Por EMILIO CAFASSI*
O adiamento da comemoração do 55º aniversário da FA nos questiona: estamos recordando o que fomos ou habitando o que podemos ser? O desafio é o conflito que organiza o futuro. A juventude não falta por apatia: falta quando não encontra linguagem para nomear seu tempo
O 55º aniversário da Frente Ampla (FA) do Uruguai não aconteceu na data prevista. Aconteceu mais tarde. Foi adiado em alguns dias, definido para um sábado, e ocorreu em uma cidade pequena. Essa mudança — temporal, espacial, simbólica — não é um detalhe logístico ou uma mera anedota de agendamento: é uma forma. E, como todas as formas políticas, ela diz muito antes mesmo de uma única palavra ser proferida no palco. A FA nasceu em 5 de fevereiro como um gesto de ruptura, como uma condensação inesperada de vontades dispersas; comemorá-la dois dias depois não nega isso, mas a reposiciona. E isso só aconteceu no ano passado e neste ano, desde a queda da ditadura. Isso nos força a perguntar em que tipo de tempo habita agora a força política que outrora fez da dissonância histórica sua característica definidora.
Uma comemoração de aniversário fora de época, em uma cidade menor, sem um aparato nacional simultâneo capaz de produzir densidade política, surge menos como uma escolha estratégica do que como a expressão de uma dificuldade persistente em transformar o aniversário em um evento, a memória em mobilização, a história em um presente ativo.
Juan Lacaze, com suas raízes operárias, nosso próprio prefeito e sua herança industrial, não é o problema. Pelo contrário: sua mera menção evoca uma tradição de trabalho, luta e organização que dialoga naturalmente com a genealogia frentista. Mas, precisamente por essa razão, basear toda a explicação nesse local equivale a transferir a questão. Não se trata de onde o evento ocorreu, mas de que tipo de evento era possível — e qual não era — dado o estado atual da Frente Ampla. Quando uma comemoração parece precisar de justificativa com base no território que a acolhe, algo dentro da estrutura comemorativa já está falhando.
Este fevereiro não fala tanto de um passado que precisa ser lembrado, mas sim de um presente difícil de organizar. O chamado à ação existe, mas não transborda; as palavras circulam, mas sem nenhum conflito real. Não é a nostalgia que emerge nessa desconexão, mas uma questão política mais incômoda: o que foi desmantelado na transição do movimento para o governo, quando o pulso coletivo se torna procedimento, da epopeia fundadora para a administração prudente, da unidade laboriosa para a unidade proclamada? A questão permanece ali, suspensa, como um eco que não busca uma resposta imediata, mas sim as condições para serem reformuladas coletivamente.
Toda comemoração é uma cena política condensada. Não apenas pelo que recorda, mas também pelo que omite; não apenas pelo que evoca, mas também pelo que deixa de fora. Nesse sentido, os aniversários funcionam como testes de resistência: tensionam a relação entre passado e presente, entre identidade e prática, entre memória organizada e corpos mobilizados. Quando essa tensão se resolve em um gesto controlado, sem risco ou atrito, o que emerge não é a serenidade política, mas uma forma de fadiga. Não o cansaço daqueles que lutaram com afinco, mas a exaustão silenciosa de formas que permanecem de pé, mas que já não transmitem energia nem nos desafiam.
A Frente Ampla (FA) soube transformar seus aniversários em atos de afirmação coletiva, mesmo em contextos adversos. Não porque todo mês de fevereiro atraísse multidões, mas porque conseguia inscrever a data em uma narrativa de conflito, de projeto e de futuro. Hoje, porém, a comemoração parece suspensa entre a obrigação institucional e a nostalgia, como se lembrar tivesse se tornado uma tarefa rotineira e não um ato político, como arquivar fotos de aniversário.
Essa mudança não pode ser interpretada como um mero produto dos tempos, embora o enfraquecimento sedutor dos movimentos de esquerda e progressistas não seja exclusivamente uruguaio, nem uma consequência inevitável de se estar no governo. Ou seja, só pode ser interpretada dessa forma se aceitarmos que governar implica quase naturalmente renunciar à produção de conflito, à educação política e à construção de sujeitos coletivos. Mas essa aceitação nunca fez parte do DNA da Frente Ampla. A força nasceu precisamente como uma anomalia: uma articulação heterogênea capaz de contestar o poder sem sufocar a mobilização, de gerir sem silenciar a crítica, de governar sem abandonar o desconforto que toda transformação exige.
Esta não é a primeira vez que essa preocupação surge por volta de um aniversário. Nem é a primeira vez que é descartada com argumentos circunstanciais, apelos ao contexto ou explicações tranquilizadoras. Há anos, com tons variados e em contextos diversos, a preocupação com a perda do ativismo de base, a crescente dificuldade em mobilizar apoio e o estreitamento da vida política no nível local ressurge como um fio condutor persistente. Não como um lamento ritual, mas como um sinal persistente. Um sinal que muitas vezes é interpretado — quando ouvido — como exagero, impaciência ou nostalgia não digerida, e ainda assim retorna todo mês de fevereiro, teimosamente, como aquelas borboletas que sempre reaparecem como se fossem donas do calendário.
Com a passagem do aniversário sem um evento central na capital e o adiamento para o fim de semana seguinte, esse mal-estar tomou a forma de uma mensagem dirigida aos camaradas. Não se tratava de uma declaração pública com o intuito de gerar controvérsia, mas sim de um gesto pungente, quase imediato, escrito no exato momento em que o aniversário era comemorado sem, de fato, ser comemorado. As mesmas questões que agora são reformuladas com elementos diferentes já estavam presentes: a dificuldade em gerar uma mobilização genuína, a transformação do ato político em um evento controlado, a sensação de que algo essencial se perdia mesmo antes do início do próprio evento.
