Por EMILIANO JOSÉ*
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Imagem: Sep |
Think tanks financiados pelo Estado e pela indústria bélica pavimentaram o caminho para o neoliberalismo e agora colhem os frutos: guerra no Irã, cerco a Cuba e interferência declarada nas eleições brasileiras
1.
Atual, atualíssimo, o documentário dirigido por Bob Fernandes em torno da atuação das agências norte-americanas, atuação dos think tanks na América Latina. Talvez, creio-me no direito de especular, e fazê-lo com boa dose de realidade, talvez os frutos do trabalho de tais agências, tomado a partir do início de 2010, estejam sendo colhidos agora: frutos perversos, quando uma onda inversa à onda rosa se espraia pelo continente, permitindo ao presidente norte-americano, Donald Trump, fazer uma reunião com 12 lideranças da região, no início do mês de março deste 2026, todas vinculadas ao pensamento e práticas da extrema direita.
Reunião realizada no campo de golpe do presidente norte-americano, na Flórida, a contar com as presenças de presidentes como Javier Milei, da Argentina, hoje um protetorado dos EUA, Nayib Bukele, de El Salvador, famoso por mandar prender dezenas de milhares de pessoas acusadas de pertencerem a gangues ligadas ao narcotráfico – acusadas, insista-se.
Nayib Bukele tem se tornado um ídolo da extrema direita, com muitas lideranças pretendendo tê-lo como modelo para o enfrentamento do crime organizado – desconhecer a lei, esquecer Estado de direito, deixar de lado a democracia. Avança o pensamento autoritário, próprio do arcabouço do nazifascismo, arcabouço com o qual as forças do conservadorismo extremo se identificam sem disfarçar.
Donald Trump conseguiu reunir, ainda, os presidentes da República Dominicana, Luís Abenader, da Guiana, Mohamed Irfaan Ali, da Costa Rica, Rodrigo Chaves Robles, da Bolívia, Rodrigo Paz, e do Chile, José Antonio Kast, entre outras lideranças. A reunião foi chamada, certamente por inspiração de Donald Trump, de “Escudo das Américas”.
Como a convidar aqueles países a colocar sob o domínio do escudo dos EUA, pouco importando, a tais nações, a ideia de soberania. Preferem guardar-se sob o guarda-chuva norte-americano, ou o escudo. Palavras a esconder submissão, entrega, volta ao velho colonialismo, rastejar diante do império.
Para tal reunião, não foram convocados Brasil, México, Colômbia, cujos presidentes mantém uma posição orgulhosamente altiva diante do império. Não querem provocar, aceitam sempre o diálogo, se conversa de iguais, sem imposições.
2.
Sem querer brincar, falando sério, as lideranças presentes àquela reunião, vários presidentes, foram obrigados a ouvir o presidente norte-americano manifestar grosseiramente a recusa de aprender a “maldita língua” dos convidados, uma agressão desnecessária, uma ofensa gratuita, recebida com sorrisos por parte da plateia, acostumada à sujeição, ao rastejamento, a sujeitar-se ao império, servidão voluntária.
Tais lideranças talvez devessem estudar um pouco mais o comportamento dos impérios e de modo especial a política do imperialismo norte-americano, incapaz de cumprir a maioria das promessas feitas a aliados. Não quisessem voltar muito tempo na história, ao início do século XX, quando os EUA já colocavam as mangas de fora com a pretensão de vir a ser a principal força imperialista, podiam valer-se do recente exemplo europeu.
A crença no escudo norte-americano evaporou-se recentemente quando Donald Trump manifestou a disposição de anexar a Groelândia, sem qualquer consulta aos aliados do continente. A Europa, cansada de ter sido colocada como força terceirizada na guerra contra a Rússia, tendo a Ucrânia como argumento, esperava outra atitude do império, e deu com os burros n’água.
Não bastasse isso, sente os efeitos catastróficos da guerra desencadeada pelo antigo aliado contra o Irã, lado a lado com o sionismo, uma guerra iniciada sem qualquer consulta às lideranças do velho continente. Líderes europeus chegaram a blefar, pretendendo romper o bloqueio do Estreito de Ormuz. Besteira. O continente não deixará de desempenhar o papel de triste figura no cenário internacional, inteiramente submetida aos interesses dos EUA.
A América Latina, aquela parte já entregue à sujeição ao imperialismo, colherá à frente os frutos amargos de tal relação. O pior: os malefícios atingem exclusivamente à classe trabalhadora, à população mais pobre, acorrentada a um círculo vicioso de autoritarismo e miséria, com poucos momentos de distribuição de renda e de democracia, atropelados sempre por golpes de variada natureza.
