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“Antissemitas sionistas”: recomposições ideológicas e a redefinição das figuras do inimigo,

Do Rebelión, 27 de março 2026
Por Mohammed Hadjab;  Observatorio de Geopolitica

O fenômeno dos chamados “antissemitas sionistas” revela a plasticidade histórica das ideologias identitárias.

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Resumo da notícia ​

“Antissemitas sionistas”: recomposições ideológicas e a redefinição das figuras do inimigo

A expressão “antissemitas sionistas”, proposta pela historiadora Sophie Bessis, descreve uma configuração política aparentemente paradoxal, mas profundamente reveladora das recomposições ideológicas contemporâneas. Ela designa a possibilidade de um apoio explícito ao Estado de Israel por parte de correntes políticas europeias historicamente marcadas por tradições antissemitas.

Longe de constituir uma simples contradição, esse fenômeno revela uma transformação nas hierarquias simbólicas da alteridade dentro de setores da direita nacionalista europeia. Não se trata necessariamente do desaparecimento das lógicas de exclusão, mas de sua reorientação para novos alvos.

A mutação das figuras do inimigo

Durante os séculos XIX e XX, grande parte da extrema direita europeia estruturou seu discurso em torno de um antissemitismo político, racial ou religioso. No entanto, no período posterior à Segunda Guerra Mundial — e de forma ainda mais evidente após o fim da Guerra Fria — os enquadramentos ideológicos sofreram profundas transformações.

A centralidade da memória da Shoah (Holocausto), a condenação pública do antissemitismo biológico e a reorganização das clivagens geopolíticas contribuíram para deslocar as figuras tradicionais do inimigo.

A partir dos anos 2000, particularmente após os Atentados de 11 de setembro de 2001, o Islã e a imigração proveniente de países árabes e muçulmanos passaram a ocupar um lugar central nos discursos políticos de mobilização identitária. Nesse novo contexto, o “árabe-muçulmano” tende a ocupar, no imaginário de exclusão de certos setores da direita radical europeia, o espaço que outrora era atribuído ao “judeu”.

Israel como ponto de convergência ideológica

Nesse novo cenário, Israel passa a ser frequentemente representado como um Estado-fronteira — um bastião avançado do Ocidente diante do islamismo político.

Diversas forças políticas europeias desenvolveram discursos de apoio a Israel articulados em torno de temas securitários, identitários e civilizacionais. Entre elas estão o Rassemblement national na França, o Fidesz na Hungria, o movimento PEGIDA e o partido Alternative für Deutschland na Alemanha – AFD.

Em muitos desses discursos aparece a referência à suposta existência de uma “civilização judaico-cristã”, apresentada como fundamento histórico e cultural da Europa. Essa formulação, entretanto, levanta importantes questões históricas. Durante séculos, as comunidades judaicas foram perseguidas, marginalizadas ou expulsas em diferentes partes do continente europeu.

Basta imaginar, simbolicamente, a pergunta dirigida a um sobrevivente dos campos de extermínio nazistas como Auschwitz-Birkenau ou Sobibor: no momento da libertação desses campos, ele teria realmente reconhecido na Europa a expressão de uma “civilização judaico-cristã”?

Memória seletiva e outras tradições históricas

Ao mesmo tempo, a história também registra períodos de coexistência e produção intelectual compartilhada entre judeus e muçulmanos em diversas regiões do mundo islâmico.

Em muitos desses contextos, os judeus viviam sob o estatuto de dhimmi (termo árabe que designa os não-muçulmanos protegidos em Estados islâmicos — pessoas autorizadas a praticar sua religião e a manter suas instituições comunitárias em troca de um estatuto jurídico específico e do pagamento de um imposto).

Embora esse estatuto implicasse desigualdades jurídicas, ele também possibilitou, em vários períodos históricos, formas de convivência e intercâmbio cultural que alguns historiadores descrevem como momentos de uma civilização judaico-muçulmana relativamente harmoniosa, especialmente quando comparada com determinados contextos europeus da mesma época.

O filossemitismo circunstancial

A noção de “antissemitas sionistas” não significa necessariamente a permanência explícita de um antissemitismo doutrinário intacto. Ela aponta antes para um fenômeno de instrumentalização política.

