Do GGN, 13 de março 2026
Por Francisco F. Ladeira
![]() |
Sala de aula destruída em Mariana - Foto de Ísis Medeiros |
Entre o mercado e o controle moral: a aliança neoliberal-conservadora e o ensino de Geografia no Brasil
Historicamente, todo “projeto de educação” vigente em um determinado contexto está intrinsecamente ligado ao “projeto de Estado” existente. Compreender a educação brasileira na atualidade exige, portanto, que se examine o projeto de Estado que a orienta: o neoliberalismo. Mais do que uma simples doutrina econômica de Estado mínimo, o neoliberalismo, conforme analisa Christian Laval em “A Escola não é uma empresa”, constitui-se como uma racionalidade política que subordina todas as esferas da vida à lógica do mercado, transformando direitos sociais – como a educação – em serviços a serem consumidos individualmente.
Nessa perspectiva, a escola deixa de ser um espaço de formação para a cidadania e passa a ser vista como uma empresa, cuja eficiência é medida por resultados e cuja função é produzir sujeitos flexíveis, resilientes e adaptáveis às flutuações do capital.
No caso do Brasil, após o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, o governo de Michel Temer colocou em prática uma série de medidas que visavam alinhar a educação brasileira a esses preceitos. Destacam-se a Reforma do Ensino Médio (Lei nº 13.415/2017) e a Emenda Constitucional n.º 95, que estabeleceu um teto de gastos, limitando por vinte anos novos investimentos em educação. Sustentado pela retórica da liberdade individual e do mercado, o neoliberalismo promove a privatização do Estado, a desregulamentação de direitos trabalhistas e a dissolução de laços de solidariedade social, instituindo o individualismo e a meritocracia como valores centrais.
No campo educacional, os valores neoliberais manifestam-se por meio da introdução da lógica empresarial e de mercado na gestão e organização da escola pública. Assim, direitos são transformados em serviços, estudantes em clientes, escolas em empresas e professores em prestadores de contas, sempre sob a retórica da “qualidade total” e da “liberdade de escolha”. Nessa lógica, a função da escola consiste em formar indivíduos com habilidades cognitivas e sociais que os capacitem a atender às demandas do mercado de trabalho. Em outras palavras, trata-se de preparar consumidores e mão de obra que “contribuam” para o futuro das empresas e para a manutenção do status quo.
Somando-se a esse debate, Catarina Santos e Rodrigo Pereira denunciam uma aliança (aparentemente paradoxal) que tem marcado o Brasil contemporâneo: a convergência dos princípios neoliberais com a pauta neoconservadora no campo da educação, o que pode ser percebido nas tentativas de controle do trabalho docente, na formulação de políticas educacionais, na elaboração de diretrizes curriculares e até na formação de docentes.
Essa associação manifesta-se em políticas que combinam controle moral e lógica de mercado. O Movimento Escola Sem Partido alia a cruzada contra a “doutrinação” à redução da escola à transmissão de conteúdos “neutros”. O homeschooling atende ao isolamento familiar defendido por conservadores enquanto abre mercado para a privatização. A militarização das escolas impõe disciplina e controle social, justificada pelo discurso neoliberal de melhoria dos resultados em avaliações externas. As políticas de bonificação introduzem competição e meritocracia, sendo acolhidas por sua pretensa neutralidade para vigiar o trabalho docente, num processo que a literatura educacional tem denominado de “performaticidade”: o professor é reduzido a um entregador de resultados, responsabilizado individualmente pelo sucesso ou fracasso dos alunos, enquanto as condições estruturais da escola são ignoradas.
Por fim, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – documento que orienta a organização dos currículos de todas as etapas da Educação Básica – sintetiza essa aliança ao incorporar competências socioemocionais e empreendedorismo (agenda neoliberal) e, não obstante, apresentar insuficiência no tratamento das culturas afro-brasileira e indígena (provavelmente atendendo às pressões dos grupos neoconservadores).
Também o processo de formação de professores na rede privada de ensino superior não está imune às investidas dessa aliança. Não por acaso, a produtora de extrema-direita Brasil Paralelo planeja financiar cursos de formação de professores para disciplinas na área de Humanas, como a Geografia. Os objetivos declarados são “formar a próxima geração de professores” e “ocupar espaços nas escolas, universidades e na cultura com conteúdo ligado à direita conservadora”. Trata-se de uma estratégia explícita de disputa epistemológica: formar docentes que, em vez de problematizarem as contradições socioespaciais, atuem como reprodutores de uma visão de mundo alinhada aos interesses do capital e do conservadorismo.