Os presidentes, as lideranças sujeitas ao “Escudo das Américas” são expressão de classes dominantes e elites locais mergulhadas na exploração dos trabalhadores, enriquecidas por isso, preferindo sempre o caminho da subordinação a qualquer atitude independente, qualquer proposta de desenvolvimento destinado a melhorar a vida dos povos dos países que dizem representar.
3.
Há casos emblemáticos. O presidente Santiago Peña, do Paraguai, presente à reunião “Shield of the Americas”, superou as expectativas dos EUA. Ajoelhou e rezou. Num jogo de faz de conta, afirma estar ao lado do império no combate ao crime organizado. Nem o Paraguai, nem os EUA, estão verdadeiramente preocupados com o crime organizado, até porque o principal mercado das organizações criminosas da América Latina e de todo o mundo localiza-se nos EUA, como toda a humanidade está cansada de saber.
Paraguai assinou um tratado com os EUA abrindo de modo inusitado o país à entrada de norte-americanos, civis ou militares, eximindo-se de qualquer vigilância, abrindo mão da jurisdição sobre o território da nação. Denominou-se Status of Forces Agreement (SOFA). Os militares norte-americanos terão status similar a diplomatas, com imunidade, isenções fiscais e jurisdição penal dos EUA enquanto operarem em território paraguaio.
O país, como se sabe, é vizinho, faz fronteira com o Brasil, e a presença militar do império ali não é ocasional, e não deixa de revelar pretensões em torno do domínio da América Latina e também se for o caso do Brasil. O foco de tais forças militares será a Tríplice Fronteira – Argentina, Paraguai e Brasil. São recados não tão dissimulados a todo o continente e de modo especial à maior nação da região.
O Equador, março de 2026, intensificou a realização de operações conjuntas com os EUA para, na linguagem usual, combater o narcoterrorismo. Contou, como devidamente acertado, combinado, com o Comando Sul e de forças especiais do império norte-americano, cujas principais tarefas foram a de garantir “suporte estratégico, inteligência, planejamento e apoio logístico”.
O presidente equatoriano, Daniel Noboa, mobilizou cerca de 75 mil militares e policiais. Os EUA estão nadando de braçada nesta quadra histórica da América Latina, contando com o apoio do maior número de países do continente, os quais acomodam-se e gostam da ideia da presença e ajuda militar, ancorados no argumento de combate ao “narcoterrorismo”.
Estamos carecas de saber o quanto isso tem de ideologia, no pior sentido da palavra. Toda essa movimentação está vinculada à retomada do América Latina, em voltar a ter o continente como quintal, e disso Donald Trump não faz segredo, por palavras e atos. É a nova versão da Doutrina Monroe.
Esqueçam combate ao narcotráfico. Nesse contexto, embora não seja nosso objeto, cabe lembrar o cerco já iniciado ao Brasil, visando as eleições deste ano, quando o governo norte-americano e todo o Deep State farão de tudo no sentido de derrotar o presidente Lula.
As movimentações no Paraguai, a tentativa de caracterizar o PCC e demais organizações vinculadas ao narcotráfico como terroristas são movimento nitidamente voltados à interferência nas eleições deste ano. Se aceita tal caracterização, os EUA ganham o direito, por absurdo que pareça, de agredir o Brasil, bombardear o país sob o argumento de atacar grupos terroristas.
4.
Não teremos eleições limpas porque, ontem como hoje, os EUA sempre se acharam no direito de intervir nas eleições brasileiras. Não apenas isso, pois 1964, o golpe militar com todas as consequências sangrentas dele, teve a mão forte de Washington, a bênção do presidente John Kennedy, antes dele morrer, e depois de Lyndon Johnson. Os EUA não deixaram de ser o que sempre foram.
O documentário de Bob Fernandes mostra como os EUA foram preparando o terreno. Como articularam a difusão do pensamento neoliberal, deram importância à formação de multidões, importância à cultura, vinculação entre política e cultura, sem naturalmente desprezar a efetivação de golpes, nem sempre, mais recentemente, a contar com tanques e metralhadoras.
Golpes a contar agora com a fenomenal máquina da internet, dos algoritmos, a produzir fake news incessantemente, a fazer da mentira, verdade, a convencer as pessoas sobre coisas sem qualquer vinculação com a realidade.
Tudo isso contando com os think tanks, com as agências produtoras de pensamento, sempre com objetivos nítidos de pavimentar o caminho para o neoliberalismo, ameaçado pela chamada onda rosa, quando governos progressistas e de esquerda hegemonizaram a América Latina durante uma década.
