presidência imperial de Trump.

Contemplamos, dia a dia, a derrocada das regulações internacionais, que, mesmo débeis, mediavam conflitos geopolíticos. Gaza e Trump são versões do poder assumido em sua plenitude sanguinária, são o elixir da barbárie: genocídio sem disfarce e truculência verbalizada sem pudor.

Se a economia havia sido subtraída do alcance da política democrática, sob o neoliberalismo, convertida em tema técnico exclusivo para tecnocratas e seus patrões, agora a própria política vem sendo subtraída da pauta do possível, como se já não fosse um mecanismo real.

A ideologia como máscara do interesse se desconstitui e o jogo se reduz à exibição despudorada das motivações, prescindindo de “razões” ou justificativas. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Considerando sua análise em Crânio de Vidro do Selvagem Digital, de que maneira a “Governança Algorítmica” opera uma captura do Pneuma e da subjetividade política, transformando a mobilização social em um simulacro processado por silos digitais?

“Crânio de vidro” é uma ficção, portanto não se trata propriamente de uma análise, mas de uma elaboração literária de temas que são também políticos e históricos. Transportando a ideia de pneuma para as ciências sociais, talvez pudéssemos traduzir a categoria clássica por cultura, subjetividade ou, melhor ainda, agência.

Pois bem, se for assim, eu diria que a agência humana (e não apenas) está em disputa e é alvo da voracidade do capital de nuvem, em acumulação pelas BigTechs (o “cloud capital”, como diria Varoufakis), as quais se expandem pelo campo da inteligência artificial.

Está em jogo quase tudo. A nós, militantes e pensadores de esquerda, socialistas, que ansiamos uma experiência melhor pós-capitalista, resta estender o que cabe na palavra tudo, mas ainda não está lá.


A agência humana está em disputa e é alvo da voracidade do capital de nuvem, em acumulação pelas BigTechs, as quais se expandem pelo campo da inteligência artificial – Luiz Eduardo Soares Tweet.

Os algoritmos não expropriam apenas nossas ideias e redefinem tempo e atenção, não apenas dirigem a agenda, os objetos do conflito e os termos em que ele se dará. Lembremo-nos: quem consegue definir o objeto da briga torna-se favorito a vencê-la.

Os algoritmos atacam a linguagem, em especial a sintaxe, como bactérias devoram o corpo de que se alimentam. Atacam, devoram e expelem a sucessão, o scrolling, isto é, a sequência esvaziada tanto de conexão (laços lógicos conscientes ou inconscientes), tensão e imantação metonímica (que envolveria linguagens simbólicas e cosmologias), quanto de expansão significativa (imaginativa).

Os algoritmos buscam substituir o investimento libidinal na estética (e no pensamento que supõe ou proporciona arquiteturas) pela produção de adição “química”, vício, adesão, descarga de adrenalina espasmódica e obsessão, ou compulsão à repetição.

O perigo dá-se menos pela divulgação de ideias reacionárias, como nos velhos moldes da doutrinação ideológica, do que pelo estabelecimento de um redirecionamento psicossocial, por meio da consolidação de uma espécie de epistemologia orgânica, um modo de conhecer que envolve alteração bioquímica, hormonal, em que sujeito e objeto se atraem num circuito magnético inscrito em mecanismos programados circulares - ou espiralados.

A colagem (a Gestalt do scrolling) deixa de ser a virtude transgressora de vanguardas artísticas que subvertem a expetativa dogmática da unidade (e da identidade, com suas taxonomias derivadas) e se reduz à moenda antinarrativas, à devastação do potencial metonímico, à aniquilação da metonímia.

Nesse caso, a hipótese é que, dissolvendo-se a metonímia, impõe-se o recalque à lógica do sensível, fonte da faculdade de fabular em conversa com o mundo. Como edificar mundos sem mitos? O alvo mais radical dos algoritmos é o mundo, ou melhor, é o potencial de fabricação de mundos. A política coletiva e transformadora assim se aniquila, reduz-se à resignação, à adaptação, ao realismo capitalista, como diria o saudoso Mark Fisher.

O alvo mais radical dos algoritmos é o mundo, ou melhor, é o potencial de fabricação de mundos – Luiz Eduardo Soares Tweet.

O senhor tem sido uma voz central na crítica à segurança pública como necropolítica. Como articular uma “Independência do Sul Global” quando a nossa arquitetura de ordem interna ainda está presa a uma lógica de soberania colonial que desumaniza o próprio território e seus corpos?