Mas chega um ponto em que a preocupação deixa de ser quantitativa — quantos de nós somos, quantos virão — e se torna qualitativa, estrutural e, portanto, mais perturbadora: a quase ausência dos jovens. Quando as comemorações são preenchidas principalmente por memórias compartilhadas, mas não por expectativas de construção, quando os presentes parecem convocados mais pela fidelidade ao passado do que pela luta pelo futuro, o problema não é mais a presença, mas a própria reprodução do sujeito político.
Os jovens não estão “ausentes” por não terem sido convidados, nem por terem sido absorvidos por uma cultura abstrata e individualista (o 8 de março ou o 20 de maio desmentem isso). Eles estão ausentes — ou aparecem apenas esporadicamente — quando não encontram nesses rituais um espaço para se reconhecerem, para discutirem, para contestarem significados. Quando a comemoração não possibilita o conflito nem oferece uma linguagem para nomear as precariedades contemporâneas, quando o ato funciona não como um limiar, mas como um fechamento, o fosso geracional deixa de ser uma questão de idade e se torna uma questão política.
Nesse ponto, o aniversário deixa de ser um espelho complacente do passado e se torna uma superfície que reflete questionamentos. Ele não mede lealdades ou memórias acumuladas: mede a capacidade de questionar. E quando esse questionamento falha, não basta invocar tradições, bastiões históricos ou identidades herdadas. Porque nenhuma tradição sobrevive apenas por seu peso histórico; ela sobrevive na medida em que consegue ser reapropriada, discutida e questionada por aqueles que não a vivenciaram como sua origem, mas que a recebem — se é que a recebem — como uma promessa ainda a ser cumprida. Esse foi o meu caso. Dois dos meus irmãos são fundadores, quando eu estava apenas começando o ensino médio, embora quatro anos depois eu já fosse membro da Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR), visitando meu irmão preso nas masmorras da ditadura terrorista.
O evento, visto de perto, revela-se como uma superfície saturada de significado. Nada é deixado ao acaso: as bandeiras, os ônibus, a música, os slogans, os discursos, as fotografias que depois circulam como prova de existência, como se a política precisasse se certificar como prova de existência. Não basta que o evento tenha ocorrido; ele precisa ser interpretado como histórico, como uma reafirmação. Essa insistência excessiva não é um exagero retórico: é uma necessidade política. Quando a vitalidade deixa de ser presumida, precisa ser demonstrada. E quando precisa ser demonstrada, algo semelhante à espontaneidade militante começa a se erodir.
Não pude comparecer porque assuntos familiares me mantêm em Montevidéu, mas os relatos mais simpáticos insistem nos números, na atmosfera, na ocupação do espaço urbano, como se a escala logística por si só pudesse responder a questões de outra natureza. É evidente que houve uma forte presença e que Juan Lacaze estava repleta de ativistas de todo o país, a ponto de saturar uma cidade que, na melhor das hipóteses, tem uma população de treze mil habitantes. Mas reduzir o evento à sua dimensão quantitativa significa mudar o foco: a capacidade de mobilizar através de uma participação excepcional não equivale a uma densidade política sustentada. A política se desenrola, de forma mais sutil, no que acontece antes e depois do evento, na continuidade das relações, na persistência da organização, na produção diária de significado.
Juan Lacaze é uma cidade imersa em história industrial, na experiência da classe trabalhadora e numa história de lealdade à Frente Ampla que persiste mesmo após o colapso de suas principais fontes de emprego. Precisamente por essa razão, sua escolha como data comemorativa é ambivalente. Essa faca de dois gumes torna-se mais evidente quando se observa a mudança no foco discursivo. O aniversário, em vez de um momento para reflexão sobre a força política, torna-se um ato de defesa do governo. Grande parte da retórica se estrutura em torno de respostas às acusações de tibieza, listando as conquistas do primeiro ano de mandato e contrastando o presente com a “meia década perdida” da administração anterior. Internacionalismo, condenação do genocídio em Gaza, denúncia do imperialismo estadunidense, defesa de políticas redistributivas — tudo isso compõe um discurso consistente, ideologicamente reconhecível e eticamente defensável. Mas sua centralidade desloca a questão incômoda: o que esse aniversário revela sobre o estado da força política governante?
Quando a comemoração se torna primordialmente uma ferramenta de proteção governamental, uma espécie de muro discursivo erguido tanto para fora quanto para dentro, tão impenetrável que nem mesmo um drone consegue sobrevoá-lo, a política partidária é subsumida pela lógica da governança, e o aniversário perde seu potencial questionador. Não se trata de negar a necessidade de defender o próprio governo contra uma direita agressiva e depreciativa; trata-se de reconhecer o custo dessa defesa quando ela ocupa todo o espaço disponível. O aniversário deixa de ser uma oportunidade para refletir sobre a organização, o ativismo, o controle e a direção do próprio governo e sua relação com a sociedade, e se torna, em vez disso, uma extensão do discurso governamental por outros meios.
É aqui que a questão da juventude deixa de ser um detalhe marginal e se torna estrutural. Não porque os jovens “não queiram” participar, nem porque tenham sido capturados por uma suposta apatia geracional abstrata, mas porque os espaços oferecidos não os envolvem como sujeitos políticos do presente. A memória é necessária, mas não suficiente. A história só convoca quando se abre como uma promessa, não quando se fecha como uma herança. Um ato que olha mais para o passado do que para o conflito atual, que reafirma mais do que questiona, dificilmente pode funcionar como um limiar para a incorporação geracional.
Os jovens não se aproximam dos rituais para aplaudir as trajetórias alheias; eles o fazem quando encontram a linguagem para nomear suas próprias situações precárias, seus próprios medos, suas próprias expectativas. Quando isso não acontece, o distanciamento não é relacionado à idade, mas sim político. E esse distanciamento não se resolve com gestos simbólicos ou invocações de identidade, mas com a reabertura do conflito, com uma pedagogia política capaz de traduzir o presente em um projeto.