Golpes a contar, como sempre com a imprensa empresarial, cuja atuação nunca faltou às classes dominantes locais e cuja ideologia jamais permitiu falhar face aos interesses do imperialismo norte-americano. Em todo o continente e de modo especial no Brasil, cuja mídia empresarial é uma das mais envolvidas em golpes e na defesa de privilégios dominantes, ela própria parte das classes dominantes, e incapaz de aceitar qualquer governo com alguma pretensão progressista e verdadeiramente democrática.
A par de os golpes contarem mais recentemente com o poder judiciário, cuja participação é impossível de esconder. O chamado “lawfare”. O Brasil tem sido vítima disso, e não custa lembrar o golpe contra a presidenta Dilma, a organização criminosa denominada Lava Jato, a ligação dela com a imprensa, a levar à prisão de Lula, à impossibilidade dele concorrer à presidência da República.
Tudo isso deu a chance da eleição de um nazifascista, com todas as consequências do pleito de 2018, um governo genocida, a produzir uma tragédia. O judiciário, ali, teve protagonismo essencial, só depois recuperando-se, admitindo o desastre, o escândalo da Lava Jato, e nesse momento, por incrível, a Lava Jato, os métodos dela, parece novamente dar as caras, como vem sendo denunciado por setores independentes do jornalismo, e lembro, de modo destacado, os nomes do próprio Bob Fernandes e de Luís Nassif, para citar dois.
5.
Nas loucuras do império, e só uso loucuras como uma espécie de licença poética por que de loucura não tem nada, é tudo pensado, calculado, parte do projeto, está a tentativa de arremetida final sobre Cuba, como se de fato fosse o último ataque.
Com as dificuldades na guerra do Irã, com a hecatombe econômica provocada por ela, com a impressionante resistência do país persa, com o incômodo de aliados, os EUA não parecem em condições de derrotar Cuba.
Tem colocado a Ilha em condições dramáticas, com o recrudescimento do bloqueio iniciado desde os primeiros anos da Revolução Cubana, a impedir a chegada até agora de uma gota de petróleo a portos cubanos, mas não a levou a ficar de joelhos, nem a render-se, e também, tal a violência, tem feito aumentar a solidariedade, seja de países, seja dos povos do mundo.
Com os olhos postos na eleição de novembro, com o Irã mordendo os calcanhares dele, com o mundo do capital à beira de um ataque de nervos, e sem dispor-se a invadir a Ilha, porque o império já foi derrotado uma vez, em Playa Girón, Donald Trump parece não ter condições de derrotá-la.
Embora não se desconheça a gravidade do quadro social, provocado exatamente pelo perverso bloqueio, são visíveis as primeiras fendas no cerco montado por Donald Trump, com a possibilidade da entrada de navio russo carregado de petróleo em águas cubanas e de outros navios, de México e Espanha, com ajuda humanitária, além de uma flotilha organizada por movimentos sociais. Será que Donald Trump irá bombardear esses navios? A ver.
Bob Fernandes, no último capítulo do documentário, entrevistou Nick Cleveland-Stout, pesquisador associado do Programa Democratizando a Política Externa do Instituto Quincy para a Governança Responsável, em Washington, e bolsista da Fundação Fulbright na Universidade Federal de Santa Catarina, onde realizou pesquisas sobre as relações Brasil-EUA, com foco particular na influência de think tanks americanos no Brasil.
O pesquisador discutiu com ele o papel da indústria bélica na relação com os think tanks, o quanto a indústria de armamentos investe em tais agências. Esse setor econômico, essa fábrica de mortes, e não creio estar exagerando, sempre conseguiu, através desses centros de pensamento, abrir verdadeiras avenidas de influência na política norte-americana, e a expressão “avenidas de influência” é do próprio Cleveland-Stout.
Trata-se de um lobby poderosíssimo, e isso decorre da magnitude de tal indústria. Quisermos atualizar pouco nossa análise, é só chegar aos dias atuais, quando ocorre, a quente, uma guerra de grandes proporções, a agressão dos EUA ao Irã, a impulsionar, dessa maneira, o complexo industrial-militar, nesse momento esfregando as mãos de contentamento face à demanda incessante provocada pela iniciativa norte-americana, decorrente da pressão sionista-israelense.
6.