Ainda bem que eu confio na lógica paraconsistente, originalmente desenvolvida por um de nossos heróis nacionais (na verdade, mais celebrado fora do Brasil do que em nosso país), Newton da Costa. No final da vida, ele parecia interessado em dialogar com a tradição da dialética, uma vez que sua ideia chave era viabilizar a incorporação de contradições a sistemas lógicos.

O que quero dizer é que a natureza bárbara de nosso capitalismo autoritário patriarcal, misógino e racista, não nos condena nem a repeti-lo ad infinitum, nem a atuar em conformidade com sua lógica no campo geopolítico.

Recordemos que o Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência de Angola. E estávamos sob ditadura. Geisel era o ditador. Por outro lado, o jogo de interesses internos pode abrir brechas para composições políticas transnacionais que viabilizem o enfrentamento eficiente do imperialismo estadunidense, mesmo que tópico e parcial.

A possibilidade inversa tampouco deve ser descartada, isto é, movimentos geopolíticos podem impactar positivamente no interior do país, produzindo realinhamentos que façam avançar agendas progressistas. Lutas se travam em distintos terrenos, cada qual com seu tempo próprio, com sua dinâmica específica. Mas é claro que o tema da soberania não será tratado seriamente sem que reconheçamos nossa catastrófica vulnerabilidade, a começar pelo plano digital-virtual. E sem que se coloque em xeque o modelo neoliberal. A difusão global desse modelo é a mais eficiente arma de destruição em massa existente e a mais poderosa estratégia de dominação imperial.

É claro que o tema da soberania não será tratado seriamente sem que reconheçamos nossa catastrófica vulnerabilidade, a começar pelo plano digital-virtual. E sem que se coloque em xeque o modelo neoliberal – Luiz Eduardo Soares Tweet.

À luz da sua experiência na UFRJ, como enfrentar a “violência epistemológica” que hoje não apenas cerceia a liberdade de cátedra, mas tenta criminalizar a própria capacidade de produzir uma história comparada dissidente?

Caro Thiago, peço sua licença para não responder, porque não sei exatamente do que se trata. Posso imaginar, mas não acompanhei essa tentativa de criminalização a que você se refere. Como estou na corrida para terminar vários trabalhos, não tenho como dedicar tempo agora para me informar. Por isso, lhe peço que deixemos esse tema para uma próxima oportunidade.

O Lawfare e a espetacularização do judiciário tornaram-se ferramentas globais de controle. Como a esquerda pode retomar a gramática do Direito sem cair na armadilha da “punitividade redentora” que muitas vezes alimenta o próprio fascismo que ela combate?

Vivemos a era das guerras híbridas e o Lawfare se converteu em instrumento não só de destruição de reputações e carreiras políticas, como de neutralização político-institucional de inimigos. Suspeições se transformam em acusações e acusações em condenações antecipadas.

Nesse sentido, as chamadas “lacrações” acabam sendo, mesmo involuntariamente, variações digitais da mesma dinâmica perversa. Um boato, uma declaração, uma foto ou vídeo – hoje, facilmente manipulável –, uma palavra, o juízo de um crítico, tudo isso pode ser rapidamente convertido em caso explosivo, que se alastra até inviabilizar eventual desmentido posterior, mesmo que factualmente amparado.

No Judiciário e na esfera policial, o processo, politicamente orientado, transcende o pior pesadelo kafkiano, como vimos na Lava-Jato. A mídia corporativa assim como os canais atuantes na internet recebia, diariamente, vazamentos seletivos e os divulgava como pauta prioritária, conferindo estatuto de veracidade incontestável a cada capítulo da série, o que precipitava ilações e antecipava conclusões, tomadas como irreversíveis. O juiz-herói protagonizava um épico, vendido no varejo em peças sucessivas, como folhetins. Ele induzia passos investigativos e se aliava a promotores, os quais, mesmo sem provas, avançavam pela via punitiva para demonstrar, retrospectivamente, a correção de suas convicções, como admitiam.

Prendia-se para extrair confissões “espontâneas” e delações. Deixava-se de lado quem se escolhesse proteger e se investia contra os alvos a demonizar, desmoralizar e excluir da arena política.

O objetivo principal era impedir a candidatura de Lula à presidência, em 2018, quando ele era o franco favorito em todas as pesquisas de intenção de voto, o que se logrou realizar, graças à chantagem do comandante do Exército, melancolicamente aceita pelo STF.

