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A possível internet pós-corporações

Há um processo de degradação das redes. Mas por que pessoas, esgotadas, não abandonam as big techs por alternativas livres? Mais que regular, Estado tem papel central na descolonização digital, desde que aposte na esperança pragmática


De Outras Palavras, 24 de março 2026
Cory Doctorow em entrevista a Jose A. Cano, no El Salto | Tradução: Rôney Rodrigues



Cory Doctorow é autor de ficção científica, ativista e jornalista. Conhecido por sua atuação em defesa do software livre e do Creative Commons, publica na Espanha Mierdificação: O que fazer diante da apropriação da internet pelas grandes empresas de tecnologia [ainda sem tradução no Brasil]. Trata-se de um ensaio sobre a enshittification, conceito criado pelo próprio Doctorow em um artigo de 2023 em seu blog Pluralistic, com o qual descreve a decadência das plataformas de internet — ou, ao menos, a deterioração progressiva de seus serviços para usuários comuns e pequenas empresas, com o objetivo de extrair o máximo de renda possível, seja na forma de dados, publicidade ou outros serviços.

O autor concede entrevista ao El Salto por videoconferência alguns dias antes de sua viagem ao nosso país, onde irá apresentar sua nova obra. Antes de começar, Doctorow, que arranha um pouco de espanhol, comenta a perda de ambiguidade na tradução do conceito de enshittification para o nosso idioma: “Shit, em inglês, é tanto um substantivo quanto um verbo; portanto, enshittification é algo que acontece — tudo se transforma em merda —, mas também algo que alguém faz. Em espanhol, seria ‘cagar’, e essa conotação se perde em ‘mierdificación’”, explica. Para o autor, “a ambiguidade funciona. Pode ser uma característica (feature), e não um erro (bug)”.

Você diria que a ideia da “merdificação” da internet e das redes está mais atual agora do que há quatro anos, quando criou o termo?

Sim, acho que sim. Quando pensei no conceito, estava tentando encontrar uma palavra que desse conta de descrever tudo isso. Durante 25 anos trabalhei na Electronic Frontier Foundation, uma ONG cujo objetivo é fazer com que as pessoas reflitam sobre as políticas tecnológicas. E o problema de tentar levar as pessoas a pensar sobre política tecnológica é que se trata de questões muito abstratas, muito técnicas e quase sempre voltadas para o futuro. O mais comum é nos preocuparmos com problemas que são concretos e imediatos.

E os temas tecnológicos só se tornam concretos e imediatos quando já é tarde demais para corrigi-los. Um pouco como acontece com as mudanças climáticas. Em 1980, era algo muito distante, muito abstrato; hoje é algo bastante concreto — mas porque tudo está pegando fogo. Então você tenta todo tipo de estratégia para fazer com que as pessoas se preocupem com essas políticas tecnológicas.

Já usei parábolas, analogias… Escrevo contos e romances de ficção científica. E, no fim das contas, é uma palavra “suja” que realmente funciona. Foi como dar às pessoas permissão para reclamar de algo que as estava enlouquecendo, sem que soubessem exatamente por quê. E, voltando à pergunta, sim: acho que as pessoas têm todo o direito de estar mais irritadas hoje do que estavam há três ou quatro anos, sem dúvida.

Em seu ensaio, você aborda possíveis soluções. Na Europa, neste momento, temos governos como o da França, que abandonaram todos os programas vindos dos Estados Unidos para suas comunicações, além do debate sobre como obter tanto uma infraestrutura física própria quanto plataformas sob controle europeu — algo que parece um arranjo muito distante no tempo.

A Europa passou 20 anos apegada a duas crenças bastante negativas. A primeira: que a tecnologia estadunidense era uma plataforma neutra e que seu governo poderia utilizá-la sem consequências. A segunda: que, se as plataformas se comportassem “mal”, a resposta seria regulá-las, em vez de reduzir seu poder. E assim se perderam duas décadas com mandatos para moderação de conteúdo ou infrações de direitos autorais. Algo que não funcionou, não é mesmo?

O problema é que, quanto mais poderosas são as plataformas, menos se importam com as suas exigências. Olhe para o GDPR [Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados]. Eu mesmo fiz lobby em Bruxelas a favor dele. E as empresas de tecnologia não o cumprem. Elas fingem que sim, bombardeiam as pessoas com solicitações de consentimento e dizem que podem vigiá-las porque é um “propósito legítimo”. E se você tenta discipliná-las, elas se refugiam na Irlanda, que é onde toda a regulação tecnológica vai morrer.

O DMA [Lei dos Mercados Digitais] foi a primeira tentativa de reduzir o poder delas, exigindo que a Apple ou a Google abrissem suas lojas de aplicativos, por exemplo. Mas chegou tarde. Elas já eram tão poderosas que nem se importavam em cumprir as regras.