Cleveland-Stout fala da magnitude dos valores envolvidos na indústria bélica. Um caça F-16, lembrado por ele, custa a bagatela de 70 milhões de dólares. Arma mortífera, não custa insistir: equipado com canhão giratório M61 Vulcan de 20 mm e com múltiplos pontos nas asas para carregar mísseis, bombas inteligentes e tanques de combustíveis extras. Versões modernas trazem radares avançados, sensores ultrassensíveis e vida útil estendida. Por isso, o custo milionário. Guerra custa caro, e sempre faz brilhar de felicidade os olhos dos investidores da indústria bélica.
Donald Trump, ainda em março deste ano, pediu um financiamento adicional para a guerra do Irã de nada menos que US$ 200 bilhões, correspondentes a R$ 1 trilhão. O secretário de Defesa dos EUA, Peter Hegseth justificou o pedido aos congressistas norte-americanos de forma bem característica: “Matar homens custa caro”. Sim, disse homens maus, como ele qualifica os persas do Irã.
Verdade, matar tanta gente custa caro.
O Pentágono, hoje denominado Departamento de Guerra, deu informação preciosa e preocupante aos parlamentares: até agora o conflito com o Irã custou US$ 11,3 bilhões, cerca de R$ 56,5 bilhões, e isso apenas na primeira semana.
Bob Fernandes quer saber o papel de governos estrangeiros no financiamento dos think tanks. E com as informações de Cleveland-Stout, vamos nos aproximando mais ainda do momento atual, especialmente da guerra do Irã, novamente. Nos últimos cinco anos, governos estrangeiros despejaram 110 milhões de dólares nos cofres das agências norte-americanas.
A primeira categoria de financiadores estrangeiros, de acordo com o pesquisador, vem dos governos do Oriente Médio. O principal: Emirados Árabes Unidos. Logo atrás, Arábia Saudita e o Qatar, entre outros. São países onde os EUA desfrutam de muito poder e prestígio, muita influência, conforme Cleveland-Stout. Amigos, amigos, negócios à parte: com tais países o império norte-americano quer saber de fortalecimento das empresas dele, sobretudo exportações de armas, e sempre estabelecer acordos de segurança.
Vários países do Oriente Médio, como o Qatar, Bahrein, Kuwait, Emirados Árabes e Jordânia, entre outros, aceitaram a implantação de bases militares norte-americanas nos territórios deles, acreditando isso pudesse servir-lhes de proteção a qualquer agressão. Agora, diante da reação do Irã, cujos mísseis alcançaram e destruíram várias daquelas instalações militares, viram-se desprotegidos, e reagiram como se não tivessem nada com o conflito.
Como não, cara-pálida?
Todos são aliados, cúmplices da política do império na região, e isso está cobrando um preço. Só para se ter uma ideia, Dubai, Meca do turismo, enfrenta um tsunami de cancelamento de voos. O aeroporto da cidade, um dos mais movimentados do mundo, sofreu impacto de mísseis e drones.
Não há países nem cidades inocentes em toda a região. Os danos econômicos são enormes. Querem cobrar agora a proteção prometida pelos EUA, e estes fazem ouvidos de mercador, até porque não esperavam tal resistência do Irã, e é com ela que tem de lidar, e naturalmente com as graves consequências econômicas da guerra para todo o mundo, atingindo todo o modo de produção capitalista.
Bob Fernandes quer saber outra coisa de Cleveland-Stout: o Departamento de Estado contribuiu para os think tanks nos últimos cinco anos? Quanto de dinheiro despejou para tais agências? O pesquisador não consegue fixar com exatidão o montante de dólares, mas tem convicção de ser uma importância superior a nada mais nada menos que 100 milhões de dólares. Se houve susto diante da importância, Bob Fernandes afirma ter informações de uma contribuição bem maior: 780 milhões de dólares.
Os EUA ostentam uma democracia, mantendo a palavra, onde o capital e o Estado vivem imbricados, umbilicalmente ligados, um regime político cujo dia a dia não faz segredo disso. A cada eleição, são bilhões de financiamento privado. Todo dia, o lobby do capital trabalha, e sem se esconder, porque legalizado.
Os think tanks, todos financiados pelo capital e pelo próprio Estado, a serviço dos interesses do império, a serviço inclusive de golpes, como já vimos, a serviço das guerras, pouco importando as consequências delas, do sangue jorrado, nações destroçadas. Centros de inteligência a favor das forças do mal, para usar expressão a gosto do império, na verdade a favor da manutenção, hoje, do neoliberalismo, do aumento da miséria e da fome, e da monumental concentração de riqueza nas mãos de poucos.
*Emiliano José é jornalista, escritor, membro da Academia de Letras da Bahia. Autor, entre outros livros, de O cão morde a noite (EDUFBA). [https://amzn.to/46i5Oxb]
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