Segundo levantamento bibliográfico realizado por Isadora Pinheiro e Claudivan Sanches Lopes, o componente Geografia na BNCC privilegia um raciocínio espacial genérico em detrimento de uma análise crítica e contextualizada das relações de poder e dos conflitos socioespaciais, alinhando-se, assim, à racionalidade neoliberal.
Para os autores, essa opção curricular representa um retrocesso em relação à tradição da Geografia Crítica brasileira, consolidada a partir dos anos 1980 com nomes como Milton Santos, que sempre enfatizou a necessidade de compreender o espaço como instância social, produto e condição das relações de produção. Ao ignorar essa tradição, a BNCC esvazia o potencial transformador da disciplina. Nesse sentido, a Geografia é reduzida ao desenvolvimento de competências e habilidades adaptáveis às flutuações do mercado, formando um indivíduo flexível e resiliente, mas despido de uma consciência histórica e territorial que lhe permita questionar as estruturas de desigualdade.
Ao transferir para o professor a responsabilidade de suprir as lacunas do currículo, a BNCC, sob a égide neoliberal, opera uma dupla manobra: esvazia o conteúdo crítico da escola ao mesmo tempo em que responsabiliza individualmente o educador pelo sucesso ou fracasso do processo, enfraquecendo a educação como espaço de formação para a cidadania participativa e a transformação social.
Além disso, no Novo Ensino Médio, a Geografia deixou de ser disciplina obrigatória na matriz curricular dessa modalidade, sendo incluída na área de conhecimento genericamente designada como “Ciências Humanas e Sociais Aplicadas”, juntamente com História, Filosofia e Sociologia. Essa medida, ao desconsiderar as especificidades teóricas e metodológicas dos conhecimentos históricos, filosóficos, sociológicos e geográficos, tende a contribuir para a desvalorização do ensino dessas ciências na Educação Básica.
No caso da Geografia, Ana Giordani e Eduardo Girotto consideram que tal realidade se caracteriza como retrocesso, pois, além da perda da singularidade da disciplina e da carga horária, há um esvaziamento epistemológico desse campo do conhecimento, em especial, de sua perspectiva crítica. Nos itinerários formativos, frequentemente são oferecidos projetos genéricos de “empreendedorismo” ou “projeto de vida”, que ignoram as categorias fundamentais da Geografia – como território, lugar, paisagem e escala – e impedem o estudante de compreender as contradições do espaço em que vive. Consequentemente, os estudantes são privados do acesso aos conhecimentos necessários para uma leitura reflexiva e cidadã sobre as múltiplas práticas espaciais presentes no mundo contemporâneo.
Para Rafael Straforini, a retirada da disciplina da matriz curricular obrigatória, bem como a consequente dúvida do professor sobre qual conhecimento geográfico ensinar na área de “Ciências Humanas e Sociais Aplicadas”, levaram a Geografia Escolar à “maior crise em sua história”. Essa crise, no entanto, não é apenas disciplinar: ela é o reflexo de um projeto de sociedade que pretende eliminar a reflexão crítica sobre o espaço e o território, justamente porque tais reflexões podem levar à contestação da ordem vigente.
Diante desse cenário, cabe à Geografia Escolar e aos seus professores a tarefa de resistir, reafirmando o compromisso ético-político com a formação de cidadãos capazes de ler o mundo criticamente e de nele intervir. Isso implica não apenas denunciar os efeitos perversos das reformas, mas também construir, no cotidiano escolar, práticas pedagógicas que recoloquem no centro do debate as questões estruturais da sociedade brasileira – a desigualdade, a questão agrária, a segregação urbana, os conflitos ambientais –, formando sujeitos que, nas palavras de Milton Santos, sejam capazes de “entender o mundo para melhor transformá-lo”.
***
Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado do IFMG – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Unicamp. Autor do livro “Palestina na geopolítica global Pós-2023: Narrativas e Contranarrativas” (Editora CRV)
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “

Nenhum comentário:
Postar um comentário