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A nova questão social juvenil no Brasil digital

O segmento etário de 13 a 17 anos não representa apenas uma coorte etária, mas o embrião do novo sujeito social.


Banksy
Da Redação do GGN, 27 de março 2026
por Marcio Pochmann


A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) realizada pelo IBGE, em parceria com o Ministério da Saúde e com a colaboração do Ministério da Educação, consolidou-se como um dos principais instrumentos de leitura de parcela importante da juventude brasileira contemporânea. Mais do que um inquérito de saúde, a PeNSE constitui uma plataforma estratégica de interpretação da transição social em curso relacionada com a passagem da sociedade industrial tardia para uma economia de serviços intensiva em informação, conectividade e plataformas digitais. Tudo isso submetido às imposições do receituário neoliberal dominante no Brasil que se encontra em curso desde 1990.

Nesse contexto, o segmento etário de 13 a 17 anos não representa apenas uma coorte etária, mas o embrião do novo sujeito social que já opera e tensiona as estruturas deste primeiro terço do século XXI no Brasil. Os dados mais recentes revelam uma realidade marcada por fortes contradições.

De um lado, observa-se a incorporação acelerada de tecnologias digitais, a ampliação das redes de sociabilidade e a redefinição de hábitos e identidades. De outro, emergem padrões persistentes e, em alguns casos, agravados de vulnerabilidade. Aproximadamente 26% dos adolescentes brasileiros relatam já ter sofrido abuso sexual, enquanto 8,8% afirmam ter sido vítimas de estupro, com maior incidência entre meninas.

Esses indicadores não apenas evidenciam a fragilidade do sistema de proteção social, como também apontam para os efeitos intergeracionais sobre saúde mental, desempenho escolar e inserção futura no mundo do trabalho em profunda transformação. A violência entre pares também assume centralidade. Cerca de 27% dos estudantes relataram ter sofrido bullying de forma recorrente, com maior concentração na região Sudeste.

A novidade qualitativa reside na expansão do fenômeno para o ambiente digital, uma vez que 12,7% dos adolescentes afirmam ter sido vítimas de cyberbullying, um percentual que atinge 15,2% entre meninas. A sobreposição entre o espaço escolar e as plataformas digitais dissolve fronteiras tradicionais da socialização juvenil, produzindo uma experiência contínua de exposição, julgamento e conflito. Trata-se de uma mutação estrutural na forma de interação social que desafia tanto os marcos regulatórios quanto as políticas educacionais.

No campo dos comportamentos de risco, a PeNSE também revela tendências ambivalentes. O percentual de adolescentes que experimentaram cigarro ao menos uma vez caiu de 22,6%, em 2019, para 18,5%, indicando avanços em políticas públicas de saúde e mudanças culturais relevantes.

Contudo, a persistência de outros fatores de risco como aqueles associados à violência, sofrimento psíquico e pressão social nas redes sugerem que a agenda de promoção da saúde juvenil deve ser reconfigurada à luz da era digital. A relevância estratégica da PeNSE reside, portanto, na sua capacidade de articular dimensões aparentemente dispersas como a saúde, educação, comportamento e sociabilidade em uma leitura integrada da nova questão social brasileira.

A parcela da juventude captada pela pesquisa não é apenas destinatária de políticas públicas, mas agente central da economia de serviços, da inovação e da vida democrática. Ignorar as vulnerabilidades identificadas implica comprometer não apenas trajetórias individuais, mas o próprio potencial de desenvolvimento do país.

Diante disso, impõe-se a construção de políticas intersetoriais que articulem os diferentes bancos de dados sobre a família, escola, sistema de saúde e regulação das plataformas digitais. O projeto da gestão atual do IBGE de construção do Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados (Singed) constitui um passo fundamental para atualizar as políticas públicas atuais, bem como implementar novas políticas de natureza preditiva.

A PeNSE oferece as evidências, cabendo ao Estado e à sociedade civil transformá-las em ação coordenada. Em última instância, trata-se de assegurar que a transição para a sociedade digital não reproduza ou até mesmo aprofunde as desigualdades históricas, mas abra caminho para um novo padrão de inclusão, proteção e cidadania juvenil.

Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE. Autor, entre outros livros, de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]

Referências

IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar – PeNSE. Rio de Janeiro: IBGE, vários anos.

World Health Organization. Global School-based Student Health Survey (GSHS): Methodology and Overview. Genebra: WHO, 2013.

UNICEF. The State of the World’s Children 2021: On My Mind – Promoting, protecting and caring for children’s mental health. Nova York: UNICEF, 2021.

OECD. Children and Young People’s Mental Health in the Digital Age. Paris: OECD Publishing, 2021.

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