Com Biden na Casa Branca, podia parecer que os EUA ajudariam a Europa, mas agora Trump está no poder e já vemos o uso que ele faz da “internet americana”. Se o Tribunal Penal Internacional processar Netanyahu, os EUA de Trump deixam os magistrados sem e-mails, sem arquivos, sem documentos… Se o Supremo Tribunal Federal do Brasil processar Jair Bolsonaro, a mesma coisa. Ninguém pode permitir que suas instituições-chave dependam da tecnologia dos EUA.

Assim, chegamos ao Eurostack, que é uma tentativa de corrigir os erros dos últimos 20 anos. São as duas respostas à sua pergunta: obter o hardware, a parte física, e plataformas 100% europeias. Não quero dizer que sejam objetivos fáceis, mas ambos têm grandes grupos de interesse por trás. Os investidores querem construir data centers porque querem ser proprietários, adoram a ideia de renda passiva. E algo semelhante acontece com as plataformas. O mundo está cheio de geeks que odeiam o Facebook e gostariam de criar o seu próprio. Você não consegue dar um passo sem esbarrar em alguém que está criando um substituto para o Facebook, Twitter, YouTube ou o que quer que seja.

O que falta é que seja possível extrair os dados das plataformas estadunidenses e transferi-los para essas novas plataformas europeias, hospedadas em centros de dados europeus. Nenhum ministério vai copiar um a um milhões de documentos da Microsoft para um aplicativo do Eurostack. Você precisa de ferramentas, e a Microsoft não vai fornecê-las.

A questão é como construímos essas ferramentas que funcionem como uma ponte entre a velha internet, na qual estamos presos, e a internet pós-americana de que precisamos para sobreviver. São soluções distantes no tempo, mas a solução para a ponte está em legalizar o desbloqueio [“jailbreak”] dessa tecnologia. A diretiva europeia de direitos autorais torna ilegal qualquer modificação sem permissão do criador — não do governo, mas da empresa proprietária — desde 2001.

Isso está, sim, ao alcance da União Europeia. Ela não pode obrigar a Apple a fazer coisa alguma, mas pode impedir que a Apple leve a tribunal europeu uma empresa espanhola que crie uma loja de aplicativos para o iPhone. Pode mudar essa lei amanhã. Isso não só aceleraria a saída dos europeus das plataformas americanas, como também criaria oportunidades de mercado. As empresas americanas faturam milhões de dólares que poderiam ser ganhos por empresas europeias.

E como facilitamos a saída para todas aquelas pessoas comuns que não são especialistas, nem trabalham para grandes empresas ou para o Estado?

É a mesma solução, envolvendo engenharia reversa e jailbreaking. No livro, conto como Mark Zuckerberg fez com que os usuários deixassem o MySpace para migrarem para o Facebook. Ele enfrentava o mesmo problema: as pessoas não saíam do MySpace porque lá estavam todos os seus amigos. Os economistas chamam isso de problema da ação coletiva. E o que Zuckerberg fez foi oferecer um botão ao qual bastava fornecer a senha da outra plataforma, e ele transferia para o Facebook tudo o que você tinha lá.

O problema é que, sob o Artigo 6 da Diretiva de Direitos Autorais, se alguém fizesse isso com o Facebook, Mark Zuckerberg poderia reduzir essa pessoa a escombros radioativos. Quando ele fez isso, foi progresso. Se nós fizermos o mesmo com ele, é pirataria. E eles jogam com isso: se sabem que mantêm seus usuários presos, podem abusar deles sem correr riscos. Isso também é a “enshittification”.

Mark Zuckerberg quer que você o odeie, mas apenas um pouco menos do que quer seus amigos, de modo que você acabe ficando no Facebook. Qual é a importância de ter um lugar onde você possa se organizar com outros pais para levar seus filhos ao futebol, encontrar clientes para o seu negócio, conversar com parentes que estão longe? Enquanto o valor que os usuários da plataforma oferecem uns aos outros superar o valor que Mark Zuckerberg extrai deles, a maioria vai permanecer.

Mas e se você reduzir o custo de sair? Acontece o mesmo com as operadoras de telefonia: se você está na Vodafone e não gosta, muda para a Orange — pode ser tão fácil quanto colocar seu número em um site. Antes era muito mais caro, mas a UE interveio para criar a portabilidade. Hoje, ninguém se importa em qual rede você está, você não precisa fazer com que seus contatos migrem para a mesma operadora que a sua. É possível reproduzir essa dinâmica em nossos sistemas digitais. É até estranho que ainda não o tenhamos feito. É como se estivéssemos nos anos 90, e o que falta é trazer isso para o século XXI.