Cito esses fatos porque eles mostram quão falacioso é o argumento de que nossas instituições democráticas funcionam, ou seja, como se fossem suficientes para conter o ímpeto golpista da extrema direita.

As instituições são tripuladas por pessoas que não são dissociadas das forças que se chocam na sociedade. Elas e sua condução estão em permanente disputa. Portanto, devemos concluir que o Estado democrático de direito não é uma configuração formal estática e estável, alheia aos conflitos político-sociais.

É um processo cujo sentido prático, na história, resulta da composição entre os fatores que dão corpo e rumo à hegemonia. Claro que há mediações, o Direito e o Judiciário não são meras extensões das contendas ideológico-políticas. Mas o primeiro obstáculo a superar, para que se evite a repetição do que aconteceu no Brasil, levando ao poder um movimento neofascista que esteve à beira de golpear a democracia e dominar o país, é a visão reificada da Justiça e do caráter ahistórico do Direito.

Existe uma tensão entre a ética da compaixão e a barbárie técnica. Como o intelectual público pode atuar como um “ante-paro” contra o apagamento da memória social em um contexto em que o esquecimento é uma política de Estado deliberada?

Acredito que, além de outras missões que porventura assuma, a tarefa de qualquer pessoa politicamente engajada, comprometida com a transformação da sociedade, cuja voz seja audível, além das fronteiras da vida privada – e hoje há meios para fazer-se ouvir muito além do jardim –, seja dispor-se a colaborar para a formação e expansão de um ecossistema interlocucionário aberto, arejado, criativo e reflexivo.

Mais que um partido ou uma corrente de opinião - a esquerda é pródiga em gerar linhas, vias, linguagens e estilos-, acho que o mais importante seria ajudar a criar e fecundar um campo dialógico de liberdade, ampliação e fortalecimento de laços e de pensamento crítico, ligado à promoção de ações práticas.

Creio que devemos evitar fazer o jogo do fracionamento irremediável, tornando-nos canais para o trânsito do ódio e da divisão. O comportamento judicativo e hierarquizador, que classifica e exclui, que pune a divergência, humilha e hostiliza a diferença, é o vírus pandêmico promotor da impotência coletiva.


Creio que devemos evitar fazer o jogo do fracionamento irremediável, tornando-nos canais para o trânsito do ódio e da divisão – Luiz Eduardo Soares Tweet.

Tratar a diferença com respeito, escutar, ler o Outro, levar em conta, a sério, diferentes perspectivas: isso é, a meu ver, realmente revolucionário. Pode soar a conselho de um velho moralista decadente, um ancião pequeno-burguês pedindo calma urgente, como diriam amigos de um de nossos melhores podcasts - e talvez seja isso mesmo.

Mesmo assim, insisto nessa toada. E a memória, ante a violência que ameaça cancelá-la? Ela precisa ser cultivada sempre, com cuidado e coragem, perseverança, mas só se salvará do esquecimento se for coletivizada, se for acolhida e alimentada em um ambiente plural, por uma rede intersubjetiva, em um ecossistema prático-político tecido por disposições da philia, visceralmente avessa ao pugilato fratricida que com tanta frequência nos separa e dilacera.

Retomando o espírito do Fórum Social Mundial: é possível vislumbrar uma “terceira via” de soberania para a América Latina que não seja capturada pela disputa bipolar entre as potências do Norte ou pela vigilância tecnocrática do Oriente?

Vislumbrar, sim, ainda que o sucesso desse caminho seja improvável. Minha esperança reside no mesmo motivo que justifica o ceticismo: a imprevisibilidade da história, sobretudo quando a supremacia da força se generaliza, a tecnologia embarca numa aventura metalinguística -autogerando-se, autogerindo-se (a autopoieses pode ser tão autofágica quanto o capitalismo) –, quando a algoritmização trava embate titânico contra a arquitetura universal (isto é, contra a capacidade dos humanos, e talvez não só dos humanos, de fabular e criar mundos, imiscuindo-se organicamente no desejo), e quando, em pleno antropoceno (ou capitaloceno), o choque entre o global e o planetário, nas palavras de Dipseh Chakrabarty, evidencia quão ilusória é a crença na mutualidade (da colaboração harmoniosa ou da dominação) entre ambos.

A imprevisibilidade veta o descarte da esperança, qualquer que seja o significado que se atribua a esta palavra antiga, e ainda indispensável.

Minha esperança reside no mesmo motivo que justifica o ceticismo: a imprevisibilidade da história – Luiz Eduardo Soares Tweet.