Há um tema recorrente em quase toda a cobertura jornalística, mas raramente é analisado: a resposta em chave defensiva. Não contra a direita — o que seria previsível, até necessário —, mas contra as críticas internas. A insistência de que “não existe governo morno”, a enumeração meticulosa de medidas, números, impostos e políticas sociais, não visa apenas desafiar as narrativas externas; busca, acima de tudo, impor ordem internamente. O ato, portanto, funciona como um espaço para recentralizar: limites são traçados, estabelecem-se os limiares do que pode ser dito e fica marcado quem “entende a direção” e quem ainda não a compreende totalmente. Esse movimento defensivo não se dirige apenas à direita, mas também — e talvez principalmente — às críticas internas, que são reformuladas como um mal-entendido da direção, em vez de um problema político a ser abordado.
Algo semelhante acontece com a unidade. Poucas palavras aparecem com tanta frequência em aniversários quanto essa. Unidade como conquista histórica, como virtude moral, como condição de sobrevivência diante de um mundo hostil. E, no entanto, quanto mais se proclama, mais evidente se torna que deixou de ser uma experiência imediata e se transformou em uma tarefa inacabada. A unidade vivida não precisa ser reiterada; a unidade invocada, sim. Não porque esteja rompida, mas porque não surge mais espontaneamente, porque exige um trabalho político diário que nem sempre encontra espaço ou tempo.
Neste ponto, o aniversário volta a assumir um papel excessivo. Espera-se que ele torne a unidade visível, que a encene, que a restaure simbolicamente. O problema não é a tentativa em si, mas sim a incapacidade de substituir aquilo que só se constrói com prática prolongada: o debate interno genuíno, a análise das divergências, a construção coletiva de significado. Quando o ritual toma o lugar do processo, a unidade torna-se um slogan em vez de uma experiência.
O contraste com outros fevereiros é quase inegável. Houve aniversários menores, mais caóticos, até mesmo mais conflituosos, em que a comemoração serviu não como um evento de encerramento, mas como de abertura. Não porque fossem mais “autênticos”, mas porque faziam parte de uma dinâmica política mais densa, mais contenciosa e menos controlada. A irregularidade histórica dos eventos da Frente Ampla — anos sem evento, anos com múltiplos eventos, anos com comemorações discretas — não é uma falha: reflete uma força que nunca teve um ritual fixo e único.
É por isso também que o tema da juventude reaparece repetidamente, mesmo quando não é explicitamente mencionado. Ele se manifesta não apenas como uma ausência física no evento, mas também como uma ausência discursiva. Onde estão as palavras que conectam o aniversário às precariedades atuais — a fragmentação do trabalho, as novas formas de exclusão e politização — e também às transformações na vida sexual e emocional e à diversidade de relações, entre tantas outras? Sem essas questões, o evento corre o risco de se tornar um espelho que sempre reflete a mesma imagem, pouco alterada pela passagem do tempo, envelhecida.
Nesse contexto, recorrer à história é inevitável e legítimo. Mas a história pode funcionar de duas maneiras: como uma reserva crítica ou como um álibi. Quando é invocada para levantar questões — o que fizemos? O que deixamos de fazer? O que ficou inacabado? — ela se torna uma força motriz. Quando é invocada para encerrar discussões — “é assim que somos”, “sempre fomos assim” — ela se torna um refúgio. Juan Lacaze, com toda a sua densidade operária e fidelidade histórica, oscila entre esses dois usos. E essa oscilação não é culpa da cidade, mas sim da forma como a história é inscrita na narrativa do evento.
Nada disso justifica interpretações catastróficas ou diagnósticos terminais. A Frente Ampla não está esgotada nem reduzida a uma mera formalidade simbólica. Ela possui um governo (ou governos), uma base, uma história e ainda alguma capacidade de mobilização. Precisamente por essa razão, a questão é mais complexa. Não se trata de medir a vitalidade pela presença em um evento específico, mas de examinar que tipo de energia política está sendo gerada, como ela circula, onde estagna e onde se renova.
O 55º aniversário não oferece respostas definitivas. Em vez disso, apresenta um campo visível de tensões: entre memória e presente, entre liturgia e ativismo, entre a defesa do governo e a reflexão sobre a força política, entre a unidade proclamada e a unidade arduamente conquistada. Examinar esse campo sem pressa em fechá-lo é talvez o gesto mais fiel a uma tradição que, quando verdadeiramente transformadora, nunca hesitou em falar abertamente sobre si mesma.
Naquele 5 de fevereiro, quando a data de fundação passou sem qualquer cerimônia ou declaração no site oficial, e o aniversário foi transferido para o sábado seguinte, meu desconforto pessoal não se manifestou na forma de um artigo ou de uma intervenção pública destinada a desafiar a agenda estabelecida. Assumiu a forma mais modesta — e mais reveladora — de uma mensagem a camaradas e contatos, escrita no calor do momento, mas não de improviso. Não dizia nada de novo. Repetia, quase palavra por palavra, o que vem reaparecendo há anos em diferentes registros e contextos: a crescente dificuldade de mobilização, a perda da densidade militante, o enfraquecimento da vida política cotidiana, a sensação de que o movimento se reúne cada vez mais para relembrar o que já foi, em vez de criar o que poderia ser.
Aquele post ainda não era sobre o evento em Juan Lacaze, porque o evento ainda não tinha acontecido. Era sobre o vazio que o precedeu, a ausência de um gesto político no próprio aniversário, a substituição do evento por uma promessa adiada. Não como uma crítica logística, mas como um sintoma dos tempos: quando uma força política deixa de perturbar o calendário, algo na sua ligação com o presente começa a afrouxar-se.
