Do IHU, 24 Março 2026
O neurologista português António Damásio acaba de publicar L’lntelligence naturelle et l’éveil de la conscience (Odile Jacob). Sua tese revolucionária: a consciência emerge da vulnerabilidade e da necessidade de sobrevivência. Uma teoria que muda tudo, incluindo a nossa forma de pensar sobre a inteligência artificial.
António Damásio explora há décadas os mistérios do cérebro e da consciência. Professor da Universidade do Sul da Califórnia e autor de dezenas de livros traduzidos em todo o mundo, este neurocientista português de 82 anos acaba de publicar L’lntelligence naturelle et l’éveil de la conscience (A inteligência natural e o despertar da consciência), que desafia as teorias dominantes. Para ele, a consciência não emerge da sofisticação cognitiva, mas de algo muito mais primitivo: a vulnerabilidade.
Eis a entrevista.
O senhor afirma que o córtex cerebral não é a sede da consciência. No entanto, esta é a teoria dominante na neurociência. Então, onde se encontra a consciência? E como a define?
A ideia de que a consciência se origina no córtex me parece errada. Atenção! Não estou dizendo que o córtex não esteja envolvido. Neste exato momento, enquanto falamos, estou usando meu córtex extensivamente: para vê-lo na tela, para ouvi-lo, para interpretar suas perguntas. Sem meu córtex visual e auditivo, seria impossível perceber você. O córtex gera o conteúdo da minha consciência. Mas não é ele que me faz ter consciência de estar aqui, falando com você.
Essa consciência de mim mesmo, da minha existência no momento presente, vem de outro lugar: vem das sensações homeostáticas geradas no tronco encefálico, aquela parte muito antiga do cérebro localizada bem abaixo do córtex. A consciência é a homeostase auxiliada por sensações. Essas sensações homeostáticas – a sensação de que meu corpo está vivo, de que tem necessidades, de que é vulnerável – existem há centenas de milhões de anos na evolução. Elas são muito anteriores ao desenvolvimento do córtex.
De onde vêm essas sensações homeostáticas?
Essas sensações surgem da interocepção, ou seja, da percepção do seu estado interno. Do momento em que você acorda até adormecer, e mesmo durante o sono, toda a sua vida é guiada por ela. Sem a interocepção, você não sentiria fome nem sede. Você não saberia que está com frio ou em perigo. Essas sensações lhe dizem: “Faça isso, não faça aquilo, ou você morrerá”. E o ponto importante é que elas são espontaneamente conscientes. Elas precisam ser. Como você saberia que está com fome se essa sensação não fosse consciente? Durante muito tempo, os neurocientistas se concentraram na exterocepção: na visão, na audição e no tato. Negligenciamos a interocepção, embora ela governe nosso estado interno, nos mantenha vivos. E é da interocepção que surge a consciência, muito antes da linguagem, muito antes do córtex sofisticado. As sensações homeostáticas são o berço da consciência.
Em seu livro, o senhor também relaciona a homeostase à religião. Essa é uma conexão ousada. Como a explica?
A religião é um processo cultural extremamente complexo e de alto nível, mas, em sua essência, visa regular nossas vidas, assim como a homeostase. Se você acredita que, comportando-se de acordo com certas regras morais, terá uma vida melhor, ou até mesmo uma vida após a morte, está buscando o mesmo objetivo homeostático: prolongar e melhorar sua existência. A homeostase diz: “Mantenha sua vida agora”. A religião diz: “Viva melhor, por mais tempo; talvez até eternamente”. Na realidade, quase todos os nossos comportamentos sociais fundamentais são inspirados por essa necessidade de homeostase.
Consideremos a moral: respeitar os outros para que eles o respeitem em troca é um pacto de proteção mútua. As regras culturais que governam nossas sociedades, todas essas estruturas – incluindo a religião com seus rituais, sua arquitetura e seus dogmas – surgiram para regular e proteger a vida. E aqui está o que é fascinante: ter vida não se resume a estar vivo. A vida vem com exigências, ditames aos quais você deve se conformar. Esses ditames são transmitidos por meio de sensações homeostáticas. A religião, de certa forma, amplifica e ritualiza esses imperativos de sobrevivência. Ela os eleva ao nível do sagrado, mas sua raiz permanece a mesma: o imperativo de continuar vivendo.