O apoio a Israel pode funcionar, nesse sentido, como uma forma de filossemitismo circunstancial. Esse posicionamento permite a certos atores políticos historicamente associados a tradições antissemitas reposicionarem-se moralmente no espaço público.

Ao reivindicar a defesa de Israel ou dos judeus contra o islamismo, esses atores podem apresentar-se como defensores da civilização ocidental e, ao mesmo tempo, distanciar-se simbolicamente do legado antissemita europeu. Esse movimento também pode funcionar como uma tentativa de “reabilitação política”, permitindo que certos discursos procurem se inocentar, ao menos parcialmente, das responsabilidades históricas associadas aos crimes contra a humanidade cometidos contra os judeus da Europa.

Nesse processo, a culpa histórica tende a ser deslocada para outros grupos contemporâneos — particularmente árabes, muçulmanos e palestinos.

A transferência simbólica da alteridade

Nesse imaginário político, os palestinos podem acabar sendo construídos como a nova figura da alteridade radical.

Alguns analistas sugerem que, no inconsciente político desses “antissemitas sionistas”, os palestinos passam a ocupar simbolicamente o lugar que os judeus ocuparam durante séculos no imaginário europeu de exclusão: o de um grupo percebido como estrangeiro, ameaçador ou incompatível com a ordem civilizacional dominante.

Conclusão

A reflexão proposta pela historiadora Sophie Bessis permite compreender uma transformação significativa das direitas radicais contemporâneas. O fenômeno observado não corresponde ao desaparecimento das lógicas raciais ou civilizacionais de exclusão que marcaram a história política europeia, mas antes à sua recomposição e reconfiguração dentro de novos enquadramentos ideológicos e geopolíticos.

A aproximação entre certas extremas direitas europeias e segmentos da direita nacionalista israelense revela a formação de uma convergência estratégica baseada na designação de um inimigo comum. Nessa nova configuração discursiva, o Islã, os árabes ou os palestinos passam a ocupar o lugar central na construção política da alteridade ameaçadora. Essa dinâmica permite que atores historicamente associados a tradições antissemitas se reposicionem no espaço público por meio de uma retórica de defesa de Israel ou da chamada “civilização judaico-cristã”.

Esse reposicionamento não implica necessariamente uma ruptura profunda com os mecanismos simbólicos que estruturavam as ideologias de exclusão do passado. Ao contrário, ele evidencia a capacidade de adaptação dessas estruturas discursivas. O racismo e o etnonacionalismo não operam apenas por meio de categorias fixas e permanentes; eles também podem reorganizar suas hierarquias e redefinir seus alvos em função de novas conjunturas políticas, sociais e geopolíticas.

Nesse sentido, o fenômeno dos chamados “antissemitas sionistas” revela a plasticidade histórica das ideologias identitárias. O sistema de pensamento que sustenta essas ideologias permanece baseado na hierarquização das culturas, na essencialização das identidades coletivas e na ideia de que determinados grupos seriam intrinsecamente incompatíveis com uma ordem social ou civilizacional considerada legítima.

A convergência observada entre certos setores da direita radical europeia e correntes nacionalistas em Israel deve, portanto, ser compreendida menos como uma reconciliação histórica do que como uma rearticulação estratégica. Ela se constrói em torno de uma narrativa comum que privilegia a soberania identitária, a centralidade da segurança e a percepção de um conflito civilizacional global.

Essa dinâmica convida a repensar o racismo não como um bloco ideológico rígido e imutável, mas como um sistema adaptável, capaz de se transformar e de deslocar suas categorias de exclusão sem necessariamente abandonar seus princípios estruturais. O que muda não é necessariamente a lógica de hierarquização do mundo social, mas os grupos que passam a ocupar, em cada período histórico, o lugar simbólico da alteridade considerada indesejável ou ameaçadora.

Compreender esse processo é fundamental para analisar as recomposições políticas contemporâneas. Ele mostra que as ideologias de exclusão não desaparecem simplesmente com as mudanças históricas; elas podem se reformular, redefinir suas linguagens e adaptar seus objetos, mantendo, sob novas formas, os mesmos mecanismos de produção de fronteiras simbólicas entre “nós” e “os outros”.


Mohammed Hadjab, analista geopolítico e em relações internacionais


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