O que é notável é que algumas das respostas que essa mensagem suscitou — e que ressurgiram posteriormente, com tons diferentes, após o evento — não abordaram a mesma preocupação levantada. Quando questionadas sobre a capacidade de mobilização, as respostas basearam-se na identidade. Quando questionadas sobre a densidade da base ativista, a resposta foi histórica. Quando preocupadas com a falta de representatividade juvenil, as respostas foram territoriais: Juan Lacaze como um bastião operário, como uma cidade leal, como um emblema inquestionável. Nada disso é mentira. Mas nada disso responde à pergunta que estava sendo feita. Alguns chegaram a exigir que essa preocupação fosse levada do âmbito da conversa privada para a esfera pública, como nestes versos.
É aqui que entra em jogo uma importante reviravolta argumentativa. A crítica organizacional — como estamos mobilizando as pessoas? Com quem estamos interagindo? Que linguagem estamos usando? Como podemos manter a continuidade? — é deslocada para uma defesa simbólica: quem somos, de onde viemos, qual história nos sustenta. O problema não é que essa defesa seja ilegítima; o problema é que ela funciona como um substituto para uma resposta real. Como se o peso da história pudesse, por si só, resolver as dificuldades do presente.
Essa publicação não negou o valor de Juan Lacaze, nem ignorou o significado emocional do evento que se aproxima. O que ela fez — e continua fazendo — foi insistir em uma questão incômoda: se não estamos começando a exigir que os aniversários compensem o que o ativismo diário já não produz com a mesma intensidade. Se o evento não está começando a assumir uma função que ultrapassa em muito sua capacidade: demonstrar vitalidade, sanar lacunas, reafirmar a unidade, garantir a continuidade geracional.
A questão da organização é respondida com feitos épicos; a questão da juventude, com a memória; a questão da participação contínua, com uma logística excepcional.
Essa desconexão não é um erro isolado ou uma leitura equivocada passageira. Trata-se de um modo de operação que vem se consolidando. A crítica que não encontra seu próprio canal político é deslocada para o âmbito da identidade, onde é mais fácil absorvê-la sem ser transformada. Assim, a preocupação muda de forma, é reescrita, é debatida, mas nunca chega a produzir uma mudança real nas práticas. Quando uma questão persiste, não é porque está mal formulada, mas sim porque ainda não encontrou o espaço político onde possa ser abordada sem ser neutralizada.
Talvez o problema não seja que a Frente Ampla não se mobilize mais como antes, mas sim que se mobilize de uma maneira diferente, para propósitos diferentes. O aniversário tornou-se um espaço de confirmação em vez de questionamento, um momento para reafirmar a identidade em vez de gerar conflito. Isso não se deve à falta de vontade política, nem à perda de convicção ideológica, mas sim ao fato de o partido se encontrar preso em um paradoxo difícil: quanto mais governa , mais difícil se torna se enxergar como um movimento; quanto mais administra, mais tende a ritualizar a memória para manter uma continuidade que já não surge espontaneamente.
O ato não é prova de declínio, mas sim um reflexo de uma encruzilhada. Mostra que ainda existem alicerces, história, afeto e lealdade. Mas também mostra que essas reservas simbólicas estão sendo convocadas para cumprir tarefas antes realizadas por outros meios: ativismo cotidiano, debate constante, produção política de base e conflito interno como força motriz, e não como ameaça. Quando esses meios enfraquecem, o ritual se intensifica, como se tentasse compensar o que já não circula.
Nada disso se resolve com mais ações ou ações melhores. Nem com o recuo para um passado idealizado ou com um otimismo voluntarista que confunde gestão com hegemonia. A questão que o aniversário deixa em aberto — e que este texto não pretende encerrar — é diferente, mais exigente e menos confortável: como recriar o próprio tempo político dentro de uma força que aprendeu, na prática, a gerir o tempo institucional. Como reabrir espaços onde a crítica não seja interpretada como deslealdade, onde a unidade não seja apenas um slogan, onde os jovens não sejam convidados a aplaudir a história alheia, mas a contestar o seu significado.
A Frente Ampla (FA) nasceu como uma anomalia, como uma ruptura com a ordem estabelecida, como um compromisso com uma unidade que não negava o conflito, mas o organizava. Seu desafio não é preservar essa imagem, mas reativar essa lógica. Aniversários podem ajudar, mas não podem fazer isso sozinhos. Não podem substituir o que se constrói apenas por meio de prática prolongada, por meio de conversas desconfortáveis, por meio do trabalho político que drones não conseguem capturar.
Talvez o maior risco não seja a perda do engajamento oportuno, mas sim a normalização da política ocorrendo apenas em datas específicas, em ambientes pré-arranjados e dentro de prazos administráveis. Quando isso acontece, a política começa a se adaptar ao calendário, em vez de subvertê-lo. E aí, sem alarde ou rupturas visíveis, algo essencial começa a mudar.
O 55º aniversário, portanto, deixa uma questão no ar. Não sobre a força da Frente Ampla — que existe — nem sobre a solidez de seus princípios — que permanecem válidos —, mas sobre sua capacidade de ser um espaço para produzir o presente: para desestabilizar, para convocar sem pedir permissão, para gerar conflito onde hoje há administração, para abrir o futuro onde hoje há memória cuidadosamente ordenada.
Isto não é uma acusação nem uma previsão. É um aviso suave, quase indireto, do tipo que costuma ser o mais difícil de ouvir: a história da Frente Ampla não se esgota nos seus aniversários. O pior seria que ela fosse simplesmente lembrada, em vez de continuar a ser vivida.