Professor, a prisão de Rivaldo Barbosa — o delegado que recebeu as famílias das vítimas no dia seguinte ao crime — parece ser a materialização definitiva da sua tese sobre a 'profundidade da captura de instituições do Estado'. Se a transição democrática não chegou à Baixada, como o senhor aponta na nossa entrevista, a condenação dele prova que o 'gangsterismo mafioso' não apenas protegeu os mandantes, mas operou a própria arquitetura da impunidade por oito anos? Estamos diante do colapso final da ilusão de que as instituições 'funcionam' no Rio?

Antes da prisão de Rivaldo Barbosa, outros três chefes da polícia civil tinham sido presos por crimes gravíssimos, assim como vários oficiais superiores da PM. Nem por isso a ilusão colapsou.

Nada mais resiliente que a ilusão. Sobretudo quando fabricada pela coalisão criminosa fluminense – com seus escritórios espalhados pelo organograma oficial. Cada evisceração institucional é sempre apenas um “caso isolado” e ... vida que segue.

Nada mais resiliente que a ilusão, sobretudo quando fabricada pela coalisão criminosa fluminense – com seus escritórios espalhados pelo organograma oficial – Luiz Eduardo Soares Tweet.

Quando o chefe de uma instituição policial chega a ser preso, a própria instituição deveria ser submetida a uma reorganização radical.

Não porque todos os profissionais estivessem comprometidos, de modo algum, mas porque segmentos importantes necessariamente estavam e porque cada prisão desse porte demonstra que há mecanismos internos vulneráveis à apropriação criminosa.

Mecanismos orgânicos que viabilizam a ascensão ao poder de agentes criminosos e que se fortalecem sob a liderança nefasta.

Mecanismos que estão ativos e “funcionam” de novo e de novo. Nas declarações oficiais corporativistas e defensivas todos esses escândalos foram tratados, insisto, como “casos isolados”, “desvios de conduta” já corrigidos. Aqui se justifica o clichê: não se extirpa um tumor num gesto cirúrgico único e se manda o paciente para casa, são e salvo. Há um corpo que gera o núcleo patológico e que sofre seus efeitos.

É preciso cuidar do corpo. E o tratamento, sobretudo quando há recidiva, tem de ser radical. Ou condenaremos a democracia a cuidados paliativos, à espera da morte lenta.

Para quem acompanha de perto as relações entre crime, polícia, Justiça criminal e política, no estado do Rio de Janeiro, o colapso da ilusão de que as instituições funcionam já aconteceu faz tempo, muito tempo.

Se é que em algum momento chegou a haver ilusão. Esperança no futuro, sim, ilusão quanto à realidade presente não creio que tenha havido, porque os dados sobre os envolvimentos degradantes sempre foram muito eloquentes. Mas é preciso cuidado com declarações peremptórias e genéricas: o que significa dizer que uma instituição funciona? Que ela cumpre a função a que se destina, segundo determinações constitucionais ou ordenamentos normativos específicos.

A função se efetiva pelo cumprimento de objetivos, mas tanto o grau de efetividade quanto o entendimento dos objetivos são submetidos a crivos interpretativos, os quais, por sua vez, dependem de valores, crenças, ideologias e outras gramáticas culturais, ligadas a interesses, emoções e experiências, vividas no âmbito de classes e outras circunscrições sociológicas.

Portanto, o funcionamento de cada instituição em cada momento histórico deve ser examinado com lupa, informações empíricas e contextualizações analiticamente produzidas.

Feitas essas ressalvas e me rendendo a um nível inevitável, e razoável, de reducionismo, eu diria que as instituições jurídico-políticas e aquelas inscritas no campo da segurança pública não cumpriram suas finalidades elementares e, nesse sentido, não funcionaram, a despeito de algumas conquistas e do empenho corajoso de tanta gente respeitabilíssima. Gente como a juíza Patricia Acioli e a vereadora Marielle Franco.

Marielle Franco e Patricia Acioli foram barbaramente assassinadas por agentes do Estado (ou ex-agentes) – Luiz Eduardo Soares Tweet.

Elas estavam empenhadas em cumprir seus respectivos deveres institucionais e foram barbaramente assassinadas por agentes do Estado (ou ex-agentes).

Os casos emblemáticos dessas mulheres extraordinárias – não por acaso eram mulheres- demonstra que instituições não são máquinas que funcionam ou não funcionam: são espaços de conflito e disputa, cujas dinâmicas sofrem impulsos regressivos ou democratizantes, de acordo com correlações internas de forças, de caráter intrinsecamente político.