Agora, falemos sobre a IA. O senhor enfatiza a distinção entre inteligência natural e inteligência artificial. Quais são as diferenças fundamentais?
Hoje, todos estão obcecados com a IA. Você não consegue abrir um jornal ou ligar uma tela sem ouvir falar sobre suas conquistas e seus perigos. Mas, em meio a esse frenesi, estamos esquecendo algo essencial: a IA foi inventada pela IN, a inteligência natural! E não o contrário. Foi a inteligência natural, a dos organismos vivos, que criou a inteligência artificial. A IA, por mais brilhante que seja, não pode inventar a vida. Ela não pode se criar. Ela depende inteiramente de nós. E aqui reside a diferença fundamental: a IA não tem vida.
Ela não tem um corpo vulnerável para proteger, nenhuma homeostase para manter, nenhuma sobrevivência em jogo. Portanto, não tem necessidade de consciência. Ela funciona perfeitamente bem dentro da inércia de seus circuitos computacionais. Nós, por outro lado, desenvolvemos a consciência porque temos vida, e porque essa vida é frágil, ameaçada e constantemente necessita de regulação. A IA pode calcular, prever, gerar. Mas não sente nada. Não tem fome, medo ou desejo de continuar existindo.
Será que a IA um dia terá consciência? E, se sim, o que seria necessário?
Acredito que a IA um dia terá consciência, mas de uma forma profundamente diferente da nossa. E para entender o porquê, precisamos entender o que falta à IA atualmente: a vulnerabilidade. Você e eu somos vulneráveis. Hoje à noite, você vai jantar. Por quê? Para sobreviver. Porque se você não comer, não morrerá imediatamente, mas sentirá fome e mal-estar. Essa vulnerabilidade cria uma necessidade, e essa necessidade precisa ser detectada e atendida. É precisamente esse ciclo – detectar uma vulnerabilidade e agir para corrigi-la – que está no cerne da consciência.
Portanto, para que a IA seja consciente, precisaríamos inventar um sistema de necessidades para ela. Vulnerabilidades reais que a máquina teria que detectar e resolver para continuar funcionando. Em outras palavras, precisaríamos dar a ela um corpo – ou pelo menos um equivalente funcional – com estados internos para regular.
E isso seria realmente possível?
Tecnicamente, sim. Você poderia criar um equivalente às nossas sensações homeostáticas: uma máquina capaz de conhecer o estado do seu próprio sistema e agir de acordo. Mas – e este é um “mas” fundamental – seria apenas um equivalente da nossa consciência humana, não uma réplica. Por quê?
Porque os ingredientes são radicalmente diferentes. Somos feitos de células vivas, extremamente vulneráveis, que precisam ser constantemente nutridas, protegidas, que adoecem, desenvolvem câncer e morrem. Nossa consciência deriva diretamente dessa fragilidade orgânica. Os computadores, por outro lado, são feitos de aço e plástico. Podem ser destruídos com uma picareta, mas não têm a mesma vulnerabilidade.
Muitos temem que a IA se torne mais inteligente do que nós. Uma ameaça real ou um medo infundado?
Depende do que você quer dizer com “mais inteligente”. Penso que a IA nos superará em algumas áreas: na verdade, já superou. Os cálculos que as máquinas conseguem realizar já são mais complexos do que os nossos. E são mais rápidos! Há áreas em que os computadores se destacarão. É muito difícil imaginar o que o futuro nos reserva. Mas acredito que veremos, provavelmente ainda em nossas vidas, sistemas de IA capazes de se comportar quase como humanos.
Contudo, duvido que essas máquinas alcancem o mesmo nível de complexidade dos organismos vivos. Essa complexidade está diretamente ligada à nossa vulnerabilidade, à própria essência da vida. O que acontece em uma única célula viva para manter a vida é extraordinário. É um mecanismo de uma sofisticação impressionante! A vida merece respeito e admiração. E é justamente essa complexidade orgânica, nascida da fragilidade, que a IA, por mais brilhante que seja, terá dificuldade em reproduzir. Portanto, sim, a IA pode nos superar em certas tarefas. Mas igualar a profundidade e a riqueza da inteligência natural, enraizada em bilhões de anos de evolução, é uma história completamente diferente…

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