*Emilio Cafassi é professor sênior de sociologia na Universidade de Buenos Aires. Autor, entre outros livros, de Olla a presion: Cacerolazos, piquetes y asambleas sobre fuego argentino (Libros del Rojas). [https://amzn.to/442vaxw]
O 55º aniversário da Frente Ampla (FA) do Uruguai não aconteceu na data prevista. Aconteceu mais tarde. Foi adiado em alguns dias, definido para um sábado, e ocorreu em uma cidade pequena. Essa mudança — temporal, espacial, simbólica — não é um detalhe logístico ou uma mera anedota de agendamento: é uma forma. E, como todas as formas políticas, ela diz muito antes mesmo de uma única palavra ser proferida no palco. A FA nasceu em 5 de fevereiro como um gesto de ruptura, como uma condensação inesperada de vontades dispersas; comemorá-la dois dias depois não nega isso, mas a reposiciona. E isso só aconteceu no ano passado e neste ano, desde a queda da ditadura. Isso nos força a perguntar em que tipo de tempo habita agora a força política que outrora fez da dissonância histórica sua característica definidora.
Uma comemoração de aniversário fora de época, em uma cidade menor, sem um aparato nacional simultâneo capaz de produzir densidade política, surge menos como uma escolha estratégica do que como a expressão de uma dificuldade persistente em transformar o aniversário em um evento, a memória em mobilização, a história em um presente ativo.
Juan Lacaze, com suas raízes operárias, nosso próprio prefeito e sua herança industrial, não é o problema. Pelo contrário: sua mera menção evoca uma tradição de trabalho, luta e organização que dialoga naturalmente com a genealogia frentista. Mas, precisamente por essa razão, basear toda a explicação nesse local equivale a transferir a questão. Não se trata de onde o evento ocorreu, mas de que tipo de evento era possível — e qual não era — dado o estado atual da Frente Ampla. Quando uma comemoração parece precisar de justificativa com base no território que a acolhe, algo dentro da estrutura comemorativa já está falhando.
Este fevereiro não fala tanto de um passado que precisa ser lembrado, mas sim de um presente difícil de organizar. O chamado à ação existe, mas não transborda; as palavras circulam, mas sem nenhum conflito real. Não é a nostalgia que emerge nessa desconexão, mas uma questão política mais incômoda: o que foi desmantelado na transição do movimento para o governo, quando o pulso coletivo se torna procedimento, da epopeia fundadora para a administração prudente, da unidade laboriosa para a unidade proclamada? A questão permanece ali, suspensa, como um eco que não busca uma resposta imediata, mas sim as condições para serem reformuladas coletivamente.
Toda comemoração é uma cena política condensada. Não apenas pelo que recorda, mas também pelo que omite; não apenas pelo que evoca, mas também pelo que deixa de fora. Nesse sentido, os aniversários funcionam como testes de resistência: tensionam a relação entre passado e presente, entre identidade e prática, entre memória organizada e corpos mobilizados. Quando essa tensão se resolve em um gesto controlado, sem risco ou atrito, o que emerge não é a serenidade política, mas uma forma de fadiga. Não o cansaço daqueles que lutaram com afinco, mas a exaustão silenciosa de formas que permanecem de pé, mas que já não transmitem energia nem nos desafiam.
A Frente Ampla (FA) soube transformar seus aniversários em atos de afirmação coletiva, mesmo em contextos adversos. Não porque todo mês de fevereiro atraísse multidões, mas porque conseguia inscrever a data em uma narrativa de conflito, de projeto e de futuro. Hoje, porém, a comemoração parece suspensa entre a obrigação institucional e a nostalgia, como se lembrar tivesse se tornado uma tarefa rotineira e não um ato político, como arquivar fotos de aniversário.
Essa mudança não pode ser interpretada como um mero produto dos tempos, embora o enfraquecimento sedutor dos movimentos de esquerda e progressistas não seja exclusivamente uruguaio, nem uma consequência inevitável de se estar no governo. Ou seja, só pode ser interpretada dessa forma se aceitarmos que governar implica quase naturalmente renunciar à produção de conflito, à educação política e à construção de sujeitos coletivos. Mas essa aceitação nunca fez parte do DNA da Frente Ampla. A força nasceu precisamente como uma anomalia: uma articulação heterogênea capaz de contestar o poder sem sufocar a mobilização, de gerir sem silenciar a crítica, de governar sem abandonar o desconforto que toda transformação exige.
Esta não é a primeira vez que essa preocupação surge por volta de um aniversário. Nem é a primeira vez que é descartada com argumentos circunstanciais, apelos ao contexto ou explicações tranquilizadoras. Há anos, com tons variados e em contextos diversos, a preocupação com a perda do ativismo de base, a crescente dificuldade em mobilizar apoio e o estreitamento da vida política no nível local ressurge como um fio condutor persistente. Não como um lamento ritual, mas como um sinal persistente. Um sinal que muitas vezes é interpretado — quando ouvido — como exagero, impaciência ou nostalgia não digerida, e ainda assim retorna todo mês de fevereiro, teimosamente, como aquelas borboletas que sempre reaparecem como se fossem donas do calendário.
Com a passagem do aniversário sem um evento central na capital e o adiamento para o fim de semana seguinte, esse mal-estar tomou a forma de uma mensagem dirigida aos camaradas. Não se tratava de uma declaração pública com o intuito de gerar controvérsia, mas sim de um gesto pungente, quase imediato, escrito no exato momento em que o aniversário era comemorado sem, de fato, ser comemorado. As mesmas questões que agora são reformuladas com elementos diferentes já estavam presentes: a dificuldade em gerar uma mobilização genuína, a transformação do ato político em um evento controlado, a sensação de que algo essencial se perdia mesmo antes do início do próprio evento.