O senhor define o bolsonarismo como a 'superestrutura da ordem' miliciana. Com os Brazão condenados, o foco se desloca inevitavelmente para a vizinhança do Vivendas da Barra e para as digitais políticas que apagaram registros e obstruíram o caminho da justiça. Na sua visão, essa condenação é o teto da investigação ou ela é apenas o primeiro tijolo caído de uma estrutura que conecta o 'milicianato político' local à geopolítica do medo que tomou o Palácio do Planalto em 2018?”

Não creio que tenha sido o primeiro tijolo caído. Outros tombaram antes. Por outro lado, o que justificaria a suposição de que o teto tenha sido alcançado? A máquina venal de morte e lucros, articulada a dinâmicas do capital, há muito tempo vem atuando e se reproduzindo em escala crescentemente ampliada, incorporando núcleos de poder.

Para respeitar a metáfora enunciada na pergunta, poderíamos dizer que tijolos caem e outros chegam à obra que edifica a conjunção carnal obscena entre agentes do Estado, crime e capital.

O general interventor ficou um ano à frente da segurança do Rio de Janeiro, em 2018. Saiu sem esclarecer o assassinato de Marielle. Pior: sem notar que alguma coisa não andava bem no circuito das investigações. Incompetência extrema ou negligência criminosa?

A prisão do chefe da polícia civil deveria nos levar a exigir, insisto, a reformulação radical da instituição que ele liderou, mas também a cobrar das instituições, nesse caso principalmente do Ministério Público, a responsabilização dos superiores, isto é, da outra parte do corpo a que me referi.

O delegado preso, Rivaldo, não era o vértice da linha de comando. A chefia é parte do corpo policial, mas a cabeça era o interventor. Não estou dizendo que o general interventor esteja envolvido no crime, estou afirmando que ele não cumpriu seu dever -e precisa ser responsabilizado por isso-, ao tolerar o empastelamento das investigações -o qual, aliás, como demonstrou o julgamento no STF, não se limitou ao homicídio de Marielle e Anderson.

Após tamanha demonstração de irresponsabilidade, o interventor foi nomeado ministro chefe da Casa Civil, no governo de Bolsonaro, que ainda o convidou a dividir com ele a chapa presidencial, em 2022.

O que é mais escandaloso (apesar de naturalizado)? Um presidente premiar a negligência criminosa ou um general aceitar servir a quem construiu sua carreira à sombra da parceria com milicianos?

O que é mais escandaloso: um presidente premiar a negligência criminosa ou um general aceitar servir a quem construiu sua carreira à sombra da parceria com milicianos? – Luiz Eduardo Soares Tweet.

Sabem por que autoridades fluminenses têm combatido com tanto ardor a ADPF 635 (cuja finalidade é apenas exigir respeito à Constituição e ao bom senso), sob a conversa fiada de que amarra as mãos da polícia?

A resposta me parece óbvia: se o Supremo ampliar o espectro de observação sobre o que acontece na segurança pública do Rio, corre-se o risco de que outras mãos sejam, não digo amarradas, mas algemadas.

Professor, a condenação unânime no STF prova que o caso Marielle não foi um 'erro' do sistema, mas a prova de que o Estado do Rio funciona como a infraestrutura logística do milicianato? A presença de Rivaldo Barbosa no centro do plano revela que a eliminação política se tornou um 'procedimento administrativo' do neofascismo fluminense, operado de dentro do gabinete que deveria investigar? Ou seja: Marielle foi morta não 'apesar' do Estado, mas 'pelo' Estado como arquiteto do crime?

Concordo, desde que se evite a reificação do conceito “Estado”, que não é um sujeito monolítico, mas um complexo contraditório, tensionado por conflitos e que opera com agências diversificadas e dissonantes.

As forças regressivas estão vencendo, mas a luta não acabou. Muita gente boa está por aí. E nós, afinal de contas, ainda estamos aqui. Devemos, à memória de Patricia e Marielle, resistir à capitulação – a qual, aliás, está sendo ensaiada nos discursos niilistas e no “pragmatismo político” eleitoral.

***

Nota de Thiago Gama

Esta entrevista não poderia encerrar sem mencionar a generosidade do Prof. Luiz Eduardo Soares. Ele nos acolheu como amigo, porque é amigo do Brasil.

Juíza Patricia Acioli, Niterói (RJ) continua a embalá-la no devir calmo das ondas de nossa Baía.

Marielle Franco (Mari), a sua presença é sentida em cada cantinho da PUC-Rio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário