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A privatização dos rios do Pará

Do Rebelión, 14 de março 2026
Por MARCOS ANTONIO DA SILVA FILHO*


Paulo Nash, Totes Meer (Mar Morto), 1940–1


Colonizar um território é também colonizar sua gramática. É predar uma gramática autóctone. É capturar as regras que definem o que conta como humano, como racional, como legítimo

O debate sobre a possível privatização de rios no Pará, envolvendo interesses de grandes corporações como a Cargill, tem sido tratado por muitos como mais um capítulo da polarização brasileira. De um lado, argumentos sobre eficiência, investimento e desenvolvimento. De outro, falas que parecem “exageradas” ou “irracionais”, como a de uma liderança indígena que afirma: “o rio é nosso ancestral”.

Mas talvez o erro esteja justamente em achar que se trata apenas de um desacordo factual.

Quando uma senhora indígena diz que o rio é vivo e tem direitos, não estamos diante de uma descrição científica que possa ser confirmada ou refutada por um laboratório. Também não se trata de metáfora poética no sentido fraco. O que está em jogo é algo mais profundo: uma disputa gramatical. Uma disputa sobre as regras que articulam e fixam o significado de “rio”, “vida”, “direito”, “propriedade” e “recurso”.

Para o modelo econômico dominante, o rio é recurso natural. Pode ser explorado, concedido, privatizado. Ele entra numa cadeia de inferências materiais bastante conhecida: se é recurso, pode gerar lucro; se pode gerar lucro, deve ser otimizado; se deve ser otimizado, precisa de gestão eficiente, capital e propriedade definida.

Contudo, quando alguém afirma “o rio é nosso ancestral”, a gramática do significado muda e com isto as inferências materiais que articulam o significado das expressões. Se é ancestral, não é recurso. Se é ancestral, não é mercadoria. Se é ancestral, vendê-lo não é transação econômica: é traição, é rompimento de vínculo vital. Não é vender uma coisa. É vender um parente.

É por isso que muitas dessas falas não “convencem” quem opera na gramática liberal. Não é que falte dado técnico. É que o conflito não é sobre dados empíricos. É sobre os critérios que organizam o que conta como dado relevante.

O filósofo Ludwig Wittgenstein (1969) dizia que nossas práticas repousam sobre “certezas fulcrais”, proposições que não funcionam como hipóteses empíricas, mas como eixos a partir dos quais gira o jogo de linguagem inteiro. Estas certezas-eixo não são refutadas por contraexemplos; estruturam o que conta como verificação e como contraexemplo.

Dizer “o rio é ancestral” é expressar uma dessas certezas fulcrais de uma forma de vida. A negação desta certeza não é simplesmente falsa dentro daquele jogo de linguagem. É absurda. É como se alguém dissesse que sua própria mãe é apenas um conjunto de moléculas. Pode até ser verdade num nível físico, mas isso não toca o que está sendo afirmado.

Em muitos dos debates que circularam recentemente sobre o tema, o choque fica evidente. Um lado fala em concessão, investimento, desenvolvimento logístico. O outro fala em enfrentamento, vida ou morte. Um ativista afirma que os indígenas não são “companheiros” ou “camaradas”. São guerreiros. Andam de arco e flecha pela ocupação. Estão em guerra. Pessoas pró-mercado defendem que é um exagero: “estão bloqueando o progresso”.

Mas se o rio é vida, é ancestral, é parte da própria identidade coletiva, então privatizá-lo não é política pública. É violência existencial contra uma forma de vida. Predando seu território e sua gramática também.

É aqui que o conceito de violência gramatical ajuda a compreender o conflito (Praxedes e Silva, 2025; Santana e Silva, 2025). Violência gramatical não é apenas insulto ou censura. É a imposição de uma rede de significados que redefine o que algo “é” antes mesmo do debate começar. Quando o Estado ou uma empresa trata o rio exclusivamente como ativo econômico, está impondo uma gramática específica sobre outras formas de vida.

Colonizar um território é também colonizar sua gramática. É predar uma gramática autóctone. É capturar as regras que definem o que conta como humano, como racional, como legítimo. O binômio recurso/mercadoria substitui o binômio ancestral/vida. E o segundo passa a parecer folclore, atraso ou irracionalidade.

O conflito, então, não é apenas ambiental ou econômico. É normativo e gramatical também. É um choque entre formas de vida que não compartilham os mesmos eixos conceituais, ou certezas fulcrais.

Muita gente reage dizendo: “mas precisamos de fatos”. O problema é que fatos não falam sozinhos. Eles devem ser avaliados dentro de uma gramática. Se o rio é recurso, os dados sobre exportação e PIB fazem sentido. Se o rio é ancestral, os critérios são outros: continuidade cultural, equilíbrio ecológico, sobrevivência coletiva.

Robert Fogelin (1985) chamou isso de “desacordo profundo”: quando as partes não compartilham os critérios básicos do debate. Não adianta despejar gráficos e dados se a própria ideia de desenvolvimento está em disputa.

Isso não significa que tudo seja relativo ou que não haja conflito real. Pelo contrário. Significa que o conflito é mais profundo do que parece. Ele envolve soberania gramatical (Silva, 2026): quem tem o poder de definir o que é um rio? Quem fixa a régua que mede o que conta como progresso? Também é livre a comunidade que determina a sua própria gramática.

Talvez parte do sucesso recente de projetos conservadores não esteja na verdade de suas afirmações, mas na eficácia com que conseguem inserir pessoas numa determinada imagem de mundo, introduzi-las em novas certezas fulcrais, por meio de mídia, poder econômico e captura institucional. Não é apenas convencer com argumentos. É reorganizar o campo do sentido através do que conta como critérios e avaliação.

A pergunta decisiva não é “quem está mais bem informado?”, mas “qual gramática vai prevalecer?”.

Dizer que a polarização é ignorância é confortável. Implica que basta educar melhor, divulgar mais dados, introduzir mais informações e fatos. Mas quando o conflito é gramatical, a tarefa é outra: explicitar as regras em jogo e disputar seus fulcros conceituais.

Se o rio é ancestral, isso não é uma tese científica a ser testada. É a expressão de uma certeza fulcral que organiza uma forma de vida inteira. Negá-la é tentar deslocar o eixo dessa forma de vida.

Por isso, quando ouvimos que “privatizar rio é modernizar o Brasil”, talvez devêssemos perguntar: modernizar segundo qual gramática? E a que custo de destruição de outras?

Não se trata de romantizar ou de rejeitar qualquer debate técnico. Trata-se de reconhecer que, em lugares periféricos, a disputa política muitas vezes não é sobre números, dados, fatos, mas sobre o que conta como vida, como valor e como mundo possível.

Polarização não é ignorância. É choque entre formas de vida que operam com fulcros ou eixos conceituais distintos, ou, em uma palavra, a partir de gramáticas distintas. Se quisermos que nossos projetos políticos dialoguem com essas lutas, precisamos aprender a ouvir essas certezas não como erro factual, mas como a expressão de outra gramática.

E então decidir, coletivamente, qual régua queremos usar para medir o futuro.

*Marcos Antonio da Silva Filho é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Referências

FOGELIN, R. J. The logic of deep disagreements. Informal Logic, v. 7, 1985.

PRAXEDES, Fábio; SILVA, Marcos. Gaslighting as grammatical violence: a Wittgensteinian epistemological reading. Prometeus, v. 17, n. 47, 2025.

SANTANA, Jefferson; SILVA, Marcos. Sobre democracia racial, violência gramatical e certezas fulcrais: como um mito se torna regra no imaginário brasileiro. ethic@, Florianópolis, v. 24, p. 1–32, ago. 2025.

SILVA, Marcos. Um Modelo Neopragmatista de Alavancagem Gramatical. Trans/Form/Ação: revista de filosofia da Unesp, Marília, v. 49, n. 1, e026003, 2026a.

WITTGENSTEIN, L. On certainty. Oxford: Blackwell, 1969.

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