Mas chega um ponto em que a preocupação deixa de ser quantitativa — quantos de nós somos, quantos virão — e se torna qualitativa, estrutural e, portanto, mais perturbadora: a quase ausência dos jovens. Quando as comemorações são preenchidas principalmente por memórias compartilhadas, mas não por expectativas de construção, quando os presentes parecem convocados mais pela fidelidade ao passado do que pela luta pelo futuro, o problema não é mais a presença, mas a própria reprodução do sujeito político.
Os jovens não estão “ausentes” por não terem sido convidados, nem por terem sido absorvidos por uma cultura abstrata e individualista (o 8 de março ou o 20 de maio desmentem isso). Eles estão ausentes — ou aparecem apenas esporadicamente — quando não encontram nesses rituais um espaço para se reconhecerem, para discutirem, para contestarem significados. Quando a comemoração não possibilita o conflito nem oferece uma linguagem para nomear as precariedades contemporâneas, quando o ato funciona não como um limiar, mas como um fechamento, o fosso geracional deixa de ser uma questão de idade e se torna uma questão política.
Nesse ponto, o aniversário deixa de ser um espelho complacente do passado e se torna uma superfície que reflete questionamentos. Ele não mede lealdades ou memórias acumuladas: mede a capacidade de questionar. E quando esse questionamento falha, não basta invocar tradições, bastiões históricos ou identidades herdadas. Porque nenhuma tradição sobrevive apenas por seu peso histórico; ela sobrevive na medida em que consegue ser reapropriada, discutida e questionada por aqueles que não a vivenciaram como sua origem, mas que a recebem — se é que a recebem — como uma promessa ainda a ser cumprida. Esse foi o meu caso. Dois dos meus irmãos são fundadores, quando eu estava apenas começando o ensino médio, embora quatro anos depois eu já fosse membro da Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR), visitando meu irmão preso nas masmorras da ditadura terrorista.
O evento, visto de perto, revela-se como uma superfície saturada de significado. Nada é deixado ao acaso: as bandeiras, os ônibus, a música, os slogans, os discursos, as fotografias que depois circulam como prova de existência, como se a política precisasse se certificar como prova de existência. Não basta que o evento tenha ocorrido; ele precisa ser interpretado como histórico, como uma reafirmação. Essa insistência excessiva não é um exagero retórico: é uma necessidade política. Quando a vitalidade deixa de ser presumida, precisa ser demonstrada. E quando precisa ser demonstrada, algo semelhante à espontaneidade militante começa a se erodir.
Não pude comparecer porque assuntos familiares me mantêm em Montevidéu, mas os relatos mais simpáticos insistem nos números, na atmosfera, na ocupação do espaço urbano, como se a escala logística por si só pudesse responder a questões de outra natureza. É evidente que houve uma forte presença e que Juan Lacaze estava repleta de ativistas de todo o país, a ponto de saturar uma cidade que, na melhor das hipóteses, tem uma população de treze mil habitantes. Mas reduzir o evento à sua dimensão quantitativa significa mudar o foco: a capacidade de mobilizar através de uma participação excepcional não equivale a uma densidade política sustentada. A política se desenrola, de forma mais sutil, no que acontece antes e depois do evento, na continuidade das relações, na persistência da organização, na produção diária de significado.
Juan Lacaze é uma cidade imersa em história industrial, na experiência da classe trabalhadora e numa história de lealdade à Frente Ampla que persiste mesmo após o colapso de suas principais fontes de emprego. Precisamente por essa razão, sua escolha como data comemorativa é ambivalente. Essa faca de dois gumes torna-se mais evidente quando se observa a mudança no foco discursivo. O aniversário, em vez de um momento para reflexão sobre a força política, torna-se um ato de defesa do governo. Grande parte da retórica se estrutura em torno de respostas às acusações de tibieza, listando as conquistas do primeiro ano de mandato e contrastando o presente com a “meia década perdida” da administração anterior. Internacionalismo, condenação do genocídio em Gaza, denúncia do imperialismo estadunidense, defesa de políticas redistributivas — tudo isso compõe um discurso consistente, ideologicamente reconhecível e eticamente defensável. Mas sua centralidade desloca a questão incômoda: o que esse aniversário revela sobre o estado da força política governante?
Quando a comemoração se torna primordialmente uma ferramenta de proteção governamental, uma espécie de muro discursivo erguido tanto para fora quanto para dentro, tão impenetrável que nem mesmo um drone consegue sobrevoá-lo, a política partidária é subsumida pela lógica da governança, e o aniversário perde seu potencial questionador. Não se trata de negar a necessidade de defender o próprio governo contra uma direita agressiva e depreciativa; trata-se de reconhecer o custo dessa defesa quando ela ocupa todo o espaço disponível. O aniversário deixa de ser uma oportunidade para refletir sobre a organização, o ativismo, o controle e a direção do próprio governo e sua relação com a sociedade, e se torna, em vez disso, uma extensão do discurso governamental por outros meios.
É aqui que a questão da juventude deixa de ser um detalhe marginal e se torna estrutural. Não porque os jovens “não queiram” participar, nem porque tenham sido capturados por uma suposta apatia geracional abstrata, mas porque os espaços oferecidos não os envolvem como sujeitos políticos do presente. A memória é necessária, mas não suficiente. A história só convoca quando se abre como uma promessa, não quando se fecha como uma herança. Um ato que olha mais para o passado do que para o conflito atual, que reafirma mais do que questiona, dificilmente pode funcionar como um limiar para a incorporação geracional.
Os jovens não se aproximam dos rituais para aplaudir as trajetórias alheias; eles o fazem quando encontram a linguagem para nomear suas próprias situações precárias, seus próprios medos, suas próprias expectativas. Quando isso não acontece, o distanciamento não é relacionado à idade, mas sim político. E esse distanciamento não se resolve com gestos simbólicos ou invocações de identidade, mas com a reabertura do conflito, com uma pedagogia política capaz de traduzir o presente em um projeto.