Isso explica o paradoxo de que todo mundo acredita que Google, Twitter e outras plataformas funcionam pior do que nunca, mas não as abandonam?

Na economia neoclássica, existe essa ideia chamada “preferência revelada”. Significa que não importa o que você diga: se você age de forma diferente, é porque secretamente prefere o que está fazendo. Assim, se você diz “odeio que invadam minha privacidade”, mas usa o Facebook e eles invadem sua privacidade, então, na verdade, você não valoriza tanto assim a privacidade. Eu acho que isso está errado. Às vezes é como se estudar economia causasse uma lesão neurológica muito específica, que torna a pessoa incapaz de raciocinar sobre poder. As dinâmicas de poder fazem com que as pessoas façam coisas que não querem fazer.

Olha, entre os grupos que estão tentando com muita força se estabelecer fora do Twitter estão os ativistas do que nos EUA se chama Black Twitter, que criaram seu próprio servidor no Bluesky, o BlackSky, mas ainda não conseguiram sair de vez do atual X. Eles querem deixar o Twitter porque são membros de uma minoria racial que ali fica exposta ao abuso e ao assédio, mas não querem ficar isolados, nem perder sua rede de apoio digital. As pessoas podem permanecer em situações ruins porque valorizam aqueles que estão ao seu redor.

Olha, minha família são refugiados soviéticos. Minha avó foi uma criança-soldado no cerco de Leningrado, esteve lá dos 12 aos 15 anos arrastando cadáveres e levando munição para as linhas de frente. De lá, foi para a Sibéria, onde conheceu meu avô, que era um refugiado polonês; tiveram meu pai e foram para o Canadá. Mas eles são os únicos. Todo o resto da família ficou na Rússia, passando por muitas dificuldades, na era soviética e depois. As pessoas permanecem em lugares onde não querem estar.

No seu livro de ficção científica Radicalizado, de certa forma, você antecipou Luigi Mangione no conto que dá título à obra, e levou a “merdificação” ao extremo antes mesmo de nomeá-la em “Pão Não Autorizado”. Como autor de distopias, por que você acha que não escrevemos mais sobre como sair delas?

Bem, cada uma das histórias desse livro tem algum tipo de final feliz. A utopia não consiste em violar a segunda lei da termodinâmica. As coisas se desmoronam. Supor que nada vai dar errado não é otimismo, é idiotice. As pessoas que não colocaram botes salva-vidas suficientes no Titanic não eram otimistas, eram idiotas perigosos. Eu acho que está certo — e não é pessimismo — imaginar que as coisas podem se quebrar. O imperdoável é imaginar que não podemos consertá-las. É por isso que todas as minhas histórias tratam de pessoas que consertam coisas.

É verdade que se vê um futuro com coisas bastante ruins no horizonte. Há muitos efeitos das mudanças climáticas que já estão determinados. Não vão mudar. Mas o que fizermos com as inundações que estão por vir depende de nós. Isso vai se transformar em algo como Mad Max? Ou vamos nos salvar mutuamente? Isso depende completamente de nós.

Para mim, a esperança não é a crença otimista de que pode existir uma sociedade em que tudo funcione sempre, mas a ideia de que podemos criar uma sociedade que falhe com elegância. Onde, quando as coisas dão errado, elas são corrigidas. É melhor ter um carro com freios excelentes do que um que vai de 0 a 200 km/h em três segundos.

O lado positivo do desastre em que nos encontramos é que as crises provocam mudanças, e aquilo que parecia impensável torna-se inevitável. Quando Vladimir Putin invadiu a Ucrânia e a Europa perdeu o acesso ao gás russo, o entrave às energias renováveis chegou ao fim. O continente passou de um atraso de 15 anos em suas metas climáticas para estar 10 anos à frente. Na Alemanha, com este novo choque energético vindo do Irã, o impacto é pequeno, porque agora o país dispõe de uma enorme quantidade de energia solar. Claro que há motivos para preocupação. Toda essa energia solar está conectada à nuvem chinesa, e Xi Jinping poderia desligá-la se quisesse. Esse é mais um bom motivo para revogar o Artigo 6 da Diretiva de Direitos Autorais, eliminar o firmware desses inversores e baterias e substituí-lo, o quanto antes, por software de código aberto. Vou insistir nesta ideia: em tempos de grandes crises, aquilo que parecia impensável pode se tornar inevitável. E Donald Trump é uma série contínua de crises. Esta é a nossa oportunidade.


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Cory Doctorow
Escritor, romancista de ficção científica, jornalista e ativista de tecnologia. É consultor especial da Electronic Frontier Foundation.

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