Há um tema recorrente em quase toda a cobertura jornalística, mas raramente é analisado: a resposta em chave defensiva. Não contra a direita — o que seria previsível, até necessário —, mas contra as críticas internas. A insistência de que “não existe governo morno”, a enumeração meticulosa de medidas, números, impostos e políticas sociais, não visa apenas desafiar as narrativas externas; busca, acima de tudo, impor ordem internamente. O ato, portanto, funciona como um espaço para recentralizar: limites são traçados, estabelecem-se os limiares do que pode ser dito e fica marcado quem “entende a direção” e quem ainda não a compreende totalmente. Esse movimento defensivo não se dirige apenas à direita, mas também — e talvez principalmente — às críticas internas, que são reformuladas como um mal-entendido da direção, em vez de um problema político a ser abordado.
Algo semelhante acontece com a unidade. Poucas palavras aparecem com tanta frequência em aniversários quanto essa. Unidade como conquista histórica, como virtude moral, como condição de sobrevivência diante de um mundo hostil. E, no entanto, quanto mais se proclama, mais evidente se torna que deixou de ser uma experiência imediata e se transformou em uma tarefa inacabada. A unidade vivida não precisa ser reiterada; a unidade invocada, sim. Não porque esteja rompida, mas porque não surge mais espontaneamente, porque exige um trabalho político diário que nem sempre encontra espaço ou tempo.
Neste ponto, o aniversário volta a assumir um papel excessivo. Espera-se que ele torne a unidade visível, que a encene, que a restaure simbolicamente. O problema não é a tentativa em si, mas sim a incapacidade de substituir aquilo que só se constrói com prática prolongada: o debate interno genuíno, a análise das divergências, a construção coletiva de significado. Quando o ritual toma o lugar do processo, a unidade torna-se um slogan em vez de uma experiência.
O contraste com outros fevereiros é quase inegável. Houve aniversários menores, mais caóticos, até mesmo mais conflituosos, em que a comemoração serviu não como um evento de encerramento, mas como de abertura. Não porque fossem mais “autênticos”, mas porque faziam parte de uma dinâmica política mais densa, mais contenciosa e menos controlada. A irregularidade histórica dos eventos da Frente Ampla — anos sem evento, anos com múltiplos eventos, anos com comemorações discretas — não é uma falha: reflete uma força que nunca teve um ritual fixo e único.
É por isso também que o tema da juventude reaparece repetidamente, mesmo quando não é explicitamente mencionado. Ele se manifesta não apenas como uma ausência física no evento, mas também como uma ausência discursiva. Onde estão as palavras que conectam o aniversário às precariedades atuais — a fragmentação do trabalho, as novas formas de exclusão e politização — e também às transformações na vida sexual e emocional e à diversidade de relações, entre tantas outras? Sem essas questões, o evento corre o risco de se tornar um espelho que sempre reflete a mesma imagem, pouco alterada pela passagem do tempo, envelhecida.
Nesse contexto, recorrer à história é inevitável e legítimo. Mas a história pode funcionar de duas maneiras: como uma reserva crítica ou como um álibi. Quando é invocada para levantar questões — o que fizemos? O que deixamos de fazer? O que ficou inacabado? — ela se torna uma força motriz. Quando é invocada para encerrar discussões — “é assim que somos”, “sempre fomos assim” — ela se torna um refúgio. Juan Lacaze, com toda a sua densidade operária e fidelidade histórica, oscila entre esses dois usos. E essa oscilação não é culpa da cidade, mas sim da forma como a história é inscrita na narrativa do evento.
Nada disso justifica interpretações catastróficas ou diagnósticos terminais. A Frente Ampla não está esgotada nem reduzida a uma mera formalidade simbólica. Ela possui um governo (ou governos), uma base, uma história e ainda alguma capacidade de mobilização. Precisamente por essa razão, a questão é mais complexa. Não se trata de medir a vitalidade pela presença em um evento específico, mas de examinar que tipo de energia política está sendo gerada, como ela circula, onde estagna e onde se renova.
O 55º aniversário não oferece respostas definitivas. Em vez disso, apresenta um campo visível de tensões: entre memória e presente, entre liturgia e ativismo, entre a defesa do governo e a reflexão sobre a força política, entre a unidade proclamada e a unidade arduamente conquistada. Examinar esse campo sem pressa em fechá-lo é talvez o gesto mais fiel a uma tradição que, quando verdadeiramente transformadora, nunca hesitou em falar abertamente sobre si mesma.
Naquele 5 de fevereiro, quando a data de fundação passou sem qualquer cerimônia ou declaração no site oficial, e o aniversário foi transferido para o sábado seguinte, meu desconforto pessoal não se manifestou na forma de um artigo ou de uma intervenção pública destinada a desafiar a agenda estabelecida. Assumiu a forma mais modesta — e mais reveladora — de uma mensagem a camaradas e contatos, escrita no calor do momento, mas não de improviso. Não dizia nada de novo. Repetia, quase palavra por palavra, o que vem reaparecendo há anos em diferentes registros e contextos: a crescente dificuldade de mobilização, a perda da densidade militante, o enfraquecimento da vida política cotidiana, a sensação de que o movimento se reúne cada vez mais para relembrar o que já foi, em vez de criar o que poderia ser.
Aquele post ainda não era sobre o evento em Juan Lacaze, porque o evento ainda não tinha acontecido. Era sobre o vazio que o precedeu, a ausência de um gesto político no próprio aniversário, a substituição do evento por uma promessa adiada. Não como uma crítica logística, mas como um sintoma dos tempos: quando uma força política deixa de perturbar o calendário, algo na sua ligação com o presente começa a afrouxar-se.
O que é notável é que algumas das respostas que essa mensagem suscitou — e que ressurgiram posteriormente, com tons diferentes, após o evento — não abordaram a mesma preocupação levantada. Quando questionadas sobre a capacidade de mobilização, as respostas basearam-se na identidade. Quando questionadas sobre a densidade da base ativista, a resposta foi histórica. Quando preocupadas com a falta de representatividade juvenil, as respostas foram territoriais: Juan Lacaze como um bastião operário, como uma cidade leal, como um emblema inquestionável. Nada disso é mentira. Mas nada disso responde à pergunta que estava sendo feita. Alguns chegaram a exigir que essa preocupação fosse levada do âmbito da conversa privada para a esfera pública, como nestes versos.
É aqui que entra em jogo uma importante reviravolta argumentativa. A crítica organizacional — como estamos mobilizando as pessoas? Com quem estamos interagindo? Que linguagem estamos usando? Como podemos manter a continuidade? — é deslocada para uma defesa simbólica: quem somos, de onde viemos, qual história nos sustenta. O problema não é que essa defesa seja ilegítima; o problema é que ela funciona como um substituto para uma resposta real. Como se o peso da história pudesse, por si só, resolver as dificuldades do presente.
Essa publicação não negou o valor de Juan Lacaze, nem ignorou o significado emocional do evento que se aproxima. O que ela fez — e continua fazendo — foi insistir em uma questão incômoda: se não estamos começando a exigir que os aniversários compensem o que o ativismo diário já não produz com a mesma intensidade. Se o evento não está começando a assumir uma função que ultrapassa em muito sua capacidade: demonstrar vitalidade, sanar lacunas, reafirmar a unidade, garantir a continuidade geracional.
A questão da organização é respondida com feitos épicos; a questão da juventude, com a memória; a questão da participação contínua, com uma logística excepcional.
Essa desconexão não é um erro isolado ou uma leitura equivocada passageira. Trata-se de um modo de operação que vem se consolidando. A crítica que não encontra seu próprio canal político é deslocada para o âmbito da identidade, onde é mais fácil absorvê-la sem ser transformada. Assim, a preocupação muda de forma, é reescrita, é debatida, mas nunca chega a produzir uma mudança real nas práticas. Quando uma questão persiste, não é porque está mal formulada, mas sim porque ainda não encontrou o espaço político onde possa ser abordada sem ser neutralizada.
Talvez o problema não seja que a Frente Ampla não se mobilize mais como antes, mas sim que se mobilize de uma maneira diferente, para propósitos diferentes. O aniversário tornou-se um espaço de confirmação em vez de questionamento, um momento para reafirmar a identidade em vez de gerar conflito. Isso não se deve à falta de vontade política, nem à perda de convicção ideológica, mas sim ao fato de o partido se encontrar preso em um paradoxo difícil: quanto mais governa , mais difícil se torna se enxergar como um movimento; quanto mais administra, mais tende a ritualizar a memória para manter uma continuidade que já não surge espontaneamente.
O ato não é prova de declínio, mas sim um reflexo de uma encruzilhada. Mostra que ainda existem alicerces, história, afeto e lealdade. Mas também mostra que essas reservas simbólicas estão sendo convocadas para cumprir tarefas antes realizadas por outros meios: ativismo cotidiano, debate constante, produção política de base e conflito interno como força motriz, e não como ameaça. Quando esses meios enfraquecem, o ritual se intensifica, como se tentasse compensar o que já não circula.
Nada disso se resolve com mais ações ou ações melhores. Nem com o recuo para um passado idealizado ou com um otimismo voluntarista que confunde gestão com hegemonia. A questão que o aniversário deixa em aberto — e que este texto não pretende encerrar — é diferente, mais exigente e menos confortável: como recriar o próprio tempo político dentro de uma força que aprendeu, na prática, a gerir o tempo institucional. Como reabrir espaços onde a crítica não seja interpretada como deslealdade, onde a unidade não seja apenas um slogan, onde os jovens não sejam convidados a aplaudir a história alheia, mas a contestar o seu significado.
A Frente Ampla (FA) nasceu como uma anomalia, como uma ruptura com a ordem estabelecida, como um compromisso com uma unidade que não negava o conflito, mas o organizava. Seu desafio não é preservar essa imagem, mas reativar essa lógica. Aniversários podem ajudar, mas não podem fazer isso sozinhos. Não podem substituir o que se constrói apenas por meio de prática prolongada, por meio de conversas desconfortáveis, por meio do trabalho político que drones não conseguem capturar.
Talvez o maior risco não seja a perda do engajamento oportuno, mas sim a normalização da política ocorrendo apenas em datas específicas, em ambientes pré-arranjados e dentro de prazos administráveis. Quando isso acontece, a política começa a se adaptar ao calendário, em vez de subvertê-lo. E aí, sem alarde ou rupturas visíveis, algo essencial começa a mudar.
O 55º aniversário, portanto, deixa uma questão no ar. Não sobre a força da Frente Ampla — que existe — nem sobre a solidez de seus princípios — que permanecem válidos —, mas sobre sua capacidade de ser um espaço para produzir o presente: para desestabilizar, para convocar sem pedir permissão, para gerar conflito onde hoje há administração, para abrir o futuro onde hoje há memória cuidadosamente ordenada.
Isto não é uma acusação nem uma previsão. É um aviso suave, quase indireto, do tipo que costuma ser o mais difícil de ouvir: a história da Frente Ampla não se esgota nos seus aniversários. O pior seria que ela fosse simplesmente lembrada, em vez de continuar a ser vivida.
*Emilio Cafassi é professor sênior de sociologia na Universidade de Buenos Aires. Autor, entre outros livros, de Olla a presion: Cacerolazos, piquetes y asambleas sobre fuego argentino (Libros del Rojas). [https://amzn.to/442vaxw]

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